Capitalismo Global - Jeffry A. Frieden

Capitalismo Global - Jeffry A. Frieden

(Parte 1 de 10)

Jeffry A. Frieden

Capitalismo global História econômica e política do século X

Tradução: Vivian Mannheimer

Revisão técnica:

Arthur Ituassu Professor de relações internacionais na PUC-Rio

Sumário

Apresentação de Paul Kennedy Prefácio

Introdução: Rumo ao século X

Do mercantilismo ao livre-comércio Da prata ao ouro Ameaças à ordem global

I. Os melhores últimos anos da Era de Ouro, 1896-1914

1. Capitalismo global triunfante

O fortalecimento do padrão-ouro Especialização e crescimento Descontentes com o globalismo

2. Os defensores da economia global

Apoio intelectual à Era de Ouro Nathan Mayer Rothschild, 1840-1915 Os partidários do livre-comércio Os adeptos dos pilares dourados Redes globais para uma economia global Migração internacional de indivíduos e capital Globalização

3. Histórias de sucesso da Era de Ouro

A Grã-Bretanha fica para trás Novas tecnologias e o novo industrialismo Protegendo as indústrias nascentes Áreas de colonização recente Crescimento nos trópicos Heckscher e Ohlin interpretam a Era de Ouro

4. Desenvolvimentos fracassados

O rei Leopoldo e o Congo Colonialismo e subdesenvolvimento Má gestão e subdesenvolvimento Estagnação na Ásia Estagnação nas plantações intensivas

Obstáculos ao desenvolvimento

5. Problemas da economia global

Comércio livre ou comércio justo? Vencedores e perdedores do comércio A prata ameaça o ouro O trabalho e a ordem clássica Era dourada ou manchada?

6. “Tudo o que é sólido desmancha no ar...”

As consequências econômicas da Grande Guerra Reconstrução da Europa A extraordinária década de 1920 O isolamento dos Estados Unidos Um mundo reconstruído? Em direção ao vazio

7. O mundo de amanhã

As novas indústrias As novas corporações As novas empresas multinacionais Mecanização no campo As novas sociedades Avanços e recuos

8. O colapso da ordem estabelecida

O fim do boom Ouro e crise Das trevas Abaixo o antigo...

9. Em direção à autarquia

A autossuficiência semi-industrial Schacht e os nazistas reconstroem a Alemanha As políticas econômicas autárquicas A Europa se volta para a direita Socialismo em um só país O desenvolvimento se volta para dentro A alternativa autárquica

10. A construção da social-democracia

Social-democracia na Suécia e nos Estados Unidos Keynes e a social-democracia Trabalho, capital e social-democracia Social-democracia e cooperação internacional Das cinzas

1. A reconstrução do Oriente e do Ocidente

Os Estados Unidos à frente A tarefa urgente Dean Acheson, presente na criação Os Estados Unidos e a reconstrução da Europa A União Soviética forma um bloco Dois argumentos

12. O sistema de Bretton Woods em ação

A aceleração do crescimento no pós-guerra Jean Monnet e os Estados Unidos da Europa Bretton Woods e o comércio A ordem monetária de Bretton Woods Bretton Woods e os investimentos internacionais Bretton Woods e o Estado do bem-estar social O sucesso de Bretton Woods

13. Descolonização e desenvolvimento

Industrialização por substituição de importações A corrida para a independência ISI, teoria e prática Nehru e a industrialização da Índia O Terceiro Mundo adota a ISI A proliferação moderna da indústria

14. Socialismo em muitos países

A expansão do mundo socialista A divisão do mundo socialista O caminho chinês Socialismo no Terceiro Mundo Um futuro socialista?

15. O fim de Bretton Woods

O compromisso se desfaz Desafios ao comércio e aos investimentos

A crise na substituição de importações A estagnação do socialismo O fim de uma era

16. Crise e mudança

O choque do petróleo e outros choques O contrachoque de Volcker Globalismo Regionalismo e globalismo Crises financeiras globais e nacionais

17. A vitória dos globalizantes

Novas tecnologias, novas ideias Interesses globalizantes George Soros cria mercados Comércio sem barreiras

18. Os que correram atrás

Produção global e especialização nacional Crescimento via exportações nos extremos da Europa e da Ásia O Leste asiático e da América Latina seguem o exemplo O sociólogo marxista assume o poder A Europa oriental se une à ocidental A nova divisão internacional do trabalho

19. Os que ficaram para trás

A decepção causada pela transição e reformas Desastres do desenvolvimento A jornada da Zâmbia A catástrofe africana Calamidade, privação e desespero

20. Capitalismo global em apuros

Fragilidade financeira e a trindade impossível “As três palavras mais temidas” Mercados globais: desgovernados ou indesejados?

