A Bussola De Ouro - Philip Pullman

A Bussola De Ouro - Philip Pullman

(Parte 1 de 7)

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

Sobre nós:

O Le Livros e seus parceiros, disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Info ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.

© 1995, Philip Pullman

Todos os direitos reservados, incluindo o direito de qualquer tipo de reprodução completa ou parcial, à EDITORA OBJETIVA LTDA. Rua Cosme Velho, 103 Rio de Janeiro — RJ — CEP: 22241-090 Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825 w.objetiva.com.br

Título original Northern Lights

Capa ô de casa sobre ilustração de Dominic Harman/Arena

Copidesque Ana Kronemberger

Revisão Rita Godoy Izabel Cristina Aleixo Umberto Figueiredo Pinto Raquel Corrêa

Conversão para e-book Abreu’s System Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ P983b Pullman, Philip, A bússola de ouro [recurso eletrônico] / Philip Pullman ; tradução Eliana Sabino. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2011. recurso digital (Fronteiras do universo ; 1)

Tradução de: Northern lights Formato: ePub Requisitos do sistema: Modo de acesso: 259p. ISBN 978-85-390-0197-2 (recurso eletrônico)

1. Romance inglês. 2. Livros eletrônicos. I. Sabino, Eliana Valadares. I. Título. II. Série.

Sumário

Capa Folha de Rosto Créditos Epígrafe Primeira Parte 1 A GARRAFA DE TOKAY 2 A IDEIA DO NORTE 3 A JORDAN DE LYRA 4 O ALETIÔMETRO 5 A FESTA 6 AS TARRAFAS 7 JOHN FAA 8 FRUSTRAÇÃO 9 OS ESPIÕES

Segunda Parte 10 O CÔNSUL E O URSO 1 A ARMADURA 12 O MENINO PERDIDO 13 ESGRIMA 14 AS LUZES DE BOLVANGAR 15 OS DIMONS NAS CAIXAS DE VIDRO 16 A GUILHOTINA PRATEADA 17 AS FEITICEIRAS

Terceira Parte 18 GELO E NEBLINA 19 O CATIVEIRO 20 À OUTRANCE 21 AS BOAS-VINDAS DE LORDE ASRIEL 2 A TRAIÇÃO 23 A PONTE PARA AS ESTRELAS

Para dentro desse abismo agreste, Ventre da natureza e talvez tumba, Nem de mar, nem praia, ar ou fogo Mas de todos esses misturados em suas causas prenhes

Confusamente, e em constante luta A não ser que o poderoso criador lhes ordene

Seus materiais obscuros para criar mais mundos,

Para dentro desse abismo agreste o demônio cauteloso

Postou-se à beira do inferno e olhou por algum tempo, Refletindo sobre a sua viagem...

John Milton: “Paraíso perdido”, Livro I

Primeira Parte OXFORD

LYRA e seu dimon atravessaram o Salão, já bastante escuro, tomando cuidado para seguirem junto à parede, fora de vista da Cozinha. As três mesas grandes ao longo do Salão já estavam arrumadas e os bancos compridos estavam afastados, esperando os comensais. No alto, ao longo das paredes, os retratos de antigos Reitores estavam na penumbra. Lyra chegou ao tablado e se voltou para olhar a porta aberta da Cozinha; não vendo ninguém, subiu para junto da mesa principal.

Ali os talheres eram de ouro, não de prata, e os 14 lugares não eram num banco de carvalho, mas em cadeiras de mogno com almofadas de veludo.

Lyra parou junto à cadeira do Reitor e deu um peteleco de leve na taça maior; o som percorreu todo o Salão.

— Você está de brincadeira. Comporte-se! — cochichou o dimon. O nome do dimon era Pantalaimon, e, no momento, ele tinha a forma de uma mariposa marrom, para não se destacar na penumbra do Salão.

— Lá na cozinha estão fazendo muito barulho — Lyra cochichou de volta. — E o

Administrador só aparece depois do primeiro sino. Deixe de ser ranzinza.

