Conceitos básicos da contabilidade de custos

Conceitos básicos da contabilidade de custos

(Parte 1 de 5)

Módulo de contabilidade de Gestão - 2 Ano de Curso de Gestão de Empresas

7 de Agosto de 2013

Apresentação da disciplina

O objetivo dessa disciplina é proporcionar ao aluno um adequado conhecimento da contabilidade interna da empresa, permitindo desenvolver sua aplicação. Começa-se definindo o conteúdo da Contabilidade de Gestão e sua inter-relação com a Contabilidade Financeira. Aborda-se a problemática relacionada à classificação, à localização e à atribuição do custo que permita a obtenção do custo de produção. Posteriormente, aborda-se a problemática relacionada ao cálculo do custo do produto considerando a organização do processo produtivo da organização, estudando-se os sistemas de custos por processos, pedidos, custo baseado nas atividades e custos completos-parciais. Finalmente, procede-se, tomando como base o custo calculado, a efetuar seu controle, guiando a tomada de decisões racionais na empresa que permitam realizar o planejamento e o controle da gestão com vista à utilização eficiente dos recursos produtivos.

A orientação da contabilidade de custos tem como objetivo fazer com que o aluno se mostre capaz de:

O B J E T I V O S

- Analisar e interpretar a informação contábil interna, transmitindo-a e informando à direção da empresa para a tomada de decisões.

- Dominar técnicas, procedimentos e sistemas para calcular um custo lógico e razoável dos produtos e serviços nas empresas industriais, comerciais e de prestação de serviços.

- Implantar um sistema contábil de custos que permita o planejamento e a avaliação dos projetos empresariais mediante a análise e a preparação de informação para a tomada de decisões econômicas e financeiras.

- Conceber sistemas de informação que sirvam para detectar potenciais riscos ao negócio e poder antecipar-se a qualquer situação, descobrindo aspectos críticos favoráveis e desfavoráveis de negócio e avaliar seu impacto no valor real da empresa.

- Controlar, supervisionar e organizar a atividade empresarial interna, concebendo e avaliando os processos produtivos realizados, o fator humano e os recursos materiais e bens de equipamento utilizados.

- Efetuar o projeto, a implantação, o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de sistemas informatizados de contabilidade de custos que permita a ele a adoção de decisões ante diferentes cenários. Decisões voltadas ao planejamento de situações, à organição de recursos, à direção de pessoas aos objetivos e à medição do impacto dos resultados no âmbito do controle de gestão do patrimênio e da garantia do valor da empresa.

1. CONCEITOS BÁSICOS DA CONTABILIDADE DE CUSTOS

O B J E T I V O S

- Partindo da informação apresentada pela contabilidade externa, procede-se para processá-la de modo a poder conhecer o custo de serviços prestados e de produtos fabricados pela empresa. Estabelece-se a relação contabilidade externa e contabilidade de custos, dando-se os passos necessários visando poder efetuar a avaliação de inventários que permita efetuar a realização do assento da variação de estoques, a determinação do resultado e o fechamento do exercício.

- Analisa-se o conceito de custo, apresentando pressupostos para sua classificação e cálculo do resultado interno.

1.1. Delimitação da contabilidade de custos

A contabilidade é um sistema de informação cuja finalidade é captar a circulação dos fluxos de valores econômico-financeiros da empresa que constituem seu ciclo de exploração. Em consequência, a contabilidade tem como propósito básico identificar e registrar os acontecimentos econômicos das unidades empresariais para, posteriormente, comunicar a informação aos distintos indivíduos ou grupos interessados, pertencentes à unidade ou a ela alheios.

No entanto, é possível diferençar duas disciplinas contábeis em função dos propósitos perseguidos pela informação contábil. A primeira se enquadra na transformação interna dos inputs adquiridos para a elaboração dos outputs objetos da atividade empresarial. Já a segunda contempla a aquisição de uns recursos financeiros destinados à obtenção de uma série de recursos econômicos. A contabilidade interna avalia e registra a circulação interna de valores e a transformação realizada pelas diferentes funções da empresa. A contabilidade externa registra as variações na estrutura econômico-financeira-patrimonial da empresa consequências das operações realizadas com o exterior.

Enquanto a contabilidade externa se encontra mais ou menos normalizada, o que implica ser possível efetuar o registro das transações econômicas com um elevado grau de objetividade, sem necessidade de introduzir hipóteses na avaliação, a contabilidade interna para avaliar como se transformam os inputs consumidos na organização e determinar o custo dos bens que produz e serviços que presta exige a adoção de decisões subjetivas.

