Comida em Parati: O papel como refúgio (para a luta)

Comida em Parati: O papel como refúgio (para a luta)

Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Ana Laura Rodrigues Giovanelli – 9371630

Universidade de São Paulo Introdução aos Estudos Literários

Ana Laura Rodrigues Giovanelli

“Comida em Parati”: O papel como refúgio (para a luta)

São Paulo – SP 2015

“Comida em Parati”: O papel como refúgio (para a luta)

Na verdade, pensou lá longe da mesa onde o carneiro fora sacrificado, na verdade, o medo era de criar a pessoa da autora, pois sabia que sobre esta, diferente do que acontecia com seus personagens, não teria qualquer controle.

Escreveu um conto em terceira pessoa.1

E viveu uma vida em terceira pessoa?

A escrita como refúgio versus o devir-refugiado

Deleuze teria escrito em certa ocasião que “Escrever é um caso de devir”2, de forma a tratar o ato de escrever como um ato criador de realidades e sensações, que vem a superar o vivível e o vivido. Pode-se, entretanto, ver a escrita como receptáculo colaborativo do autor.

encarcerar tais sentimentos e ideias em palavras escritas

Escreve-se literatura na tentativa de canalizar sentimentos e ideias que, como átomos, estão em estado de agitação e colisão. Busca-se uma alternativa para a inquietação mental:

Por vezes, dedica-se a tais palavras-prisioneiras um sentimento de vingança, um desejo de expô-las ao público e junto a eles torturá-las e oxigenar sua pele recém cortada. Mutilar o conto transforma-se em mutilação auto-infligida, que por subsequência se transforma em alívio para o autor.

Por outras vezes, e este seria o caso de B., mantém-se com o conto escrito uma estrita relação de culpa e dependência. Um desejo de embalar-se com este dentro de uma camada gordurosa e compacta de salsicha, de modo a proteger-se da interpretação juíza daqueles que ouvem ou lêem. Em especial, daqueles que ouvem, pois a voz carregaria consigo “chaves

1 BRACHER, B. “Comida em Parati”. In: Novos Estudos. São Paulo: CEBRAP, São Paulo, n. 78, julho 2007, p. 252.

2 DELEUZE, Gilles. “A literatura e a vida”. In: Crítica e Clínica. Trad. P. P. Pelbart. SP: Ed. 34, 2008, p. 1.

falsas. A chave da vida do autor, com cor, idade, movimento, peso, hálito”.3 Com o público esperando desta voz e chaves revelações sobre verdades a respeito da autora, correr o risco de ser interpretado erroneamente é tão assustador quanto correr o risco de ser interpretado corretamente.

O medo do julgamento de valor dos ouvintes pressupõe o sentimento, por parte do escritor, de que a leitura pública implicaria sofrer um silencioso e violento ataque de olhares e balbucios. “Lagostas são esquartejadas vivas na frente do cliente, provavelmente mais pela cena do que por garantia de frescor.”4 A voz trêmula que carrega chaves falsas não garante o frescor do conto no momento da leitura; sua veracidade é sequestrada pela tensão das cordas vocais. E então há o temor de que o cliente anseie pela cena da queda e não da ascensão.

Mas por que sentir culpa pelo que se escreve? Por que desejar refugiar-se com suas próprias palavras ao invés de libertá-las? Por que sentir-se tão vulnerável à opinião alheia?

O gênero versus o refúgio literário

Se a irmã de Shakespeare não tivesse morrido prematuramente e fosse dotada do mesmo talento que o poeta, ela precisaria apenas de um quarto só seu e certa quantia de dinheiro para que desenvolvesse suas habilidades com a mesma potencialidade. Ainda assim, os frutos de seu trabalho seriam subjugados pelos homens detentores do conhecimento e cultura.

Decorridos cerca de 450 anos de história e mais cerca de 160 anos de luta pelos direitos das mulheres, B. se encontra sentada a uma mesa de jantar ao lado de um militante angolano. B. lhe confia suas inseguranças quanto à leitura de seu texto e lhe conta sua pretensão para a palestra, obtendo como resposta um “olhar entre severo e talvez irônico” e um questionamento que remetia ao passado de seu colega em detrimento do seu próprio, estes acompanhados da poda de seus planos em prol do ego do homem com quem conversava.

3 BRACHER, B. “Comida em Parati”. p. 250. 4 ibidem p. 249 e 250.

Woolf trata, em Um teto todo seu, dessa relação de subjugação do gênero feminino pelo masculino de forma a manter os privilégios deste último nas relações de poder. Como citado anteriorimente no conto de Bracher, o homem angolano parece muito receptivo quanto a discutir propostas de leitura com B. até esta tocar no assunto fome – de maneira metafórica. Teria ele se amedrontado com a ideia de estar igualado à uma mulher?

É possível que, quando o professor insistiu de forma um pouco enfática na inferioridade das mulheres, ele estivesse preocupado não com a inferioridade delas, mas com sua própria superioridade. Era isso que ele estava protegendo de maneira um tanto destemperada e com tanta ênfase, porque era para ele uma joia do mais raro valor.5

Inferiorizada e tratada com ironia, B. abaixa sua cabeça e se entrega como um cordeiro ao sacrifício (não deseconhecido), e já retornada da morte põe-se a pensar de que maneira pode discursar sem que ofenda seus ouvintes-leões e possa, portanto, proteger a si e suas palavras.

