Artigo cultura e arte dos negros

Artigo cultura e arte dos negros

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FACULDADE INTEGRADA BRASIL AMAZÔNIA 8ª SEMANA DE LETRAS - 2016

RESUMO: O presente artigo tem como objetivo analisar a posição do negro como um dos sujeitos que formaram a constituição cultural e artística no Brasil. Na sua manifestação como sujeito histórico e possuidor de um Ethos baseado em hábitos sociais que ora o discrimina ora o elenca como ator de uma historia controversa, a da nação brasileira. Retira-se, pois, o estudo da cultura e da arte da concepção eurocêntrica e tenta-se aplicar a perspectiva do negro que dantes escravizado. Para isso, foram utilizados o estudo de Ethos – no âmbito de sua héxis – e o estudo de Desconstrução; ambos os conceitos são congruentes e permitem a estruturação de outra abordagem da posição do afrobrasileiro no que se refere a sua participação histórico-cultural.

PALAVRAS-CHAVE: Cultura; Arte; Negro; Ethos e Desconstrução; História.

ABSTRACT: This article aims to analyze the position of the black as one of the subjects that formed the cultural and artistic creation in Brazil. In its manifestation as a historical subject and holder of the Ethos based on social habits that in one moment discriminates and in another lists as an actor of a controversial history, the Brazilian nation. Cut up, for the study of culture and art of the Eurocentric conception and tries to apply the perspective of black that before enslaved. For this, we used the Ethos study - within their Hexis - and the study of the Deconstruction; both concepts are congruent and enable the structure of another approach of the position of the Afro-Brazilian as regards their cultural-historical interest.

KEYWORDS: Culture; Art; Black; Ethos and Deconstruction; History.

1 INTRODUÇÃO

O presente artigo aborda em seu conteúdo a expressão do sujeito afrodescendente no Brasil por meio de uma reflexão que mostra as atribuições culturais e artísticas do negro na construção do seu ethos na participação da construção da cultura nacional. Para tanto, o estudo deste é dirigido por meio dos conceitos de Ethos e de uma breve análise a respeito de Desconstrução; ambas são as ideias principais que norteiam os argumentos que visa à construção de uma nova abordagem sobre as manifestações artísticas do afrobrasileiro.

escravos africanos, segundo o sítio virtual Slave Voyages1

Doravante, o Brasil é, assim como tantos outros países, historicamente identificado como um dos lugares denominado de Novo Mundo. Extensões de terra que foram ‘descobertas’ por navegantes europeus que durante o período das Grandes Navegações saiam em busca de novos territórios a fim de aumentar as riquezas de suas nações por meio das extrações de recursos naturais e, posteriormente, a colonização de tais terras para estabelecer novas marcações geográficas. É com as grandes caravelas portuguesas e com a chegada de Pedro Álvares Cabral, o descobridor das terras tupiniquins, que se dá o início de toda uma historia que, resumidamente, culmina na importação escrava de 5,8 milhões de

A escravidão vigorou 388 anos no Brasil antes de ser abolida pela princesa

Isabel, quando foi assinada, no dia 13 de maio, do ano de 1888. Todavia, durantes os séculos em que a escravização era permitida e após a sua incriminação, os negros tornaram-se parte desta nação, no sentido de que eles têm uma parcela enorme na formação cultural do Brasil que resulta na multifacetada miscigenação das expressões artísticas contemporâneas brasileiras. Apesar de trazidos para cá em uma situação indigna, na condição de presos e não de pessoas livres, a legitimação de sua cultura se dá por meio de uma analogia de uma planta que é tirada de seu lugar de plantio e transportada para outro lugar, porém suas raízes ficaram no solo, e para sobreviver, a planta precisa ‘recriar’ suas raízes e fincar na terra que para ela é ‘dada’; eles (os negros) foram arrancados à força de sua terra natal e para viver na terra onde eles eram prisioneiros, suas raízes culturais perfuraram o chão e lá se mantêm até hoje.

1 Disponível em: <http:// w.slavevoyages.org> Acesso em: 04 abril 2016

Sendo assim, construiu-se o ethos, a imagem do negro sobre o solo brasileiro, a constituição da ‘imagem’ daqueles que eram escravos, mas passaram após a abolição a ser ocupantes, haja vista, que a condição de ex-escravos não melhoraram aos serem libertados de seus grilhões. As cidades da época, como a do Rio de Janeiro, por exemplo, sofreram com uma ‘enchente’ de negros libertos sem ter o que comer, o que vestir e sem lugar para morar. A partir desse primeiro momento, então, há a construção de uma perspectiva de que o negro era um sujeito ‘vagabundo’, pois muitos deles passavam os seus dias na rua, sem ter a oportunidade de viver dignamente. Em relação a isso, Eggs (2014) diz que o ethos é um componente referente ao hábito social, com isso, a visão do negro desocupado é concebida por conta de um contexto em que há um desequilíbrio da vida social. Ele diz que:

[...] o termo ethos não tem mais este sentido moral, mas antes um sentido neutro. [...] os temas e o estilo escolhidos devem ser apropriados (oikeia) ao ethos do orador, a saber, à sua héxis, aos seu Habitus, ou – para empregar um termo da sociologia interacionista – ao seu tipo social (EGGS, 2014. p. 29).

