O poder - História natural de seu crescimento - Bertrand de Jouvenel

O poder - História natural de seu crescimento - Bertrand de Jouvenel

(Parte 1 de 5)

O Poder História natural de seu crescimento

Bertrand de Jouvenel

O Poder História natural de seu crescimento

Tradução de Paulo Neves

Pe�tõNeto

Título do original francês:

Du Pou11oir: Histoire naturelle de sa croissance By Bertrand de Jouvenel

© Librairie Hachette, 1972 © Hachette Littératures, 1998

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida -em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. -, nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da proprietária.

Editor João Baptista Peixoto Neto

Assistentes editoriais

Pedro Penafiel

Raquel Arantes Toledo Suiang Guerreiro de Oliveira

Tradução Paulo Neves

Projeto gráfico e composição Pedro Penafiel

Preparação

João Baptista Peixoto Neto Pedro Penafiel

Revisão

Suiang Guerreiro de Oliveira

Cecdia Floresta Valquíria Della Pozza

Capa Fernando Moser (Shadow Design)

Gerente de distribuição e vendas Valdemir Batista de Anunciação

Dados Internacionais de Catalogação Publicação

Jouvenel, Bertrand de, 1903 -1987. Bertrand de Jouvenel des Ursins

O poder: história natural de seu crescimento /Bertrand de Jouvenel; tradução Paulo Neves. --1. ed. --São Paulo: Peixoto Neto.

Título original: Du pou110ir: histoire naturelle de sa croissance ISBN: 978-85-88069-36-7 CDD-320

Índice para catálogo sistemático: 1. Ciências políticas 320 2. Coerção sociologia 303.36 3. Instituição política -Sociologia política 306.2

Todos os direitos desta edição estão reser11ados à

Editora Peixoto Neto Ltda.

Rua Teodoro Sampaio 1765, conj. 4, Pinheiros, São Paulo, SP, 05405-150 Te!. (1) 3063.9040, fax (1) 3064.9056, editora@peixotoneto.com.br w.peixotoneto.com.br

Este é um livro de guerra sob todos os aspectos.

Foi concebido na França ocupada e sua redação foi iniciada no refú, gio do mosteiro de La Pierre,Qui,Vire, sendo que o caderno que o conti, nha formava nossa única bagagem quando atravessamos a pé a fronteira suíça em setembro de 1943. A generosa hospitalidade helvética nos per, mitiu o prosseguimento do trabalho, publicado em Genebra em março de 1945, aos cuidados de Constant Bourquin.

Mas é um livro de guerra em um sentido bem mais substancial, tendo surgido de uma meditação sobre a marcha histórica rumo à guerra total. Eu havia esboçado esse tema num primeiro escrito, "Da concorrência po, lítica", levado da França por Robert de Traz, que o publicou em janeiro de 1943 na sua Revue Suisse Contemporaine. A presente obra desenvolveu,se em torno desse breve enunciado (conservado como capítulo VIII do livro). É ali que o leitor encontrará o princípio da cólera que anima este traba, lho, que fez seu sucesso e explica alguns de seus excessos.

Essa cólera era proporcional à minha decepção. Tendo os olhos aber, tos sobre a Sociedade, eu havia reconhecido como evidente que a muta, ção em curso exigia, na ordem intelectual, uma tomada de consciência e cálculos de futuro, e, na ordem prática, uma ação firme, aqui corretiva, ali incitadora, em geral orientadora. Era preciso, então, um Poder ativo, e esse desejo se fortalecia diante do escândalo do desemprego por inati, vidade dos governos!

Mas eis que o Poder assumiu uma face terrível, fazendo o mal com todas as forças a ele confiadas para o bem! Como eu não teria o espírito perturbado por tal espetáculo?

Pareceu,me que o princípio da catástrofe se achava numa confian, ça social que, por um lado, havia progressivamente alimentado a consti, tuição de um rico arsenal de meios materiais e morais e, por outro lado,

6 • Bertrand de Jouvenel deixava livre a entrada e, mais livre ainda, o emprego desses meios! Aí está o que dirigiu minha atenção neste livro a todos os que tiveram a preo, cupação de limitar o poder, embora nem sempre por sabedoria social, e sim, com frequência, por interesse.

