epidemiologia - 2

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(Parte 1 de 5)

Este módulo pretende motivar e instrumentalizar o uso dos conceitos e ferramentas da Epidemiologia no desenvolvimento de atividades nas Unidades de Saúde, junto às comunidades. Com isso, você poderá desenvolver em sua prática cotidiana, a leitura da realidade sociossanitária e de morbimortalidade da população na Unidade de Saúde de seu município.

UNA-SUSConceitos e ferramentas de Epidemiologia -2010

Saúde da Família

Eixo I - Reconhecimento da Realidade

Secretaria de Estado da Saúde Santa Catarina

Modalidade a Distância Especialização em

Módulo 3: Conceitos e ferramentas da Epidemiologia

ConCeitos e ferramentas da epidemiologia

Módulo 3

Presidente da República
Ministro da Saúde
Secretario de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES)
Diretora do Departamento de Gestão da Educação na Saúde (DEGES)
Coordenador Geral de Ações Estratégicas em Educação na Saúde

GOVERNO FEDERAL Responsável Técnico pelo Projeto UNA-SUS Consultora do Projeto UNA-SUS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Reitor Álvaro Toubes Prata Vice-Reitor Carlos Alberto Justo da Silva Pro-Reitora de Pós-graduação Maria Lúcia de Barros Camargo Pró-Reitora de Pesquisa e Extensão Débora Peres Menezes

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE Diretora Kenya Schmidt Reibnitz Vice-Diretor Arício Treitinger

DEPARTAMENTO DE SAÚDE PÚBLICA Chefe do Departamento Walter Ferreira de Oliveira Subchefe do Departamento Jane Maria de Souza Philippi Coordenadora do Curso Elza Berger Salema Coelho

COMITÊ GESTOR Coordenador Geral do Projeto Carlos Alberto Justo da Silva Coordenadora do Curso Elza Berger Salema Coelho Coordenadora Pedagógica Kenya Schmidt Reibnitz Coordenadora Executiva Rosângela Leonor Goulart Coordenadora Interinstitucional Sheila Rubia Lindner Coordenador de Tutoria Antonio Fernando Boing

EQUIPE EaD Alexandra Crispim Boing Antonio Fernando Boing Eleonora Milano Falcão Vieira Fátima Büchele Marialice de Mores Sheila Rubia Lindner

AUTORES Antonio Fernando Boing, Dr. Eleonora d’Orsi, Drª Calvino Reibnitz, Dr.

REVISOR Marco Aurélio de Anselmo Peres

ConCeitos e ferramentas da epidemiologia

Florianópolis

Universidade Federal de Santa Catarina 2010

Eixo I Reconhecimento da Realidade

©Todos os direitos de reprodução são reservados à Universidade Federal de Santa Catarina. Somente será permitida a reprodução parcial ou total desta publicação, desde que citada a fonte. Edição, distribuição e informações: ISBN: 978-85-61682-40-8

Universidade Federal de Santa Catarina Campus Universitário 88040-900 Trindade – Florianópolis - SC Disponível em: w.unasus.ufsc.br

Ficha catalográfica elaborada pela Escola de Saúde Pública de Santa Catarina Bibliotecária responsável: Eliane Maria Stuart Garcez – CRB 14/074

Conceitos e ferramentas da epidemiologia [Recurso eletrônico]

Universidade Aberta do SUS. / Universidade Aberta do SUS;, Antonio Fernando Boing, Eleonora d’ Orsi, Calvino Reibnitz Júnior. Florianópolis : UFSC, 2010.

97 p. (Eixo 1. Reconhecimento da Realidade).

Modo de acesso: w.unasus.ufsc.br

Conteúdo do Módulo 3. – Conceitos de epidemiologia. – Indicadores de saúde. – Sistema de informação em saúde Acessando os sistemas de informações em saúde. O uso da epidemiologia no contexto da sua unidade de saúde.

