Schumpeter - Capitalismo Socialismo e Democracia (Livro)

Schumpeter - Capitalismo Socialismo e Democracia (Livro)

(Parte 1 de 7)

Joseph A. Schumpeter

Editado por George Allen e Unwin Ltd. Tradução de Ruy Jungmann.

Joseph A. Schumpeter / (Editado por George Allen e Unwin Ltd., traduzido por Ruy Jungmann). — Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961.

Tradução do original inglês Capitalism, Socialism, and Democracy.

Reservados todos os direitos de publicação, total ou parcial, em língua portuguesa pela EDITORA FUNDO DE CULTURA S.A. que se reserva a propriedade sobre esta tradução.

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A equipe OrdemLivre.org agradece a Editora Fundo de Cultura por autorizar a edição online da presente obra.

PARTE I — PODERÁ SOBREVIVER O CAPITALISMO? PRELIMINAR MÉDIA DE CRESCIMENTO DA PRODUÇÃO TOTAL O CAPITALISMO PLAUSÍVEL O PROCESSO DA DESTRUIÇÃO CRIADORA As PRÁTICAS MONOPOLISTAS UM PERÍODO DE TRÉGUA MENORES OPORTUNIDADES PARA O INVESTIMENTO A CIVILIZAÇÃO DO CAPITALISMO PAREDES EM DESMORONAMENTO HOSTILIDADE CRESCENTE DECOMPOSIÇÃO

PARTE V — ESBOÇO HISTÓRICO DOS PARTIDOS SOCIALISTAS PRELIMINAR A MENORIDADE A SITUAÇÃO ENFRENTADA POR MARX DE 1875 A 1914 ENTRE DUAS GRANDES GUERRAS MUNDIAIS As CONSEQÜÊNCIAS DA I GUERRA MUNDIAL

ESTE LIVRO constitui uma tentativa de fundir, em forma coerente, quase quarenta anos de pensamentos, observações e pesquisas sobre o socialismo. O problema da democracia forçou sua entrada no lugar em que hoje ocupa neste volume porque verificamos ser impossível expressar as nossas opiniões sobre as relações entre a ordem socialista da sociedade e o método democrático de governo sem uma análise um tanto longa deste último.

O trabalho se tornou mais difícil do que pensamos inicialmente. Parte do material heterogêneo que fomos obrigados a reunir refletia as opiniões e experiências de um indivíduo que, em várias fases da vida, teve mais oportunidades de observação do que habitualmente têm os não-socialistas e que reagiu diante dos fatos de uma maneira não-convencional. Não desejamos apagar os traços dessa reação, pois grande parte do interesse que o trabalho poderia despertar seria perdida se os ignorasse.

Além disso, o material refletiu também o trabalho analítico de uma pessoa que, embora sempre honestamente tentando sondar os fatos sob a superfície, jamais fez dos problemas do socialismo o principal assunto das suas pesquisas profissionais por qualquer grande espaço de tempo e, por conseguinte, tem muito mais a dizer sobre certos tópicos do que sobre outros. Para não dar a impressão de que procuramos escrever um tratado bem equilibrado, julgamos melhor avisado agrupar nosso material em torno de cinco temas centrais. Elos e pontes entre eles foram estabelecidos, naturalmente, conseguindo-se, segundo esperamos, certa unidade sistemática de apresentação. Mas em essência eles são, embora não independentes, trabalhos quase autônomos de análise. (IV)

A primeira parte resume, em linguagem acessível ao leigo, as nossas opiniões — o que, na verdade, vimos ensinando há algumas décadas— sobre a doutrina marxista. Prefaciar uma discussão dos principais problemas do socialismo como uma exposição do seu Evangelho seria natural para qualquer marxista. Mas qual será o objetivo dessa exposição no saguão de um edifício construído por um autor não-marxista? Justamente para servir de testemunho da importância que atribuímos a essa mensagem, uma importância completamente à parte de sua aceitação ou rejeição. Mas é leitura algo árida. E nenhum instrumento marxista foi usado nos capítulos subseqüentes. Embora os resultados das últimas partes sejam amiúde comparados com os cânones do grande pensador socialista, os leitores não interessados no marxismo podem pular para a Parte I.