Mas, enfim, o problema colocava,se claramente depois de tão funesta experiência. Problema raramente discutido -e incomparavelmente me, nos depois da aventura napoleônica.

Será porque uma infelicidade tão extraordinária devia, por essa razão, permanecer única? Aceitemos essa hipótese. Aliás, alegremo,nos com os grandes progressos feitos depois da guerra nos serviços sociais. Mas nem por isso negligenciemos o inquietante contraste entre o formidável cres, cimento que se produz nos meios do Poder e a frouxidão no controle de seu emprego, até mesmo na principal potência democrática.

Concentração dos poderes, monarquização do comando, segredo das grandes decisões, não são fatos que nos obrigam a pensar? A integração não é menor no domínio econômico. É a época das grandes torres e não da praça pública.

Por isso este livro, cujos graves defeitos reconheço, permanece talvez oportuno. Quanto eu gostaria que ele não o fosse!

Bertrand de Jouvenel janeiro de 1972

Tendo Constant Bourquin falecido depois da redação desse prefácio, quero dizer o que lhe devo.

Ele veio pedir,me em Saint-Saphorin o manuscrito que havia anterior, mente recebido as recusas de vários editores estabelecidos, forneceu,nos meios de existência de que estávamos desprovidos ao extremo, preparou a publicação com amor, e teve o delicado pensamento de fazer imprimir um exemplar para o senhor e a senhora Daniel Tlúroux, nome que consta, va em nossas carteiras de identidade forjadas na França e que devíamos continuar usando na Suíça.

Foi para mim bem mais do que um editor: um amigo dos dias difíceis.

Bertrand de Jouvenel janeiro de 1977

Nota biográfica

Nascido em Paris em 1903, filho de Henry de Jouvenel des Ursins, se, nadar e embaixador da França, Bertrand de Jouvenel fez estudos de Di, reito e de Ciências na Universidade de Paris.

Correspondente diplomático, repórter internacional e corresponden, te especial de vários jornais até 1939, escreveu ao mesmo tempo diversos livros dedicados à evolução do mundo contemporâneo, atividade à qual se consagrou exclusivamente depois da guerra, da qual participou em 1939, 1940 como voluntário no 126º Regimento de Infantaria.

Bertrand de Jouvenel ensinou em várias universidades estrangeiras

(Oxford, Cambridge, Manchester, Yale, Chicago, Berkeley etc.) e tam, bém na França: professor adjunto na Faculdade de Direito e Ciências Econômicas de Paris (cadeira de Prospectiva Social) de 1966 a 1973, no INSEAD e no CEDEP,* a partir de 1973. É doutor honoris causa da Universi, dade de Glasgow.

Membro de várias comissões econômicas, entre as quais a Comissão das Contas à Nação e a Comissão do Plano sobre "Consumo e Modos de vida", participou, ou participa ainda, de trabalhos e pesquisas de numero, sas instâncias internacionais, como o Institut for the Future (Estados Uni, dos) ou o Social Scíence,Research Councíl (Grã, Bretanha).

Bertrand de Jouvenel foi presidente,diretor geral da SEDEIS (Société d'Étude et de Documentation Économique, Industrielle et Sociale) que editou, de 1954 a 1974, dois periódicos: Analyse et Prévision e Chroniques d'actualité. Criou o Comité lnternational Futuribles e fundou a Associa, tion lnternacionale Futuribles. Ambas escolas de negócios e pesquisa em Fontainebleau. (N. T.) 9

Principais obras de Bertrand de Jouvenel

�Économie Dirigée. Le Programme de la Nouvelle Géneration. Librairie Va, lois, 1928.

Vers les État,Unis d'Europe. Librairie Valois, 1930. La Crise du Capitalisme Américain. Gallimard, 1933. Le Réveil de l'Europe. Gallimard, 1938.

D'une Guerre à l'.Autre. Calmann,Lévy, 1940,1941, t. 1., De Versailles à Lo, carna, t. I La Décomposition de l'Europe Libérale (1925,1931).

Apres da Défaite. Plon, 1941.

Napoléon et l'Économie Dirigée, le Blocus Continental. Paris: La Toison d'Or, 1942.

Du Pouvoir, Histoire Naturelle de sa Croissance. Genebra: Le Cheval ailé, 1945; nova ed. Paris: Hachette, 1972.

