Caroço de algodão na alimentação de bovinos

Caroço de algodão na alimentação de bovinos

Instituto Federal do Espírito Santo – campus Santa Teresa

Agropecuária

Bovinocultura

Caroço de algodão na alimentação de bovinos

Trabalho apresentado como parte das exigências da disciplina bovinocultura – IFES – ministrada pelo professor Moacir Rodrigues Filho

Luiz Eduardo Rosa Oliveira

Santa Teresa – ES

Novembro – 2016

Índice

Pg

1- Introdução.....................................................................................................................................01

2- Características do alimento...........................................................................................................02

3- Formas de produção......................................................................................................................02

4- Valor nutritivo...............................................................................................................................03

5- Níveis de inclusão na dieta............................................................................................................03

6- Limitação de uso...........................................................................................................................04

7- Produção nacional.........................................................................................................................04

8- Desempenho animal quando utilizado na alimentação.................................................................05

9- Conclusão......................................................................................................................................05

10- Referências Bibliográficas..........................................................................................................06

1– Introdução:

O custo com alimentação representa cerca de 80 % dos custos totais em sistemas de produção de bovinos de corte, na produção leiteira fica entre 40% a 60% dos custos total. Consequentemente, a formulação de dietas, ou seja, o fornecimento de nutrientes a partir dos alimentos disponíveis, é uma das mais importantes etapas de trabalho na produção de bovinos.

Para alcançar altos níveis de produção é necessário fornecer aos animais ruminantes elevados níveis de concentrado, isto porque, os volumosos não apresentam níveis suficientes dos nutrientes necessários para maximizar a produção, como energia, proteína, minerais e algumas vitaminas. A utilização de dietas de alto concentrado proporciona rápido ganho de peso e elevada eficiência alimentar, reduzindo o tempo para terminação e abate, além de proporcionar maior uniformidade do produto final.

As exigências de mercado fizeram com que surgisse a demanda por novas tecnologias, visando o aumento de produtividade e, principalmente, a redução dos custos de produção do leite. Essa evolução tem exigido do produtor a procura de alimentos alternativos, que possam melhorar as características qualitativas do leite a preços compatíveis do produto final, de tal forma que um dos grandes desafios da atividade leiteira, atualmente, é a eficiente produção de leite saudável, através de um sistema de produção calcado na conciliação de alguns fatores, como bons índices zootécnicos com rentabilidade econômica, que remunere o capital investido e que possibilite ao produtor expandir seu negócio.

Dentre os diversos alimentos alternativos disponíveis no mercado, com bom potencial para inclusão em dietas de vacas leiteiras, podemos destacar o caroço de algodão, que se apresenta como alimento complementar, pois tem em sua composição 19,3% de extrato etéreo (EE), 23,5% de proteína bruta (PB), 77% de nutrientes digestíveis totais (NDT) e 50,3% de fibra em detergente neutro (FDN).

Além disso, a efetividade da FDN do línter do caroço de algodão é equivalente à efetividade do feno de alfafa, podendo-se inferir que é fonte de fibra adequada para manter a porcentagem da gordura do leite. Assim, o caroço de algodão apresenta-se como alternativa para substituir parte, tanto do volumoso quanto do concentrado, em dietas de vacas em lactação. A proteína do caroço de algodão apresenta lenta degradabilidade, e o tempo de permanência no rúmen é maior (caroço com línter).

Esta característica pode ser vantajosa para a otimização da síntese de proteína microbiana, ou seja, em associação com fontes energéticas de lenta degradabilidade (casca de soja, milho moído, etc.) possibilita a sincronização da liberação de amônia (degradação da proteína) e da cadeia de carbono (degradação da fibra), de forma mais homogênea ao decorrer do período.

2- Características do alimento:

O caroço é um coproduto da produção do algodão que, comercialmente, pode ser encontrado em sua forma bruta (linter + casca + amêndoa), ou ainda na forma de torta de algodão ou farelo. Trata-se de outro subproduto proveniente da indústria, bastante utilizado na dieta de bovinos leiteiros e de corte. Além de apresentar boas propriedades nutricionais, sua utilização também pode ser vantajosa devido a disponibilidade e custo ao longo do ano.

