agrofloresta - aprendendo - a-produzir - com - a-natureza

agrofloresta - aprendendo - a-produzir - com - a-natureza

(Parte 1 de 5)

Walter Steenbock Fabiane Machado Vezzani

Ilustrações de Claudio Leme agrofloresta aprendendo a produzir com a natureza

1ª edição

Curitiba

Fabiane Machado Vezzani 2013

Permitida a reprodução parcial ou total desta obra, em diferentes meios, desde que citada a fonte e não se preste a fins comerciais.

S814Steenbock, Walter
Agrofloresta : aprendendo a produzir com a natureza /
Walter Steenbock; Fabiane Machado Vezzani. – Curitiba :
Fabiane Machado Vezzani, 2013.
148p. il.
ISBN 978-85-908740-1-0
4. Desenvolvimento sustentável. I. Vezzani, Fabiane Machado.
I. Título.
CDD 634.9

1. Agrosilvicultura. 2. Agroecologia. 3. Biodiversidade. CDU 631.95

1a Edição: 2013 Tiragem: 1.0 exemplares Capa e Design Gráfico: Claudio Leme Revisão Ortográfica: Gabriela Koza

Agradecemos ao MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO (MDA), por intermédio da Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) e o CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO - CNPq, no âmbito da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural - PNATER, por meio do Edital 58/2010 – Chamada 2: Núcleos de Pesquisa e Extensão, que fomentou a construção do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Universidade Federal do Paraná (NEPEA), que dentre as suas ações fortaleceu parcerias entre instituições de pesquisa e extensão na área de Agroecologia, qualificou a formação de professores, alunos e técnicos e proporcionou os recursos financeiros para a realização desse livro.

Agradecemos aos agricultores e aos técnicos da Cooperafloresta, cujo grandioso conhecimento e valiosa prática tornam possível este texto. Em especial, ao grande amigo Nelson Eduardo Corrêa Netto.

Sobre nos

Walter Steenbock Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Recursos Genéticos Vegetais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, atuando na Coordenação Regional do Instituto no Sul do Brasil. Desenvolve pesquisas na área de sistemas agroflorestais e manejo de populações naturais de plantas. Email: walter.steenbock@icmbio.gov.br

Fabiane Machado Vezzani Engenheira Agrônoma, Mestre e Doutora em Ciência do Solo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola e docente permanente do Programa de Pós- -Graduação em Ciência do Solo da Universidade Federal do Paraná. Atua na área de Manejo Ecológico do Solo e desenvolve pesquisas no tema Qualidade do Solo. Email: vezzani@ufpr.br

Claudio Leme Ferreira Artista gráfico e músico. Atua na comunicação de projetos socioambientais e em atividades relacionadas à diversidade cultural e espiritual. Email: clauleme@yahoo.com.br sumario

Apresentação

Parte 1

Sistemas vivos 12 Sistemas agroflorestais como sistemas vivos 2 O papel da fotossíntese 26 A busca pela eficiência fotossintética nos sistemas agroflorestais 3 O papel da sucessão ecológica 40 O uso do conhecimento da sucessão ecológica na prática agroflorestal 50 O solo como resultado da prática agroflorestal 54 O manejo do solo agroflorestal 69 Os caminhos da biodiversidade 75 O manejo da biodiversidade em sistemas agroflorestais 81

Parte 2

Linhas gerais para a prática agroflorestal 90 1. Identificando o espaço para a prática agroflorestal 91 2. Implantando uma agrofloresta 97 3. Manejo inicial do capim e das espécies de ciclo curto 121 4. Manejo de agroflorestas maduras 127 4.1 Poda de estratificação 131 4.2 Poda de frutificação 133 4.3 Poda de eliminação 134 4.4 Cuidados na poda 135 5. “Completando” agroflorestas 137 6. Renovação da agrofloresta 138 apresentacao

Em uma definição ampla, sistemas agroflorestais (SAFs) são combinações do elemento arbóreo com herbáceas e/ou animais, organizados no espaço e/ou no tempo.

A legislação brasileira, em diferentes instrumentos legais (Brasil, 2009;

Brasil, 2011), tem definido sistemas agroflorestais como “sistemas de uso e ocupação do solo em que plantas lenhosas perenes são manejadas em associação com plantas herbáceas, arbustivas, arbóreas, culturas agrícolas, forrageiras em uma mesma unidade de manejo, de acordo com arranjo espacial e temporal, com alta diversidade de espécies e interações entre estes componentes”.

Quando caracterizados pela alta diversidade de espécies e pela ocupação vertical de diversos estratos, os sistemas agroflorestais são comumente chamados, na literatura, de sistemas agroflorestais multiestrata (Angel- -Pérez & Mendoza, 2004; Benjamin et al., 2001; Caja-Giron & Sinclair, 2001; Staver et al., 2001; Granados, 2005; Silveira, 2005; Holguin et al., 2007).

Muito embora diferentes definições de sistemas agroflorestais caracterizem estas áreas, grosso modo, como consórcios entre árvores e culturas agrícolas, é relevante destacar, nestes sistemas, o cuidado com o manejo da luminosidade, da produtividade primária, da sucessão natural, da reciclagem de nutrientes e das relações ecológicas.

