Curso de filosofia - Antônio Rezende

Curso de filosofia - Antônio Rezende

(Parte 1 de 10)

Antonio Rezende organizador

Para professores e alunos dos cursos de ensino médio e de graduação

15ª reimpressão

Apresentação do organizador

Introdução: O QUE É FILOSOFIA E PARA QUE SERVE Maura Iglésias, PUC/RJ

1. PRÉ-SOCRÁTICOS: FÍSICOS E SOFISTAS Maura Iglésias, PUC/RJ

2. PLATÃO E AS IDEIAS José Américo Motta Pessanha, UFRJ

3. O REALISMO ARISTOTÉLICO Maria do Carmo Bettencourt de Faria, UFRJ

4. A FILOSOFIA CRISTÃ José Silveira da Costa, UFRJ

5. O RACIONALISMO CARTESIANO Hilton Japiassú, UFRJ

6. O EMPIRISMO INGLÊS Danilo Marcondes, PUC/RJ e UFF

7. O CRITICISMO KANTIANO Valerio Rohden, UFRGS

8. O POSITIVISMO DE COMTE Maria Célia Simon, USU

9. HEGEL E A DIALÉTICA Franklin Trein, UFRJ

10. O MATERIALISMO HISTÓRICO Wilmar do Valle Barbosa, UFRJ

1. O IRRACIONALISMO DE KIERKEGAARD Leda Miranda Huhne, USU

12. NIETZSCHE: UMA CRÍTICA RADICAL Vera Portocarrero, USU

13. O EXISTENCIALISMO DE SARTRE Gerd Bornheim, UFRJ

14. A FILOSOFIA ANALÍTICA Vera Cristina de Andrade Bueno, PUC/RJ e UFF Luiz Carlos Pereira, Unicamp e PUC/RJ

15. VISÕES DA MODERNIDADE Eduardo Jardim de Moraes, PUC/RJ Kátia Muricy, PUC/RJ

16. A FILOSOFIA NO BRASIL Antonio Rezende, PUC/RJ e CEN

Vocabulário elaborado por Hilton Japiassú Índice onomástico

O presente Curso de filosofia destina-se a todos os que se iniciam no estudo da matéria, assim como a todo leitor culto que tenha o seu interesse despertado pela temática dessa disciplina ou queira, de forma metódica e mais sistematizada, organizar as ideias filosóficas que integram já o seu repertório cultural, haurido em várias fontes dispersas, ao sabor da curiosidade e da ocasional motivação, ou construído, à maneira dos pensadores, em função do pathos, do espanto original propriamente filosófico.

Por isso mesmo, espera tornar-se um valioso instrumento para uso dos professores e alunos do ensino médio, onde o ensino da filosofia vem sendo reintroduzido.

Creio que é de Antonio Cândido a queixa de que ele próprio e os de sua geração nada escreveram que tivesse como destinatários os jovens adolescentes de nossos colégios e o leitor culto não especializado, ficando essa faixa expressiva da inteligência brasileira privada do indispensável instrumento teórico que a capacitasse a uma leitura mais ampla e consistente de seu tempo e seu país.

O presente manual pretende ocupar esse espaço no setor específico do saber filosófico, querendo contribuir, em nível de iniciação, para a formação da inteligência crítica de seus destinatários.

Para isso, ir aos filósofos mesmos constitui a mediação reconhecidamente necessária. Porque o espírito filosófico não se pode formar senão pelo contato direto com as filosofias e com os filósofos. Por isso, nossa opção, entre outras, foi a de contratá-los diretamente. Para tanto, decidimos apresentá-los historicamente encarnados e na ordem de sua aparição cronológica. O estudo histórico tem a vantagem de ser menos “dogmático” que o estudo temático, e de mais simples exposição pedagógica.

Inspirou-nos a estrutura deste Curso de filosofia a ideia de reunir num único documento uma história da filosofia — posto que não há aprendizado possível de filosofia sem a história da filosofia — e uma seleção de textos significativos dos grandes autores, capaz de ilustrar os temas básicos de nossa disciplina.

