pedro demo pesquisa participante

pedro demo pesquisa participante

(Parte 1 de 7)

Pedro Demo

Brasília, 1982 UnB/INEP

(Versão Preliminar)

INTRODUÇÃOp .
CAPÍTULO I: O QUE É PESQUISAp.
1. Pesquisa Teóricap.
2. Pesquisa Metodológicap.
3. Pesquisa Empíricap.
4. Pesquisa Praticap.
5. Conclusões Preliminaresp.
CAPÍTULO I: A DECEPÇÃO DA PESQUISA TRADICIONALp.
1. A repulsa por parte da Pp.
2. Crítica à pesquisa tradicionalp.

ÍNDICE 3. Inutilidade relativa das ciências sociais p.

CAPÍTULO I: ELEMENTOS METODOLÓGICOS DA Pp.
1. Teoria e Práticap.
2. Postura dialéticap.
3. Como se entende a Pp.
CAPÍTULO IV: USOS E ABUSOS DA Pp.
1. Validade da Pp.
2. Algumas críticas e autocríticasp.
3. Precariedades teóricas e metodológicasp.
4 . Alguns abusos: p.

No Brasil o interesse pela pesquisa par ticipante esta com algum atraso, por razões históricas conhecidas. Desde pelo menos 1975 alastrou-se pelo mundo das ciências sociais uma dedicação por vêzes intensa em torno do assunto, o que motivou o surgimento de grupos mais ou menos organizados, destacando-se sobretudo o americano (principalmente latino-americano), o asiático e o africano(l). Ao mesmo tempo, foram levados a termo vários encontros internacionais, podendo-se talvez atribuir relevo maior ao de Cartagena (Colombia) em 1977, e ao da Iugoslávia em 1980.

Com a abertura democrática iniciada nos últimos anos da década passada começou a incrementar-se o interes_ se em torno de processos participativos da sociedade, seja na linha da organização da sociedade civil, do planejamento participativo, do processo eleitoral, bem como na linha da pesquisa participante. Como de praxe, a preocupação costuma nascer no âmbito da educação, mas é comum às ciências sociais. A uma educação fortemente reprodutora do sistema e das desigualdades sociais pretende -se responder com outra comprometida com os oprimiddos(2).

(1) Cfr. Budd L. HALL, Participatory Research, popular Knowledge and power: a personal reflection. In: Convergence, XIV, n9 3, 1981, p. 6ss. Apresenta-se um pequeno his_ tórico e a formação dos grupos principais da África, Ásia, Europa, America Latina e América do Norte. Mar . cela GAJARDO, Evolución, situación actual y perspec tivas de las' estrategias de investiagación participativa en America Latina, FLACSO, Santiago, mim., s.d.

(2) No Brasil, a obra mais conhecida ê certamente a de Carlos R.

BRANDÃO (org.), Pesquisa participante, Ed. Brasiliense, 19 82. "A participação não envolve uma atitude do cientista para conhecer melhor a cultura que pes_ quisa. Ela determina um compromisso que subordina o próprio projeto científico de pesquisa ao projeto político dos grupos populares cuja situação de cias se, cultura ou histórica se quer conhecer porque se quer agir" (p. 12)'.

Num trajeto já relativamente longo é claro que ocorreram, ao lado do natural entusiasmo pelo tema, tam bem inúmeras críticas. Há os que nada vêem de aproveitável naqui_ lo que chamamos de pesquisa participante, alem de um modismo va zio e de muita confusão metodológica. Somos da opinião de que a pesquisa participante é uma maneira válida de pesquisar e, se não fora por outra razão, o fato de ter colocado as ciências sociais em intenso debate do ponto de vista da prática política já basta ria para lhe garantir suficiente relevância. A 'prática é uma for ma de conhecimento, embora nao seja o conhecimento todo.

Todavia, existem os exageros e abusos, bem como grandes ingenuidades, que gostaríamos também de ressaltar, com vistas a chegarmos a uma posição que desejaríamos e-quilibrada. 0 enriquecimento real que a pesquisa pode obter atra vés de posturas participativas não pode obscurecer mediocridades metodológicas. Atendonos especificamente aos termos "pesquisa participante", é preciso indagar até que ponto trata-se de pesquisa e até que ponto trata-se de participação.

