Introdução à Economia N.Gregory Mankiw - Livro (parte 4) POLITECNICOS.COM.BR

Introdução à Economia N.Gregory Mankiw - Livro (parte 4) POLITECNICOS.COM.BR

(Parte 1 de 9)

1 0 MOEDA E PREWS NO LONGO PR-AZO

0 SISTEMA MONETARIO A uando voce entra em urn restaurante para comprar uma refeic5o, obtem algo devalor — a barriga cheia. Para pagar por esse servico, voce poderia dar ao proprietariodo estabelecimento varios pedacos usados de papel esverdeado decorados corn sim-bolos estranhos, predios do govern° e retratos de americanos famosos jé falecidos. Oupoderia entregar urn unico pedaco de papel corn o nome de urn banco e a sua assi-natura. Independentemente de voce pagar ern dinheiro ou em cheque, o restaurateurfica satisfeito em trabalhar arduamente para satisfazer seus desejos gastronamicos emtroca de pedacos de papel que, em si e por si prOprios, nao tern qualquer valor.Para qualquer pessoa que tenha vivido em uma economia modema, esse habitosocial nao tern nada de estranho. Embora,suapel-moeda nao tenha valor intrinse---- : ,co, o restaurateur esta confiante de que, no futuro, uma terceira pessoa o acertara emtroca de algo a que o restaurateur de valor. E essa terceira pessoa esta confiante de queuma quarta pessoa aceitara o dinheiro, sabendo que uma quinta pessoa o recebera...e assim por diante. Para o restaurateur e para as demais pessoas de nossa sociedade,seu dinheiro ou cheque representam urn direito a bens e servicos no futuro.0 habit° social de usar dinheiro para transacoes é extraordinariamente Util emuma sociedade grande e complexa. Imagine, por urn momento, que nao haja qual-quer item na economia que seja largamente aceito em troca de bens e servicos. Aspessoas teriam de recorrer ao escambo — a troca de urn bem ou servico por outro —

628PARTE 10 1/10EDA E PREOS NO LONGO PRAZO

jmoeda o conjunto de ativos da economia que as pessoas usam regularmente para comprar bens e servicos de outras pessoas para obter as coisas de que precisam. Para conseguir sua refeio em um restaurante, por exemplo, voce teria de oferecer ao restaurateur algo de valor imediato. Voce poderia se oferecer para lavar alguns pratos, limpar o carro dele ou dar-lhe a receita secreta do bolo de came da sua familia. Uma economia que dependa do escambo terá dificuldades para alocar eficientemente seus recursos escassos. Numa economia desse tipo, diz-se que o comercio requer a dupla coincidncia de desejos — a impro\thvel circunst.ncia em que duas pessoas tenham, cada urna, os bens ou servic;os que a outra deseja.

A existencia do dinheiro toma o comercio mais fácil. 0 restaurateur 1- o est preocupado em saber se voce é capaz de produzir um bem ou servio de valor para ele. Ele fica satisfeito em aceitar seu dinheiro, sabendo que outras pessoas far' o o mesmo para ele. Essa conven0o permite que o comrcio seja indireto. 0 restaurateur aceita o seu dinheiro e o usa para pagar sua chef a chclutiliza o dinheiro para 13agar a creche de seu filho; a creche usa esse dinheiro para pagar o salkio da professora; e a professora contrata voce, leitor, para aparar seu g,ramado. Ao fiuir de pessoa para pessoa na economia, o dinheiro facilita a produio e o comercio, permitindo que cada pessoa se especialize naquilo que sabe fazer melhor e elevando o padro de vida de todos.

Neste capitulo, comearemos a examinar o papel da moeda na economia. Discutiremos o que e a moeda, as diversas forn-las que assun-ie, como o sistema banckio ajuda a criar moeda e como o governo controla a quantidade de moeda em circulaylo. Pelo fato de ser t-k) importante na economia, dedicaremos muito esfoNo no restante do livro para aprender con-io as varig6-es na quantidade de moeda afetan-i diversas vari. veis econOrnicas, incluindo inflação, taxas de juros, produo e emprego. Coerentemente com nosso enfoque no longo prazo nos tres capitulos anteriores, no prOximo capitulo examinaremos os efeitos de lorigo prazo das varigrjes na quantidade de moeda. Os efeitos das variaes monetkias no curto prazo s' o um assunto mais complexo que abordaremos mais adiante. Este capitulo fornece o pano de funclo para toda essa

0 SIGNIFICADO DA MOEDA

0 que é moeda? Esta pode parecer uma pergunta estranha. Quando voce le que o bilionkio Bill Gates tem muito dinheiro, voce sabe o que isso sig,nifica: ele e t'a'o rico que pode comprar quase tudo o que deseja. Nesse sentido, o termo dinheiro e usado para significar riqueza.

