LIVRO EDUCAMPO 2016.compressed

LIVRO EDUCAMPO 2016.compressed

(Parte 1 de 5)

Cícero da Silva

Cássia Ferreira Miranda

Helena Quirino Porto Aires

Ubiratan Francisco de Oliveira (Orgs.)

Palmas – TO 2016

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Tocantins – SISBIB/UFT

E24Educação do campo, artes e formação docente / Cícero da Silva, Cássia Ferreira Miranda, Helena Quirino Porto Aires, Ubiratan Francisco de Oliveira (orgs). –

Palmas/TO: EDUFT, 2016. 244 p.:il.

ISBN: 978-85-60487-12-7

I. Título.
CDD 370.71

1. Educação do Campo. 2. Formação docente. 3. Artes. 4. Práticas pedagógicas.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – A reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio deste documento é autorizado desde que citada a fonte. A violação dos direitos do autor (Lei nº 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.

Reitora Isabel Cristina Auler Pereira

Vice-Reitor Luis Eduardo Bovolato

Pró-Reitor de Pesquisa e

Pós-Graduação Raphael Sanzio Pimenta

Diretor de Pesquisa Guilherme Nobre L. Nascimento

Conselho Editorial

Waldecy Rodrigues (Presidente)

Claudionor Renato da Silva

Jorge Luís Ferreira Liliana Pena Naval

Milanez Silva de Souza Renata Junqueira Pereira

Capa

Sings sunflower. 2017. Renata Lopes

Cipriano/ Tássia Martins Cipriano/ Clivia Iasmim Lima de Souza/ Leidiane Gomes da Silva Lima/ Andreza Sousa de Castro/ Marilda Pereira da Silva

Projeto Gráfico e Diagramação M&W Comunicação Integrada

Revisão Gramatical Cícero da Silva / Neusa Teresinha Bohnen

Impresso no Brasil Printed in Brazil

Aos companheiros Flavio Moreira (in memoriam) e Claudemiro

Godoy do Nascimento (in memoriam), pelas lutas empreendidas em prol da educação do campo, especialmente no estado do Tocantins.

A todo(a)s o(a)s camponeses (a)s e professores (a)s das escolas do campo, vinculado(a)s aos cursos de licenciatura em Educação do Campo, que lutam por uma formação de qualidade para o fortalecimento do ensino básico no meio rural brasileiro.

Prefácio09
Introdução15
Parte I – Educação do campo, alternância e questões agrárias23
educação do campo no Tocantins25

Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma Rejane Cleide Medeiros de Almeida

de conhecimento53

A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção Helena Quirino Porto Aires

Interdisciplinaridade e Licenciatura em Educação do Campo87

Cássia Ferreira Miranda e Maciel Cover

Tocantinópolis105

Percurso metodológico para construções identitárias na formação de professoras e professores do campo no norte do Tocantins: reflexões a partir da experiência com o curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da UFT, Câmpus Ubiratan Francisco de Oliveira

do Tocantins123

A reforma agrária e a educação no campo, potencialidades para a promoção do desenvolvimento territorial: um estudo sobre a região norte do estado Sidinei Esteves de Oliveira de Jesus e Rosa Ana Gubert

Parte I – Artes e educação do campo145
Arte/educação no campo: algumas reflexões147

Gustavo Cunha de Araújo

audiovisuais no norte do Tocantins169

Campo em vídeo: experiências artístico-educativas na produção de Leon de Paula, Marcus Facchin Bonilla e Cícero da Silva

curriculares musicais de Arraias e Tocantinópolis195

Música e educação do campo na UFT: reflexões sobre as matrizes Mara Pereira da Silva e José Jarbas Pinheiro Ruas Junior

do outro219

Música e transformação social: ensino e aprendizado a partir da perspectiva Anderson Fabrício Andrade Brasil

Informações sobre os organizadores e colaboradores da coletânea239

Com muita honra recebi o convite para prefaciar o livro

Educação do campo, artes e formação docente. As lembranças da luta para criar o primeiro curso de Licenciatura em Educação do Campo, na Universidade Federal de Minas Gerais em 2004, e o desafio de registrar essa experiência em uma publicação semelhante em 2010, voltaram à minha mente e passo a descrever algumas.

Em 2016, já foi possível avaliar os resultados pelos editais do

Ministério da Educação para a criação de novos cursos e a constatação de que estávamos com cerca de 4 cursos em funcionamento. Desafios, possibilidades, ousadia e ruptura são palavras que marcaram essa caminhada. Em cada universidade houve grupos de professores e estudantes que provocaram as estruturas acadêmicas ao propor a inclusão de um curso de graduação no rol de formações já consolidadas, em termos de conteúdos, na forma de organização dos processos formativos e no perfil dos sujeitos atendidos.