Raisons de Craindre, Raison d'Espérer. Paris: Le Portulan, 1947, t. I, Quelle

Europe?, t. I, Les Passions en Marche. Problemes de l'.Angleterre Socialis, te ou l'Échec d'une Expérience. La Table Ronde, 1947.

The Ethics of Redistribution. Cambridge University Press, 1951. De la Souveraineté. Librairie de Médicis, 1955.

The Pure Theory of Poütics. Cambridge University Press, 1963. Trad. fran, cesa: De la Poütique Pure. Calmann,Lévy. (Teoria pura de política.

Trad. port. Maria Eduarda Bastos. Lisboa: Guimarães, 1975.) r.:Art de la Conjecture: Futuribles. Mônaco: Éditions du Rocher, 1964. (A arte da conjectura. São Paulo: Duas Cidades, 1968.)

Arcadie, Essais sur le Mieux,vivre. Paris: SEDEIS, 1968.

12 • Bertrand de Jouvenel

Du Principat et Autres Réflexions Politiques. Paris: Hachette, 1972.

La Civilisation de Puissance. Fayard, 1976.

Les Origines de l'État Modeme. Fayard, 1976. (Origens do estado moderno: uma história das ideias políticas do século XIX. Trad. port. Mamede de Souza Freitas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.)

Sumário

A explicação imediata _ 24

O progresso da guerra 25 Os reis em busca de exércitos 25 Extensão do Poder, extensão da guerra 27

Os homens pegos pela guerra 29 Sobrevivência do Poder absoluto 30 O Minotauro mascarado 32 O Minotauro de rosto descoberto 34 O Minotauro é onipresente 35

Livro 1 METAFÍSICAS DO PODER

Cap. 1: Da Obediência civil _ 39 O mistério da Obediência civil 41 Caráter histórico da Obediência 43 Estática e dinâmica da Obediência 45 A Obediência ligada ao crédito 47

Cap. u: As teorias da Soberania _ 49 A Soberania divina 50 A Soberania popular 54

A Soberania popular democrática 59 Uma dinâmica do Poder 62

14 • Bertrand de Jouvenel

Como a Soberania pode controlar o Poder _ 64

As teorias da Soberania consideradas em seus resultados 67

Cap. m: As teorias orgânicas do Poder _ 69

A concepção nominalista da Sociedade 70 A concepção realista da Sociedade 73 Consequências lógicas da concepção realista 75 Divisão do trabalho e organicismo 78 A Sociedade, organismo vivo 81 O problema da extensão do Poder na teoria organicista 85 Da água ao moinho do Poder 8

Livro I ORIGENS DO PODER

Cap. IV: As origens mágicas do Poder _ 93

A concepção clássica: a autoridade política originada da autoridade paterna _ 96

A era iroquesa: a negação do patriarcado 9 A era australiana: a autoridade mágica 102 A teoria frazeriana: o rei dos sacrifícios 103

O governo invisível 104 A gerontocracia mágica 106

Caráter conservador do Poder mágico 108

Cap. v: O advento do guerreiro _ 1 Consequências sociais do espírito belicoso 113 Nascimento do patriarcado pela guerra 115

A aristocracia guerreira é também uma plutocracia 116 O governo 118 O rei 119 Estado ou coisa pública 121 Onde a realeza se toma monarquia 122

A coisa pública sem aparelho de Estado 123 Das repúblicas antigas 124

O Poder• 15

O governo pelos costumes _ 125 Herança monárquica do Estado moderno 127

Livrom DA NATUREZA DO PODER

Cap. VI: Dialética do Comando _ 131

O Poder em estado puro 132 A reconstrução sintética do fenômeno 133 O Comando como causa 135 O primeiro aspecto do Comando 136 O Comando para si 137 O Poder puro nega,se a si mesmo 139 Constituição da Monarquia 140 Do parasitismo à simbiose 142 Formação da Nação no Rei 144 A Cidade do Comando 145 Derrubada do Poder 146

Os dois caminhos 147 Evolução natural de todo aparelho dirigente 148

O "Eu" governamental 149 Dualidade essencial do Poder 151 Do egoísmo do Poder 152 As formas nobres do egoísmo governamental 154

