Comer bem, viver bem: arte, cultura e educação

Comer bem, viver bem: arte, cultura e educação

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Comer bem, viver bem: arte, cultura e educação

Michelle Jacob (Org.) isbn 978-85-5741-003-9

Revisão Viviany Chaves

Capa e diagramação Caio Fernando Xavier Pereira

Comer bem, viver bem: arte, cultura e educação

Organização: Michelle Jacob ISBN 978-85-5741-003-9

Para Elias Jacob, porque o viver bem precisa de um rosto.

SuMáRIO

Prefácio 6

Comer bem, viver bem: artes da nutrição humana 10

I. Arte para comer e viver bem

Aroma de especiarias e lábios de mel: alimentação e erotismo no Cântico dos cânticos

Agnes Félix 18

A Ética alimentar bíblica: os fundamentos da prática da comensalidade nos banquetes bíblicos

Raquel Santos Vitorino 40

A poética dos resíduos da Cinderela do Lixo: Carolina Maria de Jesus em seu Quarto De Despejo

Viviany Chaves 61

Por que sou gorda, Mamãe? Marcas da sociedade lipófoba em Cíntia Moscovich

Virgínia Williane de Lima Motta 7

A cozinha de Manet: alimentação e vida burguesa no século XIX

Analis Costa 98

I. Cultura para comer e viver bem

Casas de farinha: as raízes da mandioca no município de Cuité, Paraíba

Clébio dos Santos Lima 119

Aspectos culturais das mudanças alimentares no São João de Capina Grande, Paraíba.

Íris Cristhianne Jerônimo da Costa Melo 161

Ao vento ou ao sereno: os aspectos históricos e culturais da carne de sol do município de Picuí, Paraíba

Vanessa Nogueira Bezerra 178

I. Educação para comer e viver bem

Percepção dos educadores infantis sobre alimentação saudável: um estudo de caso em escolas de educação infantil em Picuí, Paraíba

Halana dos Santos Germano 207

Análise das ações de educação alimentar e nutricional em um espaço de educação não formal no município de Cuité, Paraíba

Helena Cristina Moura Pereira 223

A mesa de Clarice Lispector: a literatura na promoção da alimentação saudável nas escolas

Laysa Nóbrega 243

Saberes e sabores da infância: oficinas culinárias como princípio de educação alimentar e nutricional na educação infantil

Priscila Silva Cunha 261

Mapa da alimentação da literatura brasileira: o território na promoção da alimentação adequada nas escolas

Rafaela Juliane Silva Santos 279

Posfácio 304

PREfáCIO fazer um prefácio é sempre um ato de amor, seja pela afeição ao tema, ao conhecimento em si ou ao “encomendador” de tal tarefa. Como creio na causalidade, parece-me significativo que Michelle Jacob tenha me convidado para prefaciar esta coletânea organizada por ela. Vivo agora, enquanto dedilho estas palavras, os primeiros dias de minha aposentadoria, com desejo e necessidade de longas férias, mas interrompo essa volição por outra maior – a vontade de compartilhar algo, que como disse ela, só eu saberia contar, ou coisas que só uma velha professora pode dizer.

A organização de um livro traz a marca da pessoa que tem a ideia, reúne e transforma coisas dispersas no tempo e no espaço delineando-os em um conjunto harmonioso; aquela que faz de textos esparsos um escrito com sentido. Esta organização e os textos aqui apresentados traduzem a vida acadêmica de Michelle. Posso vê-la em seu tempo em cada um deles, porque vi(vi) este percurso com ela, como professora e amiga.