O caroço de algodão apresenta-se como um interessante ingrediente em formulações por possuir características peculiares, assemelhando-se a um alimento concentrado, devido seu alto teor energético, e também a um alimento volumoso, em função do significativo conteúdo de fibra efetiva.

A estocagem deve atender algumas particularidades para que seu valor nutricional não seja comprometido e fique livre de contaminações. Locais secos e bem ventilados podem prevenir a umidade sobre o caroço de algodão, evitando o aparecimento de fungos e micotoxinas (aflatoxina).

Um fator antinutricional presente no caroço de algodão é o gossipol. No entanto, os ruminantes têm habilidade de tolerá-lo, uma vez que os microrganismos do rúmen promovem ligações que impedem a sua absorção. Nesse sentido, não se recomenda a inclusão de caroço de algodão em dietas de bezerro sem o pleno desenvolvimento ruminal (Santos, 1997; Arieli, 1998).

Nutrição Animal - Evidências experimentais revelam que o gossipol exerce inibição direta e irreversível sobre a contratilidade dos órgãos reprodutivos nos machos (Medeiros et al., 1989). Risco et al. (1993) observaram que touros apresentavam menor concentração de espermatozoides normais no ejaculado a partir da quinta semana de inclusão do caroço de algodão na dieta, sendo assim, o caroço de algodão não deve ser utilizado na dieta de reprodutores.

3- Formas de produção:

O beneficiamento de 100kg de algodão em pluma resulta em 61kg de caroço, 26,23kg de farelo, 7,93kg de línter, 1,33kg de borra e 0,47kg de estearina. Rico em energia (óleo), proteína e fibra, esse resíduo da industrialização da fibra do algodão pode substituir o farelo de soja, de algodão e de trigo, mantendo as rações com níveis nutricionais exigidos por animais de alta produção e, em conseqüência, com maior teor de proteína e gordura no leite. Somente animais maiores que 3 ou 4 meses podem ser alimentados com caroço de algodão, porque antes dessa idade eles ainda não apresentam o rúmen (bucho) bem-desenvolvido.

Para as vacas, o caroço de algodão é fornecido inteiro, sem necessidade de triturá-lo, misturado a outros alimentos em quantidades de no máximo 4kg/vaca adulta/dia. Para os touros, ele não deve ser utilizado por período prolongado na alimentação, porque pode afetar o desempenho reprodutivo desses animais.

Exemplo de concentrado (ração) contendo 19% de proteína bruta e 81% de energia (NDT):

  – 61% de milho em grão;   – 35% de caroço de algodão;   – 2% de uréia;   – 1% de calcário;   – 1% de sal mineral.

  Para cada 2,5 litros de leite produzidos, utilizar 1kg dessa ração.

Estudos científicos mostraram que o caroço de algodão misturado à ração em níveis de até 35% trouxe efeitos altamente benéfico O produto deve ser armazenado em cima de estrados de madeira, evitando o contato com o chão e consequentemente a umidade, pois esta favorece o desenvolvimento de um fungo chamado Aspergillus flavus, que, produzindo micotoxinas, provoca riscos fatais de intoxicação aos animais. O caroço de algodão deve ficar com a umidade em torno de 12%. Nessas condições, pode-se armazenar o produto por até mais de um ano na propriedade, aumentando o teor de gordura e proteína do leite.

4- Valor nutritivo:

O caroço de algodão é utilizado frequentemente em dietas de bovinos, por ser uma boa fonte de proteína bruta, de energia, e de fósforo. Na comparação com outros alimentos concentrados comumente utilizados em dietas de bovino, observa-se que a concentração de PB no caroço (22%) é intermediária entre o milho e os farelos de soja e algodão. O menor valor de PB em relação ao farelo se dá pela maior concentração de extrato etéreo (18,9%) no caroço, o que diminui proporcionalmente o teor de proteína. Grande parte da proteína do caroço de algodão é degradada no rúmen (77%).

