O envelhecimento ativo e seus fundamentos

O envelhecimento ativo e seus fundamentos

(Parte 1 de 6)

1 O ENVELHECIMENTO ATIVO E SEUS FUNDAMENTOS

Suzana Carielo da Fonseca (organizadora)

Amarilis Maria Muscari Riani Costa

Ana Maria Tabet de Oliveira Anderson Pedrosa Barbosa

Beltrina Côrte

Cláudia Galvani

Denise Aparecida Pereira de Araújo

Denise Orlandi Collus

Elisabeth Frohlich Mercadante

Ermelinda Maria Bueno

Fernanda Maria Fávere Augusto

Flamínia Manzano Moreira Ludovici

Francimar Felipa da Silva Costa

Gislaine Gil

Gracielle Elaine Ramos Costa Isabel Cristina de Souza Gonçalves

Karen Harari Luiz Alberto David Araujo Maria Helena Villas Bôas Concone Nádia Dumara Ruiz Silveira Paulo Renato Canineu Ruth Gelehrter da Costa Lopes Sandra Carla Sarde Mirabelli Silvana Tótora Suzana Carielo da Fonseca Teresa Cristina Ferreira Camargo Thais Araujo de O. P. de Carvalho Thuam Silva Rodrigues Vera Antonieta Tordino Brandão Vilma Machado de Sousa

1ª Edição

São Paulo 2016

Apoio:

São Paulo 2016

Impresso no Brasil

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

O Envelhecimento ativo e seus fundamentos /

Suzana Carielo da Fonseca, (organizadora). -- 1. ed. -- São Paulo : Portal Edições : Envelhecimento, 2016.

Vários autores. Bibliografia. ISBN 978-85-69350-07-1

1. Artigos - Coletâneas 2. Envelhecimento 3. Gerontologia 4. Idosos - Saúde 5. Longevidade 6. Qualidade de vida I. Fonseca, Suzana Carielo da.

16-08578 CDU-362.6

Índices para catálogo sistemático:

Bem-estar social 362.6

1. Envelhecimento : Gerontologia social :

Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica:

Ronaldo Monfredo

Revisão:

Elaine Silva

Supervisão editorial: Beltrina Côrte

ApresentAção

O propósito desta coletânea é movimentar os quatro fundamentos do conceito de atividade, tal como ele é referido na atual Política de Envelhecimento Ativo (OMS, 2002)1, quais sejam: saúde, participação, segurança/proteção e aprendizagem ao longo da vida. Para tal, reúne artigos que resultam de investigações atuais realizadas por pesquisadores brasileiros em dissertações de mestrado e estágio pós-doutorado no âmbito do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; razão pela qual os mesmos reúnem em coautoria o discente pesquisador e seu orientador. Vale destacar que, de modos particulares, todos abordam a necessidade de se discutir de que modo a conquista da longevidade pode se traduzir como uma experiência positiva tanto para os sujeitos, quanto para as sociedades nas quais eles vivem. O foco se dirige não só para os obstáculos a serem enfrentados, como também para as oportunidades oferecidas para que a vida na velhice seja vivida com qualidade e dignidade.

Envelhecer é viver! Mas, o que é a vida? De acordo com Canguilhem ([1960]2000, p. 98)2, “a vida é polaridade dinâmica [porque ela] é, de fato, uma atividade normativa” ou, dito de outro modo: a vida resulta de uma capacidade de instituir normas para reagir à destruição (morte). Tal capacidade denomina-se “normatividade”. Se ela é o germe da vida, viver é ser normativo. Nessa perspectiva, qualidade de vida tem a ver necessariamente com normatividade biológica. Mas, não só! Vejamos porque.