Inspirou-nos, também, o desejo de constituir este livro um verdadeiro manual, algo como um vade-mécum dos juristas, de indispensável e frequente consulta, sempre à mão, para tornar o filósofo aprendiz apto ao enfrentamento das grandes questões da filosofia, que são, afinal, de toda gente, e para, enfim, ensiná-lo a pensar.

A escolha dos diversos autores desta obra comum obedeceu ao critério da proximidade que facilitava o contato do organizador com os redatores dos vários capítulos e o da competência, visto serem todos eles profissionais qualificados, que gozam do reconhecimento da comunidade de alunos e professores e que, no banco de provas do dia a dia de sua atividade no magistério de nossas faculdades de filosofia, trabalham com seus discípulos os temas e os autores sobre os quais se dispuseram a escrever.

Naturalmente, tal mobilização se deveu ao espírito de militância fraterna e de companheirismo desenvolvido na convivência constante proporcionada pela seção regional da Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF-RJ) de que são sócios todos os coautores deste Curso.

Responde, finalmente, este livro ao desejo e inspiração do presidente da SEAF, professor

Olinto A. Pegoraro, que animou a sua publicação, querendo com isso traduzir, num gesto concreto, a intenção proclamada dessa entidade de dar ao ensino da filosofia no ensino médio o tratamento prioritário que sua reintrodução na rede das escolas públicas estava a exigir.

No tocante à estrutura do manual, vale notar que fizemos constar dele, na parte final, um glossário de termos mais usados em filosofia, com sua significação geral. No fim, porém, de cada capítulo, há uma listagem de palavras-chave, que constituem um vocabulário estrito para a leitura e a compreensão de cada capítulo em particular. Após cada capítulo, há também um questionário para uso dos alunos e cuja resposta correta constitui um indicador seguro da assimilação proveitosa do texto ou, caso contrário, um convite para a repetição da leitura até a obtenção do resultado positivo. Os temas, também no final de cada capítulo, são sugestões para animar seminários e debates programados pelo professor, temas que, embora sugeridos pelos textos — sempre acompanhados de comentários técnicos de seus apresentadores —, os extrapolam, naturalmente, abrindo-se aquelas perspectivas que fazem da construção da filosofia uma obra aberta e inconclusa.

Como todo manual, este é também um livro lacunoso. Lacunas aumentadas, sobretudo, pela urgência que marcou fortemente a sua elaboração. Por isso, contamos com o favor dos seus destinatários, de sua crítica e a dos professores que se dignarem utilizá-lo nos seus cursos para, numa próxima edição, isentá-lo das falhas e limitações que forem apontadas e melhorá-lo quanto estiver no alcance de seus autores.

Rio, maio de 1986, ANTONIO REZENDE (organizador)

Introdução O QUE É FILOSOFIA E PARA QUE SERVE

Maura Iglésias1

1. Filosofias

O uso normal e correto da língua portuguesa admite um sentido muito amplo para a palavra “filosofia”. Fala-se, por exemplo, que Fulano tem uma excelente “filosofia” de trabalho; que a vovó tem uma “filosofia” de vida formidável; e até mesmo que determinado técnico de futebol vai imprimir uma nova “filosofia” ao time. Em todos esses casos, parece que “filosofia” tem a ver com uma concepção, e pois com um “saber”, de como o trabalho, a vida ou o time de futebol devem ser dirigidos: há um “saber de direção” envolvido nessas filosofias. Mas fala-se também de filosofia hindu, de filosofia chinesa… E aqui parece que filosofia já tem um sentido mais técnico, de sistematização de pensamentos especulativos ou de reflexões morais produzidos pelo povo hindu ou pelo chinês. Como se não bastasse, as livrarias oferecem, sob a rubrica “filosofia”, uma variedade bastante exótica, onde aparecem, entre outras produções, tratados de ioga, e disciplinas espirituais e ascéticas de monges tibetanos.

