Analise do contato cultural e a tradução

Analise do contato cultural e a tradução

UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

FALE – FACULDADE DE LETRAS

GRADUAÇÃO EM LETRAS -LIBRAS

LUCAS ALVES MENDES

CRISLAINE DE SOUZA FERREIRA

ANÁLISE DO CONTATO CULTURAL E A TRADUÇÃO NA LIBRAS

JUIZ DE FORA

2016

UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

FALE – FACULDADE DE LETRAS

GRADUAÇÃO EM LETRAS -LIBRAS

LUCAS ALVES MENDES

CRISLAINE DE SOUZA FERREIRA

ANÁLISE DO CONTATO CULTURAL E A TRADUÇÃO NA LIBRAS

Artigo criado como requisito para conclusão da disciplina estudos da tradução.

Orientadora: Professora Dra Carolina Magaldi

JUIZ DE FORA

2016

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 03

2 RESUMO............................................................................................................... 04

3 OBJETIVOS ......................................................................................................... 04

4 SOBRE A LITERATURA SURDA.......................................................................... 04

5 SOBRE A CRIAÇÃO.............................................................................................. 05

6 SOBRE A ADAPTAÇÃO........................................................................................ 06

7 SOBRE A TRADUÇÃO.......................................................................................... 07

8 TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA: O PEQUENO PRÍNCIPE.................................. 08

9 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................... 10

REFERÊNCIAS......................................................................................................... 11

1 INTRODUÇÃO

A literatura é uma manifestação artística mutável, que usa um conjunto de habilidades remetentes à escrita, sendo influenciada por momento histórico, nacionalidade, posicionamento político, entre outros, sendo extremamente difícil de ser conceituada. Um dos primeiros grandes tratados de literatura foi a poética de Aristóteles, que nos apresenta o termo mimese, usado para definir sua visão da poesia como uma imitação daquilo que poderia ser a vida. Diversos outros teóricos trazem definições distintas sobre o que é a literatura, uma das mais simples e marcantes é a de August Wilhelm, o alemão define literatura como a imortalidade da fala.

Assim como qualquer grupo social, a comunidade surda também possui suas manifestações artísticas, que retratam seus dilemas, experiências, e o mundo em que vivem o meio mais comum de divulgar este arquétipo literário são as gravações em vídeo, uma vez que as formas escritas das línguas de sinais não são tão difundidas quanto à forma visu-espacial da mesma, porém a forma escrita em português tem ganho espaço com textos mais simples e adaptados que facilitam o entendimento.

 Segundo Mônica Gargalaka, em matéria escrita por Eduardo Lucizano para revista Sentidos, a libras é a primeira língua do individuo Surdo, por conta disso há uma dificuldade, muitas vezes transformado em paradigma, por parte de surdos em relação à leitura e a língua portuguesa. Por conta disso as editoras têm apostado em livros com um visual mais impactante, muito ilustrado e com apelo a identidade surda, item importante que pode classificar um livro como sendo parte, ou não, da cultura surda.

2 RESUMO

O presente trabalho pretende retratar os conceitos que envolvem literatura e cultura surda, as práticas difundidas com o intuito de atrair o público surdo para literatura, através da tradução intersemiótica, adaptações de obras infantis e infanto-juvenis, além da análise do trabalho: TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA DE LITERATURA INFANTO - JUVENIL: VIVÊNCIAS EM SALA DE AULA de Neiva de Aquino Albres, que aborda a experiência da tradução coletiva de trecho do livro O Pequeno Príncipe.

3 OBJETIVOS

OBJETO O contato cultural entre a literatura tradicional e a cultura surda sob a ótica da tradução.

OBJETIVO Analisar e expor as diversas ramificações da literatura surda, com foco nas traduções e adaptações literárias.

4 SOBRE A LITERATURA SURDA

Os estudos culturais da surdez nos apresentam 2 visões sobre o ser surdo, a socioantropológica e a clinico terapêutica como define Bisol-Sperd (2010):

Dois grandes modelos podem ser facilmente reconhecidos, pois a literatura da área se dedicou amplamente, nos últimos anos, a demarcar as diferenças entre a perspectiva clínico-terapêutica (para a qual a noção de deficiência é central) e a concepção socioantropológica de surdez (baseada na noção de diferença).

