MArcuse capítulos 5, 6 e 7

MArcuse capítulos 5, 6 e 7

(Parte 1 de 3)

. "aquilo que é não pode ser verdadeiro." Aos nossos \. t11ti/JI): .

olhos e ouvidos bem adestrados, essa declaração é irreverente cJ / ; , e ridícula, ou tão ultrajante quanto a outra, que parece dizer o lAAJ .lV"'LD' ,.:i/ oposto: "o que é real é racional". No entanto, na tradição do I 17 ; '~ cadoramente resumida, a idéia de Razão que guiou a sua lógica. .

Mais ainda, anibas expressam o mesmo conceito, a saber, a estrutura antagônica da realidade, e do pensamento tentando compreender a realidade, O mundo da experiência imediata - o mundo em que nos encontramos vivendo - deve ser compreendido, transformado e até subvertido para se tornar aquilo que verdadeiramente é.

Na equação Razão = Verdade = Realidade, que reúne os mundos subjetivo e objetivo numa unidade antagônica, a

Razão é o poder subversivo, o "poder do negativo" que estabelece, como Razão teórica e prática, a verdade para os ho- mens e as coisas - isto é, as condições nas quais os homens e as coisas se tornam o que realmente são. A tentativa de demonstrar que essa verdade da teoria e da prática não é uma condição subjetiva, mas objetiva, foi a preocupação original do pensamento ocidental e a origem de sua lógica - lógica, não no sentido de uma disciplina especial da Filosofia, mas como o modo de pensar apropriado para compreender o real como racional.

O universo totalitário da racionalidade tecnológica é a mais recente transmutação da idéia de Razão. Tentarei, neste capítulo e nos que se seguem, identificar algumas das principais etapas do desenvolvimento dessa idéia - o processo pelo qual \

r a lógica se tornou a lógica da dominação. Tal análise ideoló- '-(Ira poêle contnoufrpaiã'-'ã-êõíi:ipr-eensao do desenvolvimento real, visto que é focalizada na união (e na separação) da teoria e da prática, do pensamento e da ação no processo histórico - um. desdobramento da Razão teórica e prática numa só.

O universo operacional fechado da civilização industrial desenvolvida, com a sua aterradora harmonia entre liberdade e opressão, produtividade e 'destruição, crescimento e regressão está pretraçado nesta idéia de Razão como um projeto histórico específico. As fases tecnológica e pré-tecnológica comparti- lham certos conceitos básicos sobre o homem e a natureza, que expressam a continuidade da tradição ocidental. Dentro desse contínuo, diferentes modos de pensar se entrechocam; pertencem a maneiras diferentes de apreender, organizar e modificar a sociedade e a natureza. As tendências estabilizadoras entram em conflito com os elementos subversivos da Razão, o poder do ~ pensamento positivo com o do negativo, até que as realizações \)- da civilização industrial avançada conduzam à vitória da realidade unidimensional sobre toda a contradição.

Bsse conflito data das próprias origens do pensamento filosófico e tem surpreendente expressão no contraste entre a lógica dialética de Platão e a lógica formal do Organon aristotélico. O esboço do modelo clássico do pensamento dialético, que se segue, poderá preparar o terreno para uma análise das particularidades contrastantes da racionalidade tecnológica. Na ~sofia

clássica grega, Razão é a faculdade cognitiva para distinguir o que é verdadeiro e o que é falso, na medida em que a verdade (e~ falsidade) é primordialmente uma condição do Ser, da Realidade - e somente nessse terreno uma propriedade das pro osifões. Verdadeira locução, a lógica revela e expressa áqüilo que verdadeiramente é ~ distintamente daquilo que parece ser (real). E, em virtude dessa equação entre Verdade e Ser (real), a Verdade é um valor, porquanto Ser é melhor do que Não-Ser. Este último não é simplesmente o Nada; é uma potencialidade e uma ameaça de Ser - destruição. A luta pela verdade é uma luta contra a destruição, porque a "salvação" (aw'fLv) do Ser (um esforço que parece ser ele próprio des- trutivo se ataca uma realidade estabelecida como sendo "inve- I rídica": Sócrates contra Cidade-Estado atenienSe,)' Na medida I' ( .em que a luta pela verdade "salva" a realidade da destruição, c verdade comproniete e empenha a existência humana. É o projeto essencialmente humano. Se o homem tiver aprendido a ver e a conhecer o que a realidade é, agirá em concordância com a verdade. Epistemologia é, em si, ética, e ética é epistemologia.