De acordo com Halbwachs (1912)3, o número de mortos e sua distribuição pelas diversas faixas etárias traduzem a importância que uma sociedade dá ou não ao prolongamento da vida. Assim, a duração média da vida não é a duração da vida biologicamente normal, mas é, em certo

1 World Health Organization - Envelhecimento ativo: uma política de saúde / World Health Organization; tradução Suzana Gontijo. – Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2002. 2 CANGUILHEM G. O Normal e o Patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária. [1960]2000. 3 HALBWACHS M La théorie de l’homme moyen; essai sur Quêtelet et la statisque morale, tese de letras, Paris, 1912.

sentido, a duração da vida socialmente normativa. Note-se que esta afirmação permite estender o conceito de normatividade para a esfera do socius, o que nos leva a concluir que a vida humana depende também da capacidade que uma sociedade tem para enfrentar o que pode destruí-la. Depende, portanto, de normatividade social.

Mas a questão da normatividade não se esgota aí já que, com Messy (1999, p. 2)4, nos damos conta de que ela também está em causa na dinâmica da psique: “a aquisição não é o reverso da perda, pois a noção de irreversibilidade as separa. O que é perdido, o é para sempre, nenhuma aquisição substitui a perda”. Contudo, “uma perda não é sempre um término, muitas vezes, ela engendra uma aquisição” (p. 21). Note-se, então, que a tarefa de elaborar psiquicamente as inevitáveis perdas que nos acompanham ao longo da vida depende de normatividade psicológica. Depende, então, da capacidade de engendrar aquisições apesar das perdas.

Tendo em vista tais considerações, cabe ainda atentar para o fato de que “a essencial verdade da vida” é a de que ela “é um sistema instável no qual, a cada instante, o equilíbrio se perde e se reconquista” (BEAUVOIR, [1970]1990, p. 17)5. Isso depende fundamentalmente da capacidade de cada um, em particular, e da sociedade, de um modo geral, de ser normativo: mecanismo transversal que, como vimos, imbrica o biológico, o psicológico e o social.

Deve-se dizer que na Política de Envelhecimento Ativo não há referência ao conceito de normatividade. Contudo, entendo que o documento da OMS tangencia tal concepção quando reconhece a necessidade de, e recomenda a, otimização de oportunidades de saúde, de contínua participação nas questões sociais, econômicas, culturais e espirituais, de segurança/proteção (social, física e financeira) e de aprendizagem ao

4 MESSY J. A pessoa idosa não existe. Uma abordagem psicanalítica da velhice. São Paulo: Editora Aleph. 1999. 5 BEAUVOIR S. A Velhice. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. [1970]1990.

longo da vida para fomentar bem-estar físico, psicológico e social. Note-se que está aí implicada a hipótese de que uma sociedade que oferece tais oportunidades é uma sociedade que dá valor a vida em qualquer idade. Investigar o seu alcance na dinâmica da sociedade brasileira é um desafio que está em consonância com o compromisso de um Programa de Pós-Graduação cuja área de concentração é a Gerontologia Social, como é o caso da PUCSP. Os artigos aqui reunidos representam esse enfrentamento. Desse modo, o presente livro está organizado em quatro partes, cada uma delas voltada particularmente para cada um dos determinantes do envelhecimento ativo.

Na parte I, encontram-se os artigos que discutem questões que articulam envelhecimento e saúde. São eles:

- O cuidador familiar de idosos em cuidados paliativos: limites e possiblidades. O artigo de Francimar Felipa da Silva Costa (discente) e Flamínia Manzano Lodovici (docente) traz à luz o perfil sociodemográfico do cuidador familiar em situação paliativa, refletindo não apenas sobre os procedimentos específicos nela envolvidos, como também sobre aos limites de sua atuação e às possibilidades de aperfeiçoamento de sua performance. Numa análise cuidadosa, as autoras indicam a importância de políticas públicas que garantam cuidados específicos ao cuidador familiar em situação paliativa.