Temos, pois, a manifestação de um hábito social que perdura historicamente e alcança aos afrodescendentes que, sem um contato direto com seus antepassados, carregam a imagem de um discurso, na maioria das vezes, racista e segregador. É com essa concepção do ethos quanto hábito social ou à héxis que se define a trajetória do negro no Brasil. Entretanto, é necessário desconstruir tal imagem para que o sujeito – como representante de uma coletividade quanto aos hábitos – seja reconhecido como formador da cultura brasileira.

No âmbito da desconstrução, temos o estudo de Jacques Derrida (1999) citado por Evandro Nascimento (2005) a respeito da representação do negro na historia do mundo, contudo, nos ateremos ao contexto brasileiro. Na obra de Derrida, há uma explanação sobre a cultura do negro e de como tal é reproduzida por meio da arte, mas, para tanto, o negro não é mostrado como o sujeito. Ele é apenas a representação de uma identidade das coisas que são da realidade à arte e nada mais.

Assim, ele desnaturaliza a visão do descendente africano como uma identidade fixa na sociedade ocidental, identidade esta a que foram impostos os papéis referidos acima (escravo, serviçal, marginal, jogador de futebol, sambista, etc.), na arte como na realidade (NASCIMENTO, Evando. 2005, p. 18 - 19).

A não colocação do negro como ator principal, tanto na arte quanto na realidade, é a manifestação histórica de uma agressão cultural. Sendo assim, o eurocentrismo, como herança ideológica que padroniza e dita do passado aos dias atuais o que é bom e o que não é bom, o que é belo e o que é feio. Colocar o negro, a ‘raça’ que dantes fora escravizada como um padrão a ser alcançado é uma transgressão dos valores culturais que foram construídas por meio do processo histórico que os destituiu do protagonismo da sua própria cultura.

Conhecemos a invisibilidade do cidadão de origem africana em países como França e Brasil. Entre nós, o negro somente chama a atenção quando cumpre o destino que lhe foi desde sempre pré-fixado, com desempenho imutável. Fora desses padrões a cor da pele é um certificado de invisibilidade, de ausência de cena em que muitas vezes não chega nem a ser coadjuvante. E isso remonta à escravidão, reduplicada mais de um século após sua suposta extinção. Nessa interpretação da má consciência social, o negro, ou quem assim chamamos, retorna com as mesmas falas e o mesmo roteiro estipulado desde o nascimento (NASCIMENTO, Evando. 2005, et. seq.).

Portanto, temos o sujeito negro como ‘algo’ reduzido a uma visão mínima do todo, de toda a participação histórica, de um indivíduo atuante onde não se tem mais a ordenança como nos tempos de escravidão. É, pois, a imagem do negro sendo desconstruída e tornando-o mais visível, retirando o negro e sua participação de bastidores, para alcançar seu lugar também como ‘humano’.

2 CULTURA E ARTE

No final do século X foram feitos estudos importantes sobre a contribuição negra na sociedade brasileira. Grande parte desses estudos levava em consideração a religiosidade e a escravidão. Nesse período, muitas práticas culturais dos descendentes de africanos eram combatidas fortemente pela polícia, como a capoeira e os cultos religiosos.

As religiões de matrizes africanas foram fortemente perseguidas pela polícia da época, que não somente prendiam seus adeptos como também apreendiam tudo que eles considerassem ilegal, ou seja, apreendiam toda os objetos sagrados como vestimenta, imagens de santos, exus, pombo-giras, oferendas e outros. Os ambientes destinados às religiões permitiu com que parte da cultura africana fosse refeita e recriada, incluindo a arte, a qual seguia outros moldes, cuja referência de padrão estético era completamente diferente da arte europeia. Com as apreensões dos objetos das manifestações religiosas africanas feitas pela polícia, surgem então os museus da polícia, oriundo de todos os materiais que mais tarde serviriam de extrema importância para consolidar o avanço artístico dos negros após sua captura.

As pesquisas realizadas sobre esses objetos foram importantes para o entendimento inicial sobre a cultura afrobrasileira. Para Munanga (2000), os interesses voltados para a arte negra no Brasil foram estimulados a partir de dois congressos afrobrasileiros que aconteceram em 1934, na cidade de Recife (PE) e em 1937 na cidade de Salvador (BA). Neste período, o Norte e o Nordeste ganharam importantes manifestações folclóricas organizadas por Mário de Andrade, entre 1937-38.

