O Brasil Antes dos Brasileiros - Andre Prous

O Brasil Antes dos Brasileiros - Andre Prous

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Nova Biblioteca de Ciências Sociais diretor: Celso Castro

André Prous

O Brasil antes dos brasileiros A pré-história de nosso país

2a edição revista

Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro

Sumário

Introdução

O estudo do passado e a arqueologia Breve história da arqueologia no Brasil As fontes da história pré-cabralina

1 Os primeiros habitantes

As discussões sobre a entrada do homem na América O que sabemos sobre os primeiros sul-americanos? As “populações de Lagoa Santa”

2 A pré-história do Brasil meridional

Os primeiros ocupantes do litoral meridional

Os primeiros ocupantes das terras interioranas: as “Culturas” Umbu e Humaitá

Os ceramistas do Planalto A arte rupestre meridional

3 A arqueologia do Pantanal

4 A pré-história do Brasil central e do Nordeste

Os caçadores-coletores

Os primeiros agricultores e ceramistas A arte rupestre

Os aldeões (Aratu-Sapucaí e Uru) A tradição rupestre dos lajedos Os ceramistas do Maranhão

5 A onda tupiguarani

O domínio tupiguarani A indústria tupiguarani

A vida comunitária: alimentação, guerra, rituais e arte A grande questão: qual é a origem dos Tupiguarani?

6 Arqueologia amazônica

As primeiras populações A Tradição Policroma

A Tradição Incisa-Ponteada Ocorrências (ainda) isoladas

7 Reflexões finais

Lutar contra os mitos redutores

Continuidades e rupturas vistas pelos acadêmicos A arqueologia brasileira hoje

Glossário

Leituras recomendadas Créditos das ilustrações

Introdução

QUANDO SE ESTUDAM os habitantes do Brasil antes da chegada dos portugueses, é preciso inicialmente lembrar que o país é uma criação política recente, cujas fronteiras atuais não correspondem a limites entre as populações pré-históricas, exatamente como hoje existem índios Guarani tanto em parte do Brasil quanto no Paraguai. Durante um bom período da pré-história, os moradores da bacia amazônica devem ter sido muito mais isolados das populações do Sul brasileiro que estes dos grupos que ocupavam os pampas argentinos. Por outro lado, tendemos a pensar que as sociedades dos primeiros habitantes das terras baixas da América do Sul eram muito parecidas com as dos remanescentes indígenas atuais; ou, então, procuramos uma imagem deles a partir de relatos dos cronistas nos séculos XVI e XVII, como Jean de Léry, Hans Staden, André Thevet, Gabriel Soares de Souza, Carvajal e os padres jesuítas.

Ora, sabemos hoje que as sociedades indígenas estavam implantadas no Brasil há mais de 12.0 anos e tiveram muito tempo para se transformar. Por outro lado, os “índios” descritos pelos cronistas são essencialmente os Tupi e os Guarani do litoral, cujas sociedades e costumes eram muito distintos das tribos de outros grupos linguísticos ou étnicos existentes naquela época.

O estudo do passado e a arqueologia

Estamos acostumados a estudar as sociedades a partir dos textos escritos que alguns de seus integrantes deixaram (sobretudo quando se trata de sociedades passadas) ou da observação direta (quando é o caso de populações vivas). Dessa forma, os historiadores analisam sobretudo os documentos escritos, enquanto os sociólogos e antropólogos privilegiam a observação direta e os testemunhos orais.

Quando queremos conhecer as sociedades indígenas desaparecidas, não dispomos de textos, pois elas não utilizavam a escrita. Por outro lado, as sociedades ameríndias que sobreviveram até hoje são poucas em relação às que existiram outrora, e se modiɹcaram demasiado para oferecer uma imagem adequada dos primeiros habitantes do território que hoje chamamos Brasil. Dependemos, portanto, exclusivamente dos vestígios materiais que eles deixaram, quase sempre involuntariamente, e com os quais nem historiadores nem antropólogos estão acostumados a tratar.

Os especialistas que estudam esses restos de corpos, instrumentos, atividades, moradias – dentro do contexto ambiental da época – são os arqueólogos. Têm os mesmos objetivos dos outros pesquisadores das ciências humanas, mas apenas utilizam métodos e técnicas diferentes (relacionados às ciências da vida e da Terra), e dependem do estudo dos vestígios materiais. Isso os leva a dar grande importância tanto ao que se convém chamar de “cultura material” quanto aos aspectos da vida quotidiana e ao ambiente no qual viveram as populações pretéritas.

Dessa forma, este livro fundamenta-se essencialmente em informações obtidas pela arqueologia, embora elas sejam muitas vezes interpretadas em função de teorias e conhecimentos relacionados à antropologia.

Com efeito, e como qualquer área cientíɹca, a arqueologia não expõe “fatos objetivos” que permitiriam atingir uma verdade absoluta, mas interpreta os indícios disponíveis em função dos pressupostos dos arqueólogos. Estes variam de acordo com o momento (também existem modas na ciência) e as tendências dos pesquisadores (há abordagens práticas e correntes teóricas diferenciadas em cada época).

