Entre velhice e recortes sócias: VANTAGENS, DESVANTAGENS E DESAFIOS

Entre velhice e recortes sócias: VANTAGENS, DESVANTAGENS E DESAFIOS

Entre velhice e recortes sócias: VANTAGENS, DESVANTAGENS E DESAFIOS

Quando pensamos em velhice o que vem em nossa mente? Elementos como rugas, declínio, deformidade física. Perda de autonomia, do papel social. Preconceitos, finitude e muitas outras permeiam nosso imaginário. Mas, nem sempre a velhice foi vista desta forma. Talvez, poucos já se depararam imaginando o porquê formamos a velhice com uma imagem decadente, assim como afastar a cortina que existe por traz desse novo estilo de velhice e descobrir o cenário que realmente existe. Então, que tal nos permitir imaginar?

A visão de velhice passou por várias significados através do tempo, culturas e povos. Inumeras literaturas remontaram essa visão. Para a religião, ela foi concebida como sinal de sabedoria, pelo fato de os velhos apresentarem um acumulo de experiências vividas ao longo do tempo. Dando a estes, um papel de destaque como chefes e conselheiros dos demais. Para a Roma antiga, esses idosos eram vistos como acumuladores de riquezas, poder e influências políticas, visto que era concedido a eles cargos no senado, os chamados "patrícios". Na idade média, a questão das riquezas e poder também marcaram essa época, colocando os idosos numa situação de submissão aos mais fortes. No século XX, com o avanço nas áreas tecnológicas, ciências humanas e medicina, os idosos ganharam uma melhora na qualidade de vida e consequentemente uma ampliação do curso desta. Hoje, é uma população que cresce cada vez mais em todo o mundo, inclusive em países do terceiro mundo.

Surgem novas interpretações de velhice, com uma visão mais positiva para essa fase da vida. Sem associação de significados de decrepitude e o peso trazido pelo envelhecimento propriamente dito; entram em cena a "melhor idade", "relativamente jovens", "futuridade", “maturidade”, “terceira idade” e alguns até arriscam a “quarta idade”.

Vemos uma preocupação com o envelhecimento que recebe um olhar de especialidades científicas, hábitos saudáveis e um assistencialismo criado pelo governo e setores privados gerando uma nova realidade para os idosos. Porém, parece que essa realidade não é igual para todos. Apenas uma pequena parcela da sociedade experimenta esses novos espaços.

Ainda assim, podemos notar idosos desfilando por cenários pouco comuns à sua presença como cargos importantes, faculdades, academias, comerciais de TV, realyt shows e tantos outros.

Sabemos que a velhice faz parte da evolução da vida humana. A preocupação do homem com o envelhecimento vem de tempos remotos. O primeiro registro que se tem conhecimento sobre velhice vem de A.C.(antes de Cristo). Nele, o envelhecimento é tratado como perda da vitalidade. A evolução da vida do homem até a Idade Média não era observada tal qual conhecemos hoje. Mas, a partir da necessidade da sociedade de identificar os sujeitos e delimitar as fases da sua evolução, é criada uma categorização para marcar o curso da vida do homem. Com fase da infância, juventude, adulta e velhice.

Antigamente, o termo velho era uma forma de tratamento atribuída a todos os sujeitos de idade avançada. A situação de "velhice", não remetia sentido de decadência que conhecemos. Entretanto, a chegada da industrialização, faz uma revira volta nas relações trabalhistas. Sendo agora, pautada na produtividade. As pessoas idosas, pela idade avançada e limitações próprias da velhice não conseguem sustentar as longas jornadas de trabalho. São então, afastadas por serem consideradas inválidas para o trabalho. Com dificuldades para se manter, passam a viver um estado de empobrecimento e miséria. Tornam-se um peso para a família e num outro caso, pelo fato de não tê-lá, são entregues a situação de abandono. A partir daí, começa a transformação na imagem da velhice. Ficando agora, fortemente ligada a sinais de incapacidade física, dependência e o termo velho, passa a ser um tratamento pejorativo. A velhice, enche-se de estereótipos marcantes; situação de pobreza, perda de status social, insegurança econômica e preconceitos. Porém, uma pequena parcela da sociedade que não vivencia um envelhecimento decadente; ainda produtivos e ativos, começa a criar outras representações para se distanciar da imagem da velhice empobrecida e discriminada. Outros modos de envelhecer surgem: os relativamente jovens, melhor idade, futuridade, jovens idosos, terceira idade e outros. Imprimindo a fase antes entendida como declínio um ar mais gratificante. A nova velhice inspira possibilidades de expansão na vida. Recebe um olhar de especialidades como a geriatria, gerontologia, outras áreas e programas que passam a estudar o envelhecimento. Espaços são criados com os mais variados serviços que vão dos mais simples até os mais sofisticados.

No Brasil, é desenvolvido um modelo de espaço para convivência e refuncionalização do idoso com atividades culturais, de lazer e informação em saúde pelo pionerismo do SESC. A PUC cria o Programa UNATI, Universidade Aberta à Terceira Idade. Mais tarde vem os clubes, as oficinas, áreas de atividades físicas, bailes da terceira idade, enfim. Esses espaços possibilitaram aos idosos, experimentarem novos estilos de vida, descobrir novas identidades. Àqueles que antes viviam uma situação de marginalidade social surge a possibilidade de resocialização e passam a ocupar espaços na sociedade que até então, não eram vistos.