Em todo caso, ela colocou a palma da mão sobre o cristal que vibrava; Pantalaimon esvoaçou à frente dela, atravessando o tablado, e entrou pela porta entreaberta da Sala Privativa, no outro extremo. Logo depois tornou a aparecer.

— Está vazia — sussurrou. — Mas temos que ser rápidos. Quase agachada, escondida pela mesa, Lyra foi até a porta e entrou na Sala Privativa, onde tornou a ficar de pé e olhou em volta. A única luz vinha da lareira; a pilha de lenha em brasa desabou enquanto ela estava olhando, fazendo subir uma coluna de faíscas pela chaminé. Ela havia passado a maior parte da vida na Faculdade, mas nunca tinha visto a Sala Privativa; só os Catedráticos e seus convidados podiam entrar ali, e nunca uma mulher. Nem as criadas entravam para limpar; esse trabalho só quem fazia era o Mordomo.

Pantalaimon acomodou-se no ombro dela. — Está satisfeita agora? Podemos ir? — cochichou.

— Não seja medroso! Ainda quero dar uma espiada! Era uma sala ampla, com uma mesa oval de jacarandá envernizada e sobre ela várias garrafas e taças de cristal, além de uma tabaqueira de prata com um pequeno porta-cachimbo.

Num aparador vizinho, havia uma panelinha e uma cesta com botões de papoula.

— Eles vivem bem, hein, Pan? — ela comentou baixinho. Foi sentar-se numa das poltronas de couro verde, tão funda que ela ficou quase deitada, mas se endireitou e encolheu as pernas. Depois se pôs a examinar os retratos nas paredes: mais Catedráticos, com certeza; barbados e melancólicos, eles lançavam olhares de solene desaprovação de dentro de suas molduras.

— O que você acha que eles conversam aqui? — a garota perguntou, ou começou a perguntar, pois antes de terminar a frase ela ouviu vozes do lado de fora.

— Para trás da poltrona! Depressa! — sussurrou Pantalaimon. Como um raio, Lyra pulou da poltrona e se escondeu atrás dela. Não era o melhor esconderijo: ela havia escolhido logo a poltrona que ficava bem no meio da sala, e se não ficasse quietinha...

A porta se abriu e a iluminação da sala mudou: um dos recém-chegados trazia uma lamparina, que colocou sobre o aparador. Lyra via as pernas dele, as calças verde-escuras e os sapatos pretos bem engraxados: um criado.

Então uma voz grossa perguntou: — Lorde Asriel já chegou? Era o Reitor. Lyra prendeu a respiração ao ver o dimon do criado (um cão, como os dimons de todos os criados) entrar trotando e se sentar em silêncio aos pés dele, e então os pés do Reitor ficaram visíveis também, metidos nos sapatos velhos que ele sempre usava. — Não, Reitor — disse o Mordomo. — Também não temos notícia das Docas Aéreas.

— Imagino que ele vá chegar com fome. Leve-o direto para o Salão, sim?

— Sim senhor, Reitor.

— E já separou um pouco do Tokay especial?

— Já, sim, Reitor. O 1898, como o senhor mandou. Lorde Asriel aprecia muito essa safra, se não me falha a memória. — Ótimo. Agora vá, por favor.

— Vai precisar da lamparina, Reitor?

— Sim, pode deixar aí. Durante o jantar, venha ajeitar o pavio, está bem? O Mordomo fez uma reverência leve e se virou para sair, e seu dimon o seguiu obedientemente. De seu precário esconderijo, Lyra ficou observando enquanto o Reitor ia até um grande armário de carvalho num canto da sala, tirava a sua beca de um cabide e a vestia com dificuldade — o Reitor tinha sido um homem muito forte, mas agora estava com bem mais de 70 anos e seus movimentos eram rígidos e lentos. Seu dimon era uma fêmea de corvo, e assim que ele terminou de vestir a túnica o dimon saltou de cima do armário e foi se acomodar no seu lugar de costume: o ombro direito dele.

Lyra sentia a aflição de Pantalaimon, embora ele não emitisse um único som. Ela própria estava achando delicioso aquele friozinho na barriga...

