A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho

A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho

Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Ana Laura Rodrigues Giovanelli - 9371630

Universidade de São Paulo Introdução aos Estudos Literários

Ana Laura Rodrigues Giovanelli

A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho: A poesia como estopim para a ação

São Paulo – SP 2015

A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho: A poesia como estopim para a ação

Escute só: isto não é um poema (?).

E o poema é um organismo que se funda sobre a percepção de limites e terminações, que definem sem jamais coincidir completamente e quase em oposta divergência. [...] Podemos contar as sílabas e os acentos, verificar as sinalefas e as cesuras, classificar anomalias e regularidades: mas o verso é, em qualquer caso, uma unidade que encontra o seu principium individuationis somente no fim, que se define só no ponto em que finda. [...] E o poema é como o catéchon da epístola de Paulo aos Tessalonicenses (I, 2, 7-8): algo que freia e retarda o advento do Messias, portanto daquele que, cumprindo o tempo da poesia e unificando os dois éones, destruiria a máquina poética precipitando-a no silêncio. Mas qual seria o fim dessa conspiração teológica sobre a linguagem [poética]? (AGAMBEN, 2002, p. 114, 118)

Como presumir o poeta como um “salvador da pátria”? Como presumir seus versos como heroicos? De que modo poderia se esperar de uma poesia a conquista da vitória sobre as batalhas cotidianas? “Não vai melhorar / isto é um poema [...]” (CAMPILHO, 2014, p. 10). De que modo criar expectativas tais se até mesmo para adicionar determinado poema ou poeta ao hall daqueles que lhes abriram os olhos é preciso lê-los de forma que seus olhos se abram?

O Príncipe no Roseiral de Matilde Campilho pode ser lido como um pedido de socorro em meio a uma supressão de tantos outros pedidos de socorro, que se liga intimamente a uma segunda leitura: a explicação da poesia em seu papel daquela que engatilha o leitor a agir.

Quando se fala de apreender a verdade, pensa-se nos livros. Mas os livros são feitos de palavras. As palavras, é claro, têm um valor. O valor das palavras reside no sentido que ocultam. Ora, esse sentido não é senão um esforço para alcançar algo que não pode ser alcançado realmente pelas palavras. (PAZ, 1972, p.128)

Atendo-se então, em um primeiro momento, à leitura daqueles que seriam os pedidos de socorro que sufocam a poeta. Pedidos que vêm dos que leem sua poesia. Pedidos de qualquer leitor de poesia. Toca-se e segura-se um livro de poemas desejando “salve-me; ajude-me; guie-me pelo caminho”. Procura-se por poemas que possam lhe esclarecer problemas assim como se compram com afinco livros de autoajuda.

“Quando percebemos um objeto qualquer, este se nos apresenta como uma pluralidade de qualidades, sensações e significados. Essa pluralidade se unifica instantaneamente no momento da percepção.” (idem, 1972, p. 131). Essa percepção gera a visão do poema como solução transcendental. Crença de que o mesmo ultrapassa os limites físicos de espaço e tempo para pousar nas mãos do leitor. “Era isto que buscava, era isto que procurava. A lacuna está preenchida.”. E surge então o decoro do mantra transcendental e de suas estrofes; as novas eleitas palavras de ordem e resolução.

Derrida em Che cos’è la poesia? (2001, p. 113-114) trata da aventura, ao se mergulhar em uma nova leitura poética, de arriscar-se na língua do outro. Esta língua alheia pode ser vista não só como outro idioma, mas também como uma maneira de recortar e recontar a sua visão de mundo. Mas é justamente de riscos tomados e bem-sucedidos – do ponto de vista daquele que lê – que nasce o desejo do decoro posteriormente discutido pelo autor e que retoma o conceito levantado por Paz, acima apresentado, de unificação da pluralidade no momento da percepção.

[...] Uma história de “coração”, poeticamente envolta no idioma “aprender de cor” [...] O poético, diga-se seria o que você deseja aprender, porém do outro, graças ao outro e sob ditado, de cor: imparare a memoria. Assim surge em você o sonho de decorar. De deixar-se atravessar o coração pelo ditado. (DERRIDA, 2001, p. 113- 114).

Campilho vem com a proposta de erradicar a concepção errônea do que seria essa espécie de poesia-oráculo. Não existe a possibilidade de libertação ao se jogar o fardo de suas tormentas nas costas do poeta. Há a falsa ideia de que se faria valer de um “profundo conhecedor da humanidade” para triunfar sobre o cotidiano, e caso o autor falhe em suprir as expectativas, a culpa lhe é automaticamente atribuída. “Isto não me ajudou de nada. Este poeta não sabe o que diz.”. Nesse sentido, dialogando junto de Campilho, encontra-se (um desabafo de) Leminski:

eu queria tanto ser um poeta maldito a massa sofrendo enquanto eu profundo medito eu queria tanto ser um poeta social rosto queimado pelo hálito das multidões em vez olha eu aqui pondo sal nesta sopa rala que mal vai dar pra dois

(idem, 2013, p. 90)

(Pode-se conceber o termo sopa como uma alegoria ao termo poesia).