Nosso primeiro contato se deu quando ela cursava o quarto período de Nutrição, na disciplina de Nutrição Humana, para a qual eu era convidada a apresentar algo do qual quase todos os alunos e alunas nunca tinham ouvido falar – que se pode, SIM, viver saudavelmente sem comer carnes, ovos e laticínios e que algumas pessoas até o fazem. Como se o choque fora pouco, ainda falava daqueles que optam por não comer – os adeptos da nutrição prânica. Depois das costumeiras e

e me disse algo do tipo: “quero trabalhar contigo”; aía gente

eufóricas reações biologicistas, algo raro aconteceu: ao me dirigir à minha sala fui interceptada por um “furacão cheirando a vida”, que subindo as escadas correndo foi ao meu encontro colou, de IC a orientanda de TCC (claro, sobre nutrição prânica) ela esteve comigo durante toda sua graduação; vi Michelle ler os primeiros livros do que Josso chama “Ciências do Humano”; com seus inestimável auxílio e trabalho construímos um projeto de pesquisa sobre vegetarianismo, que rendeu várias monografias, dias de estudo, convivialidade e comensalidade. Ali ela conhecia e vivenciava o conceito de cultura e a cultura alimentar. Ali ela começava um caminho, que eu imaginara ser bonito, mas não tanto quanto sei e vejo agora.

Nos anos seguintes fui observadora de sua trajetória como mestranda e doutoranda em Ciências Sociais e como professora da área de “Ciências Sociais e Humanas em Alimentação e Nutrição” na ufCG. Sempre admirei de seus feitos, seu trabalho e ao ver este livro outra vez me bate esta sensação.

Ter este livro nas mãos com a função de prefacia-lo significa jogar-me em uma empreitada afetiva e racional. Ao mesmo tempo em que em suas diversas páginas vislumbro esta trajetória, não posso deixar de observar seu crescimento teórico e humano, traduzido nestes textos ora apresentados, fruto de suas orientações.

O conceito de cultura que habitava (habita?) as produções daqueles que militam o campo da “cultura alimentar” é fundado no respeito às diferentes formas de buscar, manipular, consumir e representar os alimentos pelos diferentes grupos humanos. Reverencia-se a tradição, os costumes. Michelle deu um passo à frente e os textos aqui apresentados revelam esta caminhada.

Sua aproximação com o conceito de cultura e com o pensamento complexo resultou em estudos e orientações que traziam à cultura alimentar a aproximação com as artes e com a religiosidade, com “os aventureiros do absoluto”, como chamou Todorov, evocando aqueles que tentam iluminar o real através do imaginário. Se com Dostoievski ela aprendeu que “a beleza salvará o mundo”, tentou salvar os humanos da miséria alimentar por meio dela, mas viu que poderia fazer mais – as pessoas podem salvar a si e aos outros animais e à Terra quando em comunhão.

O grande êxito do percurso de Michelle revelado neste compilado não foi somente perceber, mas adentrar neste universo e prática que rompe com o comportamento social hegemônico; foi perceber que, dentro e fora da academia, essa hegemonia cria/provoca espaço e condições para o surgimento de uma contracultura. Essa, em relação às práticas alimentares vem se fortalecendo como uma alternativa a uma produção massificada e industrializada dos alimentos. Cansadas de seguir os desmandos de um cultivo e comercialização de alimentos que não primam pela garantia de trabalho e comércio Justos, pelo respeito ao meio ambiente, pela ideia das sementes como patrimônio da humanidade, pela manutenção e propagação de práticas agrícolas sustentáveis sem uso de agrotóxicos, as pessoas buscam novos espaços, novas formas de fazer, novos jeitos de comer junto, plantar junto, cuidar da terra juntos. Ela e seus orientandos, aqui autores, estiveram e estão ao lado dessas gentes.

Aqueles aqui reunidos por Michelle trabalham com “cultura alimentar” e tentam dar o seu melhor. Há muito que fazer para que a “contracultura alimentar” se fortaleça. O que esta organizadora de textos e afetos vem nos ensinar é que não se trata de resgatar, mas de reinventar. O que os autores nos dizem é que não é momento de nos desencantarmos, mas de recantarmo-nos com as múltiplas possibilidades do amor à Terra como Gaia.

Escrevo este texto poucos dias depois de perdermos Leonard Cohen; pensando no muito a fazer no âmbito da Alimentação e Nutrição pela via da contracultura podemos tomar emprestado sua frase I’ve done my best, I know it wasn’t much e trabalhar, muito e sempre. Isto faz Michelle e os autores aqui reunidos.

