Farmacognosia coletânea científica

Farmacognosia coletânea científica

(Parte 1 de 6)

FARMACOGNOSIA Coletânea Científica

FARMACOGNOSIA Coletânea Científica

Gustavo Henrique Bianco de Souza

João Carlos Palazzo de Mello Norberto Peporine Lopes

Ouro Preto | 2012

Vice-Reitor| Antenor Rodrigues Barbosa Junior
Diretor-Presidente |Gustavo Henrique Bianco de Souza
Assessor Especial| Alvimar Ambrósio

Reitor | João Luiz Martins

Adalgimar Gomes Gonçalves André Barros Cota Elza Conceição de Oliveira Sebastião Fábio Faversani Gilbert Cardoso Bouyer Gilson Ianinni Gustavo Henrique Bianco de Souza Carla Mercês da Rocha Jatobá Ferreira Hildeberto Caldas de Sousa Leonardo Barbosa Godefroid Rinaldo Cardoso dos Santos

Dedicatória

A todos os (co)autores que contribuiram para a efetivação dessa publicação.

Ao INCT_if/CNPq, Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, pelo estímulo e financiamento.

À EDUFOP, Editora da Universidade Federal de Ouro Preto.

c EDUFOP

Coordenação Editorial Gustavo Henrique Bianco de Souza

Projeto Gráfico / Capa Alvimar Ambrósio

Revisão Magda Salmen, Rosângela Maria Zanetti e Fátima Lisboa

Revisão Técnica Organizadores

Editoração Eletrônica Autores

Fotografia / Capa De Laia / UFOP

F233Farmacognosia : coletânea científica / Gustavo Henrique Bianco de Sou-

za, João Carlos Palazzo de Mello, Norberto Peporine Lopes, ( organizadores ). - Ouro Preto : UFOP, 2012. 372p.: il. color.; tabs.; grafs.; mapas.

1. Farmacognosia - Pesquisa. 2. Farmacognosia - EnsinoI. Lopes, Norberto

Peporine. I. Souza, Gustavo Henrique Bianco de. II. Mello, João Carlos Palazzo de. IV. Título.

CDU: 615.3(045)ISBN 978-85-288-0284-9

Catalogação: sisbin@sisbin.ufop.br

Reprodução proibida Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à

Editora UFOP

Centro de Vivência| Sala 03 | Campus Morro do Cruzeiro

http//:w.ufop.br E-mail: editora@ufop.br Tel.: 31 3559-1463Telefax.: 31 3559-1255 35400.0 | Ouro Preto | MG

Agradecimentos

A todos os (co)autores que contribuiram para a efetivação dessa publicação.

Sumário

Falso-boldo – Plectranthus barbatus

André Gonzaga dos Santos, Hérida Regina Nunes Salgado, Marcos Antonio Corrêa, Marlus Chorilli, Raquel Regina Duarte Moreira, Rosemeire Cristina Linhari Rodrigues Pietro, Vera Lucia Borges Isaac

Amélia Teresinha Henriques, Gilsane Lino von Poser, José Angelo Silveira Zuanazzi, Miriam Anders Apel, Stela Maris Kuze Rates

Co letânea Ci e n t í f i c a

Alexandre Bella Cruz, Angela Malheiros, Angélica Couto Garcia, Christiane Meyre-Silva, Nara Lins Meira Quintão,

Rivaldo Niero, Ruth Meri Lucinda Silva, Sergio Faloni de Andrade, Tania Mari Bellé Bresolin, Valdir Cechinel Filho

Cláudia Alexandra de Andrade, Josiane de Fátima Gaspari Dias, Marilis Dallarmi-Miguel, Michel Otuki, Obdulio Gomes Miguel, Paulo Roberto Wunder, Roberto Pontarolo, Sandra Maria Warumby Zanin,

Silvana Krychak-Furtado

FARMACOBOTÂNICA E ATIVIDADE ANTIÚLCERA DE PLANTAS MEDICINAIS BRASILEIRAS Edna Tomiko Myiake Kato, Elfriede Marianne Bacchi, Leandro Santoro Hernandes

