Livro - filosofia e ética

Livro - filosofia e ética

(Parte 1 de 6)

Selvino José Assmann

Ministério da Educação – MEC

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES

Diretoria de Educação a Distância – DED

Universidade Aberta do Brasil – UAB

Programa Nacional de Formação em Administração Pública – PNAP Bacharelado em Administração Pública

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© 2012. Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Todos os direitos reservados. A responsabilidade pelo conteúdo e imagens desta obra é do(s) respectivos autor(es). O conteúdo desta obra foi licenciado temporária e gratuitamente para utilização no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil, através da UFSC. O leitor se compromete a utilizar o conteúdo desta obra para aprendizado pessoal, sendo que a reprodução e distribuição ficarão limitadas ao âmbito interno dos cursos. A citação desta obra em trabalhos acadêmicos e/ou profissionais poderá ser feita com indicação da fonte. A cópia desta obra sem autorização expressa ou com intuito de lucro constitui crime contra a propriedade intelectual, com sanções previstas no Código Penal, artigo 184, Parágrafos 1º ao 3º, sem prejuízo das sanções cíveis cabíveis à espécie.

1ª impressão – 2009

A848fAssmann, Selvino José

Filosofia e Ética / Selvino José Assmann. – 2. ed. reimp. – Florianópolis : Departamento de Ciências da Administração / UFSC, 2012. 164p. : il.

Bacharelado em Administração Pública Inclui bibliografia ISBN: 978-85-61608-74-3

1. Filosofia – História. 2. Ética. 3. Ética profissional. 4. Administração pública. 5. Educação a distância. I. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Brasil). I. Universidade Aberta do Brasil. I. Título.

CDU: 174

Catalogação na publicação por: Onélia Silva Guimarães CRB-14/071

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DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS DIDÁTICOS Universidade Federal de Santa Catarina

METODOLOGIA PARA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Universidade Federal de Mato Grosso

AUTOR DO CONTEÚDO Selvino José Assmann

EQUIPE TÉCNICA Coordenador do Projeto – Alexandre Marino Costa

Coordenação de Produção de Recursos Didáticos – Denise Aparecida Bunn Capa – Alexandre Noronha Ilustração – Igor Baranenko Projeto Gráfico e Finalização – Annye Cristiny Tessaro Editoração – Rita Castelan

Revisão Textual – Sergio Luiz Meira

Créditos da imagem da capa: extraída do banco de imagens Stock.xchng sob direitos livres para uso de imagem.

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Convite para Pensar7
O que é Filosofia?17
A Atitude Filosófica18
Especificidade do Conhecimento F ilosófico21
Os Gregos Inventam a Filosofia23
O Sentido da Filosofia26
Características Gerais da História da Filosofia34
A Filosofia Antiga35
A Filosofia Medieval37
A Filosofia Moderna4
Sócrates e Platão: um Confronto entre Dois Modos de Entender a Filosofia59
A Concepção Socrática de Filosofia: Busca de Sabedoria60
A Concepção Platônica de Filosofia: Encontro da Sabedoria65

Unidade 1 – O que é Filosofia Filosofia_grafica.pmd 23/07/2012, 20:055

6 Bacharelado em Administração Pública

Filosofia e Ética

Sobre a Ética, a partir da Crise Ética83
Ética e Moral84
Ética Antiga, Medieval e Moderna89
Ética da Convicção e Ética da Responsabilidade97
Afinal, o que é a Ética?105
“Crise Ética” e “Crise da Ética”108
Dificuldade Atual de Formular uma Ética110
A Ética e a P olítica115
Poder, Política e Ética116
Duas Concepções de P oder121
O Poder como Relação entre Seres Humanos124
Poder e Liberdade127

Unidade 2 – Ética

Administração Pública Brasileira134
Administração Pública Brasileira e Ética141
Considerações finais154
Referências160
Minicur rículo164

O Problema Ético, a “Ética Profissional” e a Responsabilidade Social na Filosofia_grafica.pmd 23/07/2012, 20:056

7 Módulo 1

Apresentação

Tudo corre. Escorre. Tudo muda. Até na universidade professores e alunos correm cada vez mais. Nada permanece. Tudo é líquido. E todos corremos. Se não o fizermos, outros passarão por cima de nós, e seremos considerados preguiçosos ou incompetentes. Mas em geral não sabemos para onde corremos, mesmo que daqui a pouco, não se sabe quando, venhamos a dar de cara com a morte. Inevitavelmente. E ficamos produzindo, fazendo coisas...