• Este trabalho nao reivindica de forma al guma, uma visão exaustiva da questão, mesmo porque não foi possível o acesso a produção já elaborada na sua extensão geral. As_ sim, nao lemos tudo o que seria bom 1er, embora tenhamos tido con_ tato com obras de/Veras fundamentais e conheçamos vários experimentos concretos que, pelo menos na intenção, se querem participantes. como, porém,, a produção vigente é bastante repetitiva, cremos que nossos exercício de reflexão crítica sobre a pesquisa participante pode ser iniciado, conservando sempre abertas as por tas para retomadas e revisões.

De modo geral, o contexto concreto de realização da pesquisa participante se apresenta desfavorável. Dentro de instituições governamentais certamente prefere-se ã pes quisa clássica, não somente por formação acadêmica, mas igualmen te por temor a tudo que se chame participação. Dentro da universidade predomina geralmente a teoria sem prática. As comunidades, que seriam assumidas como co-sujeitos da pesquisa, carecem geral. mente de nível organizativo explícito. Ao mesmo tempo, qualquer processo participativo demanda muito tempo para amadurecer e solidificar-se, sem falarmos em que o pesquisador identificase com

grande, dificuldade com o oprimido(3).

Olhando assim, não deixa de impressionar a persistência com que se manteve a bandeira da pesquisa partici - pante até hoje. Tal persistência é uma prova concreta de participa ção, também porque vem sendo mantida sem maiores coberturas institucionais. Realiza-se, de certo modo, o traço fundamental do fenômeno participativo, que é a conquista de si mesmo.

Poderá certamente arrefecer e banlizarse. No encontro da Yugoslavia, admitia-se: "we still do not Know how to participate" (nao sabemos ainda como participar). Hã muito menos participação do que boa vontade de fazê-la, bem como há muito mais sofisticações da opressão através de processos pretensamente participativos do que efeitos reais participativos. Todavia, este reconhecimento é muito mais sinal de bom nível e de realismo científico, do que recuo(4).

Embora nao seja nenhuma panacéia, a pesquisa participante não pode morrer, nem desacreditar de suas posbilidades. Criticá-la é essencial, mesmo porque a consciência critica é um de seus móveis fundamentais. Mas o objetivo é reforçá-la , porque no mínimo é um vento criativo que passa pelas ciências so-. ciais, hoje de modo geral apagadas e acomodadas.

Por outro lado, é preciso regar esta plan tinha frágil que é a participação. Não banalizá-la, não escamoteála, não deturpá-la, são condições de seu possível êxito. É o cerne da democracia, cuja importância está muito acima dos abusos. E tal vez uma saída, dentro de sistemas hoje já sem saída, o capitalismo e o socialismo. Cuidar que exista democracia, também naquilo que chamamos de ciência, é tão relevante como superar a pobreza mate - rial. Ao mesmo tempo, aperfeiçoar as possibilidades da democracia, superando as enganosas e irreais, é tão central quanto sobreviver.

(3) De certo modo, trata-se da mesma dificuldade que cerca o "pla_ nejamento participativo"; cfr. Pedro DEMO, Participa -ção é conquista - noções de política social participativa, UnB/INEP, Brasília, 1982, mim., 140 p._Juan D. BORDENAVE & Horacio M. de CARVALHO, Comunicação e Planejamento, Paz e Terra, 19 80. Horacio M. de CARVALHO, A ideologia do planejamento participativo, CETREDE ; UFCE, Fortaliza, mim., 1982.

(4) Cfr. REPORT OF THE INTERNATIONAL SEMINAR ON POPULAR PARTICIPA-

TION, Ljubljana, Yugoslavia, 17-25 May 1980, United Na tons, Department of Technucal Cooperation for Development, June 1980, N. York, p. 6.

Já é importante o brado de alerta con tra o excesso de opressão. Se a desigualdade social é inevitá -vel - parece -, é certamente evitável que seja tão exasperada . Inventar a democracia viável,, para que cheguemos a uma sociedade, senão desejável, pelo menos tolerável, é tão essencial, quan to inventar suficiente comida.