Na segunda parte — Poderá Sobreviver o Capitalismo? — procuramos demonstrar que uma forma socialista de sociedade surgirá inevitavelmente da decomposição, igualmente inevitável, da sociedade capitalista. Muitos leitores se perguntarão por que julgamos necessária análise tão trabalhosa e complexa para provar aquilo que se transforma rapidamente em opinião geral, até mesmo entre os conservadores. A razão é que, embora a maioria de nós concorde quanto aos resultados, não concorda quanto à natureza do processo que está matando o capitalismo e ao significado exato que devemos dar à palavra inevitável. Acreditando que está errada a maioria dos argumentos oferecidos, ao longo de linhas marxistas ou mais populares, consideramos um dever enfrentar, e convidar o leitor a enfrentar conosco, as numerosas dificuldades que levariam à nossa paradoxal conclusão: o capitalismo está sendo liquidado pelos seus próprios méritos.

Admitindo, como pensamos que todos admitiremos, que o socialismo é uma possibilidade prática que se pode tornar imediatamente real em conseqüência do atual conflito, examinaremos na terceira parte o grande número de problemas que afetarão as condições nas quais a ordem socialista pode tornar-se um sucesso econômico. Essa parte é a que mais se assemelha a um tratamento equilibrado dos seus vários tópicos, incluindo os problemas de transição. As simpatias e antipatias toldaram de tal maneira os resultados do trabalho sério até hoje realizado sobre a questão (pouco, aliás), que até mesmo a simples reafirmação de opiniões geralmente aceitas parece justificada cm certos trechos do livro.

A quarta parte — Socialismo e Democracia — constitui uma contribuição à controvérsia que se vem arrastando por algum tempo nos Estados Unidos. Mas é preciso levar em conta que se trata aqui apenas de uma questão de princípios. Os fatos e comentários relevantes (V) sobre o assunto acham-se espalhados por todo o livro, especialmente nas Partes I e V.

A quinta parte nada mais é do que pretende ser: um simples esboço. Mais do que algures, limitamo-nos ao que aprendêramos à custa de observações pessoais e de umas poucas pesquisas fragmentárias. Por conseguinte, o material de que nos servimos é lamentavelmente incompleto.

Nenhuma parte do conteúdo dessa parte do livro foi publicada ainda. Um antigo esboço da argumentação contida na Parte I, contudo, serviu de base para uma conferência pronunciada na Escola de Aperfeiçoamento do Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, no dia 18 de janeiro de 1936, tendo sido mimeografada por essa instituição. Finalizando, desejamos agradecer ao Sr. A. C. Edwards, Presidente da Comissão de Coordenação da Escola, a permissão de incluir neste volume uma versão ampliada do primitivo trabalho.

JOSEPH A. SCHUMPETER Taconic, Connectcut - Março de 1942

PREFÁCIO DA 2ª. EDIÇÃO AMERICANA

A PRESENTE EDIÇÃO reproduz integralmente a de 1942 sem qualquer alteração, salvo a inclusão de mais um capítulo. Abstivemo-nos de modificar o fraseado, não obstante casos claramente indicados em certo número de passagens, porque julgamos impossível mudar a redação sem modificar-lhe a significação ou, pelo menos, de incorrer na suspeita de tê-lo feito. E também porque atribuímos importância ao fato de que nem os acontecimentos dos últimos quatro anos nem a crítica ao livro afetaram nossos diagnósticos e prognósticos, os quais, pelo contrário, parecem--nos inteiramente confirmados por esses mesmos fenômenos. O único objetivo que nos inspirou a escrever o novo capítulo foi o de aprofundar, à luz desses fatos novos, certos argumentos contidos no velho texto, particularmente a Seção IV do Capítulo XIX e a Seção V do Capítulo XXVII, e indicar também de que maneira a situação vertente se encaixa na filosofia da história bosquejada adiante. Aproveitamos também a oportunidade para nos referir a certas críticas, ou melhor, tipos de crítica, que foram tecidas em torno do nosso trabalho, embora não necessariamente na imprensa. Desejamos mencionar esses fatos na esperança de que as soluções propostas a seguir sejam de alguma utilidade para os leitores e não porque sintamos algum ressentimento em face da acolhida dispensada ao livro. Pelo contrário, desejamos aproveitar o momento para expressar nossa gratidão aos críticos pela invariável cortesia e bondade com que nos trataram, sem esquecer o generoso trabalho dos seus tradutores em sete diferentes idiomas.