Na década de 30 e de 40, alguns negros começaram a ser apresentados como artistas populares e primitivos, ampliando sua visibilidade para além dos espaços religiosos. Os artistas passaram de anônimos para a consolidação de uma identidade forte. Na segunda metade do século 20, tudo que era produzido pelos negros passaram a fazer parte da história da arte que começou a ficar conhecida como Arte Popular, que depois foi dada uma nova nomenclatura conhecida como Arte Primitiva, este último nome se deu devido à relação da arte africana com o Modernismo, que possibilitou uma nova visão e estética a partir da cultura negra.

Todavia, mesmo sendo considerada por muitos como uma arte sem muito valor, primitiva, a arte negra conseguiu alavancar bons retornos financeiros para seus produtores. Sem contar que os artistas modernos almejavam a vinculação do nacional com popular (Conduru, 2007,2013a), e isso influenciava em suas identidades, referência político-ideológicas e, claro, na elaboração de suas criações.

Outras pesquisas também foram feitas sobre arte e cultura negra na segunda metade do século X como as matérias dos museus que foram apreendidas pela polícia da época, logo início do século X em Recife, em Salvador, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Alagoas. Clarival Valladares foi um dos críticos que estudou bastante sobre a arte negra nos anos sessenta. Entretanto, novos estudos como estes só vieram ganhar força novamente e ressurgir após cem anos da abolição da escravatura em 1988, segundo Salum (2006 apud Cunha, 2004).

A arte afrobrasileira se fazia forte mesmo com a proximidade da arte europeia. É claro que ganhos e também perdas aconteceram, mas a originalidade e a autonomia da arte africana prevaleceram e acarretaram em uma configuração artística marcante. O cenário local se fez com que essa arte, que possuía como fonte inspiradora o continente africano, mais especificamente a África negra, se sujeitasse à dinâmica sofrida pelo processo natural de evolução que uma sociedade passa.

A participação do negro e sua arte foram tão importantes no processo de desenvolvimento da sociedade brasileira, que Gilberto Freire julgou o negro como um ator de relevante importância, uma vez que mesmo o negro em sua condição de escravo, foi capaz de inserir sua cultura/arte na sociedade, juntamente com as europeias, no caso, portuguesas.

A arte africana, de um modo geral, não tinha por finalidade a contemplação ou mostrar a realidade, mas havia uma ideia principal que seria a questão da representatividade, a produção de valores que somente pessoas daquela cultura poderiam entender e sentir. Ao final do século XIX, a arte africana atraiu através do expressionismo, olhares de grandes pintores, um deles foi Pablo Picasso. Porém, outra forma de arte causou certo espanto nos artistas europeus, os Bronzes de Benim. Para os artistas europeus não era possível que uma sociedade tão “primitiva” pudesse ser responsável pela criação de algo tão desenvolvido. É claro que houve um declínio no que se diz respeito à arte africana, esta continua a ser produzida, porém com uma qualidade bastante inferior a de antes. A arte afrobrasileira também perdeu essa riqueza. No entanto, em tempo algum os negros constituíram uma elite nas nossas artes como aconteceu na época do barroco.

O barroco no Brasil teve foco, principalmente, em Minas Gerais, como também em outros centros que tiveram uma importante representatividade como: Pernambuco, Rio de Janeiro e Bahia. A questão religiosa era extrema no barroco e, por conta disso, belos monumentos religiosos foram criados e, na criação dessas obras, temos o gênio escultor e arquiteto Antônio Francisco de Lisboa, também conhecido como “Aleijadinho”. Algumas das igrejas rococós ditas como “mais belas do mundo”, foram feitas por ele.

Portanto, o negro e a constituição do seu ethos histórico tiveram importantes contribuições para a formação cultural e artística brasileira. Infelizmente, os anos após a abolição da escravidão não foram ‘justos’ com o sujeito afrodescendente, entretanto, tal problemática em encontrar um espaço de aceitação na sociedade não os impediram de marcar a formação da nação brasileira. São eles, os negros, importantes precursores das mais variadas expressões artísticas e culturais das quais o Brasil é reconhecido mundialmente como um país que tem um povo cheio de ‘cores’ e exuberantes performances artísticas.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A produção artística e cultural do negro é baseada pela própria história que se mostra favorável a sua representação como autor e ator de sua própria narrativa de vida. Como sujeito que se ressignifica a partir dos diversos contextos os quais está inserido. A busca, pois, pela autoria de sua cultura e de sua arte na miscigenação brasileira que originou a diversificada etnicidade brasileira.

É com esse olhar que há a possibilidade do negro ser reconhecido como peça angular da construção dos padrões culturais brasileiros. Como a história dessa nação é em sua completude resultado de processos coloniais, por vezes, agressivos. Ficou aqui a marca, a herança colonial. O estigma de colonizadores e de escravos, de senhores e de servos; contudo, com o avançar da sapiência das organizações sociais e da importância do homem como espécie e indivíduo, o reconhecimento pela contribuição do afrodescendente confere um ad hominem frente às injustiças históricas pelas quais foi vítima.

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