Nosso esforço aqui deverá caracteri -zarse pelo rigor metodológico, dentro da ótica das ciências so ciais. Sem descurar do aspecto participativo, precisamos inda -gar, na devida profundidade, pelo aspecto de investigação científica. Assim, acompanhanos sempre a pergunta, até que ponto o tratamento teórico e prático da realidade social está sendo levado em frente pela pesquisa participante. Já estamos consados de modismos. Nenhum entusiasmo pode substituir sua devida funda mentação. Por outro lado, a ciência nem de longe dá o que prome te. Mais que venerá-la, é mister desmascará-la(5).

Ê importante lembrar que o progresso em ciências sociais vive do ambiente aberto de crítica livre e fundamentada. Não há metodologia única ou obrigatória. Por isto mesmo, não fazemos mais que oferecer um esquema possível de dis_ cussão fecunda. Nem vamos camuflar ideologias, mas delas partir. São tão inevitáveis, quanto podem ser uma bela inspiração, ou também uma deturpação grosseira.

De modo geral, tocaremos os seguintes pontos básicos: o que é pesquisa; a crítica ã pesquisa tradicio nal; inutilidade relativa das ciências sociais para a população; teoria e prática; visão metodológica da pesquisa participante ; usos e abusos dela; mito e realidade.

(5) Usaremos como referência nosso livro: Pedro DEMO, Metodologia científica em Ciências Sociais, Atlas, 1980. Cfr. também F.. DEMO, Introdução à Metodologia da Ciência - Construindo Ciências Sociais, a sair pela Atlas, S. Paulo.

"A atividade básica da ciencia é a pesquisa.

Esta afirmação pode estranhar, porque temos muitas vezes a idéia de que a ciência se concentra na atividade de transmitir conhecimento (docência), e de absorvê-lo (discência). Na verdade, tal atividade é subsequente. Antes, existe o fenômeno fundamen -tal da geração do conhecimento"(1).

Infelizmente, o termo pesquisa está pro fundamente estereotipado por vezos consolidados academicamente . De um lado, predomina a postura americana, segundo a qual pesqui sa significa o manejo de técnicas de coleta e tratamento de dados empíricos. Em muitos círculos universitários, pesquisa é somente isto, valendo como paradigma praticamente indiscutível. Sem podermos negar excelências reconhecidas nas ciências sociais nor te-americanas, sobretudo no terreno da economia, em outras é cla ramente medíocre.

De outro lado, a muitos ocorre que a geração de conhecimento seja um ato intrinsecamente teórico, de qualidade apenas lógica, distante de qualquer ilação ideológica e pratica. Ou seja, não se alia a teoria ã prática, mesmo porque entre as regras metodológicas mais cultivadas aparece sempre o distanciamento para com envolvimentos subjetivos(2).

Embora sejam muito intrincadas tais questões, é mister revê-las brevemente, a fim de obtermos um qua dro de referência fundamentado para nossas análises e reflexões. Antes de mais nada, são nossos pressupostos metodológicos:

a) Ao lado de coisas comuns, as ciên -cias sociais possuem paradigmas metodológicos próprios frente às ciências naturais. Não defendemos a impermeabilidade dos dois cam pos, mas uma relativa autonomia, o que permite, tanto propostas metodológicas próprias, quanto a comunicabilidade salutar.

(1) Pedro DEMO, Introdução a Metodologia da Ciência - Construindo Ciências So ciais, a sair pela Atlas, S. Paulo. Cfr. Capítulo Pesquisa. P. DEMO, Metodologia científica em Ciências Sociais, Altas, 1930, p. 13.

(2) Hilton JAPIASSU, O Mito de Neutralidade científica, Imago, 1975. Hans AL- BERT, Tratado da Razão crítica, Tempo Brasileiro, 1977.