Fernanda Alvares da Silva

Co letânea Ci e n t í f i c a

Adriana Gibara Guimarães, Aldeidia Pereira de Oliveira, Eurica Adélia Nogueira Ribeiro, Fladmir de Sousa Claudino, Jackson Roberto Guedes da Silva Almeida, Julianeli Tolentino de Lima, Leonardo Rigoldi Bonjardim, Luciano Augusto de Araujo Ribeiro, Lucindo José Quintans-Júnior, Márcio Roberto Viana Santos, Xirley Pereira Nunes

Aldeidia Pereira de Oliveira, Eurica Adélia Nogueira Ribeiro, Jackson Roberto Guedes da Silva Almeida ,

Lucindo José Quintans-Júnior, Márcio Roberto Viana Santos

Maria Cristina Marcucci

Rachel Oliveira Castilho, Fernão Castro Braga

Co letânea Ci e n t í f i c a

Eduardo Antônio Ferreira, Eduardo Benedetti Parisotto, Fernanda Biscaro, João Francisco Gomes Correia, Karina Bettega Felipe, Maicon Roberto Kviecinski, Mirelle Sifroni Farias, Nádia Cristina Falcão Bücker, Rozangela Curi Pedrosa, Tania Mara Fisher Günther

EXTRATO SECO VEGETAL E PRODUTOS DERIVADOS Luiz Alberto Lira Soares, Tatiane Pereira de Souza

Relação de Autores 361

Coletânea Científica F A R M A C O G N O S I A

Co letânea Ci e n t í f i c a

Co letânea Ci e n t í f i c a

André Gonzaga dos Santos

Hérida Regina Nunes Salgado

Marcos Antonio Corrêa

Marlus Chorilli

Raquel Regina Duarte Moreira

Rosemeire Cristina Linhari Rodrigues Pietro Vera Lucia Borges Isaac

O uso das plantas em Cosmetologia fez aparecer uma terminologia específica para designar o ramo da Cosmetologia que trata do estudo e da utilização de substâncias de origem vegetal empregadas para manutenção e/ou promoção da beleza da pele, a Fitocosmética. Do grego, phyton – planta e kosmein – cosméticos, o fitocosmético tem sido procurado cada vez mais pelo consumidor, na busca pelo natural (ISAAC et al., 2008). Valfré, em 1990, definiu a Fitocosmética como o segmento da ciência cosmética que se dedica ao estudo e à aplicação dos conhecimentos da ação dos princípios ativos extraídos de espécies do reino vegetal, em proveito da higiene, da estética, da correção e da manutenção de um estado normal (eudérmico) da pele.

Da mesma forma, apareceu também a designação de

Cosmético Natural, que pode ser entendido como o produto que contém substâncias encontradas na natureza, sem tratamento, o que não é muito interessante, já que podem ser ins-

Babosa – Aloe vera

Co letânea Ci e n t í f i c a táveis do ponto de vista químico, físico e microbiológico (ISAAC et al., 2008).

O cosmético natural pode, também, ser entendido como sendo aquele produto que não contém substâncias resultantes de síntese química, embora possa conter conservantes sintéticos. Por outro lado, mesmo com dificuldades para designar corretamente esses novos termos, é preciso reconhecer uma crescente utilização de produtos de origem vegetal, o que fomentou o uso e o estudo para descoberta de novos ativos e sua atuação na pele. Assim, o cosmético natural pode ser entendido como aquele produto que contenha extrato ou óleo vegetal, como ativos, lembrando sempre aquela analogia equivocada do que é natural faz bem (CHARLET, 1996).

Há milhares de anos, o homem vem utilizando os recursos da flora no tratamento de diversas patologias. Gurib-Fakim (2006) afirma que os primeiros registros sobre a utilização de plantas foram escritos em placas de argila, oriundas da Mesopotâmia, e datados por volta de 2600 a.C. Dentre as substâncias que eram usadas estão óleos de Cedrus Trew species (Cedar) e Cupressus sempervirens L. (Cypress), Glycyrrhiza glabra Torr. (Licorice), Commiphora Jacq. species (Myrrh) e Papaver somniferum L., todos ainda utilizados para o tratamento da indisposição e mal-estar advindos desde tosses e resfriados até infecções parasitárias e inflamações.