- Vigilantes da memória: programa intergeracional multidisciplinar de estimulação cognitiva. Gislaine Gil (discente) e Elisabeth F. Mercadante (docente) avaliam o efeito do referido programa no desempenho da atenção, memória, humor e metamemória de pessoas acima de trinta anos. As mesmas concluem que seu impacto é altamente relevante, com diminuição de sintomas depressivos e de ansiedade. Entendem, assim, que a sua implementação pode produzir melhora significativa de qualidade de vida entre sujeitos idosos.

- A importância da fisioterapia gerontológica em um grupo de idosos com

Doença de Alzheimer, de Ana Maria Tabet de Oliveira (discente) e Paulo Renato Canineu (docente). Neste artigo, o foco da discussão está voltado para os resultados obtidos na aplicação de um protocolo fisioterapêutico junto a idosos de um Centro-Dia de SP (n=14). Os sujeitos diagnosticados com Doença de Alzheimer (de grau leve a moderado) foram acompanhados durante um período de 6 meses, com resultados animadores: diferença significativa (p<0,05) de comportamento, com melhora da depressão, e de outros aspectos relativos à funcionalidade.

- Uma Proposta de Paradigma: capacidade funcional e qualidade de vida de idosos, tematiza a relação entre atividade física e qualidade de vida de pessoas com mais de 60 anos, moradores das zonas urbana e rural da cidade de Pimenta da Veiga em Rondonia (RO). Ultrapassando uma perspectiva assentada apenas nas dimensões biológica e temporal da vida, os autores – Anderson Pedrosa Barbosa (discente) e Maria Helena Villas Bôas Concone (docente) – indicam que a ênfase na capacidade funcional pode nos oferecer um paradigma interessante de saúde quando aplicada ao segmento idoso, desde que privilégio seja dado à contextualização das condições de vida num espetro que não leve em conta apenas as condições materiais da existência.

saúde, do tempo, de seus anseios, de mudançasA análise dos depoi-

- Envelhecer com as mãos no barro. Narrativas sobre um viver criativo. O trabalho de Karen Harari (discente) e Ruth G. da Costa Lopes (docente), problematizam o significado de expressões tais como “boa velhice”, “velhice ativa” e “velhice criativa”. As mesmas tomam como referência a abordagem psicanalítica winnicottiana na análise de material coletado em pesquisa de campo na qual foram entrevistadas artistas ceramistas idosas que falaram, entre outras coisas, sobre sua percepção acerca da mentos resultou numa reflexão que deu destaque à temática da subjetividade na velhice contemporânea.

Na parte I, encontram-se reflexões que dizem respeito às oportunidades de participação contínua na dinâmica da vida social, quais sejam:

- Como a mídia, no Brasil, apresenta o mercado de trabalho para pessoas com 60+? Denise Aparecida Pereira de Araújo (discente) e Beltrina Côrte (docente), neste artigo, tomam como base recortes da imprensa escrita e digital, a fim de verificar o comprometimento do mercado com o paradigma proposto pela OMS de participação contínua nas questões socioeconômicas, culturais, espirituais e civis. Elas constaram que a mídia brasileira não está cumprindo seu papel na agenda da Política do Envelhecimento Ativo, pois não informa à população seus direitos e deveres, tão pouco cobra do mercado e da sociedade atitudes que façam valer a definição de “ativo”.

- Seicho no Ie: idosos migrantes de religiões é o resultado de um estudo realizado por Thuam Silva Rodrigues (discente), sob orientação de Elisabeth F. Mercadante (docente). Nele se atenta para um dado demográfico atual relativo às dinâmicas de deslocamento de pessoas entre os diversos grupos religiosos existentes no Brasil. Segundo constataram, a Seicho no Ie se destaca nesse cenário porque se constitui muito mais de adeptos brasileiros não-orientais do que de descendentes de imigrantes japoneses. Além disso, idosos que migraram para esta religião referem que a sua principal motivação para tal foi o sentido que nela se atribui à cura e à solução de problemas familiares.

