Um Planeta Chamado Traicao - Orson Scott Card

Um Planeta Chamado Traicao - Orson Scott Card

(Parte 1 de 7)

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

Sobre nós:

O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.site ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Para

Meu irmão Bill, que me emprestou Catseye;

MaryJo, que me encaminhou ao Body Electric, de Bradbury; Laura Dene, que pôs a Fundação de Asimov em minhas mãos;

Dale e Maria, que me fizeram ler as

Crônicas de Narnia; e às bibliotecárias em Santa Clara, Califórnia, e Mesa, Arizona, que tornaram possível encontrar "Call Me Joe" de Poul Anderson e "Tunesmith", de Lloyd Biggie, Galactic Derelict de Andre Norton e Tunnel in the Sky de Robert Heinlein:

Vocês me fizeram sonhar. Espero não acordar.

Um Planeta Chamado Traição foi meu segundo romance a ser publicado, e nos anos que se seguiram aprendi um pouquinho mais sobre como uma história poderia e deveria ser contada. A história de Lanik Mueller é uma em que ainda acredito, e ao preparar essa nova edição deixei o essencial intocado. O que foi modificado é o modo de apresentação — o tom, o ritmo, a clareza. Como resultado, cerca de dez por cento desse volume é material novo, com pequenas revisões em praticamente todas as páginas. Essa revisão não é uma tentativa de contar a história de Lanik Mueller como se eu a estivesse escrevendo pela primeira vez em 1988 — aquele romance que, por causa da pressão do tempo jamais será escrito, seria metade mais longo do que este, com muito mais tempo devotado ao desenvolvimento de outros personagens e relacionamentos. Em vez disso, esta edição retém a simplicidade do original, a história de um jovem descobrindo e transformando seu mundo e a si próprio.

Agradeço à minha mãe, Peggy Card, que redigitou o romance inteiro a partir da edição de bolso da Dell, de modo que pudesse ficar gravado em disco, no formato WordPerfect, para meu trabalho de revisão; à minha esposa, Kristine, que leu a primeira prova tipográfica da nova edição assim que saiu da gráfica, me ajudando a fazer deste um romance mais claro, consistente e eficaz do que eu poderia ter produzido sozinho; e à minha irmã, Janice Card, por seu excelente trabalho no mapa revisado e clarificado do continente habitado de Traição.

1 M UE LLE R

FUI O ÚLTIMO A SABER o que estava acontecendo comigo. Ou pelo menos fui o último a saber que sabia.

Saranna percebeu, quando sua mão deslizou pelo meu tórax e, em vez de modelar suavemente os peitorais magros e rijos à custa de horas de espada, azagaia e arco, seus dedos foram barrados por uma carne macia. As mãos recordaram a mesma descoberta em seu próprio corpo, não muitos anos atrás, e sendo uma verdadeira filha de Mueller, com o olhar agudo e a mente descomprometida, compreendeu tudo de uma vez, ficou sabendo de toda a minha história impura, ficou sabendo de tudo que era agora impossível entre nós. Ainda assim, sendo uma verdadeira filha de Mueller, não disse nada, nem lamentou; simplesmente aconteceu que, desse momento até que eu abandonasse Mueller, ela jamais me tocou, pelo menos não do modo como fazia antes, não com a promessa de décadas de paixão em nosso futuro. Ela sabia, mas eu ainda não sabia.

Dinte também viu. Vigiando-me como sempre faz, o segundo filho à espera de que me aconteça algum acidente, de modo que possa retardar qualquer ajuda que porventura chegue; procurando algum sinal de inépcia congênita, de modo que possa ser declarado regente depois que o pai morrer; notando quaisquer falhas ou fraquezas no teu jeito de lutar ou de pensar, de modo que quando — não se —me trair, possa obter alguma vantagem sobre mim. Vigiando-me com tamanha ânsia, ele tinha de ver que minha camisa movia-se como de u m jeito diferente sobre meu peito. De todos os modos pelos quais eu poderia ser considerado inadequado para sentar no Trono do Pai, esse teria de ser o que lhe provocaria maior deleite. Mesmo sendo uma pobre desculpa para um filho de Mueller, ele imediatamente tornou-se petulante, sem mencionar minha aflição mas tratando-me com a arrogância que mesmo os covardes têm a gentileza de demonstrar apenas para o cadáver de seu inimigo. Ele sabia, mas eu ainda não sabia.

O Pai não teria visto. Havia sempre tanto trabalho a ser feito pelo Mueller; ele não tinha tempo de vigiar-me pessoalmente. Mas fazia com que eu fosse vigiado: por todos os meus tutores e metade de meus amigos; especialmente durante o tempo crucial da puberdade, quando chegam os perigos maiores.

Nós em quem o sangue Mueller corre verdadeiro, nossos corpos têm um grande dom: o de se curar tão rapidamente que as cicatrizes se formam antes do sangue secar, e de fazer crescer novamente qualquer parte de nosso corpo que seja perdida. Isso torna muito difícil nos matar.