Os economistas, contudo, usam a palavra moeda com um significado mais especifico: Moeda e o conjunto de ativos na econon-lia_que as essoas usam regularmerk_ te para con-iprar bens e servicos de outras pessoas. 0 dinheiro em sua carteira moeda porque voce pode para con-iprar uma refeilo num restaurante ou uma camisa numa loja de roupas. Por outro lado, se voce fosse dono da maior parte da Microsoft Corporation, como é o caso de Bill Gates, voce seria rico, mas esse ativo não e considerado uma forma de moeda.Voce riR) poderia comprar uma refeicf.0 ou uma camisa com esta riqueza sem antes obter alg,um tipo de dinheiro. De acordo com a definio dos economistas, a moeda inclui apenas aqueles poucos tipos de riqueza que s-&) regularmente aceitos por vendedores em troca de bens e servios.

As Funces da Moeda

A moeda tem tres fuN-(jes na economia: é um meio de troca, uma unidade de conta —e uma reserva de valor. Essas tres fuN"c5es juntas distinguem a n-loeda dos demais

CAPITULO 29 0 SISTEMA MONETARIO629 ativos da economia, como aches, tftulos, bens imOveis, °bras de arte e ate figuri-nhas de beisebol.Vamos examinar cada uma dessas funcoes da moeda.Um meio de troca é algoclue Os compradores dao aos venesncompram bens e_servic. Quando voce compra uma camisa —numa loja de roupas,a loja lhe entrega a camisa e voce entrega moeda a loja. Essa transferencia demoeda do comprador para o vendedor permite que a transacao ocorra. Quandoentra numa loja, voce esta confiante de que ela ira aceitar sua moeda em troca dositens que estao a venda, porque a moeda é o meio de troca comumente aceito.Uma unidade de conta é um padrao de medida c ue as pessoas usam_para.anunciaegistrar debitos. Quando voce vai as compras, pode observarque uma camisa custa $ 20 e Lirn hambtirguer, $ 2. Embora seja correto dizer que opreco de uma camisa sao dez hambUrgueres e que o preco de um hamburg,uer é1/10 do preco de uma camisa, os precos nunca sao cotados dessa maneira. Deforma similar, se voce toma urn emprestimo corn urn banco, o montante de suasprestaches futuras sera medido em &Mares, n5o em uma quantidade de bens e ser-vicos. Quando queremos medir e registrar valor economic°, usamos a moedacomo unidade de conta.Uma reserva de valor_e algo. q_ue as pessoas_ podem tisar para transferir podercom ra of_uturo. Quando urn vendedor aceita moeda hoje emtroca de urn bem ou servico, ele pode ficar corn a moeda e tomar-se comprador deoutro bem ou servico em outro momenta E claro que a moeda nao é a unica reser-va de valor da economia, já que uma pessoa tambem pode transferir poder decompra do presente para o futuro mantendo outros ativos..0 term° riqueza usado,para fazer referencia ao total de reservas de valor, incluindo tanto a moeda quan:to os ativos nao-monetarios._Os economistas usam o termo uidez -)ara descrever a facilidade corn que urn.ativo pode ser convertido em meio de troca da economia. Como a moeda é o meiode troca da economia, ela é o mais liquid° dos ativos disponfveis. A liquidez dosdemais ativos varia muito. A maioria das aches e dos tftulos pode ser vendida facil-mente corn pequeno custo, de modo que esses sao ativos relativamente liquidos.Por outro lado, vender uma casa, uma pintura de Rembrandt ou uma figurinha deJoe DiMaggio de 1948 exige mais tempo e esforco, de modo que esses ativos saomenos liquidos.Quando as pessoas decidem sob que forma manter sua riqueza, precisam levarem consideracao a liquidez de cada ativo em relacao a sua utilidade como reservade valor. A moeda é o ativo mais liquid°, mas esta longe de ser perfeita como reser-va de valor. Quando ossrecos sobem, o valor da moeda cai. Em outras palavras,quando os bens e servicos se tornam mais caros, cada Mar que voce tern na car-teira pode comprar menos. Essa ligacao entre o nivel de precos e o valor da moedase revelara importante para entender como a moeda afeta a economia.