Ao lê-los temos a certeza de que não somente nossos alunos e alunas de todos os níveis, mas também comerciantes, docentes, agricultoras e agricultores, donas e donos de casa, pais e mães, gestores e nutricionistas contam com uma geração de nutricionistas capazes de reconstruir práticas culturais, como disse Maturana, através de redes específicas de conversações. Diz este autor que as mudanças culturais ocorrem por uma modificação do emocionar, que ao assegurar uma nova rede de conversações constitui uma nova cultura.

Se você ainda não é um dos nossos, converse com estes autores através destes escritos; fale sozinho enquanto lê, fale com seus amigos depois de ler, seguramente pode ser um excelente começo para esta conversa capaz de mudar a vida e de mudar o mundo.

Vera Pinto

COMER BEM, VIVER BEM: ARTES DA NuTRIçãO HuMANA

Já que de toda forma é necessário comer, o que comer? Como resolver essa metonímia da introjeção? “É necessário comer bem”, desta forma, não quer dizer prender e compreender em si, mas aprender a dar de comer, aprender-a-dar-de-comer-ao-Outro. Jamais se come tudo sozinho, veja-se a regra do é necessário comer bem. É uma lei de infinita hospitalidade. Em todas as diferenças, as rupturas, as guerras, é esse bem comer que está em jogo. É necessário comer bem, eis aí uma máxima que deve sofrer ao infinito uma variação nas modalidades e nos conteúdos. O refinamento sublime no respeito é também uma maneira de comer bem ou de comer o bem. O bem também pode e deve ser comido e comido bem.

Jacques Derrida. Il fault bien manger. Points de suspension.

Que todos vayamos juntos, que nadie se quede atrás, que todo alcance para todos, y que a nadie le falte nada.

Provérbio Ayamara

Em entrevista a Jean-Luc Nancy, Jacques Derrida levanta a questão do sofrimento animal ligado à alimentação humana: comer é necessário, mas é necessário, também, fazer sofrer? Afinal, o que é comer bem?, lança a questão. Não por justificativa de aporte proteico, nem tampouco por falta de outras matérias, come-se animais. Para Derrida, a virilidade carnívora, que ele denomina como carnofalogocentrismo, é o esquema dominante de cultura ocidental. E é a partir dele, que mesmo os vegetarianos ou culturas ditas não-antropofágicas, tam- bém incorporam carnivoramente o outro: não basta absterse de comer carne para tornar-se um não-carnívoro. […] Os vegetarianos também podem incorporar, como todo mundo, simbolicamente, algo vivo, carne e sangue, do homem ou de Deus, comenta em sua obra O animal que logo sou.

Comer bem é, certamente, uma máxima que sofre ao infinito variação nas modalidades e nos conteúdos. A discussão levantada por Derrida que começa com a pergunta sobre o comer no sentido da incorporação física e nos convida a uma ampliação do pensamento para o modo de incorporação simbólica na cultura do ocidente - do homem branco que toma a sua própria mitologia, seu logos, pela forma universal do que se deve designar por razão - é exemplar da multiplicidade das instâncias do comer e, logo, da discussão em torno de um co- mer bem.

Comer bem: esse é o tema de interesse central da Nutrição. O caso apontado na discussão entre Nancy e Derrida é apenas um dos exemplos de questões que orbitam ao seu redor. Atualmente, a Nutrição, enquanto campo do conhecimento estabelecido sob o logos científico, vem abrindo-se a diálogos transdisciplinares, ao reconhecer que suas questões, que envolvem a relação do homem com o alimento, excedem o campo material da incorporação física, e repousam sob um terreno nômade, para utilizar a ideia de Gilles Deleuze, dotado de interseções com as Ciências Humanas e Sociais.