E não foi diferente na Universidade Federal do Tocantins

(UFT), Câmpus de Tocantinópolis, microrregião do Bico do Papagaio, na criação do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, a partir da adesão ao Edital SESU/ SETEC/SECADI nº 02/2012. O curso é um ponto de referência que marca a longa caminhada em torno do desenvolvimento de projetos de formação continuada de educadores na perspectiva da educação do campo, no envolvimento, na realização de eventos e no

Educação do campo, artes e formação docente desenvolvimento de pesquisas. Nessa experiência, pode-se ressaltar a parceria da universidade com os movimentos sociais e sindicais.

Ao ler o livro, toma-se conhecimento de que o fator decisivo para a concretização do curso foi a demanda dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, expressa por meio de organizações sociais locais.

O livro também discute a concepção de artes e música entendida como uma forma de linguagem que acessa a sensibilidade, a imaginação, o poético e o estético na luta política, no fortalecimento identitário e na ampliação das possibilidades de compreender o mundo. Como registra Carvalho (2015, p. 47)1: “Uma proposta de arte que se propõe a estimular o debate a respeito de questões políticas e sociais em uma perspectiva de que a obra de arte é também uma ação política do artista.”

Desafio considerável se levarmos em conta que o curso propôs uma temática formativa que provocou pelo menos duas ousadias. A primeira diz respeito ao direito de acesso, por parte da população campesina, aos saberes e práticas de uma área do conhecimento que tem sido historicamente ocupada por um pequeno grupo de pessoas. A segunda coloca a arte para além da distração, do lazer, da fruição ao reafirmar sua dimensão política, sua força como conhecimento criativo e transformador das estruturas instituídas.

1 Em sua dissertação: CARVALHO, C. A. S. Práticas artísticas dos estudantes do curso de licenciatura em educação do campo: um estudo na perspectiva das representações sociais. Mestrado em Educação. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2015.

Prefácio

Outra lembrança. Certa vez ouvi uma artesã do Vale do

Jequitinhonha, Minas Gerais, responder a um comentário de uma pessoa que estava interessada em comprar bonecas de barro: “Você deve ser uma pessoa feliz, pois fazer bonecas é como brincar a vida toda”. E a artesã respondeu: “Eu moldo bonecas e neste fazer eu brinco, ganho a vida e digo o que acho que é ser mulher”. Foi com essas palavras que aquela artesã ensinou à outra mulher o sentido da arte como prática concreta, produtora e produto da existência real das pessoas.

Nessa perspectiva, li a descrição do projeto feito com o tema gerador Direito à memória e à verdade, trabalhado no curso como uma forma de lidar com “[...] o silêncio relacionado a esses acontecimentos que imperam na região [...]”, fazendo referência às consequências da Guerrilha do Araguaia ocorrida na região no período da Ditadura Militar.

A perspectiva da arte como prática política se anuncia na estrutura do livro. Na Parte I, são abordados temas como movimentos sociais do campo e práxis política, a pedagogia da alternância, interdisciplinaridade, identidade e reforma agrária, princípios estruturantes da educação do campo. O diálogo com a literatura disponível sobre a formação de educadores do campo e a busca de formatos metodológicos que buscam a participação dos sujeitos e o tensionamento entre teoria e prática (seminários integradores, temas geradores, oficinas pedagógicas) aparecem com centralidade no curso. Por meio desses temas, a articulação entre projeto de escola, de campo e de sociedade assume prioridade na formação dos educadores. A ênfase na articulação entre tempo universidade

Educação do campo, artes e formação docente e tempo comunidade sinaliza para uma perspectiva formativa que direciona o compromisso da superação do modelo social de produção e reprodução da realidade que exclui os sujeitos do direito à vida.

Na Parte I, temos as práticas formativas com a produção de vídeos, músicas e reflexões teóricas sobre as artes na formação de educadores. Nelas identifica-se como é possível articular as práticas artísticas com as questões concretas da realidade campesina bem como as relações estabelecidas com outras áreas do conhecimento. Não há como não se envolver na atividade de produção de vídeos ao ver estudantes produzindo audiovisuais e registrando suas experiências no Diário de processo criativo. Os sujeitos de direito são a referência que articula essas práticas, que dá sentido aos diferentes percursos e instrumentos pedagógicos utilizados na formação. Foi possível entender o que significa a arte como práxis, como conhecimento e técnica produtora de indignação e de esperança.

Enfim, é uma produção no e sobre o curso. Queremos ressaltar que o livro deixa ver uma contribuição relevante por parte dos sujeitos que estão construindo o curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT). Cada capítulo traz a marca e os sujeitos que estão construindo a experiência.

Um ponto de destaque é a criação do Grupo de Estudos e

Pesquisas em Educação do Campo (Gepec/UFT), em torno do qual se discute, sistematiza, analisa e registra as atividades desenvolvidas. O que se lê são descrições densas, análises consistentes, metodologias adequadas e o compromisso com a produção de conhecimento como parte

Prefácio indissociável da formação. Há uma produção de conceitos, de categorias e de metodologias que pode sinalizar para formas diferenciadas para articular ensino, pesquisa e extensão no âmbito acadêmico.