Nossos inimigos dizem que os Mueller não sentem dor mas isso não é correto. A eles parece assim porque, nas batalhas, absorvemos de bom grado um perigoso golpe que qualquer outro homem precisaria aparar para salvar a vida, e enquanto a espada de nosso inimigo está enterrada em nossa carne podemos cortar o sangue de sua vida e procurar outro inimigo contra o qual lutar, enquanto nosso ferimento já está sarando.

Mas sentimos dor, como quase qualquer pessoa. Nossas mulheres desmaiam ao dar à luz, quando a carne é dilacerada. Quando colocamos a mão no fogo, a agonia queima tanto dentro de nosso cérebro quanto no de qualquer outro homem. Sentimos dor; o que não sentimos é medo. Ou melhor, aprendemos a separar dor e medo.

Para outras pessoas a dor significa que sua vida está em perigo; para preservar a si próprias, precisam ter o reflexo de evitar a dor por todos os meios de que disponham. Mas para um Mueller, a dor significa que o perigo é pequeno. A morte só vem a nós por meios que estão além da dor — o desmoronamento da senilidade, a respiração fria e dura do afogamento, a perda de todo sentimento quando a cabeça é seccionada do corpo. Um simples corte ou estocada ou osso quebrado significa apenas que algum vigor será retirado de nós enquanto nosso corpo se cura rapidamente; significa que seremos alimentados com bife sangrento e não com rabanetes, quando a batalha terminar.

E do pior medo que os outros sentem — o medo do desmembramento, de perder artelhos ou dedos, mãos ou pés, orelhas ou nariz ou olhos ou genitália — nós rimos.

Por que esse é o pior medo deles? Porque foram levados a pensar em sua forma atual como seu eu verdadeiro, e caso percam essa forma, perdem seu eu, transformam-se num monstro mesmo a seus próprios olhos.

Mas nós, os Mueller, aprendemos há muito que nossa forma atual não é absolutamente o nosso eu. Podemos ter muitas formas diferentes e ainda ser quem sempre fomos. É uma lição que aprendemos durante a loucura da adolescência. Aos doze ou quatorze anos de idade também passamos pela extravagante embaralhação de compostos químicos que fazem, aos outros, crescer cabelos em lugares estranhos e se tornarem máquinas capazes de produzir cópias de si mesmos; conosco, entretanto, já que nossos corpos são tão poderosos, a adolescência é também mais violenta. Nós nos ensinamos a regenerar partes do corpo perdidas ou quebradas; durante a loucura da puberdade, nossos corpos esquecem sua forma apropriada e tentam fazer crescer partes que já estão lá. Todo rapaz e toda moça já acenaram zombeteiramente um terceiro braço para os amigos, dançaram algum passo complicado criado para fazer uso de uma ou duas pernas extras, piscaram um olho supérfluo, fizeram careta com três fileiras de dentes em cima e quatro embaixo. Eu suportei ter quatro braços uma vez, um nariz extra, e dois corações bombeando antes do cirugião me passar a faca para cortar o excesso. Nosso eu não é nossa forma. Podemos ter qualquer forma e ainda sermos quem somos. Não temos medo de perder membros. Não podemos distorcer ou destruir nosso eu através da subtração.

Temos outros medos. Durante toda a minha adolescência o Pai me manteve sob vigilância.

Mesmo à idade de quinze anos, quando meu corpo estava a apenas um decímetro ou dois da altura total de um homem e minhas mudanças sexuais deveriam estar completas — completas o suficiente para que Saranna já tivesse meu filho dentro de si — mesmo então ainda podia sentir os olhos deles em mim, da alvorada ao entardecer, medindo-me corpo e alma, para que pudessem contar tudo ao Pai naqueles momentos em que tinha tempo de pensar a meu respeito. É impossível que deixassem de perceber o que acontecia comigo; o Pai deve ter sabido antes de Dinte, antes mesmo de Saranna. Todos sabiam.

Mas eu não sabia. Ah, é claro que eu sabia. Sabia o suficiente para abandonar todas as minhas roupas justas e usar apenas as mais folgadas. Sabia o suficiente para encontrar desculpas em vez de ir nadar com meus amigos, o suficiente para não repreender Dinte por ser ainda mais ranheta do que de costume — como se não ousasse provocá-lo a dar um nome àquilo em que me havia tornado. Sabia o suficiente para não me perguntar por que Saranna não me tocava; sabia o suficiente, durante o último mês, para não levá-la à minha cama. E ainda assim nunca mencionei aquilo em que me havia tornado, nem a mim mesmo.

Jamais sequer deixei o pensamento do meu terrível novo futuro chegar à cabeça. Exceto uma vez, com a preciosa espada de aço da realeza faiscando em minha mão, quando jurei, tão fortemente que lembro o momento, ainda agora, como se houvesse acontecido apenas essa manhã — jurei nunca viver sem uma espada daquelas em minha mão ou ao meu lado. Mesmo então estava fingindo para mim mesmo que meu medo era o de tomar-me um plebeu, o tipo de semialma, como uma lesma, que jamais toca em ferro, e estremece ao menor corte que sangra. — Hoje — disse Homarnoch.