Em primeiro lugar, permitam-nos mencionar duas críticas que poderíamos chamar de natureza especializada. Um eminente economista (VII) de reputação internacional discordou do nosso ponto-de-vista de que, como parte do processo social descrito neste livro, há uma tendência a longo prazo para o desaparecimento dos lucros. A atividade comercial, disse ele, terá sempre o seu preço. Não acreditamos que haja qualquer divergência real entre nós, salvo se usamos a palavra lucros em sentidos diferentes. Uma campanha de vendas, ainda necessária numa economia que se assentou em rotina estável, terá inevitavelmente de produzir benefícios idênticos aos de qualquer outra atividade inerente à administração de um negócio qualquer. Mas incluímos esse lucro nos salários da administração da empresa para isolar e salientar aquilo que consideramos a fonte principal do ganho industrial, isto é, os lucros que a ordem capitalista atribui à implantação bem sucedida de novas mercadorias, novos métodos de produção ou novas formas de organização. Não vemos como negar que a história industrial confirma de maneira convincente a importância desse elemento na renda capitalista. E sustentamos que, com a crescente mecanização do progresso industrial (o trabalho de equipe em departamento de pesquisas, etc.), esse elemento, e com ele o mais importante pilar da posição econômica da classe capitalista, está destinado a desmoronar-se eventualmente.

A crítica mais freqüente dos argumentos puramente econômicos do presente livro que nos chegaram ao conhecimento —- algumas vezes se exacerbando até a paixão — foi, no entanto, dirigida contra o que muitos leitores consideram uma defesa das práticas monopolistas. Realmente, acreditamos que a maioria das opiniões correntes sobre o monopólio, da mesma maneira que todas as opiniões sobre os sombrios efeitos da poupança, nada mais é que parte de uma ideologia radical, sem qualquer base nos fatos. Em certas ocasiões, expressa-mo-nos em termos mais contundentes, especialmente sobre a política, projetada ou já em vigor, baseada nessa ideologia. Mas aqui, por questão de dever profissional, desejamos apenas declarar que tudo que o leitor encontrará adiante sobre o monopólio reduz-se, em última análise, às seguintes proposições que, sustentamos, nenhum economista competente pode refutar.

1. A teoria clássica da fixação monopolista dos preços (a teoria de COURNOT-MARSHALL) não é inteiramente desprovida de valor, especialmente quando modificada para levar em conta não apenas a elevação instantânea, ao máximo, dos lucros monopolistas, mas também sua elevação ao máximo no decorrer dos anos. Mas ela se baseia em presunções tão restritivas que excluem sua aplicação direta à realidade. Em particular, nada justifica que seja usada da maneira que conhecemos nos trabalhos didáticos correntes, isto é, servindo (VIII) para uma comparação entre a maneira em que funciona a economia puramente competitiva e uma economia que contém grande parte dos elementos característicos do monopólio. A principal razão de tudo isso é que a teoria supõe uma certa procura e condições de custo, as mesmas para os casos competitivo e monopolista, quando constitui justamente a essência das grandes empresas modernas que a procura e suas condições de custo sejam, para grande parte da produção, muito mais favoráveis — inevitavelmente — do que a procura e condições de custo que existiriam nas mesmas indústrias em um regime de concorrência perfeita.