Lorde Asriel, o visitante mencionado pelo Reitor, era tio dela, um homem que ela admirava e temia muito. Diziam que ele estava envolvido em altas políticas, explorações secretas, guerras distantes, e ela nunca sabia quando ele ia aparecer. Ele era muito bravo; se a apanhasse ali, ela seria severamente castigada, mas conseguiria aguentar. Mas o que ela viu em seguida mudou completamente as coisas.

O Reitor tirou do bolso um papel dobrado e o colocou sobre a mesa. Tirou a rolha de uma garrafa que continha um vinho dourado, desdobrou o papel e deixou cair lá dentro um jorro fino de pó branco; depois amassou bem o papel e o jogou no fogo da lareira. Tirou um lápis do bolso e mexeu o vinho até dissolver todo o pó, e depois recolocou a rolha.

Seu dimon soltou um grasnido curto; o Reitor respondeu com um murmúrio, olhou em volta com os olhos semicerrados e severos e saiu pela porta por onde tinha entrado.

Lyra cochichou: — Viu isso, Pan?

— Claro que vi! Agora saia depressa, antes que o Administrador chegue! Nem terminou a frase e eles ouviram um sino tocando uma badalada na outra ponta do

Salão.

— É o sino do Administrador! — Lyra exclamou. — Pensei que a gente ia ter mais tempo...

Pantalaimon esvoaçou até a porta do Salão e voltou rapidamente. — O Administrador já está lá — avisou. — E você não vai poder sair pela outra porta... A outra porta, aquela por onde o Reitor tinha entrado e saído, dava para o movimentado corredor entre a Biblioteca e a Sala de Estar dos Catedráticos. Àquela hora do dia, o corredor estaria cheio de homens indo vestir suas becas para o jantar, ou correndo para deixar papéis ou pastas na Sala de Estar antes de ir para o Salão; sabendo disso, Lyra tinha planejado sair por onde entrara, contando com mais alguns minutos antes do sino do Administrador.

Se ela não tivesse visto o Reitor colocar aquele pó no vinho, poderia até ter desafiado a cólera do Administrador ou tentado passar despercebida no corredor movimentado. Mas estava confusa, e isso fez com que hesitasse.

Então ouviu passos pesados sobre o tablado: era o Administrador vindo verificar se a

Sala Privativa estava pronta, com as papoulas e o vinho que os Catedráticos beberiam depois do jantar. Lyra correu para o armário de carvalho, abriu a porta e se escondeu lá dentro, puxando a porta bem no momento em que o Administrador entrou. Ela não se preocupou com Pantalaimon: a sala era toda de cores escuras, e ele podia muito bem entrar debaixo de uma poltrona.

Ela escutou a respiração forte do Administrador e, pela fresta da porta, viu quando ele ajeitou os cachimbos no seu lugar junto à tabaqueira, lançando um olhar de relance para as garrafas de bebida e as taças. Depois ajeitou os cabelos sobre as orelhas com ambas as mãos e disse algo ao seu dimon. O Administrador era um criado, então seu dimon era uma cadela, mas como era um criado de alta categoria, seu cão também era superior — um setter vermelho. O dimon parecia suspeitar de alguma coisa e ficou olhando em volta como se sentisse uma presença intrusa, mas não foi até o armário, para grande alívio de Lyra. Ela temia muito o Administrador, que já havia batido nela duas vezes.

Lyra ouviu um sussurro bem fraquinho; obviamente Pantalaimon tinha se enfiado no armário junto com ela.

— Agora vamos ter que ficar aqui. Por que você nunca escuta o que eu digo? Lyra só respondeu depois que o Administrador saiu. Cabia a ele supervisionar os que serviam a mesa principal; ela ouviu os Catedráticos entrando no Salão, o murmúrio de vozes, o arrastar de pés.

— Ainda bem que não escutei — ela cochichou em resposta. — Senão não teríamos visto o Reitor colocar veneno no vinho. Pan, era o Tokay que ele tinha pedido ao Mordomo! Vão assassinar Lorde Asriel! — Você não sabe se aquilo é veneno.

