O EDUCADOR E SUA CONDIÇÃO DE APRISIONADO À LUZ DA ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO Por Edinei Messias

O EDUCADOR E SUA CONDIÇÃO DE APRISIONADO À LUZ DA ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO...

O EDUCADOR E SUA CONDIÇÃO DE APRISIONADO À LUZ DA ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO

Edinei Messias Alecrim1

Resumo:

Este artigo tem como objetivo discutir a relação existente entre a Alegoria da Caverna de Platão e a condição social em que se encontram nossos educadores. Traça-se uma importante discussão em torno das verdades ditas como acabadas e as influências que estas exercem sobre os educadores que ainda não despertaram seu posicionamento enquanto ser social, ou seja, que ainda permanecem aprisionados. Discutem-se nesse mesmo contexto a necessidade do educador se sentir pertencente à causa da educação, entendendo que esta, não tem neutralidade. Encerra-se este trabalho ressaltando a necessária e urgente postura do educador em sair do seu estado de aprisionado, para que veja a verdade real e não a que lhe foi dita.

Palavras-chaves: mito, alegoria da caverna, aprisionados, verdade, educador,

A ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO

A história da Alegoria da Caverna de Platão vem trazer as nuances que traduz o seu enorme significado para a vida social do educador. Assim, os seres humanos em sociedade nascem, crescem, reproduzem novos seres pensantes ou não, envelhecem e morrem. Esse ciclo biológico é algo natural, assim como também natural parece ser a condição do homem em permanecer ativo ou omisso diante dos fatos em uma determinada sociedade.

As verdades que permearam a sociedade em todas as épocas, nem sempre foram ditas como verdades absolutas, ou seja, elas foram colocadas como meias verdades, ditas como verdades acabadas, sem a necessidade de haver questionamentos.

O que há por trás do sentido da busca pela verdade daqueles que se encontravam aprisionado na caverna? No livro “A República”, Platão, por meio da Alegoria da Caverna, enfatiza que algumas pessoas permaneciam por um longo tempo dentro de uma caverna, com as pernas e pescoços acorrentados, com suas costas para a entrada da caverna, sem condições de se mexerem nem tão pouco enxergarem situações do cotidiano. Eles apenas viam sombras projetadas à sua frente, pois estavam impedidos pelas correntes de lançarem suas cabeças para a entrada da caverna.

Estas sombras, segundo Platão, eram as projeções de outras pessoas, animais ou plantas que se encontravam fora da caverna. Assim, estas imagens projetadas, eram confundidas com a realidade, ou seja, confundiam com a verdade, haja vista que esta era a única realidade que eles conheciam.

Nesse mesmo tocante, estes prisioneiros da caverna acabam enxergando uma realidade não total dos fatos, pois eram visto por eles apenas reflexos da realidade, projetados diretamente do mundo real que acontecia do lado de fora da caverna, porém que não era do conhecimento deles.

Partindo desse pressuposto, as sombras vistas eram na realidade algo que eles consideravam verdadeiro, pois era a única forma verdadeira que podiam ver, e essa era a verdade dos fatos para eles. Sendo assim, o mundo das sombras, das imagens era para eles a verdade. Esse mundo das sombras era também o mundo da escuridão, da ignorância, da total falta de conhecimento, e por sinal ausência da verdade.

As sombras fazia-os acreditar que ali estava a própria realidade, e que não ousariam imaginar que fora dali existisse outra realidade, algo novo, a própria verdade dos fatos.

Assim, quando um dos prisioneiros da caverna consegue se libertar e chegar até o lado de fora da caverna, num primeiro momento ao enfrentar a luz solar, seus olhos ficam ofuscados, mas logo se acostumou. Ele percebe a verdadeira forma das pessoas, dos animais e das plantas que eram projetados por meio das sombras na caverna, passando a enxergar as coisas como de fato elas eram. Nesse sentido, ele passou a ver a verdade a partir da realidade, e não por meio das aparências. Como estamos vendo a postura dos educadores frente às verdades que lidam diariamente no fazer da sala de aula? Nossos professores ainda professam em sala de aula como se de fato fossem donos da verdade? Como estão interagindo com os diversos significados do poder que ditam suas verdades? Vamos dar mais um passo à frente e melhor discutir tais questões.

O EDUCADOR E SEU APRISIONAMENTO

A relação do educador em seu fazer na sala de aula sempre foi determinada pelo significado de que este detém o poder da transmissão, e o aluno apenas como mero receptor dessas informações. Com o passar dos tempos, estudos teóricos e práticas pedagógicas motivaram uma reviravolta nessa concepção, originando a quebra desse paradigma.

Essa relação entre o sujeito que aprende e o sujeito que ensina, passou a ser olhada não mais pela ótica de que o conhecimento estava fixo no ser que ensina, mas na relação estabelecida entre ambos. Assim sendo, como se define as verdades ditas nessa relação? O conceito de conhecer a verdade partir da leitura da Alegoria da Caverna de Platão permite a compreensão de que se faz necessário olhar a nossa volta e perceber que muitos dos nossos alunos estão na escuridão.