Essa concepção reflete a experiência de um mundo antagônico a si mesmo - um mundo afligido pela necessidade e pela negatividade, constantemente ameaçado de destruição, mas também um mundo que é um cosmo, estruturado de conformidade com causas finais. Desde que a experiência de um mundo antagônico guie o desenvo vlmento as cate oflas I osôflcas a iloso Ia se move num universo que é ram ido em si mesmo (déchirement ontologique - õiaime sional. AparencIa e reali- da e, inver a e e verdade e co veremos, não-liberdade e liberdade )[jão coõalÇões ontológicas.

A distinção não existe em virtu e ou por_culpa ç!,opensamento abstrato; está, antes, arraigada na experiência do unLverso do qual o pensamento participa na teoria e na prática. Neste universo, há modos de ser nos quais os homens e as coisas são "por si" e "como eles próprios", e modos nos quais não são - isto é, nos quais existem na deformação, na limitação e na negação de sua natureza (essência). Para superar essas condi- ções negativas há o processo do ser e do pensamento. A Filosofia se origina na dialética; seu universo da locução reage aos' fatos de uma realidade antagônica.

Quais os critérios para essa distinção? Em que bases é a condição da "verdade" destinada a um modo ou condição e não a outro? A Filosofia clássica grega assenta grandemente no que foi posteriormente chamado (num sentido assaz desairoso) "intuição", isto é, uma forma de cognição na qual o objeto do pensamento aparece claramente como aquilo que ele realmente é (em suas qualidades essenciais) e em relação antagônica com a sua situação contingente imediata. Na verdade, essa evidência da intuição não é demasiado diferente da cartesiana. Não é uma faculdade misteriosa da mente, nem uma experiência estranha imediata, tampouco estando divorciada da análise conceptual. A intuição é, antes, o término (preliminar) de tal análise - o resultado da mediação intelectual metódica. Como tal, é a mediação da experiência concreta.

A noção da essência do homem pode servir de exemplo.

Analisado na condição em que ele se acha no seu universo, o homem parece estar de posse de certos poderes e faculdades que

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lhe permitiriam levar uma "boa vida", isto é, uma vida ao máximo possível independente de labuta, dependência e feiúra. Alcançar tal vida é conseguir a "melhor vida": viver de acordo com a essência da natureza ou do homem.

Na verdade, esta ainda é a sentença do filósofo; é ele quem analisa a situação humana. Submete a experiência ao seu jul- () gamento crítLc.o,_e_isto-contém_YU.Lj1!.lgªmemi. ~ Y!lI.9r_ a sâõer,0 de ue a liberdade da labuta é referível à labuta, e umã VI a in~ 1gen~~erív~ a .!lmll..vil;!ª-est.!Ípf9~. , Àconteceu éfliê7Filosofia nasceu com esses valores. O pensamento científico teve dêrõn'ipefeSsãUffiao àõjtrl'gamento do valor com a análise, porque se tornou cada vez mais claro que os valores filosóficos não guiavam a organização da sociedade nem a transformação da natureza. Eram ineficazes e irreais. A concepção grega já continha o elemento histórico - a essência do homem é diferente no escravo e no cidadão livre, no grego e no bárbaro. A civilização superou a estabilização ontológica dessa diferença

(pelo menos em teoria). Mas esse acontecimento ainda não invalida a distinção entre natureza essencial e natureza contingente, entre lormas verdadeira êlâlSãdêê'XiSfênéiã =Oastã'ndõ, d' ., somente, que a dlstinçao se aenve-dê"-üma análise"ÚSgiCa' da .;

contíngencía. (] ,"

Para o Piatão dos últimos diálog~_p-ara Aris!9tele~,~~s ~ ~,

"Ser finito é realização incompleta, sujeito a modificação. Sua ~-('

geração é corrupção; está permeada de negatividade. Assim, não -~\ ir ..:> é realidade verdadeira - Verdade. A busca filosófica prossegue '[--..! ~~ do mundo finito para a construção de uma realidade que não 1'S ~ ~ está sujeita à. dolorosa diferença entre potencialidade e realidade, I 4. ,:{ " que dominou sua negatividade e é completa e independente em ,~ s:.