Em outras palavras, mais do que identificar os componentes de uma agrofloresta – árvores, arbustos e culturas agrícolas –, é importante caracterizar que intervenções ou práticas de manejo estão por trás dessa estrutura. Mal comparando, pode-se caracterizar uma praça como um local que contém brinquedos infantis, como escorregador, balanço e gangorra. Entretanto, são as crianças balançando nos balanços, brincando na areia, rodando com o avô, jogando bola, subindo ou descendo do escorregador ou andando de bicicleta que fazem a praça.

De forma análoga, caso não considerarmos os elementos definidores da estrutura agroflorestal, corremos o risco de manter a mesma lógica produtiva da artificialização de agroecossistemas, comum na agricultura convencional, para a produção agroflorestal.

Na agrofloresta, não se trata de artificializar as condições para a germinação e crescimento das espécies de interesse, mas de potencializar os processos naturais para a otimização da produção, tanto das espécies de interesse quanto da biodiversidade como um todo. É justamente nessa diferença de orientação do processo produtivo que a prática agroflorestal pode contribuir para a sustentabilidade da produção de alimentos.

Para Götsch (1995), “os sistemas agroflorestais, conduzidos sob o fundamento agroecológico, transcendem qualquer modelo pronto e sugerem sustentabilidade por partir de conceitos básicos fundamentais, aproveitando os conhecimentos locais e desenhando sistemas adaptados para o potencial natural do lugar”. A partir dessa definição, Götsch (1995) propõe que “uma intervenção é sustentável se o balanço de energia complexificada e de vida é positivo, tanto no subsistema em que essa intervenção foi realizada quanto no sistema inteiro, isto é, no macrorganismo planeta Terra; sustentabilidade mesmo só será alcançada quando tivermos agroecossistemas parecidos na sua forma, estrutura e dinâmica ao ecossistema natural e original do lugar da intervenção (...)”.

Esta concepção se mescla ao pensamento contemporâneo de conservação ambiental, que vem assumindo cada vez mais a importância do uso sustentável da biodiversidade como paradigma e, neste paradigma, o envolvimento da dinâmica da biodiversidade associada à dinâmica do uso humano. Cada vez mais se concebe a natureza não como uma imagem estática, na qual a sustentabilidade do uso represente algo como poder tirar um pedaço pequeno dessa imagem, sem comprometer sua integridade – o que de fato seria impossível. O uso sustentável só é possível na prática de contribuição deste uso com os processos naturais, no rumo crescente da integração, da troca e do aumento de biodiversidade e de produtividade.

A concepção geológica, climática, biogeográfica, evolutiva e ecologicamente dinâmica da biodiversidade indica que, mais que a preservação das espécies ou comunidades de forma isolada, o objetivo central da conservação biológica é possibilitar a continuidade dos processos evolutivos e ecológicos (Pickett & Rozzi, 2000). Richard Primack, um dos mais expoentes representantes da biologia da conservação atual, em conjunto com outros colegas, descreve que, se pensarmos metaforicamente que a vida é como a música e esperarmos que a música siga vibrando, então não devemos pretender guardar os instrumentos musicais em vitrines e evitar que sejam tocados por seres humanos, mas sim devemos estimular que os músicos possam tocar delicadamente as cordas em um quarteto, reverberar os tambores e respirar com as flautas, mantendo o movimento musical adequado ao tempo. É com essa perspectiva que se trará a biodiversidade em nível de genes, populações, espécies, comunidades biológicas, ecossistemas e regiões (Rozzi et al., 2001).

Fazer agrofloresta, nesta metáfora, é perceber e tocar a música. A prática agroflorestal envolve captar e entender como os processos vitais, os ciclos biogeoquímicos e as relações ecológicas estão acontecendo, identificando como potencializá-los para o aumento de fertilidade, produtividade e biodiversidade naquele espaço.

Essa identificação deve recorrer, sem dúvida, ao uso de conhecimentos acumulados, tanto a partir da prática acadêmica quanto a partir da prática produtiva – ou seja, ao uso do conhecimento científico e do saber ecológico local. Mas, essa identificação envolve também, com igual importância, o “perguntar” ao ambiente o que ele está fazendo no rumo do incremento de fertilidade e biodiversidade. Assim, fazer agrofloresta consiste em trazer as ferramentas do conhecimento para utilizá-las nos processos naturais daquele espaço, naquele momento, em um movimento constante e balanceado entre percepção e prática. Em outras palavras, fazer agrofloresta é manter um diálogo constante com o ambiente natural, conversando com seus processos e relações, perguntando o que é mais adequado ao seu fluxo e, ao trazer sua contribuição a este fluxo, receber dele a produção de alimentos. Assim, fazer agrofloresta é, também, educar-se ambientalmente.