Quanto à concentração de energia, o caroço de algodão apresenta, em média, 79,5% de nutrientes digestíveis totais. Esse valor é próximo ao teor verificado para o farelo de soja (81,5%) superior ao verificado para o farelo de algodão (68,3%) e representa, aproximadamente, 91% da energia contida do milho grão

5- Níveis de inclusão na dieta:

Sob certas condições, o caroço de algodão poderá ter elevada concentração de ácidos graxos livres no óleo. Isso ocorre tipicamente após período de chuvas torrenciais e tempestades tropicais que atrasam a colheita.

O aquecimento e alta umidade que se segue após uma tempestade, resultam em hidrolise enzimática dos ácidos graxos dos triglicerídeos, ocasionando elevada concentração de ácidos graxos livres.

Em outras situações, a qualidade do óleo piora durante a estocagem por causa da alta umidade do caroço, que leva ao aquecimento e desarranjo enzimático. Em casos extremos, o calor pode ser suficiente para reduzir a qualidade da proteína também.

Como definido pela Associação Nacional de Produtos de Algodão, o caroço de algodão com mais de 12% de ácidos graxos livres é considerado de baixa qualidade e é tipicamente vendido para alimentação de bovinos.

Estudos científicos mostraram que dietas contendo caroço de algodão com 12% de ácidos graxos livres, não alterou a digestibilidade da fibra, produção de leite ou composição do leite. Quando as dietas continham caroço de algodão com 18% de ácidos graxos livres, fornecido para novilhos Holandeses, observou-se aumento na proporção molar de acetato e propionato, mas a ingestão de nutrientes não foi afetada.

O efeito potencial na alimentação, de dietas contendo caroço de algodão com alta concentração de ácidos graxos livres não tem sido examinado a fundo. De uma maneira geral, suplementação com lipídios com alta concentração de ácidos graxos livres, reduz a digestibilidade da fibra e consumo de matéria seca de vacas em lactação. Aumento nos níveis de ácidos graxos livres insaturados no rúmen pode ter efeito tóxico sobre a flora microbiana, resultando em mudanças no padrão de fermentação normal do rúmen.

O óleo do caroço de algodão é 70% na forma insaturada, e a inclusão de alto nível de caroço na dieta de vacas em lactação (>15% da MS) têm sido demonstradas afetar negativamente a digestão da fibra. Um estudo realizado na Universidade da Geórgia, com duração de oito semanas, utilizando-se de 24 vacas Holandesas, testou três fontes de caroço de algodão diferindo quanto aos níveis de ácidos graxos livres.

6 - Limitação de uso:

O limite de inclusão do caroço de algodão em bezerros desmamados e em animais adultos deve ser de 0,33% e 0,50% do peso vivo por dia, respectivamente. Devido seu elevado teor de extrato etéreo (12 a 20% da MS), deve-se respeitar os limites de EE ao formular dietas, rações e suplementos. Esse limite deve respeitar à alta taxa de gordura desse ingrediente, levando em consideração também a gordura dos outros alimentos presentes na dieta. O limite de inclusão de caroço de algodão na dieta de vacas é de 2 a 4kg de MS/vaca/dia.

Os limites de inclusão estão relacionados ao seu alto conteúdo de gordura (18 a 20% da MS) e ao uso de outros alimentos ricos em gordura na dieta. É recomendado não fornecer mais do que 700 g/vaca/dia de óleo proveniente de fontes vegetais ricas em óleo.Quando o caroço de algodão é usado nas dietas substituindo grãos, ocorre a diminuição do conteúdo de CNF (carboidratos não fibrosos na dieta), e consequentemente, diminuição da quantidade de carboidratos fermentados no rúmen.

7- Produção nacional

O caroço de algodão é um subproduto ofertado regularmente no mercado brasileiro, uma vez que a cultura do algodão tem significativa importância na agricultura nacional. De acordo com quinto levantamento da cultura do algodão, a área a ser cultivada com a cultura será aproximadamente 856 mil hectares.

Área e produtividade do caroço de algodão por região.

 

Produção (mil/ton.)