Fico pensando que a tarefa desenvolvida pelo grupo do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música pode se constituir como uma referência para todos que estão envolvidos na construção das licenciaturas em Educação do Campo em suas instituições. Registrar, sistematizar e analisar as práticas formativas são ações que potencializam e fertilizam nossas lutas!

Esses aspectos sinalizados só assumem amplitude em função de uma característica presente em todos os textos, da apresentação ao currículo dos autores. Os sujeitos e o contexto campesino estão presentes nas práticas cotidianas do curso. As temáticas relacionadas aos desafios para produzir e reproduzir a vida são conteúdos trabalhados com o uso de metodologias comprometidas com um conhecimento capaz de gerar transformações na realidade. Os autores possuem trajetórias de envolvimento com o campo e seus sujeitos. Por isso é que o livro é pleno de vida, com suas contradições, desafios e possibilidades.

Maria Isabel Antunes-Rocha Professora associada da FaE/UFMG. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo (Nepcampo/UFMG). Membro da Comissão Nacional do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária e da Comissão Estadual de Educação do Campo de Minas Gerais. Desenvolve pesquisas com as seguintes temáticas: formação e prática docente, educação do campo, representações sociais.

A obra Educação do campo, artes e formação docente, gestada de pesquisas e trabalhos desenvolvidos no curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus de Tocantinópolis, traz reflexões a respeito das experiências na formação inicial de educadores e educadoras do campo na microrregião do Bico do Papagaio, estado do Tocantins. As investigações aqui relatadas reforçam que a reflexão acerca da prática docente pode contribuir significativamente para a implementação de práticas didáticopedagógicas interdisciplinares na educação do campo.

Ao produzir esta obra, os autores assumiram o compromisso de romper barreiras impostas a essa modalidade de educação. Os trabalhos produzidos à luz das concepções teórico-metodológicas da educação do campo, pedagogia da alternância e artes trazem críticas, sugestões e reflexões de fundamental importância para a afirmação de um projeto de educação condizente com a realidade dos camponeses, seja no ensino básico ou superior.

Em sua maioria, as pesquisas que resultaram nos trabalhos que compõem esta obra foram desenvolvidas no âmbito das atividades científicas do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo – Gepec (UFT/CNPq). O grupo foi criado em agosto de 2015 e está vinculado ao curso de Licenciatura em Educação do Campo com

Educação do campo, artes e formação docente habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus de Tocantinópolis. Além de ser um espaço de debate a respeito das tendências teórico-metodológicas que se vinculam, principalmente, à educação do campo, as discussões realizadas no Gepec também permitiram aos professores/pesquisadores refletir acerca da própria prática didático-pedagógica.

Os capítulos do presente livro estão organizados em duas partes, conforme escopo das pesquisas. A Parte I – Educação do campo, alternância e questões agrárias traz cinco capítulos; a Parte I – Artes e educação do campo apresenta quatro trabalhos.

A primeira parte inicia com o capítulo Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins, de Rejane Cleide Medeiros de Almeida. A autora discute a trajetória de luta por uma educação do campo no estado de Tocantins, sobretudo, a participação dos movimentos sociais nessa construção. Explicita a concepção dessa modalidade de educação, de movimentos sociais e suas características enquanto sujeitos do campo. O texto traz também um breve histórico do Programa Projovem Campo – Saberes da Terra, Experiências em Educação do Campo – UFT-TO, bem como a trajetória do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus de Tocantinópolis, para a formação de professores.

Em seguida, no capítulo A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento, Helena Quirino Porto Aires focaliza experiências formativas na educação básica em

Introdução uma escola família agrícola (EFA). O texto apresenta uma breve contextualização da educação do campo no Brasil e enfatiza a proposta da pedagogia da alternância como alternativa viável para os povos que vivem no e do campo. Em seguida, são expostos os caminhos percorridos para a realização da pesquisa e elucidados os encaminhamentos metodológicos (escolha dos participantes, instrumentos utilizados na coleta de dados e organização das entrevistas).

Na sequência, apresenta-se um histórico da trajetória da pedagogia da alternância e seus aportes teóricos. Discutem-se também as concepções das propostas de educação por alternância, com destaque à legislação que a respalda. Na análise dos dados, a autora apresenta os registros verbais acerca do Projeto Político- Pedagógico (P) da EFA de Porto Nacional, a caracterização da referida escola, as percepções e os pontos de vistas expressos nos relatos dos entrevistados. Com base em algumas considerações, a autora retoma o tema, discute os resultados obtidos na pesquisa de campo e reforça a necessidade da ampliação e do aprofundamento de estudos que analisem a educação por alternância na perspectiva dos estudantes, pais e comunidade.

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