Marco significativo deste esforço de diálogo foi o destaque concedido à Interdisciplinaridade na área de Nutrição, no documento de avaliação trienal produzido pela diretoria de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em 2013. Neste relatório destaca-se que programas de pós-graduação na área de Nutrição poderão ser ordenados dentro dos seguintes núcleos de saberes: Nutrição Clínica, Nutrição Básica e Experimental, Ciência e Tecnologia de Alimentos Aplicadas à Saúde, Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva e, por fim, Ciências Humanas e Sociais em Alimentação e Nutrição, esta última envolvendo disciplinas e conteúdos como Sociologia, Antropologia, Epistemologia, entre outras.

Reconhecemos, entretanto, que há um longo caminho até o estabelecimento deste campo de reflexão, o da Ciências Humanas e Sociais em Alimentação e Nutrição, que pretendese a uma abordagem sistêmica, conforme sugere Humberto Maturana, do comer bem. Há de se refletir sobre seu lugar, visto que suas questões encontram-se sempre no limite entre campos diversos do saber.

No Brasil, os primeiros passos dessa jornada foram dados por nomes como Josué de Castro em Geografia da Fome, ao relacionar alimentação-território-política em uma análise conjuntural das carências nutricionais. Mais recentemente, a professora Maria do Carmo freitas reacendeu as luzes deste sendeiro quando em Agonia da fome tentou compreender os significados que a fome assume no dia-a-dia daqueles que convivem com esse espectro à sua porta. As professoras Maria Lúcia Magalhães Bosi, Rosa Wanda Diez Garcia, Shirley Donizete Prado e Lígia Amparo também foram pioneiras nestas reflexões e assumem um importante papel hoje no sentido de tentar conferir alguma ordem a este campo em pleno desenvolvimento no país. Ainda mais perto de nós temos a professora Vera Lucia Xavier Pinto, autora de A última ceia: por uma diet(ética) polifônica, que lançou as primeiras sementes em nosso território, ampliando o leque de questões em torno do comer bem.

Esse livro sintetiza os nossos primeiros passos ao compilar alguns trabalhos de conclusão de curso de alunos de graduação de duas universidades do Nordeste: universidade federal do Rio Grande do Norte e universidade federal de Campina Grande. Os trabalhos organizam-se em três seções: na primeira apresenta-se a arte como objeto de conhecimento no estudo do fenômeno alimentar, na segunda discute-se o relevo da análise cultural na compreensão desse fenômeno, por fim, destaca-se o papel da educação alimentar e nutricional como princípio de diálogo.

Por que começar pela arte? A arte oferece a justa medida de quem nós somos como humanos. Em De perto e de longe, Claude Lévi-Strauss afirma que a arte é uma via de acesso poderosa a um mundus imaginalis, entre os mundos interior e exterior ao indivíduo. Isso explica a aproximação constante entre arte e antropologia em sua trajetória. Em outras palavras, Edgar Morin em Cabeça bem feita afirma que em toda obra de arte há uma reflexão sobre a condição humana. É neste sentido que acredita-se que a arte funcione como objeto de conhecimento, neste caso, fornecendo corpus de pesquisa para o estudo do fenômeno alimentar. Agnes félix e Raquel Vitorino propõem análises a partir de um dos escritos literários que mais influenciou a cultura ocidental: a Bíblia. As autoras analisam a relação entre alimentação e erotismo e os fundamentos da prática da comensalidade nos banquetes bíblicos, respectivamente. Viviany Chaves apresenta uma perspectiva adicional para a leitura da fome, uma análise da obra Quarto de despejo, com elementos autobiográficos de Carolina Maria de Jesus. Virgínia Motta vai no sentido oposto, o da abundância, que constrói a sociedade lipófoba, conforme denominado por Claude fischler, e propõe uma leitura da obra da gaúcha Cíntia Moscovich, Por que sou gorda mamãe?. Analis Costa, por sua vez, sai do âmbito literário e apresenta a pintura como seu material de pesquisa. Para analisar os costumes alimentares do século XIX, apresenta a obra de Édouard Manet como um modelo reduzido levistrausiano da sociedade burguesa. Esse é o conteúdo da primeira seção, Arte para comer e viver bem.

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