Precisamos ser competentes tecnicamente para que alguém nos dê um lugar, um emprego, mas também flexíveis, maleáveis, para podermos nos adaptar sempre ao que se nos pede. Nós, todos nós sem exceção, é que devemos adaptar-nos, e não o mundo a nós, pois o mundo é assim como é. Paradoxalmente, o mundo que parece mudar tanto, parece também ser inflexível e imutável. É preciso mover-se, a rede é vasta, os compromissos são tantos, as expectativas muitas, as oportunidades abundantes, e o tempo é uma mercadoria rara...

A vida se torna uma loja de doces para apetites transformados, até pelo marketing, em voracidade cada vez maior. Estamos sempre na beirada entre estar dentro e estar fora, entre ser “incluído” e poder ser “excluído” a qualquer hora. Temos que estar atentos, correndo o risco da depressão, sempre. A insegurança é nossa companheira permanente, na companhia de gente insegura. Sei que do meu lado também há gente tão insegura quanto eu. Belo consolo! Mas isso, em vez de criar solidariedade entre os inseguros, aumenta a indiferença, a irritação, a vontade de competentemente empurrar para longe todos os concorrentes ao

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8 Bacharelado em Administração Pública

Filosofia e Ética meu lado. Em vez de cerrar fileiras na guerra contra a incerteza, todos querem que os outros fiquem mais inseguros, abandonem o barco e o deixem mais tranquilo para mim. E se diz que isso é a insofismável lei do mercado, que isso é assim, that’s it, como um tempo dizia a propaganda de um refrigerante conhecido: esta é a razão das coisas, é uma necessidade, e basta. Isso é liberdade. Mas não há escolha! Temos a sensação de nunca termos sido tão livres e, ao mesmo tempo, a percepção de que somos totalmente incapazes de mudar algo.

Sob outro aspecto, sentimo-nos vivendo em um mundo no qual, claramente, vale o privado, o interesse privado, e não o público, nem o interesse público. Ou então, temos uma visão muito paradoxal da relação entre público e privado: por um lado, tudo o que está diretamente situado como público aparece demonizado, como se fosse o lugar do mal, da indecência, lugar em que seria impossível fazer o bem, lugar em que só há interesses privados. E isso ocorre ao mesmo tempo em que consideramos o âmbito privado como um âmbito no qual se faz o bem sempre, no qual tudo é legitimável ou justificável. Como conciliar isso? Certamente tudo isso mexe na visão que se tem da política e do político, do Estado, do serviço público, do funcionário público de governos municipais, estaduais e federais, na visão que se tem da administração pública em geral.

Exemplo desta visão sobre o que é público e sobre a função do Estado e do serviço público é o que disse Margareth Tatcher, ao exercer recentemente o cargo de primeiro-ministro da Inglaterra, defendendo o reinado absoluto da flexibilidade. Ela disse sem eufemismos: “Não existe esta coisa chamada sociedade”. Só há indivíduos, homens e mulheres como indivíduos, e pronto! E o Estado? Deve ser uma instituição que deve funcionar como empresa eficiente a serviço do interesse dos indivíduos. O governante deve ser meramente um gestor, nada mais. O Estado deve, pois, ser exclusivamente um meio para fins privados. A política também deve ser apenas meio. E os outros seres humanos? Estes só importam se me servem, individualmente, para alguma coisa. Mas quando todos os outros são apenas meios, também eu sou transformado em puro meio pelos outros, inevitavelmente...

