O crescimento da indústria brasileira de estruturas metálicas (material para avaliação

O crescimento da indústria brasileira de estruturas metálicas (material para avaliação

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Estruturas Metálicas BNDES Setorial 35, p. 47 – 84

O crescimento da indústria brasileira de estruturas metálicas e o boom da construção civil: um panorama do período 2001-2010

João Paulo Martin Faleiros Job Rodrigues Teixeira Junior Bruno Marques Santana*1

Resumo

Este artigo aborda alguns dos principais aspectos da indústria brasileira de estruturas metálicas, desde as características da cadeia produtiva nacional até as perspectivas de investimento para o período 2012-2014, passando pelo panorama mundial, pela inserção dos produtores brasileiros no comércio internacional e pelo papel do BNDES no financiamento aos investimentos do setor. Mostra-se que há grande potencial de crescimento dessa indústria no Brasil, em parte por conta das características técnicas de seus principais produtos, em parte em função da recente boa evolução da economia brasileira, em especial quanto à construção civil. Esse setor vem sendo impulsionado pela ampliação do acesso ao crédito, pelo crescimento Respectivamente, economista, gerente setorial e estagiário do Departamento de Bens de Consumo, Comércio e Serviços da Área Industrial.

O cr escimen to da indústria br asi leir a de estrutur as metálicas e o boom da c onstrução civi obras relacionadas à futura realização de dois grandes eventos esportivos.

Introdução

A indústria de estruturas metálicas, amplamente difundida em países como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha há décadas, vem apresentando um expressivo crescimento no Brasil nos últimos anos. O consumo de aço destinado às estruturas metálicas passou de 324 mil toneladas em 2002 para 1,6 milhão de toneladas em 2009, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e os desembolsos do BNDES destinados a empresas do setor saltaram de cerca de R$ 6 milhões em 2001 para mais de R$ 156 milhões em 2010.

Outro indício do forte aquecimento da demanda brasileira por estruturas metálicas é a reversão recente do saldo da balança comercial desse setor, que saiu de um quadro sempre superavitário entre 2001 e 2009 para um resultado deficitário em 2010, déficit este que, segundo os números de 2011, tende a se aprofundar.

A utilização de estruturas metálicas está intrinsecamente ligada ao setor da construção civil. Ao encontrar um ambiente de crescimento econômico no qual esse setor sobressai como um dos mais dinâmicos, explica-se o bom desempenho recente dessa indústria ainda pouco estudada no Brasil, mas já consolidada em várias outras partes do mundo.

Nessa perspectiva, o texto procura expor o quadro atual da indústria de estruturas metálicas, especificamente o segmento de perfis e tubos para estruturas, com ênfase no caso brasileiro, no período entre 2001 e 2010. A escolha desse segmento, em particular, deve-se a sua importância, como método construtivo para edificações comerciais e residênciais e para a construção pesada.

Depois de uma breve caracterização da cadeia produtiva no Brasil, o artigo traz, na terceira seção, informações sobre a indústria no país, incluindo seu padrão de concorrência. A quarta seção aborda a atuação do BNDES nos últimos anos, e a quinta apresenta os maiores players do cenário mundial. A seção seguinte dedica-se ao panorama do comércio internacional brasileiro. A atuação do BNDES como fonte de financiamento ao investimento e os principais desafios a serem enfrentados pelas empresas dessa indústria são

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49tratados na sétima seção. Se forem confirmadas, ainda que parcialmente, as expectativas atuais da maior parte dos analistas para a economia brasileira na década de 2010, a evolução observada nos últimos dez anos na indústria nacional de estruturas metálicas tende a sofrer alguma aceleração, impactando positivamente seus investimentos, podendo chegar a R$ 1,5 bilhão no triênio 2012-2014. Por fim, a última seção expõe as conclusões.

Principais características da cadeia produtiva no Brasil

De modo geral, as estruturas metálicas são utilizadas para diversos fins, com destaque para montagem e construção de pontes, viadutos, torres, pórticos, grandes antenas, edifícios e galpões industriais e comerciais. São peças industrializadas capazes de cumprir o mesmo papel estrutural que vigas e pilares de concreto armado costumam desempenhar, aplicando-se tanto a pequenas construções domésticas quanto a grandes obras públicas.