No ano 78 d.C., o botânico grego Pedanios Dioscorides descreveu cerca de 600 plantas medicinais, além de produtos minerais e animais no tratado De materia medica. Esse tratado permaneceu como fonte de referência por mais de quatorze séculos. Foi através da observação e da experimentação pelos povos primitivos que as propriedades terapêuticas de determinadas plantas foram sendo descobertas e propagadas de geração em geração, fazendo parte da cultura popular (TUROLLA & NASCIMENTO, 2006).

No século XVI, o médico suíço Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von

Hohenheim, conhecido como Paracelsus (1493-1541), formulou a “Teoria das Assinaturas”, baseada no provérbio latim similia similibus curantur, “semelhante cura semelhante”. Com essa teoria, acreditava-se que a forma, a cor, o sabor e o odor das plantas estavam relacionados com as suas propriedades terapêuticas, podendo dar indícios de seu uso clínico. Algumas dessas plantas passaram a fazer parte das farmacopeias alopáticas e homeopáticas a partir do século XIX, quando se começaram a investigar suas bases terapêuticas (ELVIN-LEWIS, 2001).

O isolamento da morfina da Papaver somniferum L., em 1803, pelo farmacêutico

Friedrich Wilhelm Adam Sertürner, marcou o início do processo de extração de princípios ativos de plantas. A partir de então, outras substâncias foram isoladas, como, por exemplo, a quinina e a quinidina obtidas da Cinchona spp, em 1819, e a atropina da Atropa belladonna L., em 1831, que passaram a ser utilizadas em substituição aos extratos vegetais (TUROLLA & NASCIMENTO, 2006).

Assim, a produção de fármacos via síntese química, o crescimento do poder econômico das indústrias farmacêuticas e a ausência de comprovações científicas de eficácia das substâncias de origem vegetal aliada às dificuldades de controle químico, físico-químico, farmacológico e toxicológico dos extratos vegetais até então utilizados impulsionaram a substituição desses por fármacos sintéticos (RATES, 2001).

Após a década de 1960, observou-se, então, um desinteresse da indústria farmacêutica e dos institutos de pesquisa pela busca de novas substâncias de origem vegetal, por se acredi-

Co letânea Ci e n t í f i c a tar que já haviam sido isoladas as principais substâncias ativas das drogas vegetais conhecidas, bem como já haviam sido realizadas todas as possíveis modificações químicas de interesse dessas substâncias. Entretanto, a partir dos anos 1980, os avanços técnicos e o desenvolvimento de novos métodos de isolamento de substâncias ativas a partir de fontes naturais permitiram maior rapidez na identificação de substâncias em amostras complexas como os extratos vegetais, ressurgindo o interesse pela pesquisa dessas substâncias como protótipos para o desenvolvimento de novos fármacos.

Assim, mesmo com o desenvolvimento de grandes laboratórios farmacêuticos e dos fármacos sintéticos, as plantas medicinais permaneceram como forma alternativa de tratamento em várias partes do mundo. Observou-se, nas últimas décadas, a revalorização do emprego de preparações à base de plantas, mas o novo avanço, longe de ser uma volta ao passado, caracteriza-se pela busca de produção em escala industrial, diferentemente das formas artesanais que caracterizaram os estágios iniciais de sua utilização (TUROLLA & NASCIMENTO, 2006).

No início da década de 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou que 65 – 80% da população dos países em desenvolvimento dependiam das plantas medicinais como única forma de acesso aos cuidados básicos de saúde. Ainda, ao longo do tempo, têm sido registrados variados procedimentos clínicos tradicionais utilizando plantas medicinais. Apesar da grande evolução da medicina alopática a partir da segunda metade do século X, existem obstáculos básicos na sua utilização pelas populações carentes, que vão desde o acesso aos centros de atendimento hospitalares à obtenção de exames e medicamentos. Esses motivos, associados com a fácil obtenção e a grande tradição do uso de plantas medicinais, contribuem para sua utilização pelas populações dos países em desenvolvimento (VEIGA JÚNIOR et al., 2005).