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9 Módulo 1

Apresentação

Nesta situação de insegurança, de pretensa primazia do privado e do indivíduo como tal, em que, paradoxalmente, sobra pouca alternativa, individual ou social, para mudarmos algo ao nosso redor e dentro de nós, como ficam os administradores tanto públicos quanto privados? Ousaría dizer que eles administram, gerem, executam, organizam a execução de tarefas que em geral não são determinadas por eles mesmos, mas por outros, e têm que ser competentes. Do contrário serão jogados para fora do jogo, da corrida que está acontecendo globalmente, cada vez mais globalmente. Também os administradores devem correr. E saber apresentar-se, oferecer-se, vender-se no mercado. E deixar-se comprar também. Devem ser “líquidos”, flexíveis, amoldando-se cada dia a novas exigências estabelecidas não se sabe por quem, mas exigências consideradas “naturais”, ou melhor, estabelecidas pelo mercado, este estranho senhor sem identidade que é poderoso como ninguém e que tem suas leis, que está em todo lugar, que não deixa ninguém fora de seu controle, não dá trégua a ninguém, e nem dá tempo para nada mais do que ficar correndo a seu serviço. Até que ele nos diga: “você não me serve mais”! “Você é supérfluo. Você atrapalha!”.

Inclusive o Estado, o aparelho estatal, os serviços públicos, quando deixam de ser úteis ao mercado, fazem com que os seres humanos sejam jogados à margem e obrigados a se contentarem em esperar a morte chegar; e às vezes até há gente que fica torcendo para que isso aconteça o mais rápido, para não atrapalharmos o trânsito e o funcionamento do mercado. E se alguém morrer, que morra, não em casa, mas no hospital especializado, “dignamente” (a morte pode ser digna?!), para não atrapalhar o sistema de produção, a que o Estado deve servir, e para nos ajudar a esquecermos que também nós iremos morrer.

Tudo isso se tornou normal. Cinicamente, duramente normal.

E se diz que não pode ser diferente. Que a história não pode mais mudar, ou até já terminou. Que estamos na fase final da história. E – repito – todos passamos a viver como se nada pudesse ser mudado nesse modo de ser das coisas, e que só nos resta uma coisa: nos iludirmos de que somos livres enquanto nos adaptamos ao que existe!

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Filosofia e Ética

Diante de tudo isso, de que adianta pensar? Pensar nos faz mal, impedindo que sejamos competitivos. Pensar causa transtorno no tráfego. Pensar nos faz parar, nos leva provavelmente a sermos expulsos da corrida por incompetência, por falta de flexibilidade e de produtividade. Ou então – como diriam os franceses que inventaram o prêt-à-porter (pronto para usar) – agora temos o prêtà-penser. É só pagar que o mercado já oferece tudo pensado, para ser usado. Por isso, os livros mais lidos são os de “autoajuda”, que têm receitas precisas para tudo, para nosso corpo e nossa alma. E não gostamos dos livros que nos fazem pensar e nos convidam a nos colocar em jogo por nossa própria conta e risco.

A globalização nos possibilita o acesso cada vez maior a informações, e maior possibilidade de comunicação. Mas isso de modo algum parece favorecer uma visão mais crítica do que acontece, nem favorece maior comunicação de fato. E quando as ofertas são demasiadas, as escolhas parecem diminuir em vez de aumentar, sobretudo porque o assédio das informações impede que pensemos. Neste contexto, podemos afirmar que nossa civilização atual parou de se questionar, parou de pensar. E que é esse o nosso problema fundamental, pois o preço do silêncio passa a ser pago na dura moeda do sofrimento humano.

Pode até ser que nos sintamos mais “felizes”, pois nos sentimos mais competentes e mais criativos para satisfazer nossos desejos, tanto no supermercado dos sabonetes e dos vinhos, quanto naquele dos desejos sexuais. Só que esta felicidade tem tudo para ser superficial, insatisfatória, a ponto de ser instigante a afirmação de um atento leitor do que nos acontece hoje, como Umberto Eco: “Alguém que é feliz a vida toda é um cretino; por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto”. E ser inquieto é, neste caso, não se deixar engolir pela lógica que estamos descrevendo, é tentar pensar também.