— Claro que é! Você não se lembra? Ele esperou o Mordomo sair da sala; se fosse inocente, não se importaria que o Mordomo visse. E eu sei que está acontecendo alguma coisa. Alguma coisa política. Os criados só falam sobre isso. Pan, nós podíamos impedir um assassinato!

— Nunca ouvi tamanha bobagem — cortou ele. — Como você acha que vai conseguir ficar quatro horas imóvel neste armário apertado? Deixe que eu vá vigiar o corredor; quando estiver vazio, eu aviso.

Ele voou do ombro dela, e ela viu a sombra minúscula aparecer na fresta de luz. — Não adianta, Pan, vou ficar aqui — declarou. — Há outra beca ou sei lá o quê aqui dentro; vou colocar isto no chão do armário e me acomodar. Tenho que ver o que eles fazem!

Até então ela estava agachada; ficou em pé com cuidado, tateando à procura dos cabides para não fazer barulho, e descobriu que o armário era maior do que pensara. Havia várias becas acadêmicas e capuzes, alguns com a borda de pele, a maioria com forro de seda.

honorários de outros lugares, talvez eles lhe deem becas que ele guarda aqui para usarPan,

— Será que são todos do Reitor? — ela sussurrou. — Quando ele recebe diplomas você acha mesmo que aquilo no vinho não é veneno?

— Não; assim como você, eu acho que é veneno. E acho que isso não é da nossa conta.

E acho que interferir seria a mais idiota de todas as coisas idiotas que você já fez na sua vida. Não temos nada a ver com isso.

— Não seja idiota! — Lyra exclamou. — Não posso ficar aqui sentada vendo ele ser envenenado! — Então vamos para outro lugar.

— Você é um covarde, Pan.

— Claro que sou. Posso perguntar o que você pretende fazer? Vai dar um salto e arrancar a taça dos dedos trêmulos dele? Qual é o seu plano?

— Não tenho plano nenhum, e você sabe muito bem — ela respondeu em voz baixa. —

Mas agora que vi o que o Reitor fez, não tenho escolha. Pensei que você conhecesse a existência da consciência. Sabendo o que vai acontecer, como é que eu posso ir me sentar na Biblioteca ou em qualquer outro lugar e ficar de braços cruzados? Isso eu não pretendo fazer, juro!

— Era isso que você queria o tempo todo — ele disse depois de um momento. —

Queria se esconder aqui e assistir a tudo. Por que eu não percebi antes?

— Está certo, eu quero mesmo — ela confessou. — Todo mundo sabe que eles vêm fazer uma coisa secreta. Têm um ritual, ou alguma coisa assim. E eu só queria saber o que é.

— Não é da nossa conta! Se eles querem ter seus segredinhos, você devia apenas se sentir superior e deixar pra lá. Se esconder, espiar, tudo isso é coisa de criança boba.

— Sabia que você ia dizer isso. Agora pare de resmungar. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, Lyra desconfortável no chão duro do armário e Pantalaimon pousado num cabide, com ar contrariado, mexendo suas antenas temporárias. Lyra sentia vários pensamentos brigando dentro da sua cabeça e queria muito poder se abrir com o seu dimon, mas era também orgulhosa e achou melhor tentar clarear os pensamentos sem a ajuda dele.

O que predominava era a aflição, e não por si própria — de tanto passar por situações difíceis, já estava acostumada. Dessa vez, estava aflita por causa de Lorde Asriel e pelo que aquilo tudo queria dizer. Ele não costumava visitar a Faculdade, e o fato de estarem numa época de alta tensão política significava que ele não estava vindo simplesmente para comer, beber e fumar com alguns velhos amigos. Ela sabia que tanto Lorde Asriel quanto o Reitor eram membros do Conselho do Gabinete, que era o órgão especial de assessoria ao Primeiroministro, de modo que a visita podia ter alguma coisa a ver com isso; mas as reuniões do Conselho do Gabinete eram feitas no Palácio, não na Sala Privativa da Faculdade Jordan.

Além disso, havia um boato que estava provocando cochichos entre os criados da

(Parte 1 de 7)

Comentários