Breve história da arqueologia no Brasil

No Brasil, os primeiros estudos de vestígios arqueológicos se devem a P. Lund, um pioneiro da paleontologia, que encontrou em 1843 ossadas humanas misturadas com as de animais desaparecidos nas cavernas de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Naquela época, acreditava-se que os grandes animais tivessem desaparecido com o dilúvio bíblico, e Lund foi o primeiro a pensar na existência de um homem antediluviano nas Américas, mas nisso não foi seguido. Também descreveu para o público europeu instrumentos de pedra polida encontrados pelos camponeses e aɹrmou que os amontoamentos de conchas encontrados no litoral brasileiro (os sambaquis) eram obra dos primeiros habitantes do lugar. Isso foi importante para o reconhecimento da origem humana dos sítios parecidos que existem no norte da Europa.

No ɹnal do século XIX, foram realizadas as primeiras escavações arqueológicas nos sambaquis de Santa Catarina, por Von den Steinen, e em sítios do Amapá, por Emílio Goeldi. Na perspectiva daquela época, tratava-se essencialmente de encontrar objetos que permitissem saber qual era o “patamar evolutivo” atingido pelos indígenas brasileiros em relação a uma escala estabelecida na Europa. Considerava-se que os nativos do Brasil eram muito primitivos, e que seus ancestrais seriam incapazes de elaborar as belas cerâmicas e esculturas de pedra encontradas em vários sítios. Dessa forma, muitos atribuíram as cerâmicas Marajoara a povos fenícios ou gregos – que teriam desembarcado aqui na Antiguidade –, e as esculturas dos sambaquis a uma inɻuência das culturas andinas.

Ao mesmo tempo, R. Kröne estudava os sambaquis do litoral de São Paulo e correlacionava, de modo pioneiro, suas variações culturais às mudanças ambientais, como as alterações do nível do mar. Infelizmente, quase não houve outras pesquisas arqueológicas durante a primeira metade do século X.

Foi preciso esperar até a segunda metade do século X para que a arqueologia se implantasse no Brasil, primeiramente sob orientação de pesquisadores franceses e norte-americanos (durante os anos 1950 e 1960), e, a seguir, com programas independentes realizados pelos pioneiros formados por esses mestres estrangeiros.

No ɹnal dos anos 1960, um projeto Nacional de Pesquisa Arqueológica (Pronapa), orientado por Betty Meggers e Cliʃord Evans, procurou montar um quadro preliminar da pré-história dos estados da fachada marítima, desde o Rio

Grande do Sul até o Rio Grande do Norte, a partir de prospecções e sondagens rápidas. Desse trabalho nasceram as principais “Tradições” ceramistas até hoje reconhecidas.

Os seguidores do Pronapa procuravam evidenciar, por meio da análise dos restos de cerâmica pré-histórica, a dispersão ao longo dos eixos ɻuviais de grupos préhistóricos caraterizados por sua cultura material. Trabalhavam dentro da linha do determinismo ecológico norte-americano (a ideia de que o ambiente local determina o grau de complexidade das sociedades que nele evoluíram). Paralelamente, outros pesquisadores, quase sempre influenciados ou orientados por W. Hurt ou Annette Laming-Emperaire, estudavam os vestígios de populações mais antigas a partir de escavações amplas em sítios escolhidos – geralmente em sambaquis ou abrigos sob a rocha –, e atenção especial foi dedicada à chamada “arte rupestre”, muito comum no Brasil central e nordestino.

Com a análise mais aprofundada dos sítios de regiões limitadas, esses pesquisadores passaram a se interessar mais por reconstituir a evolução do ambiente local e a organização do espaço habitado.

O número de pesquisadores começou a crescer nos anos 1980, e hoje, embora ainda haja muita carência de proɹssionais (existem vários estados sem ao menos um arqueólogo residente), a maioria das pesquisas é realizada por equipes nacionais. Com a criação da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), em 1980, houve uma abertura para novas inɻuências, em particular as vindas da arqueologia “processual” anglo-saxônica, que pretendia alcançar maior cientiɹcidade na arqueologia procurando leis permanentes que regessem as sociedades e suas relações com o meio.

A partir dos anos 1990, vários arqueólogos criticaram algumas pretensões exageradas desse movimento (cujos princípios não chegaram a ser sistematicamente aplicados ao Brasil), insistindo sobre o fato de que, tal como ocorre entre historiadores, cada geração ou escola arqueológica tem sua própria interpretação do passado, em função da qual os “fatos” arqueológicos são escolhidos e interpretados. Dessa forma, os arqueólogos tornaram-se conscientes de que a pesquisa cientíɹca não é neutra, mas ideologicamente orientada. Hoje é preciso equilibrar essa consciência das limitações de nossa interpretação com o esforço para se alcançar um mínimo de autocrítica, além de procedimentos de trabalho que garantam o máximo de objetividade. Caso contrário, corremos o risco de cair num ceticismo estéril ou numa “licenciosidade” interpretativa que justificaria qualquer posição política e tiraria a credibilidade da pesquisa científica.