Pensar em expansão de vida na velhice é um tanto paradoxo, visto que é fortemente marcada pela finitude do ser e do corpo no nosso imaginário. Onde a figura do velho sem utilidade, cheio de rugas, problemas de saúde fica determinado pelo menos para boa parte da populaç. Diferente da visão de velhice moderna onde o sentido de expansão fica associada a plasticidade, ou seja, capacidade de reconstrução de tudo que é ruim no processo de envelhecimento. O mecanismo de assistencialismo dos recortes socias se empenham grademente para que ela seja feliz em todos os sentidos. A plasticidade na questão do corpo tem haver com a estética. O imaginário sem rugas. Sem sinais do tempo e sempre jovem, deduz bem-estar e dignidade à velhice. Revelar as imperfeições passa a ser um ato de descuido com a própria aparência e induz a acreditar que a decomposição do corpo não faz parte do processo de envelhecimento. Cada vez mais surgem cosméticos, procedimentos cirúrgicos, técnicas de rejuvenescimento, medicamentos, dietas especiais com a promessa de um processo de envelhecimento sem decadência física. Mas, manter uma velhice com um aspecto saudável que resiste a ação do tempo, é preciso recorrer a um programa assitencial de alto custo que nem todos e muito menos. Imaginar esse mecanismo assistencial em nível de Brasil nas questões de velhice significa encontrar um panorama de crise na situação dos idosos tal qual o país se encontra. Onde os serviços de saúde, a previdência social e os serviços de amparo à velhice desmoronam sem que outros sejam implantados.

Não viemos atestar que uma velhice bem sucedida não precise de cuidados, pelo contrário, são importantes e necessários. Porém, analisando esses cuidados percebemos um empenho excessivo quase desmetido impondo uma vigilancia constante ao processo de envelhecer.

Entre velhice e recortes sociais, vantagens, desvantagens e desafios nos surpreendemos com uma variação de significados sobre velhice e como mudaram ao longo do tempo. Bem como o impacto que as escolhas fazem em nossa vida. Ao afastar as cortinas que existem por traz dos recortes socias da velhice percebemos um cenário de conspiração silenciosa, visto que não ficam apenas atrelados ao processo de envelhecer, mas também, a fase produtiva do homem, sua classe social e superficialidades. Para aqueles que adentram ou que se encontra nessa etapa da vida fica a questão: Antes de adotarmos um estilo de vida, é importante sabermos compreender o verdadeiro significado das escolhas e prioridade. É preciso nos certificarmos da sua essência.

Nas vantagns vemos as possíveis experiências que até então não haviam sido esperimentadas pelos idosos. Hoje em dia, vemos que a velhice não é mais tratada como uma questão só da família. Discutida apenas entre filhos e netos ou situação de asilo, isolamento, abandono e maus tratos. Vemos o Estado, sociedade todos em busca de uma velhice bem sucedida. Nas desvantagens, vemos a possibilita de um comportamento de ocultar ou excluir do imaginário dos sujeitos a identidade de uma velhice regeada de experiências vividas e sabedorias construídas. Desconsiderando o papel de guardião e preservador da memória social e suas tradições. Elementos importantes para as idades mais novas e servem como fonte de formação de outras identidades, construção de outras histórias. Impedindo a existência de outras identidades que não se enquadram nos modelos estabelecidos pela sociedade, prevalecendo. O desafio, esta em prever até quando os cofres públicos podem suportar o financeiro do assistencialismo dessa nova forma de velhice com recursos cada vez mais apertados. Isso pode gerar outra situação que é tornar a velhice um problema individual, ou seja, cada um que cuide do seu processo de envelhecer. Enfatizando novos padrões de desigualdade e intolerância. Outro desafio é imaginar até quando essa novo estilo de velhice conseguirá sustentar um discurso pautado na beleza do corpo, vida ativa, cheia de ocupações, ritmo acelerado sem a precariedade dos problemas naturais do processo de envelhecimento como perda cognitiva, disfunções orgânicas, descontrole emocional, cansaço, crises pessoais e tantos outros.

Apesar de o cenário se constituir de situações adversas e incertezas, vemos uma busca de uma velhice bem sucedida em todas as esferas. Vemos a criação da delegacia do idoso, passe livre em espaços como cinema, teatros. Não devemos nos esquecer também dos marcos legais importantíssimos como: o estatuto do idoso (lei n°10.741/ 93, a Política Nacional do Idoso, ( lei n° 8842/94), a Política Nacional de Saúde do Idoso, (Portaria n° 1395/99), o dia do idoso comemorado em 1° de Outubro, (lei 11.433/2006), o Plano de Ação para o Enfrentamento da Violência contra a Pessoa Idosa, (2005), a Política Nacional da Saúde da Pessoa Idosa - PNSPI, ( Portaria n°2528/2066), o Pacto pela saúde, (lei n° 399/2006) e muitas outras.

Referências

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Sítios acessados

Acessado em 30/08/2017.

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