Nos países em desenvolvimento, bem como nos mais desenvolvidos, os apelos da mídia para o consumo de produtos à base de fontes naturais aumentam a cada dia. Os ervanários prometem saúde e vida longa, com base no argumento de que plantas usadas há milênios são seguras para a população. Nos Estados Unidos e na Europa, entretanto, há mais controle no registro e na comercialização dos produtos obtidos de plantas. Nesses países, as normas para a certificação e o controle de qualidade de preparações vegetais são mais rígidos. Já no Brasil, as plantas da flora nativa são consumidas com pouca ou nenhuma comprovação de suas propriedades farmacológicas, propagadas por usuários ou comerciantes. Muitas vezes essas plantas são, inclusive, empregadas para fins diferentes daqueles utilizados pelos silvícolas. Comparada com a dos medicamentos usados nos tratamentos convencionais, a toxicidade de plantas pode parecer trivial, o que, entretanto, não é verdade. É, sim, um problema sério de saúde pública. Os efeitos adversos, possíveis adulterações e toxidez, bem como a ação sinérgica com outras substâncias ocorrem comumente (VEIGA JÚNIOR et al., 2005).

Assim, a prática da utilização de plantas de forma segura encontra uma série de dificuldades, que vão desde a identificação correta do material botânico utilizado à quase inexistência de estudos de segurança, eficácia e qualidade de grande parte das plantas, uma vez que as pesquisas realizadas para avaliação do uso seguro no Brasil ainda são incipientes, assim como o controle da comercialização pelos órgãos oficiais em feiras livres, mercados públicos ou lojas

Co letânea Ci e n t í f i c a de produtos naturais (ROCHA et al., 2004).

Como atualmente ainda grande parte da comercialização de plantas e extratos ou óleos vegetais é feita em farmácias e lojas de produtos naturais, onde preparações vegetais são comercializadas com rotulação industrializada e, em geral, essas preparações não possuem certificado de qualidade e são produzidas a partir de plantas cultivadas, este capítulo abordará os compostos ativos, sua utilização em cosméticos, uma introdução ao controle de qualidade de matérias-primas vegetais e de produtos acabados contendo extratos ou óleos vegetais, além das técnicas de identificação e monitoramento de sua constituição química descritas em Farmacopeias e Códigos oficiais, os testes empregados nos ensaios de controle de qualidade para o produto acabado, além de uma série de formulações cosméticas empregando ativos encontrados nas plantas, na obtenção de diferentes tipos de fitocosméticos.

As matérias-primas naturais utilizadas para fabricação/manipulação de produtos cosméticos apresentam vantagens e desvantagens, em relação às sintéticas, tais como:

�os produtos naturais são misturas de um grande número de componentes químicos. Isso pode representar uma enorme dificuldade para o controle de qualidade ou, então, para atribuir a ação a um determinado constituinte;

�os produtos naturais são difíceis de padronizar, em função de seus vários componentes, que fornecem um espectro não definido; assim, uma só substância é considerada, em geral a predominante, para sua padronização, sem considerar os demais componentes; entretanto, a atividade atribuída ao extrato pode ser devida à ação conjunta de dois ou mais constituintes da mesma planta;

�os produtos naturais geralmente apresentam composição variada em função do clima ou da época da coleta ou mesmo da qualidade da terra, o que pode dificultar o emprego dessa planta como fonte de recursos naturais para elaboração de fitocosméticos, por não estar garantida a mesma constituição qualitativa;

�os produtos naturais podem sofrer contaminação por pesticidas, uma vez que, no Brasil, o uso desses produtos químicos ainda é prática costumeira;

�os produtos naturais podem conter substâncias tóxicas, cancerígenas e alergizantes, que não foram identificadas em função da grande quantidade de substâncias presentes nos extratos vegetais;

�os produtos naturais apresentam atividade consagrada, uma vez que sua ação é popularmente conhecida há tempos. Esse conhecimento pode levar a estudos mais aprofundados – traduzidos em dissertações e teses, para comprovação de sua eficácia e segurança;

�os produtos naturais têm sua disponibilidade limitada e sempre sujeita a flutuações.

Essa disponibilidade está relacionada à sustentabilidade e as flutuações são decorrentes de intempéries.

Em contrapartida, é possível dizer, a respeito dos produtos sintéticos:

�são mais baratos. Isso pode ser exemplificado com o óleo essencial extraído das flores do jasmim, para fabricação de perfumes: um caminhão de flores fornece cerca de 40ml

(Parte 1 de 6)

Comentários