ISBN: 978-85-61682-40-8

Orsi, Eleonora. IV. Reibnitz Júnior, Calvino V. Título. VI. Série
CDU: 361.1

1.Indicadores de saúde. 2. Sistema de informação. 3. Atenção à saúde. 4.Epidemiologia. I. UNA-SUS. I. Boing, Antonio Fernando. II. d’ U588i

EQUIPE DE PRODUÇÃO DE MATERIAL Coordenadora de Produção Giovana Schuelter Design Instrucional Isabel Maria Barreiros Luclktenberg, Marcia Melo Bortolato Revisão Textual Ana Lúcia P. do Amaral Design Gráfico André Rodrigues da Silva, Felipe Augusto Franke Ilustrações Aurino Manoel dos Santos Neto, Rafaella Volkmann Paschoal Design de Capa André Rodrigues da Silva, Felipe Augusto Franke, Rafaella Volkmann Paschoal Projeto Editorial André Rodrigues da Silva, Felipe Augusto Franke, Rafaella Volkmann Paschoal Revisão Geral Eliane Maria Stuart Garcez

unidade 1 conceitos de epideMiologia13
1.1 Definição de Epidemiologia13
1.2 Início da Epidemiologia14
1.3 Aplicações da Epidemiologia15
1.4 Outras Definições18
1.5 Medidas de Frequência de Doenças19
RefeRências27
unidade 2 indicadoRes de saúde29
2.1 Indicadores de Saúde: Tipos e Aplicações29
2.2 Indicadores de Mortalidade34
2.2.1 Mortalidade Proporcional por Causas34
2.2.2 Mortalidade Proporcional por Idade36
2.2.4 Taxa ou Coeficiente Geral de Mortalidade (CGM)39
2.2.5 Taxa de Mortalidade Específica por Sexo, Idade ou Causa41
2.2.6 Mortalidade Infantil42
2.2.7 Mortalidade Materna47
2.3 Indicadores de Fecundidade49
2.4 Indicadores de Hospitalizações e Mortes Evitáveis51
2.4.1 Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária52
por Intervenções do Sistema Único de Saúde52
RefeRências54
unidade 3 sisteMa de infoRMações eM saúde (sis)57

SUMÁRIO 2.4.2 Lista Brasileira de Causas de Mortes Evitáveis RefeRências ......................................................................... 64

4.1 Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)67
4.2 Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC)72
4.3 Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN)75
do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS)78
4.5 Sistema de Informação de Atenção Básica (SIAB)80
4.6 Outros Sistemas de Informações de Saúde83
Público em Saúde (SIOPS)83
e ao Diabetes Mellitus (HIPERDIA)83
4.6.3 Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN)83
4.6.4 SisPreNatal84
Nacional de Imunização (SI-PNI)84
Tóxico-Farmacológicas (SINITOX)84
RefeRências85

unidade 4 acessando os sisteMas de infoRMações eM saúde (sis) ..67 4.4 Sistema de Informações Hospitalares 4.6.1 Sistema de Informações sobre Orçamento 4.6.2 Programa de Atenção à Hipertensão Arterial 4.6.5 Sistema de Informação do Programa 4.6.6 Sistema Nacional de Informações

contexto da sua unidade de saúde89

unidade coMpleMentaR o uso da epideMiologia no RefeRências ......................................................................... 96

Caro(a) especializando(a),

Seja bem-vindo(a)! Você está iniciando o estudo do módulo de Epidemiologia, cujos conceitos e métodos são aplicados atualmente a um amplo espectro de ações de promoção de saúde e prevenção de doenças e agravos. Um estudo que inclui doenças crônicas, problemas ambientais, socioeconômicos, injúrias e também doenças infecciosas que surgiram recentemente, como a AIDS, e outras que se intensificaram, como a tuberculose.

Neste módulo, você entrará em contato com uma série de métodos e ferramentas que podem ser utilizados para orientar decisões em saúde e para contribuir no desenvolvimento e avaliação de intervenções voltadas ao controle e à prevenção dos problemas de saúde.

Iniciaremos conceituando Epidemiologia e conhecendo seus usos e aplicações no campo da Saúde Pública. Também conheceremos as medidas de frequência de doenças: a incidência e a prevalência. Aplicá-las em seu cotidiano profissional é de grande relevância para a prática assistencial, em ações de prevenção de doenças e na promoção da saúde na sua comunidade.

Também discutiremos alguns importantes indicadores da saúde, reforçando a importância do uso de alguns que você já conhece e apresentar outro , cujo uso são desejáveis na ESF. Tais indicadores podem ser obtidos a partir de Sistemas de Informações em Saúde, que, como mostraremos, são de fácil uso e enorme potencial para a Equipe de Saúde da Família pensar, avaliar suas ações e estratégias desenvolvidas.

Todo o Módulo está direcionado para a aplicação prática e com vários exemplos na ESF.

Desejamos que, a cada unidade, você desenvolva novos conhecimentos e habilidades para aplicar junto com sua Equipe na sua prática em Saúde da Família.