Lhe intimidam os julgamentos inferidos com base em seu gênero. Acreditava no poder de seu texto, mas sabia que outros não acreditariam. Haroldo de Campos , entretanto, possuía uma voz cujo brilho restaria nos livros cada vez que os relesse. Não acreditava no poder de sua voz, assim como sabia que outros não acreditariam; “a voz tinha apenas medo”.6

B de Bolaño também teme inferências sobre a leitura de seus escritos, assim como a revelação de suas verdadeiras intenções escondidas em seus textos; mas entre homens, a guerra se mostra outra. Teme que A compreenda suas ofensas veladas: “Naquela noite B. não consegue dormir. Recrimina-se por tudo o que fez.”7, sente seu ego e orgulho serem feridos sem conseguirem recobrir seu interior exposto: “Que bom escritor é A., pensa B. Considera a própria obra, maculada pela sátira e pela raiva, e a compara desfavoravelmente com a obra de A.”8, mas nunca se sente subjugado por um alguém superior.

5 WOOLF, V. Um teto todo seu. Trad. Bia Nunes de Sousa e Glauco Mattoso. SP: Tordesilhas, 2014, p. 53. 6 BRACHER, B. “Comida em Parati”. p. 250.

7 BOLAÑO, R. “Uma aventura literária”. In: Chamadas telefônicas. Trad. SP: Cia das Letras, 2012, p. 63. 8 ibidem p. 64.

A segunda história: B. versus Bracher

explicitado pela teórica, “embora a sua presença, intrepondo-se entre o leitor e a história,

Chiappini, caso viesse a analiser o conto “Comida em Parati”, descreveria a narração de Bracher como onisciente neutra (uma neutralidade possivelmente pressuposta à feminilidade?) ao se tratar apenas do que relata sobre B. O uso da terceira pessoa também é seja sempre muito clara”.9 Sua presença se faz clara assim como se nota que alguém lê em voz alta algum texto.

Se por um lado temos a presença narradora explicitamente presente, apesar de neutra; em contrapartida, encontramos uma segunda história escondida nas entrelinhas da história de B. Um enigma cifrado dentro de um relato, construído a partir de alusões.10

Bracher relata a história de B., que foi convidada a ler um de seus textos em público e, em dado momento, ao tentar desvencilhar-se da necessidade de ler algo de autoria própria lembra-se de um escritor sul-africano que, chamado para dar uma palestra, lê a história de uma escritora australiana convidada a dar uma palestra. Então B. escreve um conto em terceira pessoa.

Aparenta ser um ciclo um tanto quanto confuso. Então, ao retomar-se a leitura do início: uma escritora escreve em terceira pessoa e tom de leitura sobre uma escritora que, convidada a ler ao público, escreve um conto em terceira pessoa. Uma escritora que escreve sobre uma escritora que escreve. Beatriz Bracher escreve sobre Beatriz Bracher escrevendo sobre Beatriz Bracher.

A segunda história escondida mostra-se biográfica. Bracher é convidada a ler um de seus textos à um público e, apesar de sentir-se segura quanto a seu conteúdo, receia os julgamentos de valor a serem inflingidos por seus ouvintes. Em um jantar, conversa com um dos presentes sobre sua situação e neste momento sofre um primeiro julgamento de valor

9 LEITE, L. Chiappini. “A tipologia de Norman Friedman”. O foco narrativo. SP: Ática, 2002, p. 32.

10 PIGLIA, R. “Teses sobre o conto”. In: Formas breves. Trad. José Marcos M. De Macedo. SP: Cia das Letras, 2004, p. 90-92.

sobre sua palestra. Recolhe-se em seus pensamento e lembra-se de Coetzee, que lhe inspira a escrever sobre si, mas ao invés de criar uma persona da forma como provavelmente fez Coetzee com Costello, prefere esconder seu nome junto da real história.

B. da primeira história (com exceção do último parágrafo), representa o cordeiro abatido, sempre se entregando em sacrifício. Já Bracher da segunda história representa o cordeiro que se opõe aos leões e brinca com sua interpretação. B. representa o processo da ascensão, ao se libertar das amarras dos julgamentos e pré-julgamentos; Bracher representa a plenitude desta libertação. Se B. escreveu um conto em terceira pessoa de modo a se desavencilhar; então, em sua nova realidade de independência e autonomia, Bracher viveu uma vida em primeira pessoa.

Referências bibliográficas

BRACHER, B. “Comida em Parati”. In: Novos Estudos. São Paulo: CEBRAP, São Paulo, n. 78, julho de 2007, p. 249-252.

DELEUZE, Gilles. “A literatura e a vida”. In: Crítica e Clínica. Trad. P. P. Pelbart. SP: Ed. 34, 2008, p. 1.

WOOLF, V. Um teto todo seu. Trad. Bia Nunes de Sousa e Glauco Mattoso. SP: Tordesilhas, 2014, p. 53.

BOLAÑO, R. “Uma aventura literária”. In: Chamadas telefônicas. Trad. SP: Cia das Letras, 2012, p. 63.

LEITE, L. Chiappini. “A tipologia de Norman Friedman”. O foco narrativo. SP: Ática, 2002, p. 32.

PIGLIA, R. “Teses sobre o conto”. In: Formas breves. Trad. José Marcos M. De Macedo. SP: Cia das Letras, 2004, p. 90-92.

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