Este livro traz alguns conceitos de ecologia, discutindo sua aplicação na prática agroflorestal. Não parte, entretanto, de hipóteses da aplicação desses conceitos, mas, principalmente, de “trazer ao papel”, ainda que de forma fragmentada, a aplicabilidade desses conceitos, experienciada, especialmente, por agricultores familiares associados à Cooperafloresta (Associação de Agricultores Agroflorestais de Barra do Turvo - SP e Adrianópolis - PR). Há quase duas décadas, agricultores e técnicos destes municípios, no Alto Vale do Rio Ribeira, entre Paraná e São Paulo, vêm produzindo alimentos em conjunto com o incremento de fertilidade e conservação do solo, de biodiversidade, de autonomia e de segurança alimentar, por meio da agrofloresta. Hoje, nessa região, mais de uma centena de famílias têm na prática agroflorestal sua opção de produção e reprodução familiar, demonstrando, assim, esse caminho.

Na primeira parte deste livro, apresentam-se e discutem-se conceitos ecológicos de forma contextualizada com a prática agroflorestal. Na segunda parte, descreve-se, brevemente, como as famílias agricultoras da Cooperafloresta fazem isso.

Longe da pretensão de detalhar profundamente os conceitos, e mais longe ainda da pretensão de descrever todos os aspectos relacionados à prática agroflorestal, pretende-se que este livro possa ajudar estudantes, agricultores e professores a utilizarem a agrofloresta como caminho, ou como música.

Parte 1 Parte 1

Sistemas vivos

Os sistemas de produção agrícola, como os sistemas agroflorestais, são sistemas vivos. O entendimento dos sistemas vivos, suas características e princípios, é fundamental para a compreensão do funcionamento dos sistemas de produção agrícola.

A Teoria de Gaia representa claramente o funcionamento dos sistemas vivos. Essa teoria foi elaborada na década dos anos 60, enquanto o químico James Lovelock colaborava no projeto de Pesquisa Lunar e Planetária do Laboratório de Propulsão a Jato em Pasadena, na Califórnia (USA). Um dos objetivos do projeto era descobrir se havia vida no planeta Marte. Para isso, Lovelock pesquisou como os seres vivos terráqueos funcionavam e percebeu que toda a forma de vida extrai energia e matéria do ambiente e descarta subprodutos da atividade. O subproduto das plantas, dos animais e dos microrganismos são gases (gás carbônico [CO2], metano [CH4] e oxi- gênio [O2]). Então, ele fez uma análise da atmosfera dos planetas Terra e Marte. O estudo indicou que havia uma alta concentração dos gases oxigê- nio e metano e uma baixa concentração do gás carbônico na atmosfera da Terra. Composição completamente inesperada, considerando a lei química de alta interação entre os gases oxigênio e metano, formando gás carbônico e água, conforme reação abaixo:

Entretanto, a análise da atmosfera de Marte informou o oposto: baixa concentração dos gases oxigênio e metano e alta concentração de gás carbônico, ou seja, de acordo com a lei química.

Nesse momento, Lovelock convidou a bióloga Lynn Margulis para interpretar os resultados dessa pesquisa e juntos concluíram que a diferença entre as atmosferas dos dois planetas é a existência de vida na Terra! A atmosfera da Terra é uma mistura instável de gases. Ou seja, os gases são continuamente liberados como subprodutos dos sistemas vivos e reagem entre si. Sendo assim, a concentração dos gases se mantém, em função dos seres vivos, e, ao mesmo tempo, a concentração dos gases é favorável à continuidade dos seres vivos.

A Teoria de Gaia de Lovelock e Margulis diz que a vida é resultado das condições do meio que é produzido pelos sistemas vivos em interação com os não vivos. A vida é resultado da própria vida!

A vida no planeta Terra é uma rede de relações complexas, e essa rede é o meio adequado para a existência da vida. Como afirmaram James Lovelock e Lynn Margulis: “A evolução dos organismos se encontra tão intimamente articulada com a evolução do seu ambiente físico e químico, que juntas constituem um único processo evolutivo, que é autorregulador” (Lovelock, 2006). Assim como é o planeta Terra, são os sistemas agrícolas, no caso, as agroflorestas.

Os sistemas vivos são fechados quanto à sua organização; abertos em relação à energia e à matéria, fazendo uso de um fluxo constante para produzir, reparar e perpetuar a si mesmos; e operam num estado distante do equilíbrio termodinâmico, um estado em que novas estruturas e novas formas de ordem podem surgir espontaneamente, o que conduz ao desenvolvimento e à evolução (Capra, 2005).

ros, as gramas, os bovinos, as árvorestodos os organismos vivos possuem

Em relação ao aspecto dos sistemas vivos serem fechados quanto à sua organização, pensemos o seguinte: desde a célula até os peixes, os pássaum limite físico. E, dentro desse limite físico, há uma organização específica de seus componentes, que o caracteriza como uma célula, um peixe, uma grama, um bovino, uma árvore. O que acontece é que essa organização dos componentes tem um padrão de rede, ou seja, todos os componentes estão interligados numa rede de relações complexas e não lineares. Se observarmos atentamente, percebemos que o padrão de rede repete-se em todo o mundo vivo. Bertalanffy, em 1950, afirmou, na sua Teoria Geral dos Sistemas, que “o padrão em rede é comum a todas as formas de vida” (von Bertalanffy, 1950).

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