O Gene Egoista - Richard Dawkins

O Gene Egoista - Richard Dawkins

(Parte 1 de 11)

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

Sobre nós:

O Le Livros e seus parceiros, disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Info ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.

Richard Dawkins O GENE EGOÍSTA

O chimpanzé e os seres humanos compartilham cerca de 9,5 por cento de sua história evolutiva, no entanto a maioria dos pensadores humanos considera o chimpanzé uma excentricidade malformada e irrelevante, enquanto se veem a si próprios como degraus para o Todo-poderoso. Para um evolucionista isto não pode ocorrer. Não há fundamento objetivo para qual elevar uma espécie acima de outra. Chimpanzés e seres humanos, lagartixas e fungos, todos evoluímos durante aproximadamente três bilhões de anos por um processo conhecido como seleção natural. Dentro de cada espécie alguns indivíduos têm mais descendentes sobreviventes do que outros, de modo que as características herdáveis (genes) daqueles reprodutivamente bem sucedidos tornam-se mais numerosos na geração seguinte. A seleção natural é isto: a reprodução diferencial não aleatória dos genes. Ela nos formou e é ela que devemos entender se quisermos compreender nossas próprias identidades.

Embora a teoria da evolução através da seleção natural de Darwin seja central ao estudo do comportamento social (especialmente quando unida à genética de Mendel), ela tem sido amplamente ignorada. Verdadeiras indústrias se desenvolveram nas ciências sociais dedicadas à construção de uma visão pré-darwiniana e pré-mendeliana do mundo social e psicológico. Mesmo na Biologia o esquecimento e o abuso da teoria darwiniana têm sido surpreendentes. Sejam quais forem as razões deste estranho desenvolvimento, há indicações de que ele está terminando. A grande obra de Darwin e de Mendel tem sido ampliada por um número crescente de pesquisadores, notavelmente R. A. Fisher, W. D. Hamilton, G. C. Williams e J. Maynard Smith. Agora, pela primeira vez, este importante corpo de teoria social baseada na seleção natural é apresentado sob forma simples e popular por Richard Dawkins.

Um a um, Dawkins examina os principais temas da nova pesquisa em teoria social: os conceitos de comportamento altruísta e egoísta, a definição genética de auto-interesse, a evolução do comportamento agressivo, a teoria do parentesco (as relações entre pais e prole e a evolução dos insetos sociais), a teoria da proporção entre os sexos, o altruísmo recíproco, o engano e a seleção natural das diferenças sexuais. Com a confiança oriunda do domínio da teoria subjacente, Dawkins revela a nova pesquisa com estilo e clareza admiráveis. Educado largamente em Biologia, ele dá ao leitor uma amostra de sua literatura rica e fascinante. Quando discorda de trabalhos publicados (como o faz ao criticar uma falácia minha), quase invariavelmente acerta o alvo. Dawkins também se esforça por tornar clara a 1ógica de seus argumentos, de modo que o leitor, aplicando a lógica fornecida, possa ampliar os argumentos (e até mesmo rivalizar com o próprio Dawkins). Os próprios argumentos estendem-se em muitas direções. Por exemplo, se (como Dawkins mantém) o fraude é fundamental à comunicação animal, então deve haver forte seleção para detectar o engano, e isto, por sua vez, deve selecionar certo grau de engano próprio, tornando inconscientes alguns fatos e motivos, de modo a não trair – pelos sinais sutis de autoconhecimento – a fraude que está sendo praticado. Assim, a ideia convencional de que a seleção natural favorece aqueles sistemas nervosos que produzem imagens cada vez mais exatas do mundo deve ser uma visão muito ingênua da evolução mental.

O progresso recente na teoria social tem sido importante o suficiente para gerar um pequeno alvoroço de atividade contrarrevolucionária. Tem-se alegado, por exemplo, que o progresso recente é, de fato, parte de uma conspiração cíclica para impedir o avanço social, fazendo com que ele pareça ser geneticamente impossível. Ideias tênues semelhantes têm sido reunidas para dar a impressão que a teoria social darwiniana é reacionária em suas implicações políticas. Isto está muito longe da verdade. A igualdade genética dos sexos, por exemplo, foi, pela primeira vez, claramente estabelecida por Fisher e Hamilton. A teoria e os dados quantitativos provenientes dos insetos sociais demonstram que não há uma tendência inerente aos pais de dominarem sua prole (ou vice-versa). E os conceitos de investimento parental e escolha por parte da fêmea fornecem um fundamento objetivo e imparcial para examinar as diferenças sexuais, um avanço considerável em relação aos esforços populares de fixar os poderes e direitos da mulher no pântano inútil da identidade biológica. Em resumo, a teoria social darwiniana nos dá uma ideia de uma lógica e de uma simetria subjacentes nas relações sociais, as quais, quando forem mais completamente compreendidas por nós, devem revitalizar nossa compreensão política e fornecer o apoio intelectual a uma ciência e medicina da Psicologia. Neste processo, ele deve dar-nos também uma compreensão mais profunda das muitas origens de nosso sofrimento.