Tipicamente, a cadeia produtiva da indústria de estruturas metálicas é composta pelas seguintes indústrias: (i) extrativista, que fornece o minério de ferro; (i) siderúrgica, responsável pelo fornecimento de aços planos; (ii) indústria de estruturas metálicas, com destaque para os fabricantes de perfis e tubos soldados para estruturas; e (iv) construtoras, que são os principais consumidores finais.

O processo industrial dos fabricantes de estruturas metálicas envolve: (i) projetos (incluem desenhos técnicos e cálculos estruturais); (i) corte de chapas; (i) perfurações para encaixes; e (iv) solda, limpeza, polimento e pintura. Além disso, a produção propriamente dita correlaciona-se às áreas de vendas e de logística e pode incluir a prestação de serviços especializados.1

A cadeia produtiva da indústria de estruturas metálicas, conforme ilus- trado na Figura 1, segue as linhas gerais do padrão mundial. Em alguns países, em especial os Estados Unidos, há Centros de Serviços – depósitos para estocagem ou pré-processamento das estruturas metálicas. O American Institute of Steel Construction (AISC) estima que, nos Estados Unidos, cerca de 65% dos materiais estruturais (aços planos e perfi s) passam por tais centros de serviços antes de chegar ao fabricante. Esses centros atuam como intermediários entre os fornecedores de aços planos e a indústria de estruturas metálicas, com estoques para pronta entrega e serviços de pré-processamento, como corte, por exemplo. Sua atuação minimiza a volatilidade dos preços do aço, otimiza a infraestrutura para armazenagem e diminui a necessidade de capital de giro.

O cr escimen to da indústria br asi leir a de estrutur as metálicas e o boom da c onstrução civi l50Figura 1 | Resumo da cadeia produtiva da indústria brasileira de estruturas metálicas

Mineração

Planos Siderurgia

Planos e longos

Outras indústrias

Perfis e tubos para estrutura

Andaimes

• Perfis formados a frio • Perfis laminados

• Perfis soldados

• Perfis tubulares (com e sem costura) • Serviços técnicos

• Serviços de montagem • Serviços de distribuição

Obras de caldeiras pesadas

Construtores

Distribuidores

Material de construção

Construção pesada

Edificações

Esquadrias de metal

Estruturas metálicas

Fonte: Elaboração própria.

Observa-se que, em toda sua cadeia produtiva, essa indústria se estabelece entre a indústria siderúrgica de planos e as construtoras/distribuidores. Tal característica é relevante para explicar o padrão competitivo, como será ressaltado na seção seguinte. Vale ainda salientar que as estruturas metálicas, em particular as leves, como o sistema drywall,2 também podem ser distribuídas por meio da rede de varejo de materiais de construção.

De acordo com o IBGE, a indústria de estruturas metálicas compõe o gru- po das indústrias de fabricação de produtos de metal,3 com uma participação Estrutura feita em aço galvanizado, insumo para a fabricação de paredes e forros baseados no gesso, é também denominada chapa de drywall. Além da indústria de estruturas metálicas, esse grupo compõe as indústrias de: (i) tanques, reservatórios metálicos e caldeiras; (i) forjaria, estamparia, metalurgia do pó e serviços de tratamento de metais; (i) artigos de cutelaria, de serralheria e ferramentas; (iv) equipamento bélico pesado, armas de fogo e munições; e (v) embalagens metálicas, produtos de trefi lados de metal e artigos de metal para uso doméstico e pessoal.

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51total no faturamento de 16,3% em 2008, que foi de R$ 54,1 bilhões, e de 18% em 2009 (R$ 48,9 bilhões). Com isso, foi o segmento mais importante em 2009 (Gráfico 1).

Gráfico 1 | Faturamento da indústria geral de fabricação de produtos de metal – 2008 e 2009 (em R$ bilhões)

Fonte: Elaboração própria, com base em dados da Pesquisa Industrial Anual – IBGE 2008 e 2009.