Cap. vn: O caráter expansionista do Poder _ 159 Por que deve haver egoísmo no Poder 159 Do egoísmo ao idealismo 163 O motor egoísta do crescimento 166 As justificações sociais do crescimento 169 O Poder como lugar das esperanças humanas 171 O Pensamento e o Poder, o Filósofo e o Tirano 173

Cap. VIII: Da concorrência política _ 177 A guerra, estranha aos tempos modernos? 178

16 • Bertrand de Jouvenel

Uma civilização que se militariza 180 A lei da concorrência política 181 Progresso do Poder, progresso da guerra. Progresso da guerra, progresso do Poder 184 Do exército feudal ao exército da realeza 185

A guerra, parteira da monarquia absoluta _ 187

Os Poderes, em rivalidade internacional, lutam cada um, no interior, contra as "liberdades" que lhes resistem 188 A conscrição 189 A era da carne de canhão 191

A guerra total 192

Livro IV O ESTADO COMO REVOLUÇÃO PERMANENTE

Cap. IX: O Poder, agressor da ordem social 199 Conflito do Poder com a aristocracia; aliança com a plebe 201

É o Poder conservador social ou revolucionário social? 203 Os "vazios" da onda estatal 205

O Poder diante da célula gentílica 206 O Poder diante da célula senhorial 208 O Poder diante da célula capitalista 212 Apogeu e desmembramento do Estado 219 Dinâmica política 220

Cap. x: O Poder e a plebe 223 A "coisa pública" feudal 225 A afirmação do Poder 227 O plebeu no Estado 230 O absolutismo plebeu 232 A reação aristocrática 236

Falsas manobras e suicídio da aristocracia na França 240

Cap. XI: O Poder e as crenças 245 O Poder mantido pelas crenças 246

O Poder• 17

A Lei divina _ 249

Solenidade da Lei 252 A Lei e as leis 254 As duas fontes do Direito 256

A Lei e o costume 259 O desenvolvimento do Poder Legislativo 261

A crise racionalista e as consequências políticas do Protagorismo_ 263

Livro v O PODER MUDA DE ASPECTO, MAS NÃO DE NATUREZA

Cap. xn: Das revoluções 271 As revoluções liquidam a fraqueza e engendram a força 272 Três revoluções 273 Revolução e tirania 275

Identidade do Estado democrático com o Estado da realeza 276 Continuidade do Poder 277

Caráter desigual da autoridade do Antigo Regime 279 Enfraquecimento do Poder, coalizão aristocrática 280 O Terceiro Estado restaura a Monarquia sem o Rei 281 O governador napoleônico, filho da Revolução 286 A Revolução e os direitos individuais 287 A Justiça desarmada diante do Poder 290 O Estado e a Revolução Russa 292

Cap. xm: lmperium e Democracia 297 Sobre o destino das ideias 299 Princípio libertário e princípio legalitário 299 A soberania da Lei culmina na soberania parlamentar 301 O Povo, juiz da Lei 306 A Lei, "satisfação" do povo 312

O apetite do Imperium 314 Da soberania parlamentar 316 Da soberania da Lei à soberania do povo 318

18 • Bertrand de Jouvenel

Cap. XIV: A democracia totalitária _ 321 Soberania e liberdade 322

A totalidade em movimento 323 A guerra às tendências centrífugas 325 O gênio autoritário na democraci 327 O interesse geral e seu monopólio 329 A autodefesa dos interesses 331 Da formação do Poder 3 Dos partidos 338 Da máquina política: o aliciamento dos votos e como os dirigentes da máquina acabam se tomando mestres dos eleitos 340 Do cidadão ao militante: a competição pelo Poder militariza,se 342 Rumo ao regime plebiscitário 343 A competição dos partidos "maquinizados" leva à ditadura de um partido, isto é, de uma equipe 345 A degradação do regime está ligada à degradação da ideia de lei_ 346

Cap. xv: O Poder limitado 353 O Poder limitado 354 Do impedimento interno 357 Dos contrapoderes 358 Aniquilamento dos contrapoderes e subordinação do Direito 360 O Poder ilimitado é perigoso tanto de onde emana quanto onde reside 364 Retomo dos espíritos ao Poder limitado: lições pedidas à Inglaterra_ 368

A separação formal dos poderes 371

Cap. XVI: O Poder e o Direito _ 377 O Direito, regra editada pela Autoridade? 378

(Parte 1 de 5)

Comentários