- Envelhecer longe de casa: aspectos culturais e sociais de refugiados na cidade de São Paulo é artigo que coloca em tela de discussão os resultados obtidos numa pesquisa de campo realizada com 09 refugiados, de distintas nacionalidades, com idade superior a 5 anos, atualmente residindo na cidade de São Paulo. Denise Orlandi Collus (discente) e Silvana Tótora (docente), com base na história oral obtida por meio de entrevistas abertas, identificaram algumas variáveis comuns na fala dos mesmos, ao referirem o que seria uma velhice bem sucedida: autonomia, domínio da língua falada no país da acolhida, crença religiosa, hospitalidade, família e liberdade. Os mesmos deram destaque, ainda, a três outras características que podem dificultar a adaptação à velhice: dependência financeira, doença e vulnerabilidade da família.

- Oficina de Memória: prática social de oportunidade para o envelhecimento ativo é um trabalho no qual Isabel Cristina de Souza Gonçalves (discente) e Suzana Carielo da Fonseca (docente) discutem o resultado de uma pesquisa de campo realizada com idosos participantes do Programa de Atenção Integral ao Envelhecimento (PAIE) da Universidade de Taubaté (UNITAU). As autoras concluem que Oficinas de Memória devem se tornar espaços privilegiados de escuta para narrativas autobiográficas. Isso porque, nossa cultura em geral, e cada um de nós em particular, só têm a ganhar se a palavra for devolvida aos idosos. Promovendo sua participação contínua, elas podem resgatar uma das funções sociais do velho nas sociedades contemporâneas, qual seja: guardiões da memória coletiva.

- Vivências do envelhecer em comunidade: velhices no Espaço de Cultura e

Solidariedade do Jardim da Conquista. A relação entre viver bem a velhice e o suporte da comunidade para tal é o tema explorado por Vilma Machado de Sousa (discente) e Nádia Dumara Ruiz Silveira (docente). Partindo dos resultados obtidos numa pesquisa de campo, as autoras atentaram para a importância da participação dos idosos na comunidade como garantia de aprendizagens que visam fortalecer a convivência em grupo.

Na Parte I estão reunidos os artigos que discutem o direito à segurança/ proteção como um dos determinantes de qualidade de vida na velhice:

- O cotidiano de cuidados a uma mãe idosa: efeitos subjetivos e psicossociais na vida do filho cuidador é um debate orientado pela hipótese de que a situação de dedicação ao cuidado, se não orientada ou sustentada por forças exter- nas, como uma rede de apoio formal ou informal, pode gerar efeitos que complicam a vida do filho cuidador, transformando negativamente o ato de cuidar. Nele, Fernanda Maria Fávere Augusto (discente) e Flamínia Manzano Lodovici (docente) lançam mão de resultados de uma pesquisa de campo realizada com seis sujeitos que desempenham papel de cuidador principal de suas mães idosas. Suas falas desnudam um cotidiano de cuidados marcado por sobrecarga e angústia geradas pela ausência de compartilhamento com os demais membros familiares, em especial, irmãos. No Brasil, dispositivos sociais de proteção ainda são escassos como suporte aos filhos cuidadores e, segundo as autoras, faz-se necessário que sejam pensados e implementados.

- O significado da aposentadora para os servidores públicos: o caso de uma universidade. Segundo Amarilis Maria Muscari Riani Costa (discente) e Ruth G. da Costa Lopes (docente), como o trabalho ocupa destacado espaço na organização da vida humana, a aposentadoria pode trazer implicações importantes para a qualidade de vida na velhice. Para que o desligamento do trabalho formal não seja uma experiência negativa, é preciso, de acordo com as mesmas, que governos e organizações invistam na preparação de servidores para esse devir. Tendo em vista a análise de dados coletados em pesquisa de campo, identificaram que a motivação para a aposentadoria entre servidores públicos de uma Universidade do Estado de São Paulo se deve mais frequentemente a dois fatores: preocupação com mudanças na legislação previdenciária e necessidade de cuidar de um familiar doente.

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