Conclusão

Notas

Comentários sobre dados e fontes Referências bibliográficas Agradecimentos Índice remissivo

Apresentação

De todas as maneiras pelas quais o século X reivindica um lugar especial na história, poucas se igualam em importância à enorme transformação da vida econômica. Se um fazendeiro de

Illinois ou um camponês de Bangalore, ambos lutando pelo sustento por volta de 1900, fossem trazidos de volta ao nosso planeta nos dias de hoje, ficariam chocados com a transformação pela qual ele passou. O imenso crescimento da produtividade e da riqueza, as inimagináveis novas tecnologias e a melhora do conforto material os teriam deixado sem fala. Ainda mais chocados, contudo, ficariam com os muitos distúrbios e retrocessos ocorridos na economia mundial nesse intervalo de cem anos, os quais, é claro, eles não poderiam ter adivinhado.

Relembrar essa história é a tarefa que o professor Jeffry A. Frieden tomou para si em

Capitalismo global, e que faz de forma esclarecedora, equilibrada e com vasto conhecimento. Esta obra trata de um tema vigoroso de forma direta, ajudando o leitor a ter uma ideia do todo. Este não é um livro qualquer de história econômica, embora certamente será utilizado em muitas salas de aula.

Na essência, residem os “ventos criativos” do capitalismo mundial moderno (tomando emprestada a famosa frase de Joseph Schumpeter). Já no fim do século XIX, esses ventos sopravam ao redor do globo criando novas estruturas de produção, comércio e finanças, e tornando obsoletas as formas anteriores. Tais ventos coexistiam com as forças como a do nacionalismo e a do militarismo, que seguiam seu curso de maneira tão avassaladora quanto onipresente. Essa mistura explosiva produziu, em sequência, destruição e mortes na Primeira Guerra Mundial, e as calamitosas reverberações econômicas e políticas das duas décadas que a sucederam.

Sugerir uma única parte da impressionante obra do professor Frieden para ser lida com atenção especial é uma tarefa difícil, mas, para mim, o debate sobre a economia política entre as duas guerras mundiais parece, de fato, maravilhoso. Frieden mostra o quanto o capitalismo de mercados livres e laisser-faire se tornou problemático, o que ocorreu não apenas pelo fracasso do sistema em oferecer suficiente riqueza e empregos, mas também em função das reações contra o capitalismo liberal na esfera política. Com a URSS fazendo pressão pelo “socialismo em um só país”, os Estados fascistas praticando uma mistura de autarquia econômica e agressão externa e os Estados Unidos (já na época a maior potência) se retirando dos palcos mundiais, o velho sistema não poderia sobreviver. Tudo se despedaçou.

Os pedaços se juntariam novamente com a retomada do envolvimento norte-americano com as questões mundiais após Pearl Harbor, um comprometimento que duraria por toda a Guerra Fria e cuja natureza era amplamente coetânea: o capitalismo global não poderia sobreviver sem o poderio militar ou a vontade política do Ocidente, a qual só se sustentaria com o sucesso produtivo do sistema capitalista. Dessa vez, todos os pedaços se mantiveram unidos. A história que o professor Frieden nos conta não é de forma alguma triunfante como as ideias oferecidas pelos economistas conservadores, defensores do livre-mercado dos dias de hoje. Ele é bem ciente – como antes dele eram Marx, Schumpeter e Keynes – de que o capitalismo por natureza gera tanto perdedores quanto vencedores. Suas opiniões sobre o desemprego em massa de 1930 são bastante sóbrias e a análise da “catástrofe africana” dos dias atuais (ver Capítulo 19) é profundamente entristecedora. Acima de tudo, Frieden é sábio o suficiente para não concluir esta grande pesquisa de forma suprema e presunçosa, mas sim propor diversas perguntas sérias sobre a economia do nosso mundo, que flui oscilante pela primeira década do século XXI. Como consequência, o leitor terminará este livro não apenas impressionado pelo arranjo de conhecimentos e análises, mas também um tanto perturbado com as perspectivas para o campo do comércio, das finanças e dos mercados. O fim deste livro com certeza nos leva a um estado de profunda reflexão. Os ventos criativos de Schumpeter ainda não cessaram. O mérito de Capitalismo global está em nos lembrar de que o nosso sistema de trocas econômicas traz tanto riscos quanto muitos benefícios.

Prefácio

As economias nacionais estão hoje mais abertas umas às outras do que nunca. Com o comércio internacional atingindo um nível sem precedentes, muito do que consumimos é importado, e muito do que produzimos é exportado. A atividade empresarial envia imensas quantidades de capital para outras nações. Em alguns países, mais da metade dos investimentos vêm de fora.

Milhões de pessoas migram a cada ano em busca de trabalho. Produtores, fazendeiros, mineradores, banqueiros e comerciantes devem pensar de forma global sobre cada decisão econômica com a qual se deparam. Tecnologias, movimentos artísticos, práticas empresariais, tendências musicais, moda e modismos atingem todas as esquinas do mundo desenvolvido de forma mais ou menos instantânea. Economia global e cultura formam uma rede quase homogênea na qual as fronteiras nacionais são cada vez mais irrelevantes para o comércio, os investimentos, as finanças e outras atividades econômicas.

Atualmente, muitos são os que se referem à globalização como um processo tão inevitável quanto irreversível. Após décadas de integração econômica internacional, muitos dos centros econômicos mundiais consideram o capitalismo global o estado natural das coisas, certos de que ele continuará por um futuro próximo, ou até mesmo para sempre.