Com Zygmunt Bauman (BAUMAN, 1999, p. 1), ousamos arrematar: “Questionar as premissas supostamente inquestionáveis do nosso modo de vida é provavelmente o serviço mais urgente que devemos prestar a nossos companheiros humanos e a nós mesmos”. Talvez nem sempre saibamos quais são as perguntas mais

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1 Módulo 1

Apresentação importantes que devemos fazer, ou então, nós que nos achamos tão estupendamente “modernos”, “criativos”, nos damos conta que estamos repetindo as mesmas perguntas que já se fazem há séculos, há milênios. E esquecemos as respostas já dadas ou os silêncios, sem resposta, já manifestados. Já que o passado não interessa, nem o futuro, mas só o presente, este pode nos enganar a respeito de nossa originalidade e podemos achar que estamos mudando sempre. Claro que mudam certas coisas, por exemplo, melhora nossa capacidade técnica. E o que mais? Nossa “humanidade” também? Nossa liberdade? Nossa felicidade? Por isso, faz bem incluirmos em nossa pergunta pelo que está acontecendo hoje, uma referência ao que aconteceu ontem. E faz bem também perguntarmos: por que será que paramos de sonhar e renunciamos às energias utópicas? Como sabem os historiadores, há um duplo movimento na compreensão histórica: o presente pode ser iluminado pelo passado, mas também o passado acaba sendo melhor compreendido a partir do presente. E isso nos fornece um elemento a mais para podermos pensar no que acontece e nas possibilidades que temos para mudar o presente.

Parece que nos esquecemos de que nós, seres humanos, temos como marca o fato de sermos “seres que falam”; bem mais, ou não só, seres que fazem, como disse Aristóteles; que somos frágeis, perdendo em força física, sob todos os aspectos, para algum animal, mas somos “caniços pensantes” (Pascal). Por mais que repitamos que esta é a era de Aquário, a era do conhecimento, certamente não é a era do pensamento, da profundidade, da reflexão. Até porque não temos tempo a perder. E além de tudo, como já dissemos, pensar é perigoso, para quem pensa e para quem está do lado de quem pensa, pois nos pode fazer perder o lugar no mercado, que precisa produzir e consumir, objetos, coisas, e onde até os seres humanos devem ser só produtores e consumidores. Nada mais.

Pois bem: é nesta paisagem que apresentamos um livro-texto que pretende ser um Convite para pensar, convite feito aos estudantes e às estudantes do Curso de Bacharelado em Administração Pública a distância. Escolhi alguns temas para pensar. E pensar é uma atividade realmente pessoal, por mais que

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Filosofia e Ética no diálogo com o passado e no debate com os nossos contemporâneos se possa pensar mais e melhor. Mas, dito de forma sintética, este convite para filosofar é antes de mais nada um convite para responder à pergunta: o que está acontecendo comigo e com os outros no mundo hoje?

Mais do que apresentar um texto cheio de informações (conceitos, doutrinas, nomes) sobre a riquíssima tradição do pensamento filosófico ocidental, que já tem 2.500 anos, consideramos preferível escolher alguns temas, como o do próprio conceito de filosofia, e de outras formas de conhecimento humano (como o senso comum e a ciência), com algumas informações gerais sobre a História da filosofia (Unidade 1); como o da ética, sua crise e suas dificuldades teóricas, incluindo o debate em torno da relação entre ética e política, e do poder e sua relação com a liberdade, pois, afinal, a administração é sempre exercício de poder (Unidade 2). Trata-se de uma escolha, sem a pretensão de ser a melhor, e menos ainda de dar conta da filosofia como tal. Pensamos que assim podemos dar uma ideia geral da filosofia em sua história e do valor de uma atitude filosófica, que nos leve a pensar mais sobre o que somos nós, seres humanos, sobre o ser humano como problema e como solução, sobre o ser humano como profissional, como gente, como indivíduo e como membro de uma comunidade local, regional, nacional e cada vez mais cosmopolita ou “global”.

Embora não tenhamos a pretensão de responder exaustivamente a todas as questões importantes da filosofia, para organizar o texto seguimos o roteiro sugerido por Kant, talvez o maior pensador moderno, ao apresentar as quatro perguntas fundamentais para definir a atividade filosófica. A primeira pergunta é: “o que é possível conhecer”? (os conceitos de filosofia, de ciência, de teologia e de senso comum). A isso nos referimos sobretudo na Unidade 1. A segunda: “o que devemos fazer?” encontra resposta na ética e na política. A Unidade 2 procura responder a esta pergunta, incluindo também nesta Unidade aspectos da terceira pergunta, que, para Kant, é a seguinte: “o que nos é lícito esperar?”, e aí temos a ver com a questão da religião. A quarta pergunta, a mais difícil de responder, é a síntese das três perguntas anteriores: “o que é o ser humano?”, e

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