Em todos esses casos, e é o que deve unificar tantos usos diferentes da palavra, filosofia tem a ver com uma forma de saber — e que não é um saber qualquer: não é, por exemplo, um “saber que o fogo queima”, ou um “saber nadar”, ou um “saber plantar”, ou um “saber fazer vestidos”, por mais úteis e até mesmo indispensáveis que sejam todos esses tipos de saber. “Filosofia” tem, mesmo no seu sentido lato, uma ligação com um saber que se percebe como sendo mais relevante, relativo a coisas mais fundamentais, embora menos diretamente úteis, que um simples saber empírico, ou que um saber ligado a produções de coisas indispensáveis para a sobrevivência. Não é, pois, meramente arbitrário o uso da palavra “filosofia” em todos os casos citados acima.

Mas é preciso estar ciente de que a disciplina acadêmica que se intitula “filosofia” usa essa palavra num sentido estrito, que exclui de seu âmbito não só a concepção de vida da vovó e as disciplinas ascéticas dos monges tibetanos, mas também — e esta afirmação talvez seja um tanto polêmica — textos às vezes altamente especulativos das milenares civilizações chinesa e hindu. Mas não há nenhum julgamento depreciativo por parte de quem nega ao pensamento hindu ou chinês o nome de filosofia. Quer-se simplesmente dizer que eles são diferentes, têm outros pressupostos, metas outras que a filosofia propriamente dita.

2. Filosofia Filosofia é uma palavra de origem grega (philos = amigo; sophia = sabedoria) e em seu sentido estrito designa um tipo de especulação que se originou e atingiu o apogeu entre os antigos gregos, e que teve continuidade com os povos culturalmente dominados por eles: grosso modo, os povos ocidentais. É claro que, atualmente, nada impede que em qualquer parte do mundo se possa fazer especulação “à moda grega”, isto é, filosofia.

Mas, se afirmamos que esse tipo de especulação é diferente, que tem características próprias, quais são estas, afinal? Que é, afinal, filosofia?

Bem… Se perguntarmos a dez físicos “o que é a física”, eles responderão, provavelmente, de maneira parecida. O mesmo se passará, provavelmente, se perguntarmos a dez químicos “o que é a química”. Mas, se perguntarmos a dez filósofos, “o que é a filosofia”, ouso dizer que três ficarão em silêncio, três darão respostas pela tangente, e as respostas dos outros quatro vão ser tão desencontradas que só mesmo outro filósofo para entender que o silêncio de uns e as respostas dos outros são todas abordagens possíveis à questão proposta.

Para quem ainda está fora da filosofia, a coisa pode estar parecendo confusa. Mas a razão da dificuldade é fácil de explicar: talvez seja possível dizer e entender o que é a física, de fora da física; e dizer e entender o que é a química, de fora da química. Mas, para dizer e entender o que é a filosofia, é preciso já estar dentro dela. “O que é a física” não é uma questão física, “o que é a química” não é uma questão química, mas “o que é a filosofia” já é uma questão filosófica — e talvez uma das características da questão filosófica seja o fato de suas respostas, ou tentativas de resposta, jamais esgotarem a questão, que permanece assim com sua força de questão, a convidar outras respostas e outras abordagens possíveis.

E já que os filósofos não vão mesmo entrar num acordo, deixemos de lado o problema da definição. Entremos de uma vez na filosofia, mais propriamente na metafísica de Aristóteles, onde este está justamente em busca de uma “sophia” (sabedoria) que seja a maior, a mais importante, a primeira sabedoria.

É pois evidente que a sabedoria [sophia] é uma ciência sobre certos princípios e causas. E, já que procuramos essa ciência, o que deveríamos indagar é de que causas e princípios é ciência a sabedoria. Se levarmos em conta as opiniões que temos a respeito do sábio, talvez isso se torne mais claro. Pensamos, em primeiro lugar, que o sábio sabe tudo, na medida do possível, sem ter a ciência de cada coisa particular. Em seguida, consideramos sábio aquele que pode conhecer as coisas difíceis, e não de fácil acesso para a inteligência humana (pois o sentir é comum a todos e por isso é fácil, e nada tem de sábio). Ademais, àquele que conhece com mais exatidão e é mais capaz de ensinar as causas, consideramo-lo mais sábio em qualquer ciência. E, entre as ciências, pensamos que é mais sabedoria a que é desejável por si mesma e por amor ao saber, do que aquela que se procura por causa dos resultados, e [pensamos] que aquela destinada a mandar é mais sabedoria que a subordinada. Pois não deve o sábio receber ordens, porém dá-las, e não é ele que há de obedecer a outro, porém deve obedecer a ele o menos sábio. Tais são, por sua qualidade e seu número, as ideias que temos acerca da sabedoria e dos sábios.