Mourão,CHN (2012) nos trouxe a noção de 3 ramificações para as obras em questão: Tradução, Adaptação e Criação. A tradução contribui para o conhecimento e divulgação de acervo literário de diferentes tempos e espaços; por sua vez a na adaptação os personagens principais são surdos e o enredo tem transformações para se adaptar à cultura surda, por ultimo temos as criações, que são textos originais que apresentam características da comunidade surda numa visão socioantropológica.

Como citado anteriormente há uma imensa dificuldade em despertar o interesse pela literatura tradicional (entenda tradicional como literatura escrita) por parte da comunidade surda, como relata SILVA, A. M. V. ,na primeira edição da revista arqueiro (jan – jun 2000) , a experiência de trabalhar com turmas variadas, de 6 a 14 anos, e trabalhar este contato com a literatura infantil, a docente do INES( instituto nacional dos estudos da surdez) ao colocar livros em exposição optou por deixa-los abertos e com a capa virada para cima, visando chamara a atenção para o aspecto visual dos livros, diferente do que ocorre em uma biblioteca tradicional,

5 SOBRE CRIAÇÃO

Há diversas obras que expressam uma visão clínica terapêutica do ser Surdo, normalmente estas obras envolvem o implante coclear, o oralismo e diversos outros temas que tentam inibir o uso da libras e outros fatores naturais ao Surdo. Como exemplo deste tipo de obra temos o livro infantil A Família Sol, Lá, Si, de Márcia Honora da editora Ciranda Cultural (2008), na história somos apresentados a Nando um elefante que nasce em uma família de músicos, desde muito pequeno Nando acompanhava os ensaios da família, porém sua mãe percebeu algo diferente em nele e resolveu leva-lo ao médico, foi aí que a família descobriu que ele era surdo, já recebe seu aparelho e já começa a usa-lo, Nando se interessa a aprender a tocar contrabaixo, porém mesmo com o aparelho Nando não consegue ouvir seu instrumento, a família então decide dar um bumbo para ele, um instrumento que trabalha o compasso e o ritmo, sem variação significativa de notas. O livro trabalha a ideia de que o implante é necessário para que o surdo tenha uma vida “normal”, sem explorar o tema da libras ou o contato com outros indivíduos Surdos, a grosso modo, o livro traz a ideia de que o implante ou o aparelho são a solução para os surdos.

Em contraposição, temos o livro um mistério a resolver: O mundo das bocas mexedeiras,de Maria Amin, Maria Lucia e Ozana Vieira, que conta a história de Ana, menina surda que não entende como as pessoas conversam com a boca ao invés de serem como ela e sua família que conversam com as mãos. O livro retrata uma identidade surda muito específica, a criança que não tem contato com línguas orais por ser filha de pais surdos. O livro é curto muito ilustrado com textos pequenos que retratam a família e as relações sociais da criança em diversos níveis, em todo o livro fica explícito que a família se comunica o tempo todo em libras. Fato que comprova a visão sócio antropológica da obra.

Há uma grande produção de obras voltadas para o público infantil, como as duas citadas anteriormente, porém um fato deficitário na criação literária em língua de sinais é a falta de obras voltadas para o publico adulto, uma vez que esta vertente é cercada por obras técnicas ou voltada para linguística das línguas de sinais, não tendo uma produção significativa de romances, autobiografias ou obras que retratem o surdo na fase adulta.

6 SOBRE ADAPTAÇÃO

Mais uma vez temos diversas obras voltadas para o público infantil, um dos fatores bastante comum neste tipo de obra é a inserção de personagens surdos como protagonistas em obras já consagradas, além de fatores que valorizem o uso das mãos e antíteses em relação a política oralista.

Um exemplo deste arquétipo literário é Cinderela Surda escrita por Karnopp -2011 e publicado pela editora Ulbra , nesta adaptação a protagonista é surda e fluente em libras, de maneira semelhante a original ela é convidada para um baile, neste baile aparece um elemento importante para determinarmos que esta obra está incluída no conceito de literatura surda, Cinderela perde a luva ao invés do sapato e o príncipe, que também é surdo e usuário de libras,vai atrás dela de forma semelhante a obra original.