mem de troca algo que os compradores dao aos vendedores quando que-(rem comprar bens e servicos funidade de conta o padrao de medida que as1pessoas usam para anunciar precos e registrar debitos rreserva de valorj algo que as pessoas podem usar para transferir poder de i compra do presente para o ,futuro liquidez a facilidade corn que urn ativo pode ser convertido em meio de troca da economia teAEcOtVALOP, )(AMOF

630PARTE 10 MOEDA E PREOS NO LONGO PRAZO eutro exemplo de moeda-mercadoria s.-c) os cigarros. Nos campos de prisioneiros de guerra durante a Segunda Guerra Mundial, os prisioneiros trocavam bens e servios entre si usando cigarros como reserva de valor, unidade de conta e meio de troca. De forma similar, quando a União Sovietica estava em colapso, no final da decada de 1980, os cigarros comec;aram a substituir o ruhlo como moecla ern circu- lg-ao preferida em Moscou. Nos dois casos, ate os ficavam satisfeitos em aceitar cigarros em uma troca, sabendo que poderiam usa-los para comprar outros bens e servi9o3

A moeda sem valor intrinseco écharnadadernoeda de curso foNado (fiat money). Isso significa que o mstrumento utilizado e moeda por decreto govemamental. Por exemplo, compare as notas de dOlar (impressas pelo governo americano) com as notas de um jogo de Banco Imobiliario (impressas pela fabrica de brinquedos Parker Brothers). Por que voce pode usar as primeiras para pagar a conta de um restaurante, mas nao as seg,undas? A resposta é que o govemo americano decretou que seus dOlares são moeda valida. Em cada nota de dOlar ha a seg,uinte

"Esta nota é moeda corrente para todas as dividas, pUblicas e privadas".

Embora o govemo seja a figura central para estabelecer e regular um sistema de n-ioeda de curso foNado (processando os falsificadores, por exemplo), outros fatores tambem s'ao necessarios para o sucesso de um sistema monetario desse tipo. Em g,rande medida, a aceitao da moeda de curso foNado depende tanto das moeda de curso forcado moeda sem valor intrinseco que é usada comorri9eda_ _ por decreto governamental _

NOTIIC1AS

0 popel dos hdbitos sociais no sistema monetario é mais evidente em culturas estrangeiras com costumes muito diferentes dos nossos. 0 artigo a seguir descreve a moeda no ilha de Yap. À med•a que for lendo o artigo, pergunte-se se Yop esta usando uma moeda-mercadoria, uma moeda de curso forado ou algo entre os dois extremos.

Ativos Fixos ou Por que É Tho Difícil Rolar Empr6timos em

Yap Por Art Prrie

Yap, Micronesia — Nesta minscula ilha do Pacifico Sul, a vida é facil e a moeda é forte.

Em outros lugares, o sistema monetario mundial esta em dificuldades; taxas de cern- bio flutuantes tumultuam os mercados de moeda e as desvalorizaces sao lugar-comum. Mas em Yap a moeda é tao sdida quanto uma rocha. De fato, ela é uma rocha. Rocha calcaria, para ser exato.

Por quase 2 mil anos os yapeses usaram grandes discos de pedra para pagar por grandes compras, como terras, canoas e licencas de casamento. Yap é um territ6rio americano e o ddar é usado nos supermer- cados e postos de gasolina. Mas a confianca no dinheiro de pedra, assim como o antigo sistema de castas da ilha e suas vestes tradicionais, ainda perdura.

Comprar propriedades com pedras ije muito mais facil do que comprar com ddares dos Estados Unidos", diz John Chodad, que recentemente adquiriu um terreno com um disco de pedra de 90 cm de diametro. "N6s nao sabe'mos o valor do cldar americano."

Os discos de pedra n-ao s'ao adequados para pequenos neg6cios, de modo que os yapeses usam outros tipos de moeda, como a cerveja, para pequenas transaces. A cerveja é oferecida como pagamento por todos os tipos de servicos ocasionais, inclusive os de construck. Os 10 mil habitantes de Yap consomem entre 40 mil e 50 mil caixas de cerveja por ano, predominantemente da marca Budweiser. (...)