Ementa

O desenvolvimento do processo de reconhecimento da realidade por meio de instrumentais epidemiológicos. Sistemas de Informações em

Saúde. Análise de dados para diagnóstico das situações de saúde. Objetivos a) Conceituar Epidemiologia e conhecer as principais medidas de frequência de doenças utilizadas na Epidemiologia; b) Conhecer, aprender a calcular, interpretar e discutir a importância dos indicadores de saúde para o seu trabalho na Estratégia Saúde da Família; c) Debater a utilização cotidiana dos indicadores de saúde como compromisso de todos os que atuam na Estratégia Saúde da Família; d) Explorar alguns dos principais Sistemas de Informações em

Saúde, identificando os meios de acessá-los, os indicadores de saúde que produzem e suas potencialidades para a Estratégia Saúde da Família.

Carga horária: 30hs. Unidades de Conteúdo:

Unidade 1: Conceitos de Epidemiologia. Unidade 2: Indicadores de Saúde. Unidade 3: Sistema de Informações em Saúde (SIS).

Unidade 4: Acessando os Sistemas de Informações em Saúde (SIS).

Unidade Complementar: O Uso da Epidemiologia no Contexto da sua Unidade de Saúde

Neste módulo você vai entrar em contato com alguns conceitos importantes que irão contribuir para o desenvolvimento de suas atividades na Unidade de Saúde. Vai perceber que estes conceitos são úteis para planejar melhor a coleta, a sistematização e a análise dos dados em saúde, na sua unidade e município. Com isso, você e sua equipe poderão desenvolver, como prática cotidiana, a leitura da realidade sociossanitária e da morbi-mortalidade da população, utilizando tais informações para o planejamento local de saúde e a avaliação das ações adotadas. As ferramentas e conceitos que serão apresentados fazem parte da Epidemiologia.

Na sua prática cotidiana, junto à Estratégia Saúde da Família você certamente se depara com uma série de fichas ou formulários eletrônicos que precisa preencher. Ao longo do módulo, vamos discutir como transformar esse ato, que em determinado contexto pode parecer meramente burocrático, em uma atividade com grande potencial de embasar as práticas assistenciais e de promoção de saúde que você e sua equipe desenvolvem. Vamos discutir o uso da informação para a ação e adentrar em alguns Sistemas de Informações em Saúde, com vistas ao seu uso em sua prática profissional no âmbito da ESF.

Antonio Fernando Boing, Dr.

Eleonora d’Orsi, Dra. Calvino Reibinitz, Dr.

Unidade 1 Módulo 3

Unidade 1 – Conceitos de Epidemiologia13

1 CONCEITOS DE EPIDEMIOLOGIA

Nesta unidade estudaremos conceitos básicos e os principais usos da Epidemiologia. Em seguida, serão abordados os conceitos de incidência e prevalência, importantes medidas de frequência de doenças e demais eventos relacionados à saúde.

No AVEA está disponível um vídeo com todo o conteúdo desta unidade. Recomendamos que você o assista no início dos estudos e que reveja ao final, antes de fazer sua autoavaliação.

Ambiente Virtual

1.1 Definição de Epidemiologia

Epidemiologia pode ser definida como a ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003).

Pelo significado da palavra, podemos entender melhor do que se trata:

EPI = sobre DEMO = população LOGOS = estudo

A Epidemiologia congrega métodos e técnicas de três áreas principais de conhecimento: Estatística, Ciências da Saúde e Ciências Sociais. Sua área de atuação compreende ensino e pesquisa em saúde, avaliação de procedimentos e serviços de saúde, vigilância epidemiológica e diagnóstico e acompanhamento da situação de saúde das populações.

Boing, d’Orsi e Reibnitz Conceitos e ferramentas de Epidemiologia14

Você sabe que quem faz os estudos epidemiológicos são os epidemiologistas, mas você sabe de que área são estes profissionais? Vamos conhecer melhor?

Epidemiologistas são médicos, enfermeiros, dentistas, estatísticos, demógrafos, nutricionistas, farmacêuticos, assistentes sociais, geógrafos, dentre outros profissionais. Os epidemiologistas trabalham em salas de aula, serviços de saúde, laboratórios, escritórios, bibliotecas, arquivos, enfermarias, ambulatórios, indústrias e também nos mais variados locais de realização de trabalhos de campo.

A epidemiologia tem como princípio básico o entendimento de que os eventos relacionados à saúde, como doenças, seus determinantes e o uso de serviços de saúde não se distribuem ao acaso entre as pessoas. Há grupos populacionais que apresentam mais casos de certo agravo, por exemplo, e outros que morrem mais por determinada doença. Tais diferenças ocorrem porque os fatores que influenciam o estado de saúde das pessoas se distribuem desigualmente na população, acometendo mais alguns grupos do que outros (PEREIRA, 1995).