Essa descoberta é obra de Logos e Eros. Os dois termos- (J;:: chaves designam duas modalidades de negação; a cognição, tanto ~ .' "..." erótica como lógica, rompe a influência da realidade estabelecida ~ {, t,~.,v e contingente e luta por uma verdade incompatível com ela. " ~.~ Logos e Eras são a um só tempo subjetivos e objetivos. ~ -

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V I 'ti.. Ó\e..t.,t••A,. f) '" VC-I. l .2,..J... ".Ao__ 7iJt c:

Aristóteles, a realidade perfeita, o deus, atrai o mundo que está r' • em baixo W<; EPWP.EVOV; ele é a causa final de todo ser. Logos e ' amor está a negação destrutiva dos eStl,'losde ,Vida estabelecidos, I \

exiSIê~Razão e LiberdadJ:...J:.OnY,.e1:g~B

A verdade transforma as modalidades de ~~.!Lm~nto e ,de l

Contudo, essa dinâmica tem seus limites inerentes na medi_/ da em que õ caráter antagônicO da reáTiõãcfé,'~suãexl2lõsão~-eÍn wf1aIÚ!ades verÍ3icas e inyer@f1is de exi~~nZi~? pãr'éçamcoiis-::-' tituir uma condição ontológica imutável. H~ modaliãâGesCle xlsfênêiâMqúejãIÚars-põclêriiSer('verdadeiraS"'porque-jamais podem~'ssentãr na realizãção de suas potegcíalídades, na satisfação- dê ser. Na realidade humana, toda existência que se ,t'esgasta procurando os requisitos da existência é, assim, uma existência "inverídica" e não livre. Obviamente, isso reflete a .condição, 9!}e nada tem de ontológica, de uma sociedM'e 6aseàdíCn.a_w,.op_osi~ã:õ..êl~rí1)êr"àiêleê}õcõri1@í"ê1~õm.cl.!ti~ illção da _v~<!.~e~ ~ da J!xistência verdadeira implica liberd.ad de•roda a dimensão .de talatividade. Esta é, na verdade, a cons telação pré-tecnológica e antitecnológica por excelência,

Mas a linha divisória real entre racionalidade pré-tecnoló- gica e tecnol6gica não é aquela entre uma sociedade baseada na não-liberdade e outra baseada na liberdade, A sociedade ainda é organizada de tal modo que a procura das necessidades da vida constitui uma ocupação de tempo integral e da vida , '0

inte,ira pa,ra. classe.s sociais es,pecífica,S'" as q,uais ,SãO' portanto, 1\ ~não-livres e impedidas de ter uma existência humana. ~este:J [\
~entido, a proposição clá~~~guI!2..!.-q~~ ~erda.d.crm:;)
s~~~l~a ~~!~da'" y

O conceito clássico implica a proposição de que a liber- \l ~ dade de pensamentOeõepãIãVrãêleve'p~~ u••m..l~rft1ê~o ~ ~ deêlasseenquanto essa' escfãvização prevalecer. Porque o pen-0 samento e a pãiavrà sãOdê umsújêitõ pensante e falante e, se Ç) a vida deste depende do desempenho de uma função sobreposta, depende do atendimento às exigências dessa função - desse modo, depende daqueles que controlam essas exigências. A linha divisória entre os projetos pré-tecnológico e tecnológico

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Quem é, na concepção clássica, o sujeito que compreende a condição ontológica de verdade e inverdade? E o mestre da 'ij contemplação pura (teoria) e o mestre de uma prática orientada pela teoria, isto é, o filósofo-estadista, De fato, a verdade que t \ ele conhece e expõe é potencialmente acessível a todos, Guiado pelo filósofo, o escravo, em Meno, de Platão, é capaz de captar a verdade de um axioma geométrico, isto é, uma verdade que se situa além da mudança e da corrupção. Mas como a verdade é tanto um estado de ser como do pensame~mo'''este a eXI>fessãõêã ~nifestaçã~ do outro, o acesso à verdade per- com ela. E essa modalidade de existência é fechadaao escravo

- e a"ü,do aquele que tem de passar a vida buscando as neces- sidades da vida: Conseqüentemente, se o homem não mais ~ivesse de passar a vida no aomínioda necessiãâcte, a verdade e uma existência humana verdadeira seriam univêisais>eç; sentido estato e real:AFilosofiãvisüallzã ãigüãídadeéiitre õShómenS'; m'ãs;ãc;~smo tempo, se submete à negação real da igualdade.

Porque, na realidade em questão, a busca das necessidades é o trabalho de uma vida inteira para a maioria, e as necessidades têm de ser buscadas e servidas, de modo que a verdade (que é a liberdade das necessidades materiais) possa existir.