Certamente nao é fácil montar a idéia de que as ciências sociais lidam com uma realidade relativamente autônoma, contra a suposição oposta (e dominante) de que a realidade, no f undo, é uma só, devendo ser tratada de modo unitá rio (conforme os parâmetros válidos para as ciências naturais). Simplificando muito as coisas, diríamos que o divisor de águas poderia ser detectado ao nível da ideologia, no sentido de que as ciências sociais sao intrinsecamente, e as ciências naturais extrínsecamente ideológicas. Intrinsecamente ideológico signifi ca que a ideologia existe na própria realidade, por ser inevita velmente histórica e política; extrínsecamente ideológico signi_ fica que a ideologia nao aparece na própria realidade, mas no tratamento dado a ela, ou no uso que dela se faz. Assim, a realidade natural nao é ideológica, como nao seria possível descobrir ideologia na matemática, mas pode ser ideológico o uso que dela se faz.

b) Ideologia é conseqüência necessária do fenômeno do poder. Por isto a definimos como "um sistema teó ricoprático de justificação política das posições sociais"(3), acentuando seu traço político justificador, ao contrário da ciência que teria como objetivo básico descobrir e manipular a realidade. O movimento de legitimação, manutenção e maximização das estruturas de poder provoca a necessidade da ideologia, que aparece como instrumento essencial a serviço dos dominantes. Des_ tina-se a motivar a obediência por parte dos dominador, a criar a convicção social de que a situação não deve ser contestada, a montar a expectativa de que os dominantes o são por mérito, sem usurpação, a camuflar as relações conflituosas da sociedade, a tornar as desigualdades sociais aceitas como produto incontestá vel da realidade, e assim por diante. Para chegar a tanto, a ideologia lança mão da ciência, que é seu disfarce maior, alean çando, quando quer, altas sofisticações teóricas, através das quais provoca sobretudo a atmosfera de irretorquível; pode também buscar, com explicitação maior ou menor, a deturpação da rea lidade, e até mesmo a mentira, se isto for considerado apto a justificar privilégios ameaçados. Também serve para gerar coe -são grupai, na medida que fornece crenças comuns em destinos po

(3) P. DEM}, Intrudução à Metodologia da Ciência, op. cit., capítulo sobre I-deologia.

líticos comuns (4).

Na altura dos dominados, a ideologia pode ter outra face, que é central tomar em conta. De um lado, aparece como instrumento de opressão de cima para baixo. De outro, pode ser arma dos oprimidos contra os opressores, se houver condições históricas de gerar a contra-ideologia com vistas à transformação social da realidade. Neste contexto, é importante nao somente o aspecto objetivo da realidade (por exemplo, o acir ramento dos conflitos, a crescente pobreza material etc), mas igualmente o aspecto da mobilização política, para a qual concor re também a figura do intelectual.

Ideologia não é qualquer sistema de crenças, ou uma simples mundivisão, ou um mundo povoado de idéias, mas designa um campo específico das idéias, ou seja, aquelas car regadas de justificação política no quadro da dominação vigente.

c) Ao lado do caráter ideológico, podemos acrescentar outras conotações que levariam a fundar a diferença entre ciências sociais e naturais. A realidade social é histórica, o que significa principalmente que não somente aconte ce, está dada e feita, mas que pode ser feita e pelo menos em parte conduzida; nunca é completa, mas está em constante devir; é intrinsecamente conflituosa, o que a faz sempre carente de superação histórica. Entre os conflitos básicos estão a desigualdade social e a dominação, que são estruturas fundamentais da dinâ mica histórica(5).

A realidade social está marcada pela consciência histórica, ainda que predominem fenômenos inconscien tes. De todos os modos, imaginamos poder planejar a história, o que acarreta a crença de que, ao lado de condições objetivas, podemos também influir com nossas iniciativas próprias.

(5) Sobre a visão histórico-estrutural da dominação e da desigua]. dade cfr. P. DEMO, Sociologia, uma introdução crí tica a sair pela Atlas, S. Paulo, 1983. Hans FREYER, Sociologia ciencia de la realidad, Buenos Aires , 1944.

Na realidade social há, no fundo, identidade entre sujeito e objeto, porque, estudando a sociedade, estudamos a nós mesmos. No mínimo, reclama-se entre sujeito e objeto interação dialética dinâmica, o que já eliminaria a possibilidade de mera descrição, ou de mero retrato, ou de mera estática lógica.

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