1.2 Início da Epidemiologia

Alguns autores indicam que a Epidemiologia nasceu com Hipócrates na Grécia antiga. Numa época em que se atribuía as doenças, as mortes e as curas a deuses e demônios, o médico grego se contrapôs a tal raciocínio e difundiu a ideia de que o modo como as pessoas viviam, onde moravam, o que comiam e bebiam, enfim, fatos materiais e terrenos eram os responsáveis pelas doenças. Foi uma proposta revolucionária de se pensar o processo saúde-doença.

No entanto, a maior parte dos pesquisadores aponta o médico britânico John Snow como o pai da Epidemiologia. Durante boa parte do século XIX e nos séculos anteriores, no campo científico, a teoria miasmática1 era a principal forma de explicação das doenças. Porém, quando uma violenta epidemia de cólera atingiu Londres em 1854, Snow lançou mão de rigoroso método científico e fez uma ampla, inovadora e criteriosa pesquisa. Ao final, relatou que as feições clínicas da doença revelavam que “o veneno da cólera entra no canal alimentar pela boca, e esse veneno seria um ser vivo, específico, oriundo das excreções de um paciente com cólera. [...] Assinalou, afinal, que o esgotamento insuficiente permitia que os perigosos refugos dos pacientes com cólera se infiltrassem no solo e poluíssem poços.” (ROSEN, 1995). Você sabe o que há de espetacular no raciocínio de Snow? Ele relatou a transmissão hídrica de microorganismos sem microscópio e 30 anos antes de Robert Koch isolar e cultivar o Vibrio

Na teoria miasmática, a origem das doenças se daria a partir da má qualidade do ar, oriunda da putrefação de corpos humanos e de animais e da decomposição de plantas. Além disso, os miasmas emanavam dos dejetos dos doentes, de pântanos e lodos. Malária, por exemplo, é a junção de “mal” e “ar”, mostrando a força do pensamento miasmático.

Unidade 1 – Conceitos de Epidemiologia15 cholarae!!! O uso da ciência e de ferramentas epidemiológicas salvou muitas vidas e ampliou a discussão sobre as causas das doenças.

Outros nomes importantes na história da epidemiologia foram o de John Graunt (1620-1674), pioneiro em quantificar os padrões de natalidade e mortalidade; Pierre Louis (1787-1872), utilizando o método epidemiológico em investigações clínicas de doenças; Louis Villermé (1782-1863), que pesquisou o impacto da pobreza e das condições de trabalho na saúde das pessoas; e William Farr (1807- 1883), na produção de informações epidemiológicas sistemáticas para o planejamento de ações de saúde (ROSEN, 1994, PEREIRA, 1995).

Você gostaria de conhecer mais sobre a história da epidemiologia e da própria saúde pública? O livro: ROSEN, G. Uma história da saúde pública. Rio de Janeiro: Hucitec, 1994, é uma leitura muito enriquecedora. E para conhecer mais sobre o trabalho revolucionário de John Snow, há um livro muito rico sobre essa história: JOHNSON, S. O mapa fantasma: como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Saiba mais

1.3 Aplicações da Epidemiologia

Basicamente, temos três grandes aplicações da Epidemiologia, que estudaremos agora.

a) Descrever as condições de saúde da população

Por exemplo, ao final do século X e cerca de uma década após a implementação do SUS, o Ministério da Saúde investigou as estatísticas oficiais do Brasil e descreveu o perfil de morbi-mortalidade2 da população (BRASIL, 2002).

O objetivo principal do Ministério da Saúde foi conhecer de que adoeceu e de que morreu a população brasileira no ano 2000 e descrever a evolução desses dados durante a década de 1990. A título de ilustração, verificou-se que em 1999, no Brasil, morreram, em média, 34,6 crianças com menos de um ano de vida para cada 1.0 que nasceram vivas naquele ano, e tal valor variou de 53,0 óbitos por 1.0 nascidos vivos na região Nordeste até 20,7/1.0 na região Sul.

As informações a respeito das ações e programas de saúde desenvolvidas pelo Ministério da Saúde são importantes para o planejamento de estratégias de atenção da sua comunidade. Consulte periodicamente este portal e você terá uma visão mais global para atender a situações locais. http://portal.saude.gov.br/ saude/

Boing, d’Orsi e Reibnitz Conceitos e ferramentas de Epidemiologia16

(Parte 1 de 5)

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