Conduzir o sujeito para fora da caverna é uma tarefa de todo educador. Muitas salas de aula são o retrato da caverna referenciada por Platão. Conduzir, orientar, a saírem desse estado, não é tão fácil por concebermos educadores ainda na sua condição permanente de prisioneiro da caverna.

Diante de tal questão, como o educador pode permitir que seus alunos saiam da condição de prisioneiros da caverna? Sendo verdadeiro nas suas conjecturas teóricas e práticas! Não se podem conceber na atualidade, educadores que atrelados ao espírito do tradicionalismo da educação, acreditem que tudo, irá terminar em “pizza”, como se nada pudesse ser feito para retirar da condição de prisioneiros os que desejam ardentemente chegarem à luz do conhecimento. Qual o sentido do trabalho do educador na sociedade? Sobre esta questão,

O professor precisa indagar-se constantemente sobre o sentido do que está fazendo. Se isso é fundamental para todo ser humano, como ser que busca sentido o tempo todo, para toda e qualquer profissão, para o professor é também um dever profissional. Faz parte de seus saberes profissionais continuarem indagando, junto com seus colegas e alunos, sobre o sentido do que estão fazendo na escola. Ele está sempre em processo de construção de sentido.

Conhecer a verdade é algo que depende do contexto que se encontram inseridos, tanto o educador, quanto seus educandos. E a esse respeito, indago a necessidade da formação política de cada educador no sentido holístico da palavra. Pois sua inserção social delimitará seu espaço ideológico e acima de tudo sua forma de intervenção na realidade. E é na forma como intervém socialmente, sendo local ou global, que se percebe a ação de transformação ou de reprodução, oriunda de suas ações irá permitir ou não retirar os sujeitos da caverna, pois o como intervém, em muitas situações aprisiona.

Nesse sentido, entende-se que o educador é o ser que media o conhecimento, que estabelece as verdades, e que ao se inteirar desse “poder”, o faz alicerçado por saberes de sua formação acadêmica, pautada em valores internos oriundos da sua cultura local. Assim, mesmo com essa dita “liberdade” cultural, o sistema capitalista selvagem engessa as ações sociais dos educadores, por fomentar em aldeia global, o neoliberalismo, enquanto ideologia no contexto educacional.

O que seria essa ideologia? O termo Neo, vem significar “novo”, e liberalismo, congrega valores da onda selvagem do capitalismo, onde se perpetua a ótica do mercado sobre as necessidades primárias dos seres humanos. O neoliberalismo no contexto educacional vem pregando a ideia do “eu” sem o “nós”, ou seja, prega que nada pode ser feito coletivamente, desarticulando e tornando os educadores “seres ilhados”, sem poder de transformação social. E estão conseguindo! Permanecer sob este jugo é continuar aprisionado na caverna.

Assim, Gadotti (2003), enfatiza:

Por isso, hoje, o professor precisa mostrar que o neoliberalismo, com sua política de mercantilização da educação, tornou a sua profissão descartável. É preciso mostrar também que uma educação de qualidade para todos é inviável e contrária ao projeto político neoliberal capitalista. É preciso fazer a análise crítica, social, econômica. Mas tudo isso não basta. É preciso que a rigorosa análise da situação não fique nela, mas aponte caminhos e nos indique como caminhar. Caso contrário, as análises sociológicas e políticas, por mais rigorosas e corretas que sejam, ajudam apenas para manter o imobilismo e a falta de perspectivas para o educador. Há que superar tanto o imobilismo quanto a prática do imediatismo tarefeiro e descomprometido com um projeto amplo de sociedade.

Sair da caverna por esta concepção seria construir uma rede de ideias, ações que pudesse ir de encontro com a ótica neoliberal, fomentando e articulando projetos de valorização dos aspectos coletivos que fosse de encontro com os ideais neoliberais, hoje impregnados nas práticas pedagógicas dos educadores.

Nesse sentido, “numa perspectiva emancipadora, o educador é um intelectual orgânico das classes populares, a favor dos interesses das pessoas que necessitam de educação”. O professor por excelência, é um ser coletivo, repleto de valores acumulados durante sua prática docente e nos bancos das universidades, bem como trazidos culturalmente.

Seria somente esses valores acadêmicos e da cultura local do educador que estimularia a saída desses sujeitos da caverna? Uma nova concepção reforça que todo educador ao lidar com sujeitos que necessitam ser estimulados a pensar, necessita compreender que para educar, precisa antes de qualquer coisa se sentir pertencente a uma causa: a educação.

Esse pertencimento é algo presente e se encontra sendo um dos mais novos desafios da coletividade. Se sentir presente, atuante no cenário educativo é também uma condição de saída da caverna, e posteriormente de estímulo e motivação para modificar os ideais do clientelismo político, que ainda dita as regras no cenário da educação brasileira.

A esse respeito, o grande educador Paulo Freire, reflete sobre a educação enquanto postura não neutra. Essa postura enfatizada pelo educador frisa que toda educação, está a serviço da transformação ou da reprodução social, jamais neutra.