O diferencial do livro Cinderela Surda se dá por conta da escrita bilíngue presente na obra, de um lado temos as ilustrações tradicionais de obras infantis, do outro temos o texto em português e signwriting (escrita de sinais), um meio de registro importante porém pouco difundido na comunidade surda, importante ressaltar que o livro é voltado para o público infantil, logo promove o primeiro contato da criança com o sistema de escrita em sinais.

7 SOBRE TRADUÇÃO

A tradução em língua de sinais atua basicamente de duas formas, o português simplificado que é escrito para quem tem a língua portuguesa como segunda língua, e a tradução para libras gravada em vídeo, que vendida em livro e DVD.

Iracema de José de Alencar possui uma versão traduzida para libras feita por Heloise Gripp Diniz e Roberto Gomes de Lima e lançado pela editora Arara Azul - 2002, na qual o texto original fica exposto enquanto há uma intérprete sinalizado o mesmo conforme figura abaixo:

Figura 1 : Esquema de exibição do livro Iracema – José de Alencar

Fonte: Print screen do site da editora Arara Azul

Com tradução e adaptação de Clélia Regina Ramos e ilustração de Thiago Larrico, e a tradução cultural para a Libras realizada por Janine Oliveira e Toríbio Ramos Malagodi, com supervisão da Libras realizada por Luciane Rangel, a Editora Arara Azul acessibiliza em Libras para que as crianças surdas ou com deficiência auditiva conheçam Alice no país das maravilhas.

Um livro de 24 páginas, colorido acompanhado de um CD-Rom com a tradução do texto para a Libras e ainda a contação da história completa, acompanhada de um glossário em português e Libras (livro digital).No livro, a história é contada com muitos rodeios, o que dificulta a ligação entre os fatos. Levando em consideração a prioridade dos aspectos visuais para os surdos, as imagens que foram mantidas (foram feitas no final do séc.XIX) são poucas e mantém a estética da época. Um aspecto que pode ser visto como uma contribuição e uma confusão na compreensão do leitor surdo, é a referência com as imagens durante o decorrer do texto. Em síntese, é um tipo de adaptação que exige todo tradutor/professor um modo peculiar para se trabalhar com crianças surdas e ouvintes com o objetivo de aguçar a imaginação e a interação entre ambas.

8 TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA: O PEQUENO PRÍNCIPE

O objetivo principal do artigo de Albres (2015) é discutir /analisar episódios (vídeo gravação) que focalizaram a mediação da professora pesquisadora, em contextos de trabalho de tradução de alunos, no intuito de verificar quais são as mudanças na construção dos sentidos segundo os textos apresentados nesses materiais sobre a luz da Análise de Discurso (BAKHTIN,1999).

A autora constata que, o uso do termo multimodal e multimodalidade para diferentes materializações, assim como o termo verbo-visual. Ela é favorável a uma definição mais precisa, porque a expressão “verbo-visual” tem permitido ou autorizado, em alguns casos, uma compreensão do conceito de linguagem presa ao âmbito linguístico (oral ou textual), marginalizando as línguas de sinais, o que prejudica a riqueza e vicissitude desse conceito, e, no processo, paradoxalmente, deixa de dar o devido valor às formas linguísticas da Libras, equiparando-a ao não verbal (por ser de modalidade vi- Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 2, p. 387-426, jul. Dez, 2015 402 Neiva de Aquino Albres sual), quando feita uma leitura equivocada. O termo “verbo-visual” é empregado associado a outras palavras, por exemplo: texto verbo-visual, totalidade verbo-visual, arquitetônica verbo-visual, natureza verbo-visual da linguagem (NASCIMENTO, 2011). É verificado também que a expressão “multimodal” vem sendo empregada em diferentes campos, como análise da conversa, análise de processos de letramento e para a complexidade de diversos tipos de textos e materiais. Todavia, não houve emprego, pelo que foi levantado, do termo tradução multimodal, mas sim de texto multimodal - mesmo no âmbito dos Estudos da Tradução (SNELL-HORNBY, 2006) - leitura multimodal e letramento multimodal. Quando tratamos de processos de tradução o termo comumente empregado pelos pesquisadores foi tradução intersemiótica. Os atos de ler e traduzir devem ser entendidos como algo que extrapola o universo da escrita, de modo a abarcar outros códigos e suportes. Por isso, estudos mais recentes destacam a peculiaridade da multimodalidade, como sintetizado nesta parte do artigo.