C omo ilustrado pela Figura 1, a indústria de estruturas metálicas subdivide-se em quatro grupos: (i) perfis e tubos para estruturas (aço ou alumínio); (i) andaimes; (ii) esquadrias de metal; e (iv) obras de caldeiraria pesada.

O grupo mais importante na indústria de estruturas metálicas é o de fabricação de perfis e tubos para estruturas (aço e alumínio), que representou 70,6% do faturamento total, segundo dados da Pesquisa Industrial Anual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( PIA-IBGE) para o ano de 2009, enquanto a fabricação de andaimes, de obras de caldeiraria e de esquadrias de metal representaram, respectivamente, 2%, 7,7% e 19,7%.

O cr escimen to da indústria br asi leir a de estrutur as metálicas e o boom da c onstrução civi como ilustrado na Figura 2. Isso se justifica, em primeiro lugar, pelo fato de que, apesar de a indústria de estruturas metálicas envolver outros segmentos, tais como andaimes, esquadrias, obras de caldeiraria e perfis em alumínio,4 o grupo de perfis e tubos em aço para estruturas é aquele que abrange o maior volume de produção e o mais demandado na construção civil. Em segundo lugar, grande parte dos financiamentos do BNDES à indústria de estruturas metálicas está associada às empresas fabricantes de perfis e tubos de aço.

Figura 2 | Principais produtos fabricados (perfis e tubos para estruturas)

Fonte: Instituto Brasileiro de Desenvolvimento da Arquitetura.

A concepção do termo “estruturas metálicas” neste artigo está estritamente relacionada aos perfis e tubos em aço para estruturas, como, de certo modo, a expressão é usada com frequência. Caso seja ampliado para incluir outros segmentos, será feita a devida consideração. O grupo de perfis e tubos em aço para estruturas é segmentado em quatro subgrupos principais, conforme o Quadro 1.

Quadro 1 | Faturamento dos subgrupos da indústria de perfis e tubos em aço para estruturas – 2008 e 2009 (em R$ milhões)

Subgrupo Descrição Faturamento 2008 Faturamento 2009 a) Construções pré-fabricadas de ferro e aço

- Fabricação de construções pré-fabricadas de metal - Fabricação de elementos modulares de metal para construção

Continua Existem também as estruturas metálicas produzidas a partir do alumínio, especifi camente ligadas ao segmento de esquadria de metal, que não serão tratadas neste artigo.

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Subgrupo Descrição Faturamento 2008 Faturamento 2009 b) Estruturas de ferro e aço, em chapas ou em outras formas

- Fabricação de estruturas metálicas para edifícios comerciais e residenciais, galpões, coberturas, silos, passarelas, subestações, telecomunicações c) Torres e pórticos- Fabricação de torres de telegrafia, linhas de transmissão, extração de petróleo - Fabricação de pilares d) Pontes e elementos de pontes- Pontes e elementos de pontes em ferro e aço306322

Fonte: Elaboração própria, com base em dados da PIA-IBGE 2008 e 2009.

Informalmente, o meio empresarial costuma classificar esse segmento em quatro categorias: leve, média, pesada e extrapesada. As estruturas leves e médias aplicam-se a construções de menor porte, como residências, galpões, edificações comerciais, escolas e igrejas, enquanto as estruturas pesadas e extrapesadas são utilizadas em edifícios residenciais e comerciais de múltiplos andares, em obras de infraestrutura, como torres e pontes, e em instalações industriais.

Panorama da indústria no Brasil

A indústria nacional de estruturas metálicas de perfis e tubos em aço tem orientação competitiva conduzida, preponderantemente, pelo aumento de participação de mercado via racionalização e redução de custos [Lopes (2001)]. Tal orientação estratégica destaca como os fatores mais relevantes: o preço do aço, a qualidade do produto e do serviço, a competição com outros métodos construtivos e o baixo grau de concentração dessa indústria.