(Aristóteles, Metafísica, A 982 a)2

Cada uma das características apontadas por Aristóteles mereceria um exame especial. Mas fixemo-nos em algumas delas. O saber filosófico: 1) é um saber “de todas as coisas”, um saber universal; num certo sentido, nada está fora do campo da filosofia; 2) é um saber pelo saber: um saber livre, e não um saber que se constitui para resolver uma dificuldade de ordem prática; 3) é um saber pelas causas; o que Aristóteles entende por causa não é exatamente o que nós chamamos por esse nome; de qualquer forma, saber pelas causas envolve o exercício da razão, e esta envolve a crítica: o saber filosófico é, pois, um saber crítico.

3. Origem da filosofia

Platão e Aristóteles indicaram com precisão a experiência que, segundo eles, dá origem ao pensar filosófico. É aquilo que os gregos chamaram “thauma” (espanto, admiração, perplexidade).

Teeteto — E, pelos deuses, Sócrates, meu espanto é inimaginável ao indagar-me o que isso significa; e, às vezes, ao contemplar essas coisas, verdadeiramente sinto vertigem.

Sócrates — Teodoro, meu caro, parece que não julgou mal tua natureza. É absolutamente de um filósofo esse sentimento: espantar-se. A filosofia não tem outra origem … .

Com efeito, foi pela admiração [thauma] que os homens começaram a filosofar tanto no princípio como agora; perplexos, de início, ante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e enunciaram problemas a respeito das maiores, como os fenômenos da Lua, do Sol e das estrelas, assim como da gênese do universo. E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante (por isso o amigo dos mitos [filómito] é de um certo modo filósofo, pois também o mito é tecido de maravilhas); portanto, como filosofavam para fugir à ignorância, é evidente que buscavam a ciência a fim de saber, e não com uma finalidade utilitária.

(Aristóteles, Metafísica, A 982 b)

A filosofia, pois, começa quando algo desperta nossa admiração, espanta-nos, capta nossa atenção (que é isso? por que é assim? como é possível que seja assim?), interroga-nos insistentemente, exige uma explicação.

Espantar-se diante das coisas, interrogá-las, é próprio da condição humana. Qualquer cultura, por mais primitiva que seja, tem, desde sempre, seu arsenal de respostas e explicações às questões que normalmente são postas. No caso de questões originárias (como surgiu o mundo, como surgiu aquele determinado povo, de onde vem a chuva ou o trovão ou o fogo, como foram introduzidas as técnicas ou as regras sociais), é comum que as respostas estejam contidas em mitos. E se, por um lado, é normal ao ser humano espantar-se, interrogar, é por outro lado normal que não se espante nem se interrogue muito. Sendo a maioria das pessoas pouco exigente, as explicações dadas pelo mito, ou quaisquer outras explicações prontas de uma cultura, bastam para quebrar o espanto nascente, e, assim sendo, a filosofia não acontece. Aliás, é comum também que as questões mais fundamentais nem cheguem a ser postas — um ser humano pode crescer, assimilando com naturalidade as explicações dadas pela sua cultura sobre o mundo que o circunda, quer se trate do mundo físico, quer do social. As regras de conduta, o sistema de organização social muitas vezes não chegam a espantar ninguém. As pessoas crescem aceitando sem discutir os papéis sociais que lhes são atribuídos, sem jamais questionar seu valor e seu porquê, como se tudo fosse parte da ordem natural e inevitável das coisas. Ora, a filosofia grega parece ter surgido quando, por uma série de fatores complexos, que não podemos aqui desenvolver, as respostas dadas pelo mito a certas questões não satisfizeram mais a certas mentes particularmente exigentes de um povo particularmente curioso e passível de se espantar — e as questões continuaram assim, com sua força de questão e de espanto, a exigir uma resposta que fosse além das convencionais.

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