2. A teoria econômica atual constitui quase que apenas um exemplo de administração de uma dada organização industrial. Mas muito mais importante do que a maneira em que o capitalismo administra determinadas estruturas industriais é a maneira em que as cria. (Veja os Capítulos VII e VIII). E nesse processo entra necessariamente o elemento do monopólio, circunstância que dá aspecto inteiramente diferente ao problema e aos métodos legislativos e administrativos de enfrentá-lo.

3. Em terceiro, os economistas que deblateram contra os cartéis e outros métodos de autogoverno industrial muitas vezes nada dizem que seja intrinsecamente errôneo. Mas sempre deixam de fora as necessárias restrições. E, evidentemente, ao deixar de lado limitações imprescindíveis, não dizem toda a verdade. Poderíamos acrescentar outros argumentos, mas deles nos absteremos para passar a uma segunda classe de objeções.

Pensamos ter tomado todo o cuidado necessário para deixar patente que este livro não é de natureza política, nem deseja advogar qualquer tese. Apesar disso, para distração nossa, imputaram-nos a intenção, e mais de uma vez, embora não na imprensa, segundo pensamos, de advogar o coletivismo estrangeiro. Mencionamos este fato não pelo seu valor intrínseco, mas para mostrar outra objeção que por trás dele se esconde. Se nós não advogamos o coletivismo, interno ou externo, ou qualquer outra coisa, por que teríamos escrito este livro? Não será fútil elaborar inferências baseadas em fatos observados sem chegar a uma recomendação prática? Sentimos sempre grande interesse toda vez que deparamos com essa objeção, que é, na verdade, um sintoma característico de uma atitude moderna que tanta coisa explica. Todos nós planejamos muito e pensamos muito pouco. Ressentimos um apelo ao raciocínio e odiamos os argumentos não-familiares que não se coadunam com aquilo em que acreditamos ou gostaríamos de acreditar. Caminhamos para o futuro como entramos numa guerra, de olhos vendados. Mas foi justamente nesse campo (IX) que aspiramos prestar um serviço ao leitor. Quisemos fazê-lo pensar. E, para conseguir isto, consideramos essencial não desviar-lhe a atenção com discussões a respeito do que deve ser feito, o que provavelmente lhe despertaria o interesse. A análise tem objetivo diferente, que desejamos manter à vista, embora percebêssemos claramente que essa atitude nos custaria grande parte da satisfação que umas poucas páginas de conclusões práticas teriam provocado.

Essa atitude, finalmente, leva-nos à acusação de derrotismo, que nos foi assacada. Negamos redondamente que tal palavra seja aplicável a qualquer trabalho de análise. O derrotismo denota um certo estado mental que tem significação apenas quando em referência à ação. Os fatos em si mesmos, e as inferências neles baseadas, jamais podem ser derrotista:;, ou seu oposto, seja lá isto o que for, A comunicação de que um navio vai a pique nada tem de derrotista, O espírito em que é recebida a comunicação, sim, pode ser classificado de derrotista. A tripulação pode sentarse confortavelmente c começar a beber. Mas pode correr também para as bombas. Se os tripulantes simplesmente se recusarem a aceitar a comunicação, embora devidamente comprovada, eles serão, então, escapistas. Além disso, mesmo que a nossa descrição das tendências vigorantes significasse mais do que uma simples predição, como desejamos, ela ainda assim não teria qualquer conotação derrotista. Que homem normal se recusaria a defender a vida simplesmente porque está convencido de que, mais cedo ou mais tarde, terá de morrer? Isso se aplica a ambos os grupos de onde partiram essas acusações: aos defensores da sociedade da livre iniciativa e aos patronos do socialismo democrático. E, no entanto, ambos terão muito a ganhar se chegarem a perceber mais claramente do que agora a natureza real da situação social em que terão de agir.

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