Aqui, a barreira histórica detém c deforma a busca da ve~~s,ã<?:-~lI~ffiõ:Qôfémâ·~dlgniâãde·dé~Uiú.íl

veraaae e para um grupo priVilêgiâdo. Esse estado de coisas R\

con~diz o caráter universal da verdade, <que define e "pres- p~/

a Filosofia, a contradição é insolúvel, ou então não aparece como uma contradição porque é a estrutura da sociedade do ' / escravo ou servo que essa Filosofia não transcende. Assim, ela está mais na maneira pela qual a subordinação às necessidades da vida - a "ganhar a vida" - é organizada, e nas novas modalidades de liberdade e não-liberdade, verdade e falsidade que correspondem a essa· organização.

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segurany'realidade hist2fi2'.c ~y~r4\'~.p~; .. vãaãintfctá~ íião-cumo""Urt'iâ{êaIização do céu ou no -céu, mas t co~nqúiSta'do pe'nsamento - liifacta porque a sua I própria noçãô expressa a percepção introspectiva de que aqüêles I --cDJ§iêãr!i.Ji~vid~.a ganhar a vida são Incepazes de viver lima , gica que pode servir de modelo de racionalidade pré-tecn~lógica. ,v~~of'Y g a racionalidade de um universo bidimensional da locução que contrasta com formas de pensamento e comportamento uni-/ ~

dimensionais que se desenvolvem na execução dp projeto Jtecnológico~->~'".....,"....~i\..:-•..~_••~':O""" <;''',''

Aristóteles usa a expressão "lagos apofântico" para distin- I/~Í'.It~"i guir um tipo específico de Logos (palavra, comunicação) - 1'· aquele que descobre a verdade e a falsidade e é, em seu desen- ,L volvimento, determinado pela d!fe~\W-çª_entr:e•.Y_erdade_~sidade Irws..tOla

(De lnt~rpretatf~ne, 16b-17a)L.s. a ló.glc.~.do julga~~to mas . no sentido enfático de uma sentença (Judlclal): atnbum o (p) a (S) porque e até onde pertence a (S), como uma propriedade de (S); ou negando (p) a (S) porque e até onde não pertence

télli:~J2assa a estabelecer as "fonri~~ ~§ra!~JfD~s-~ ..p~e~ê1i- -". -.:

a (S); etc. Partim!o dessa base ontológica, a Filosofia aristo-6::

fõfriiãr-dm-iUlgifmé1'ítõs:--'~'"'''''''>'~"-_.''--~~_._",,_.~~_._'-- . E1;

intenção précísámefite na idéia de uma lógica de julgamentos - mentos uma restr~_ão e l!m pres..onceit().~cS!mrespeito à tarefa e ao alcance da lógica. --- .-. A idéia clássica de lógica apresenta de fato um preconceito ontológico _ a estrutura do julgamento (proposição) se refere a uma realidade dividida. A locução se desloca entre a experiência de Ser e Não-Ser, essência e fato, geração e corrupção,

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1 Husserl, Formole Transzendentale Logik (Halle, Niemeyer, 1929), esp. p. 42 e segs. e 115 e segs.

potencialidade e realidade. O Organon aristotélico abstrai dessa unidade de opostos as formas gerais de proposições e de suas conexões (corretas ou incorretas); ainda assim, partes decisivas

dessa lógica formal continuam comprometidas com a metafísica arístotélíca.ê

Anteriormente a essa formalização, a experiência do mundo dividido encontra sua lógica na dialética platônica. Aqui, os termos "Ser", "Não-Ser", "Movimento", "o Um e os Muitos", "Identidade" e "Contradição" são metodicamente mantidos abertos, ambíguos e não definidos por inteiro. Têm um horizonte aberto, todo um universo de significado que é gradativamente estruturado no próprio processo de comunicação, mas que jamais é fechado. As proposições são submetidas, desenvolvidas e postas à rova num'-dtá1õgo no qua o mterlocutor éfuvaClQ_lI qüêstlOnar o universo a ~{erWiiCia e a alavra,.J!QIJJ!!l.!!!~e

trãSCrrêunsfâncias-61é'é 'livre7 e'ã,cloctição éP"focàmilôa 'emsua

iííconteste e a entrar numa nova dimensão da locução - em ou- libérdade, ,Espera-se ~qué elevá além "do que lhe é" aprese~t~do

Í'='-poiSõ orador, em sua proposição, vai além da disposição inicial dos termos, Esses termos têm muitos significados porque

as condições às quais se referem têm muitas facetas, implicações e efeitos que não podem ser isolados e estabilizados. Seu desenvolvimento lógico corresponde ao processo da realidade, ou Sache selbst. A§Jeis o ensamento são leis da realidade, ou, antes, se tornam leis da realidade se o p~nsam'fntõCoíllprêênde asefd~D.a_~?cp,.!llif~ig jfii~.(fi~ã:q,õÍno a aparência ae outra

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