Robert Trivers Universidade de Harvard Julho, 1976

Este livro deveria ser lido quase como se fosse ficção científica. Ele destina-se a agradar a imaginação. Mas não é ficção científica: é Ciência. Seja ou não um lugar-comum, "mais estranho do que ficção" exprime exatamente como me sinto com relação à verdade. Somos máquinas de sobrevivência – veículos robô programados cegamente para preservar as moléculas egoístas conhecidas como genes. Esta é uma verdade que ainda me enche de surpresa. Embora a conheça há anos, parece que nunca me acostumo completamente a ela. Um de meus desejos é ter algum sucesso em surpreender a outros.

Três leitores imaginários olharam por sobre meu ombro enquanto escrevia, e agora a eles dedico o livro. Em primeiro lugar o leitor geral, o leigo. Por ele evitei o jargão técnico quase totalmente e onde tive que usar palavras especializadas eu as defini. Agora me pergunto por que não censuramos a maior parte de nosso jargão também das revistas especializadas. Supus que o leigo não tenha conhecimento especializado, mas não supus que ele seja estúpido. Qualquer um pode popularizar a Ciência se ele simplificar demasiadamente. Trabalhei arduamente tentando popularizar algumas ideias sutis e complicadas em linguagem não matemática, sem perder de vista sua essência. Não sei quanto sucesso tive nisto, nem quanto sucesso tive em outra de minhas ambições: tentar tornar o livro tão fascinante e agradável quanto o assunto merece. Desde há muito senti que a Biologia deve parecer tão excitante quanto uma história de mistério, pois ela é exatamente isto. Não ouso esperar ter transmitido mais do que uma pequena fração da excitação que o assunto tem a oferecer.

Meu segundo leitor imaginário foi o especialista. Ele tem sido um crítico severo, suspirando profundamente com algumas de minhas analogias e figuras de linguagem. Suas frases favoritas são "com exceção de", "por outro lado", e "ah, não". Ouvi-o atentamente e até reescrevi por completo um capítulo apenas em seu benefício, mas, no fim, tive que contar a história da minha maneira. O especialista ainda não estará completamente satisfeito com a maneira pela qual expus o assunto. No entanto, minha maior esperança é que até ele encontrará aqui algo de novo; uma nova maneira, talvez, de ver ideias familiares; até mesmo estímulo para ideias novas próprias. Se esta é uma aspiração alta demais, poderei pelo menos esperar que o livro o distraia em um trem?

O terceiro leitor que tive em mente foi o estudante, realizando a transição do leigo para o especialista. Se ele ainda não decidiu em que campo quer se especializar, espero encorajá-la a considerar meu próprio campo da Zoologia. Há uma razão melhor para estudar a Zoologia do que sua possível "utilidade" e estima que os animais provocam. Esta razão é que nós animais somos as máquinas mais complicadas e perfeitamente planejadas do universo conhecido. Apresentada desta forma, é difícil entender como alguém pode estudar qualquer outra coisa! Para o estudante que já se comprometeu com a Zoologia, espero que meu livro tenha algum valor educativo. Ele está tendo que estudar os artigos originais e livros técnicos nos quais minha exposição se baseia. Se ele achar as fontes originais difíceis de entender, talvez minha interpretação não matemática possa ajudar, como uma introdução e fonte suplementar.

Há perigos óbvios em se tentar agradar três tipos diferentes de leitores. Só posso dizer que estive cônscio desses perigos e eles pareceram ser compensados pelas vantagens da tentativa.

Sou etólogo e este é um livro sobre comportamento animal. Minha dívida à tradição etológica na qual fui treinado será óbvia. Em particular, Niko Tinbergen não imagina a importância de sua influência durante os doze anos nos quais trabalhei sob sua direção em Oxford. A frase "máquina de sobrevivência", embora não seja, de fato, criação sua, poderia muito bem sê-lo. Mas a Etologia recentemente tem sido revigorada por uma invasão de ideias novas oriundas de fontes normalmente não consideradas etológicas. Este livro baseia-se em grande parte nessas novas ideias. Seus autores são mencionados nos lugares apropriados no texto; as principais figuras são G. C. Williams, J. Maynard Smith, W. D. Hamilton e R. L. Trivers.

Várias pessoas sugeriram títulos para o livro que eu agradecidamente usei como títulos dos capítulos: "Espirais Imortais", John Krebs; "A Máquina Gênica", Desmond Morris; "Manipulando os Genes", Tim Clutton-Brock e Jean Dawkins, independentemente, com desculpas a Stephen Potter.