Barreto, (1998), nos ajuda nessa reflexão, reforçando que

Paulo Freire foi, provavelmente, o primeiro educador a proclamar que não existe educação que seja politicamente neutra. Em outras palavras, que numa sociedade em que convivem segmentos da população com interesses opostos e contraditórios, é impossível a existência de uma única educação que sirva, da mesma maneira, a todos estes grupos sociais. Ela estará sempre a favor de alguém e, por conseqüência, contra alguém. Numa sociedade de classes não é possível um tipo de educação que seja a favor de todos.

A postura do educador também é de refletir o seu próprio papel nesse contexto das meias verdades em seus locais de trabalho e na conjuntura global. As verdades ditas são na essência, verdades completas? Como estas verdades estão construindo o modelo de educação que tanto sonhamos? A esse respeito, Guarechi (2003), tece comentários, indagando que

Para entender isso, é preciso ver como nós ficamos sabendo das coisas e quem é que nos diz as coisas. É preciso ver se aqueles que nos dizem as coisas, não nos dizem apenas metade das coisas, ou só um jeito de ver as coisas.

A visão que cada educador tem de si mesmo, seria uma visão própria ou oriunda de valores externos sem uma reflexão crítica do seu real papel? Todas as definições dadas a respeito do trabalho do educador, nem sempre é carregada de verdades, elas estão presentes e até então rotulam os educadores, como desmotivados, desvalorizados. Seria isso a verdade por completa? E qual o sentido de se dizer estas “meias verdades”? De fato, seria fazer com que nossos educadores permaneçam aprisionados na caverna.

Outro fator de extrema relevância que deve ser discutido com foco nas contribuições para a mudança de postura dos educadores é entender como as coisas que estão postas chegaram a estarem como estão. Parece nos complexo entender essa questão, partindo do pressuposto que temos no conjunto da sociedade educadores despolitizados. Para Platão, essa condição é de permanência na caverna. E a essa questão é pertinente dizer que no conjunto da sociedade, educadores estão presos às suas localidades, despolitizados, acomodados, fazendo-nos recordar a vida dos prisioneiros da alegoria da Caverna de Platão.

O educador para sair do seu aprisionamento local, deve necessariamente a partir da visão do Mito da Caverna de Platão, criar uma fotografia da sua realidade, que mostre o seu funcionamento e suas relações de poder e a quem esse poder de fato serve. Quando percebemos estas relações de poder existente, vejo a verdade real e não a que me foi dita, e é nessa tensão de idéias que emerge um novo educador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação precisa ser repensada dentro da sua condição e sentido socialmente. Atrelada a esta mudança de paradigma se encontra a necessidade de emergir um novo educador que seja capaz de fazer de forma coletiva a mudança necessária.

Mas, como fazer esta mudança se grande parcela dos educadores se encontram aprisionados em suas cavernas? Estão imobilizados, anestesiados na sua condição de sujeito transformador. Romper com essa condição é tarefa de cada educador. Conhecer as meias verdades proferidas como verdades acabadas deve ser primícias de todo educador que não deseja mais permanecer na escuridão.

A condição de aprisionado, tão relatado na alegoria da Caverna de Platão, é algo tão próximo de nós. Muitos dos nossos educadores permanecem na escuridão, despolitizados, acomodados, permitindo que as ideias neoliberais transformem sua condição de educador em mero ser descartável.

Hoje como nunca, a mudança de postura é algo relevante. Mudar para que se faça valer o sentimento de pertencimento a uma causa maior, neste caso a educação. Sair da condição de aprisionado é mudar, acreditar que se pode fazer mais por uma realidade melhor para todos. Permanecer na caverna é dar continuidade a ótica de que tudo “terminará em pizza”.

O educador da contemporaneidade deve ser capaz de enxergar as amarras que o aprisiona. Acreditar que a força de sua condição de educador está atrelada a sua postura transformadora, diferente disso, permanecerá aprisionado nos grilhões do comodismo.

No entanto, se a educação não é neutra, neutra jamais deve ser a postura do educador. Todo educador que almeja conhecer a verdade, permeia sua postura a partir do conhecimento da verdade completa, deve primar por conhecer toda a realidade que o cerca, e não olhar perplexos as sombras que passam pelas frestas da luz, conforme nos ajuda a entender a Alegoria da Caverna de Platão.

Contudo, para sair do fundo da caverna, o educador precisa entender que a realidade educativa na qual se encontra inserido, é determinada pelas relações de poder, e que estas relações, determinará que tipo de educação se pensou para esta comunidade. A posição tomada pelo educador diante dessa realidade observada é que definirá, se ele se emancipou ou preferiu permanecer aprisionado dentro da caverna.

REFERÊNCIAS

BARRETO, Vera. Paulo Freire para educadores. São Paulo: Arte & Ciência, 1998. P. 61.

GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. Novo Hamburgo: Feevale, 2003. P. 71.

GUARECHI, Pedrinho A., Sociologia crítica: alternativas de mudança. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2003. P. 19.

GUINSBURG. J. Platão: a república. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965.

1 Mestrando em Educação; Pedagogo; Assistente Social; Psicopedagogo e Profissional de Segurança Pública do Estado da Bahia.

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