A situação na virada do século XIX para o X parecia bastante semelhante. No início dos anos 1900, a integração econômica internacional era encarada como uma verdade absoluta. Essa foi a norma que por 60 anos conduziu a liderança econômica mundial, do Reino Unido, e que por 40 anos regeu as outras principais nações industriais e agrícolas. Relações de livrecomércio, finanças internacionais, investimentos e imigrações internacionais sem obstáculos e uma ordem monetária comum sob o padrão-ouro foram, por gerações, os princípios organizadores do mundo moderno.

Mas foram necessários apenas alguns meses para que toda a estrutura da globalização entrasse em colapso. A Primeira Guerra Mundial estourou em agosto de 1914 e arrasou as fundações preexistentes da ordem econômica global. Durante anos, os líderes econômicos e políticos do mundo tentaram, sem sucesso, restaurar a economia internacional pré-1914. A ordem internacional se desintegrou e implodiu brutalmente na Grande Depressão de 1930 e na Segunda Guerra Mundial.

A globalização foi uma escolha, não um fato. Por décadas, o capitalismo global parecia intocado em seus princípios básicos, mas a Primeira Guerra Mundial mostrou que havia uma série de questões nessa longa e tortuosa trajetória. A globalização degringolou tão rapidamente que seus participantes não tiveram a chance de impedir o colapso. A ordem internacional, cujos componentes econômicos, políticos, sociais e culturais definiram o mundo por décadas antes de 1914, desapareceu completamente.

Por 80 anos, após 1914, a integração econômica global existiu apenas na imaginação de teóricos e historiadores. No decorrer da década de 1920, as tentativas de reconstruir a economia mundial anterior fracassaram por diversas vezes. Em 1930, as nações do mundo se esquivaram das conexões econômicas internacionais em busca de autossuficiência. Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo comunista recusou o capitalismo global por princípio, enquanto o mundo em desenvolvimento o rejeitou na prática. Durante as décadas de 1950 e 1960, as nações industriais da Europa ocidental, a América do Norte e o Japão rumaram em direção a laços econômicos mais fortes, mas os governos continuavam a controlar a maior parte do comércio, dos investimentos e da imigração. Somente após 20 anos de crises e turbulências, no início da década de 1990, foi que as nações em desenvolvimento se voltaram para o exterior, os países comunistas abandonaram a economia planificada em favor dos mercados internacionais e os Estados industrializados se livraram de boa parte do controle prévio às relações econômicas do globo. Era o retorno triunfal da globalização.

Assim como ocorreu há 100 anos, muitos agora tomam a economia mundial integrada como um fato. Referem-se a ela como o estado natural das coisas e esperam que esse modelo dure para sempre. No entanto, as bases sobre as quais o capitalismo global se ergue atualmente não são muito diferentes das de 1900, e o potencial para um rompimento é tão presente nos dias de hoje quanto era naquela época.

A globalização continua a ser uma escolha, não um fato. É uma opção feita por governos que, de forma consciente, decidem reduzir as barreiras do comércio e dos investimentos, adotar novas políticas em relação ao capital e às finanças internacionais e traçar novos caminhos econômicos. As decisões tomadas por cada governo estão interconectadas. As finanças internacionais, o comércio internacional e as relações monetárias internacionais dependem da ação conjunta de governos nacionais ao redor do mundo. Políticas domésticas e relações entre governos são a fonte da globalização e determinam sua duração.

A globalização necessita do apoio dos governos, que para tal precisam de apoio político doméstico. As questões econômicas internacionais dependem do respaldo político das nações poderosas e de grupos de poder dentro desses países. A economia mundial integrada vigente antes de 1914 necessitava de ações dos governos para se sustentar. Quando essas políticas se tornaram impopulares, não puderam mais ser mantidas, e com elas desmoronou a ordem econômica internacional. A economia global de hoje também depende dos pilares políticos domésticos gerados por decisões nacionais.

O que deve ser feito em relação à economia mundial? A globalização contemporânea é inevitável? É desejável? Durará para sempre? Sabemos agora que a percepção que se tinha do capitalismo global de 1900 era enganosa. À aparente estabilidade do início do século X, seguiram-se décadas de conflitos e de grandes mudanças. Hoje, a ordem econômica internacional também parece segura, mas dentro de uma perspectiva histórica isso pode significar apenas um breve interlúdio. As forças que deram forma à economia do século X continuam a influenciar a versão atual da globalização e decidirão o seu destino.

Introdução: Rumo ao século X

Em junho de 1815, 300 mil soldados se reuniram nos arredores de Bruxelas para a batalha que pôs fim às Guerras Napoleônicas. As forças da Grã-Bretanha, Prússia, Áustria, Rússia e Holanda se juntaram contra os franceses para definir qual grande potência controlaria o mundo. À meia-noite de 18 de junho, a derrota francesa era evidente. Do outro lado do canal, dois dias e meio depois, a notícia da vitória de Wellington chegava à reunião de cúpula do governo britânico em Londres, a 320 quilômetros do campo de batalha. Napoleão fora derrotado e se iniciava a era da supremacia britânica.

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