Os citares imaginários podem servir como alvos para esperanças e aspirações piedosas, mas eles têm menos utilidade prática do que os leitores e críticos reais. Sou dado a revisares, e Marian Dawkins foi sujeitada a inúmeros rascunhos e novos rascunhos de todas as páginas. Seu conhecimento considerável da literatura biológica e sua compreensão de assuntos teóricos, juntamente com seu encorajamento e apoio moral incessantes, foram-me essenciais. John Krebs também leu todo o rascunho do livro. Ele conhece o assunto melhor do que eu e revelou-se generoso e irrestrito em seus conselhos e sugestões. Glenys Thomson e Walter Bodmer criticaram minha manipulação dos tópicos de Genética de maneira gentil mas firme. Temo que minha revisão ainda não os satisfaça completamente, mas espero que a acharão bastante melhorada. Estou muito grato pelo seu tempo e paciência. John Dawkins esteve infalivelmente atento a construções ambíguas e propôs excelentes sugestões para reformulação. Não poderia ter desejado um "leigo inteligente" mais apropriado do que Maxwell Stamp. Sua detecção ponderada de uma falha geral importante no estilo do primeiro rascunho muito contribuiu para a versão final. Outros que criticaram construtivamente capítulos específicos, ou de alguma outra forma deram sua opinião de especialistas, foram John Maynard Smith, Desmond Morris, Tom Maschler, Nick Blurton Jones, Sarah Kettlewell, Nick Humphrey, Tim Clutton-Brock, Louise Johnson, Christopher Graham, Geoff Parker e Robert Trivers. Pat Searle e Stephanie Verhoeven não apenas datilografaram com habilidade, mas encorajaram-me parecendo fazê-la com alegria. Finalmente, quero agradecer Michael Rodgers da Editora da Universidade de Oxford o qual, além de criticar proveitosamente o manuscrito, trabalhou muito além de seu dever ao controlar todos os aspectos da produção deste livro.

Richard Dawkins

1 - POR QUE SÃO AS PESSOAS?

A vida inteligente em um planeta torna-se amadurecida quando pela primeira vez compreende a razão da sua própria existência. Se criaturas superiores provindas do espaço algum dia visitarem a Terra, a primeira pergunta que farão, a fim de avaliar o nível de nossa civilização será: "Eles já descobriram a evolução?" Organismos vivos haviam existido sobre a Terra, sem nunca saberem porque, por mais de três bilhões de anos, antes que a verdade finalmente ocorresse a um deles. Seu nome era Charles Darwin. Para ser justo, outros tiveram intuições da verdade, mas foi Darwin quem pela primeira vez montou uma explicação coerente e convincente de por que nós existimos. Darwin nos tornou possível dar uma resposta sensata à criança curiosa cuja pergunta serve de título a este capítulo. Não mais temos que recorrer à superstição quando defrontados com os problemas profundos: há um sentido para a vida? Para que existimos? O que é o homem? Depois de formular a última dessas questões, o eminente zoólogo G.G. Simpson assim se expressa: "O que quero esclarecer agora é que todas as tentativas de responder esta pergunta antes de 1859 são inúteis e que será melhor para nós ignorá-las completamente".

Hoje, a teoria da evolução está quase tão sujeita à dúvida quanto a teoria de que a Terra gira ao redor do Sol, mas as implicações plenas da revolução de Darwin ainda estão por serem amplamente compreendidas. A Zoologia ainda é uma matéria minoritária nas universidades e até mesmo aqueles que a escolhem frequentemente tornam esta decisão sem perceber seu significado filosófico profundo. A Filosofia e as matérias conhecidas como "Humanidades" ainda são ensinadas quase como se Darwin nunca houvesse existido. Sem dúvida, isto mudará com o tempo. De qualquer forma, este livro não pretende ser uma defesa geral do darwinismo. Em vez disto, ele explorará as consequências da teoria da evolução para uma questão específica. Meu propósito é examinar a biologia do egoísmo e do altruísmo.

Independente de seu interesse acadêmico, a importância humana deste assunto é óbvia.

Ele toca todos os aspectos de nossas vidas sociais, nosso amor e ódio, luta e cooperação, doação e roubo, nossa ganância e nossa generosidade. Estas são as pretensões que poderiam ter sido atribuídas à obra On Aggression de Lorenz, The Social Contract de Ardrey e Love and Hate de Eibl-Eibesfeldt. O problema com esses livros é que seus autores erraram total e completamente. Eles erraram porque interpretaram mal como a evolução funciona. Fizeram a suposição errônea de que o importante na evolução é o bem da espécie (ou grupo) e não o bem do indivíduo (ou gene). É irônico que Ashley Montagu criticasse Lorenz como um "descendente direto dos pensadores do tipo ‘natureza sangrenta de dentes e garras’ do século dezenove...". Como eu entendo a ideia de evolução de Lorenz, ele concordaria inteiramente com Montagu em rejeitar as implicações da famosa frase de Tennyson. Diferentemente de ambos, acho que a "natureza sangrenta de dentes e garras" resume admiravelmente nossa compreensão moderna da seleção natural.

(Parte 1 de 11)

Comentários