Área (mil/ha)

Produtividade (kg/ha)

 

Safra 2011/2012

Safra 2012/2013

Safra 2011/2012

Safra 2012/2013

Safra 2011/2012

Safra 2012/2013

Norte

13,30

11,70

7,50

6,00

1.769

1.953

Nordeste

847,20

586,20

460,40

300,80

1.840

2.079

Centro-Oeste

2052,0

1340,20

877,30

560,90

2.369

2.362

Sudeste

104,00

53,70

46,70

26,30

2.225

2.084

Sul

1,40

0,10

1,50

0,10

892

1.473

Brasil

3018,60

1992,40

1393,40

894,10

1819,00

1990,20

8- Desempenho animal quando utilizado na alimentação:

Em trabalho conduzido no Paraná no IAPAR, Moletta (1999) comparou a utilização do caroço de algodão com grão de soja no desempenho de 19 bovinos mestiços Canchim, com 12 meses de idade, por um período de 1 ano. O volumoso utilizado foi silagem de milho misturada aos concentrados: Grão (69% milho moído + 20% de grão de soja +10% de farelo de soja) ou Caroço (61% milho moído + 20% de caroço de algodão +18% de farelo de soja), ambos ajustados para 1% do peso vivo

O autor relata que quanto ao desempenho dos animais no confinamento não houve diferença para consumo de matéria seca, desempenho ou conversão alimentar (Tabela 1). O peso de carcaça quente e o rendimento de carcaça não foram estatisticamente diferentes, porém, observou-se tendência para o caroço de algodão apresentar maior rendimento de carcaça.

Tabela: Desempenho de novilhos em confinamento recebendo caroço de algodão ou grão de soja

É possível concluir que a utilização do caroço de algodão não prejudica o desempenho animal, sendo que a sua utilização depende da sua disponibilidade e custo durante o ano.

9- Conclusão:

O caroço de algodão caracteriza-se como um subproduto que, dependendo da região, pode apresentar preço e disponibilidade acessíveis e rentáveis de excelente valor nutricional para ruminantes não havendo perdas quanto a digestibilidade das frações fibrosas nem causando prejuízos ao desempenho produtivo dos animais, podendo ser utilizado com sucesso na alimentação de bovinos. A sua incorporação nas dietas desses animais pode proporcionar bons ganhos em produtividade. Para que isso, as indicações devem ser respeitadas.

10- Referências bibliográficas:

Marcelo de Queiroz Manella e Celso Boin. Alimentos alternativos: caroço de algodão. São Paulo; 01/12/2000 - por Equipe BeefPoint. [Internet] Disponível em: <http://www.beefpoint.com.br/radares-tecnicos/nutricao/alimentos-alternativos-caroco-de-algodao-4805/>.Acessado em: 14/11/2016.

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Scot consultoria. Caroço de algodão para vacas leiteiras. Bebedouro, SP; 28/05/2010. [Internet] Disponível em: <https://www.scotconsultoria.com.br/noticias/artigos/21728/caroco-de-algodao-para-vacas-leiteiras.htm> Acessado em: 14/11/2016.

MATHEUS MORETTI. BOVINOS DE CORTE, Por dentro do cocho – Caroço de algodão. Agroceres Multimix; 16/102016. [Internet] Disponível em:< http://www.agroceresmultimix.com.br/blog/o-caroco-e-um-coproduto-da-producao-do-algodao-que-comercialmente-pode-ser/> Acessado em: 14/11/2016.

José Roberto Peres. Efeito de níveis de caroço de algodão na dieta de vacas holandesas em lactação.Agripoint; 24/11/2000. [Internet] Disponível em: <http://www.milkpoint.com.br/radar-tecnico/nutricao/efeito-de-niveis-de-caroco-de-algodao-na-dieta-de-vacas-holandesas-em-lactacao-15857n.aspx>. Acessado em: 14/11/2016.

Rehagro. Caroço de Algodão na alimentação de vacas leiteiras. Belo Horizonte, MG; 28/04/2003 [Internet] Disponível em: <http://rehagro.com.br/plus/modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=78>. Acessado em: 14/11/2016.

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