Na pesquisa feita, Albres, demonstra em seu texto a surpresa gerada nos alunos quando lhes é apresentado às múltiplas faces que um texto traduzido pode gerar e como o tradutor, em especial, constrói sentidos sobre o texto traduzido. Logo é enfatizado pela autora a necessidade de os cursos de formação de tradutores e intérpretes trabalhar o letramento multimodal e adequar-se aos textos contemporâneos os vários gêneros híbridos (inclusive o gênero literário infanto-juvenil) os quais é clara a relação intersemiótica. Em resposta a um dos questionamentos feitos durante a pesquisa mostrou-se a evidência de que no processo de tradução o tradutor é alguém que marca o processo de tradução individual e particular. E com isso, as ilustrações do livro são lidas e nutrem a enunciação em libras-texto traduzido. Foi constatada pelos relatos dos participantes, que estes não estavam acostumados ao letramento multimodal e que isto não é vivenciado na escola, que prioriza a análise escrita e que superficialmente explora aspectos dos modos relacionados aos recursos visuais. A comparação entre as diferentes formas de dizer no texto traduzido dos participantes (alunos) enfatizam o quanto complexo é o fenômeno tradutório. O trabalho de Neiva traz a reflexão que a tradução a partir da interação analisada, está envolvida do princípio da leitura multimodal, examinando na palavra e nas ilustrações motivadoras da enunciação em Libras, e aplica-se ao processo da tradução de literatura infanto-juvenil.

A professora da pesquisa feita, conclui conduzindo o aprendizado dos alunos de forma que eles puderam compreender que a produção de sentido é muito mais importante do que saber fazer correspondência palavra-sinal, desvendando as camadas semióticas e juntando as informações verbais e não verbais do material original. Estas foram um pouco das experiências vividas que os participantes (alunos) vivenciaram nos dias de minicurso de tradução e literatura.

9 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo com os avanços tecnológicos a favor da democratização e divulgação da literatura, as conquistas da comunidade surda em relação a sua língua e cultura, o empenho das editoras em divulgar traduções e adaptações diversas, há uma grande lacuna na literatura surda, composta pela falta de escritores preocupados com o público adulto, estes têm poucas opções para consumo, a maioria voltada para áreas técnicas e acadêmicas como a linguística e os estudos sociais da surdez.

A comunidade Surda precisa de escritores que estejam dispostos a entender esta necessidade cultural, além de entender os interesse e necessidades da comunidade em receber determinado tipo de material, de maneira semelhante com o que vem ocorrendo com a poesia em libras, amplamente difundida pela internet, apesar de não receber traduções para o português.

REFERENCIAS

LUCIZANO, Eduardo Depois de libras, a língua portuguesa. Revista Sentido edição 85 2014.

MOURÃO, C. H. N. Adaptação e tradução em literatura surda: A produção cultural surda em língua de sinais. IX Anped Sul 2012.

KARNOPP, L.B. Cinderela Surda Editora Arara Azul 2011.

HONORA, M. A Família Sol, Lá, Si, editora Ciranda Cultural 2008.

AMIN, M.; LÚCIA, M.; VERA, O. Um mistério a resolver: O mundo das bocas mexedeiras. Editora Del Rey 2008.

CAROLL, Lewis; Alice no pais das maravilhas. Traduzido por Clélia Regina Ramos. Editora Arara Azul 2007.

ALBRES, Neiva Aquino. Tradução intersemiótica de literatura infanto-juvenil: vivências em sala de aula. Cadernos de Tradução (UFSC)

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