Com base nos dados da PIA-IBGE, nota-se que o número de empresas ativas com mais de trinta empregados passou de duzentos, em 2001 (23.696 de pessoal ocupado), para 380 em 2008 (48.125 de pessoal ocupado), com uma taxa de crescimento anual média de 9,6%. As sete principais empresas que atuam nessa indústria não chegam a 46% de market share (Alufer, Brafer, Codeme, ICEC, Medabil, Metasa e Usiminas Mecânica). As principais informações referentes a essas empresas estão disponíveis na Tabela 1.

Continuação

O cr escimen to da indústria br asi leir a de estrutur as metálicas e o boom da c onstrução civi l54Tabela 1 | Informações sobre as principais empresas do mercado brasileiro de estruturas metálicas – 2008 e 2009

Ranking 2009Grupo/ empresaFaturamento (R$ mil)

Serviços Sede Fundação Unidades fabris

2009 2008 1Medabil494.605 487.714 ST, FE, M e IIRS1967Nova Bassano (RS)

Nova Araçá (RS) Extrema (MG) 2ICEC*480.083 577.507 ST, FE, M e IISP1979S.J. Rio Preto (SP)

Bady Bassitt (SP) Mirassol (SP) Cariacica (ES) Campo Grande (RJ) 3Usiminas**238.112 339.496 FE e MMG1969Cubatão (SP)

St. do Paraíso (MG) 4Metasa224.846 165.458 FE, M e DRS1975Marau (RS) Santo André (SP)

5Brafer212.912 264.922 ST, FE, M, C, I e G PR1976Araucária (PR)

Rio de Janeiro (RJ)

6Codeme179.531 ND ST, FE, M, C, I e G MG1980Betim (MG)

Taubaté (SP) 7Alufer 89.563 118.889 FE e MSP1962Itu (SP) 8EMTEC11.353 8.604 ST, FE, M e CSP2000Bady Bassitt (SP)

Fonte: Elaboração própria, com base em dados da revista O Empreiteiro nº 477 e 488 e de sites institucionais das empresas. Notas: ST: Serviços Técnicos, FE: Fabricação de Estruturas, M: Montagem, C: Cobertura, I: Insumos e Implementos, e G: galvanizadores * Faturamento referente às empresas do Grupo ICEC que atuam com estruturas metálicas: CMI (Construções Metálicas ICEC), SMI (Montagem e Manutenção Industrial), SCS (Caldeiraria) e SOLESA (Estruturas Metálicas). Fonte: Grupo ICEC. ** Faturamento da Usiminas Mecânicas S.A. referente às unidades de negócios Pontes e Estruturas Metálicas. Fonte: Usiminas Mecânica S.A.

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55O grupo de perfis e tubos para estrutura possui como insumo mais relevante os aços produzidos pela siderurgia de planos. No Brasil, a indústria siderúrgica mostra-se bastante concentrada [Crossetti e Fernandes (2005)]. Apenas três grupos são responsáveis pelo fornecimento de aços planos: Usiminas (41,2% do total da produção), CSN (30,6%), e Acelor-Mittal (28,2%). Tal concentração restringe significativamente o poder de negociação das empresas de estruturas metálicas em relação ao preço do aço.

Entre os insumos dessa indústria, os aços planos são a matéria-prima básica, o que acarreta uma alta dependência produtiva em relação à siderurgia. Estima-se que cerca de 50% do custo de uma estrutura metálica advém desse insumo. Além do mais, de acordo com a PIA de 2009 (IBGE), a aquisição de matéria-prima representa 40% do custo total de produção, seguida pelo custo de mão de obra, com participação de 25%, e pelo custo de manutenção de estoques (produto acabado e matérias- -primas), com 16%.

A siderurgia também exerce influência sobre os aspectos locacionais da indústria de estruturas metálicas, cujas empresas tendem a se fixar de modo a equilibrar sua distância entre as siderúrgicas que fornecem planos e os principais mercados consumidores. No Brasil, grande parte da indústria de estruturas metálicas está localizada na Região Sudeste. Considerando-se as empresas listadas na Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM), 65,4% delas estão no Sudeste, com destaque para o estado de São Paulo, com participação de 50%, conforme indica Gráfico 2.

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