0 povo de Yap usa a moeda de pedra desde que um guerreiro yapes chamado Anagumang trouxe as enormes pedras das cavernas de calcario da vizinha Palau, ha 1.500 ou 2 mil anos. Inspirado pela lua, ele

632PARTE 10 1/10EDA E PREOS NO LONGO PRAZO mantida em sua carteira. Para meciir_o_e_stosuecie moeda,_portanto, voce deveos dep6sitos vista — os saldos em conta corrente que os depositantespodem acessar simplesmente com a en-lissao de urn cheque.Uma vez que voc"e considera os depOsitos à vista em conta corrente como partedo estoque de moeda, voce e levado a considerar a g,rande variedade de outras con-tas que as pessoas mantem em seus bancos e outras instituies financeiras. Osdepositantes habitualmente nao podem emitir cheques sobre seus depOsitos emcontas de poupanyi, mas poden-1 transferir facilmente os saldos da poupana paraa conta corrente.Alem disso, os depositantes de fundos miltuos do mercado mone-tariol podem, freqiientemente, emitir cheques sobre seus depOsitos. Portanto, essasoutras contas deveriam fazer parte do estoque de moeda dos Estados Unidos.Numa economia tao complexa quanto a nossa, nao e facil estabelecer uma linhaseparando os ativos que podem ser chamados de "moeda" dos que nao podem. Asmoedas que temos no bolso claramente fazem parte do estoque de moeda, e oEdificio Empire State claramente nao faz 1.-)arte, mas ha muitos ativos entre essesdois extremos para os quais a situaao nao é tao Portanto_ha diversas medi,-das para o estoT,ie de moeda. A Figura 1 mostra as duasrnaisntes,M1eM2. Cada uma dessasmedidas emprega um criterio ligeiramente diferertte paradistinguir ativos monetftios de rio-monetrios.Para os propOsitos de1iisamos nos deter nasmdifereN.as--elt,r_e_diversas medidas de oeda. 0 importante e saber que o estoque de moeda da eco-nomia americana inclui n'a-o apenas a moeda corrente, mas tambem os depOsitos

_. efetu—ados em bancos e outras institu*-5es financeiras Que possam ser facilmente_acessados e usados para comprar bens e servios. _•--- dep6sitos à vista saldos em conta corrente aos quais os depositantes tem _acesso mediante a emissao um cheque

CARTelES DE CRbITO, CART(IES DE DbITO EMOEDA

Poderia parecer natural incluir cart6es de credito como parte doestoque de moeda da economia. Afinal, as pessoas usam cart6es de credito para fazer muitas de suas compras. Portanto, nao serao os cart6es de credito um meio de troca?

Embora esse argumento possa parecer persuasivo à primeiravista, os cart6es de credito sao excluidos de todas as medidas dequantidade de moeda. A razao é que eles nao sao, na verdade, umaforma de pagamento, mas diferir pagarnentos.Qi7a7-2.6 voce compra uma refei ao com cartao de credito, o bancoque emitiu o cartao paga ao restaurante o que é devido. Numa dataposterior, voce tera de reembolsar o banco (talvez com juros).

Quando chegar a hora de pagar a conta de seu cartao de credito, voce provavelmente o fara mediante a emissao de um cheque con- tra sua conta corrente. 0 saldo dessa co nta do esto-

~a economia.Observe que os cart6es de credito sao muito diferentes dos car-t6es de debito, que automaticamente retiram fundos de uma contabancaria para pagar por itens comprados. Em vez de possibilitar queo usuario adie o pagamento de uma compra, o cartao de debito ihepermite acesso imediato aos depbsitos na conta bancaria. Nesse sen-tido, o cartao de debito se assemelha mais ao cheque do que ao car-tao de credito. Nsaldos das contas que estao por tras dos cart6esde debito sao inchlidos nas medidas de quantidade de moeda.Embora os cart es de credito nao sejam considerados umaforma de moeda, sao importantes para a analise do sistema mone-tario. As pessoas que tem cart6es de credito podem pagar muitasde suas contas de uma só vez no fim do mes, em vez de paga-lasesporadicamente à medida que fazem compras. Como resultado, osportadores de cart6es de credito provavelmente carregam consigo,em media, menos moeda do que as que nao possuem cartao decredito. Portanto, a introd4o e o aumento c_lapopulariclade doscart6es de credito podem reduzir a quantidade de moeda que as_ _.-•pessoasoEtam por ter consigo._

(Parte 1 de 9)

Comentários