— Não tenho tempo — eu disse, com aquela astúcia imperiosa que os filhos dos príncipes usam para lembrar aos outros a autoridade que ainda não têm.

— O Mueller diz. E foi assim. Todos os ardis estavam terminados; precisei desacreditar de uma vez em todas as mentiras nas quais acreditava. Mesmo assim, adiei, disse que estava imundo e precisava me lavar, o que era bem verdadeiro; mas dei um jeito de tomar banho sem nem uma vez me olhar no vidro prateado. Roupas estavam penduradas sobre todos os espelhos, ou, de alguma forma, eles haviam sido postos de lado, de modo que em meu quarto eu nunca precisasse me ver.

Esse era apenas mais um sinal de que eu sabia sem saber — até aquele mês havia sido tão vaidoso quanto qualquer garoto e vivia rodeado de espelhos.

Mas não havia como me esconder do espelho no estéril antro cirúrgico de

Homarnoch, lugar de aguçadas facas de aço e camas sangrentas, onde flechas farpadas eram cortadas da carne dos sol dados e partes extravagantes e inúteis eram arrancadas de corpos adolescentes.

Fez com que eu ficasse de pé em frente ao espelho, ele atrás de mim, e pôs as duas mãos em concha sob seios que haviam cresci do voluptuosos. Pela primeira vez fui forçado a encarar uma carne que não poderia ser minha. Pela primeira vez fiquei consciente da pressão do toque de outra pessoa. Ainda assim não creio que tenha sido a carícia brusca e cirúrgica de Homarnoch que me excitou. Aquele toque era para mim muito mais estranho do que sexual. Creio ter sido a visão do que deveriam ser os seios de outra pessoa sendo tomados nas mãos de outra pessoa. Acho que foi voyeurismo. Ainda não acreditava no que estava acontecendo comigo.

— Por que não me procurou imediatamente? — perguntou Homarnoch.

Ele parecia quase ferido.

— Para quê? Já cresceu todo tipo de partes em mim, antes. Ele sacudiu a cabeça. — Você não é bobo, Lanik Mueller. Ouvi meu nome e senti um medo doentio. Mais tarde percebi que foi o nome Mueller que me causou medo — não porque era o meu nome, mas porque muito brevemente não seria.

— Acontece até na família do Mueller, Lanik. A intervalos de poucas gerações. Ninguém está imune.

— É só a puberdade — disse eu, desejando que ele acreditasse em mim. Ele me olhou com tristeza, e demonstrando afeição, pensei. — Espero que você esteja certo — falou, mas é claro que não tinha esperança. — Espero que, ao examiná-lo, possamos descobrir que você está certo. — Não há necessidade de...

— Agora, Lanik. O Mueller pede que eu lhe dê a resposta imediatamente. O que meu pai comandava eu fazia. Deitei-me na mesa e me forcei a relaxar enquanto a faca cortava dentro de meu abdome. Eu sentira dor pior, antes — as lacerações ásperas das espadas de treino, de madeira, ou a vez em que uma flecha entrou em minha têmpora e saiu por um olho — mas não foi a dor. Ou não apenas a dor. Porque, pela primeira vez desde a mais tenra infância, dor e medo queimavam juntos em mim, e senti aquilo que os homens comuns sentem, que os desumaniza tanto no campo de batalha que os toma forragem para uma faminta espada Mueller. Quando terminou, ele pôs um esparadrapo na ferida. Eu já sentia a tonteira e o formigamento me dizendo que a cura estava a caminho — eram cortes limpos, e tudo estaria curado sem cicatrizes dentro de horas. Não precisei perguntar o que ele havia encontrado. Soube por seus ombros curvados, pelo estoicismo áspero de seu rosto. Podia dizer que era desgosto e não regozijo que sua máscara desapaixonada escondia.

— Corte fora — disse eu, leviano, galhofeiro. Ele não levou na brincadeira. — Há ovários, também, Lanik, e se eu cortá-los fora, irão simplesmente crescer de novo. — Ele me encarou, então, com a mesma coragem com a qual um homem encara seu inimigo na batalha. — Você é um regenerativo radical, Lanik. Não vai acabar nunca.

Era isso. O nome para aquilo em que eu me tornara. Como minha linda prima Velinisik, que ficou louca e mijou em cima de todo mundo com o pênis cujo crescimento a transformara num monstro. Regenerativa radical. Rad. Como todo mundo, virei as costas a ela, praticamente nem falei seu nome daquele dia até esse. Em primeiro lugar, ela deixou de ser humana. Depois, nunca havia sido humana. Depois, ela nunca havia existido.

Ao fim da puberdade a maioria dos Mueller se estabelece em sua forma adulta, e apenas torna a fazer crescer partes de seus corpos que se tenham perdido. Mas um pequeno número de nós nunca volta a assumir o controle. A adolescência continua para sempre, com novas partes crescendo aleatoriamente. Em tais casos o corpo esqueceu qual deveria ser sua forma natural; pensa em si próprio como uma ferida sem fim, precisando estar sempre sendo curada; como um corpo perpetuamente desmembrado, com partes que precisam estar sendo sempre renovadas.

(Parte 1 de 7)

Comentários