Um exemplo dos problemas que isso levanta é a exigência de indígenas de Minas Gerais de participarem da “reconstrução” do seu passado. Em reuniões de trabalho na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2002, professores indígenas cobraram a possibilidade de fazer sua própria arqueologia, guiada por seus próprios princípios – obviamente muito diferentes dos que regem os acadêmicos formados pela sociedade dominante.

De fato, será que pode haver uma arqueologia “branca” e uma arqueologia “indígena”, da mesma forma como houve uma arqueologia “histórico-cultural” e uma arqueologia “processual”? Trata-se apenas de um problema ideológico, do qual a ciência teria de se manter afastada, ou seria a ciência “ocidental” também uma ideologia como qualquer outra? Os partidos comunistas já falavam em “ciência burguesa” oposta a uma “ciência proletária”, o que se provou catastróɹco para a biologia soviética. Será que um arqueólogo indígena formado pela universidade ocidental não absorveria as formas de pensar e os métodos de seus mestres? Será que esses procedimentos não seriam inerentes à própria ciência? Por outro lado, será o material arqueológico pré-histórico patrimônio do Estado brasileiro (que representa a visão “ocidental”), ou dos indígenas (e, neste caso, de quais)?

Não pretendemos aprofundar aqui essa discussão, mas ela estará certamente no cerne dos debates dos próximos anos, como já acontece em outros países de colonização moderna – como a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá.

As fontes da história pré-cabralina

Vimos que todas as fontes da história do território hoje conhecido como Brasil, antes da chegada dos europeus, são arqueológicas – ou seja, compostas de vestígios materiais deixados pelos homens e parcialmente preservados dos processos naturais de degradação. Os ossos humanos informam sobre idade, sexo, características físicas tanto individuais quanto diagnósticas de tipo de população (evita-se o termo raça), posturas frequentes e tipos de esforços mecânicos, doenças e alimentação. Os restos de animais pequenos fornecem dados sobre o ambiente local (umidade, temperatura); os de animais caçados, sobre as escolhas e os hábitos de preparo alimentar. Os vegetais (raramente preservados) evidenciam as técnicas de coleta e/ou de cultivo, e as modificações genéticas sob domesticação.

Os instrumentos de pedra (mais facilmente preservados, mas nem por isso os mais comuns na época pré-histórica), de osso, de cerâmica ou artefatos vegetais informam sobre as tecnologias conhecidas pelo grupo que os fabricou, mas também as marcas especíɹcas que diferenciavam a produção de um grupo com referência aos vizinhos (por vezes até se pode reconhecer o “jeito” de um indivíduo). Os vestígios de uso nos artefatos (estudados no microscópio ou a partir de análises químicas) podem indicar os produtos fabricados ou preparados. Os graɹsmos (pinturas, gravuras) deixados em paredões (a chamada arte rupestre) ou em pequenos objetos, assim como as esculturas e modelagens, permitem abordar a esfera do pensamento simbólico por meio de temas, formas e ritmos privilegiados pelas populações.

Por outro lado, além de vestígios “culturais”, importam os vestígios “naturais” que informam sobre o paleoambiente: clima, vegetação, fauna e topograɹa, que mudam ao longo do tempo, inɻuenciando as coletividades humanas. Além disso, não é somente a presença de vestígios que deve ser veriɹcada, mas também a ausência de outros elementos: por exemplo, a exclusão de determinado animal da dieta é tão significativa quanto a presença de outro; a ausência sistemática de ossos de criança num cemitério pode ser tão importante quanto a presença de esqueletos adultos.

Mas a arqueologia não se faz apenas da coleta de objetos isolados. Somente a relação dos vestígios contemporâneos entre si permite reconhecer as estruturas arqueológicas e arriscar uma interpretação da vida quotidiana. Os vestígios encontram-se em conjuntos que denominamos sítios arqueológicos. Estes podem conter vestígios de apenas uma ocupação ou de várias delas. No segundo caso, é necessário tentar separar os restos de cada ocupação (seja esta um breve momento ou um período de vários anos), o que se faz com escavações estratigráɹcas, procurando-se distinguir os estratos sedimentares uns dos outros. Trata-se de um método de aplicação delicada que permite separar os objetos mais recentes dos mais antigos, sem tornar possível calcular a idade exata dos estratos considerados. Para se obter uma cronologia mais precisa, devem-se obter datações por métodos físico-químicos. Destacam-se o do radiocarbono (que possibilita, em certas condições, calcular a idade da morte dos seres vivos a partir da radioatividade residual do carbono preservado em carvões vegetais, em ossos ou em conchas) e o da termoluminescência residual em torrões de barro queimado e cacos de cerâmica.

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