Com o que se depara, então, no poema aqui analisado, sobre a competência das palavras versadas? “Escute lá / isto é um poema [...] / Não diz nada [...] / Não vai melhorar [...]” (ibidem, p. 09-10). Seria este um grito em meio ao silêncio do papel? “Ajude-me você, caro interlocutor. Liberte-me das amarras da pressão de ser uma conselheira infalível. Depende apenas de você.”. A resposta veja só, não está nas mãos do autor; a resposta encontra-se dentro do próprio leitor; a poesia intervém entre os dois e incita o caminho a se percorrer, culminando na segunda argumentação de Campilho.

inumeráveis e mais anônimos que as cores de uma floresta outonal

O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais Crê, no entanto, que essas matizes, em todas as suas fusões e conversões, são representáveis com precisão por um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que de dentro de um corretor da bolsa possam realmente sair ruídos capazes de significar todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. (WATTS, 1904, apud BORGES, 1952, p. 126).

Se o caminho que o leitor busca já se encontra dentro de si e a poesia vem apenas para apresentar caminho tal – e talvez apresentar certas ferramentas que tornem o percurso mais fácil -, de que forma se dá a relação entre a poesia instigadora versus o leitor instigado?

Definir as diferentes recepções dadas a determinado poema que se lê apenas como formas de interpretação de texto traria consigo uma descrição de certo modo simples e empobrecida. É possível ir um pouco mais além.

“[...] não vai alinhar conceitos / do tipo liberdade igualdade e fé / [...] isso é um poema” (CAMPILHO, 2014, p. 10). Tais conceitos já existem, eles vêm de uma bagagem empírica construída ao longo de uma vida – e que não se resumem apenas a questões literárias. Conceitos estes que podem ser afagados ou chocados frente a uma nova poesia. E conceitos estes que só vão ser mudados, complementados ou realinhados caso seja da vontade do leitor; uma mobilização inconsciente que reage sensivelmente ao menor toque do verso que lhe diz respeito.

É essa inconsciência individual que vai ditar o significado do poema, assim como o percurso a se seguir a partir da leitura do mesmo. “O poema não explica nem representa: apresenta.”, mas só se apresenta aquilo que se deseja ver; e só se compreende aquilo que inconscientemente se sente necessário saber.

Leem-se poesias que falam sobre amor, sobre tristeza, sobre fatos corriqueiros, sobre realidades fantásticas, sobre metapoesia (tal qual o fez a poeta portuguesa) e sobre o que mais se puder escrever, mas no fim, se apreende um significado oculto que só possui sentido completo para quem o percebeu; e, com probabilidades enormes, nem mesmo o poeta venha a conhecer boa parte dessas compreensões individuais. E isto é o que se chama de experiência poética pessoal e vem a intitular o texto. Não se trata do que foi escrito e nem de quem o escreveu, se trata de quem lerá. Reproduzindo Paz, pode-se dizer que a capacidade do dizer poético de transmitir aquilo que parece incomunicável reside em nos mostrar (ou no caso, relembrar) quem realmente somos (PAZ, 1972, p. 133 e 136)

“A verdade do poema apóia-se na experiência poética, que não difere essencialmente da experiência de identificação com a ‘realidade da realidade’”. (idem, 1972, p. 137).

Escute lá isto é um poema não fala de amor não fala de cachecóis azuis sobre os ombros do cantor que suspende os calcanhares na berma do rochedo Não fala do rolex nem da bandeirola da federação uruguaia de esgrima Não fala do lago drenado na floresta americana Não diz nada sobre a confeitaria fedorenta que recebe os notívagos para o café da manhã quando o dia já virou Isto é um poema não fala de comoções na missa das sete nem fala da percentagem de mulheres que se espantam com a imagem do marido aparando a barba no ocaso Não fala de tratores quebrados na floresta americana não fala da ideia de norte na cidade dos revolucionários

Não fala de choro não fala de virgens confusas não fala de publicitários de cotovelos gastos Nem de manadas de cervos Escute só isto é um poema não vai alinhar conceitos do tipo liberdade igualdade e fé Não vai ajeitar o cabelo da menina que trabalha com afinco na caixa registradora do supermercado Não vai melhorar Não vai melhorar isto é um poema escute só não fala de amor não fala de santos não fala de Deus e nem fala do lavrador que dedicou 38 anos a descobrir uma visão quase mística do homem que canta e atravessa a estrada nacional 117 para chegar a casa ou a algum lugar próximo de casa.

Referências bibliográficas

AGAMBEN, G. O fim do poema. Trad. Sérgio Alcides. In: Cacto, n. 1. São Paulo: 2002, p. 114 e 118.

CAMPILHO, M. Príncipe no roseiral. In: Jóquei. Lisboa: Edições tinta-da-china, 2014, p. 09 e 10.

DERRIDA, J. Che cos’è la poesia? Trad. Tatiana Rios e Marcos Siscar. In: Inimigo Rumor, n.10, 2001, p. 113 e 114.

LEMINSKI, P. Eu queria tanto. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 90.

PAZ, O. A imagem. Trad. (?). In: O arco e a lira. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 128, 131, 133, 136 e 137.

WATTS, G. 1904, p. 8, apud BORGES, J. O idioma analítico de John Wilkins. Trad. Davi Agucci Jr. In: Outras Inquisições. São Paulo: Companhia das Letras: 1952, p. 126.

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