Em consequência, segundo o conteúdo e as características da informação apresentada por parte de cada uma das duas vertentes da Contabilidade, é possível determinar as seguintes disciplinas contabilísticas:

a) Contabilidade financeira. Processa informação normalizada para usuários externos e decisões internas correspondentes ao âmbito externo.

b) Contabilidade de custos. Obtém informação sobre custos, entendendo por custo, no âmbito da contabilidade interna da empresa, o consumo avaliado em dinheiro de bens e serviços de produção que constitui o objetivo da empresa, ou o equivalente monetário dos bens aplicados ou consumidos no processo de produção.

O objetivo da contabilidade de custos é determinar o custo dos produtos elaborados ou dos serviços prestados pela empresa, fornecendo informação de custos para a formação dos estados financeiros, concretamente a determinação do custo dos produtos vendidos (conta de perdas e ganhos) e, sobre a avaliação de estoques e bens de imobilizado fabricados pela própria empresa (balanço de situação), sendo uma técnica ou método empregado para determinar o custo de um projeto, de um processo ou de um produto.

c) Contabilidade de gestão. Encarrega-se de analisar, interpretar e elaborar a informação contábil para a adoção de decisões no curto prazo, tanto táticas (otimização dos meios disponíveis) como operacionais e de controle de gestão. A finalidade da contabilidade de gestão é registrar, medir e avaliar a circulação de valores no âmbito interno da organização, apresentando à direção da empresa informação relevante para a tomada de decisões empresariais voltadas à racionalização e ao controle dessa circulação de valores. Em definitivo, a contabilidade de gestão tem os seguintes objetivos:

1. Planejamento, controle e medida de todas as atividades da organização, tanto internas quanto daquelas outras que relacionem a empresa ao mundo exterior.

2. A coordenação e a organização dessas atividades, com o objetivo de:

a) programar o aprovisionamento dos recursos de fabricação;

b) otimizar a capacidade existente;

c) organizar o processo fabril;

d) otimizar os recursos humanos; e

e) atribuir responsabilidades.

3. Efetuar o acompanhamento do andamento da empresa, comprovando o alcance ou não dos objetivos gerais estabelecidos.

d) Contabilidade diretiva ou contabilidade de direção estratégica. Intervém prioritariamente de modo pluridisciplinar, sendo vital nos três seguintes processos básicos:

- diagnóstico da empresa;

- planejamentos estratégico e tático; e

- controle da empresa.

Desse modo, é possível determinar uma concepção triangular das diversas disciplinas contábeis, sintetizada no seguinte gráfico:

Como se pode observar, essas disciplinas encontram-se inter-relacionadas, produzindo-se um intercâmbio de informação entre elas. As conclusões que se podem extrair da análise do triângulo contábil são:

a) a contabilidade financeira é uma disciplina contábil que fornece fundamentalmente informação para terceiros;

b) a contabilidade de gestão é outra disciplina contábil, cujo conteúdo e funções se enquadram no âmbito interno da organização;

c) a contabilidade de custos é um subconjunto da contabilidade de gestão;

d) a contabilidade diretiva se situa no vértice superior do triângulo contábil, nutrindo-se da informação da contabilidade financeira e da contabilidade de gestão para a concepção e implantação de estratégias;

e) entre a contabilidade financeira e a contabilidade de gestão há uma inter-relação, fundamentalmente no subconjunto da contabilidade de custos (dualismo contábil), estabelecendo-se uma relação entre o ciclo contábil interno da organização e a elaboração dos relatórios financeiros.

Exercício Prático 1

Uma sociedade explora um complexo turístico composto por um hotel, um restaurante, um autosserviço e um bar. Ao final do exercício econômico, as contas de gestão são as seguintes:

GASTOS

RECEITAS

Compras Eletricidade Pessoal Dotação amortização

120.000

60.000

90.000

40.200

Variação de estoques Vendas Prestações de serviços

2.000

300.000

150.000

Total gastos

310.200

Total receitas

452.000

Pretende-se:

1. De que informação se precisará caso a empresa queira saber o resultado interno de cada uma de suas atividades?

1.2. CONCEITO DE CUSTO

Entende-se por custo a medição e a avaliação dos consumos realizados ou previstos pela aplicação racional dos fatores para a obtenção de um produto, trabalho ou serviço. Em consequência, para que exista custo devem-se cumprir os seguintes requisitos:

a) Consumo: para que exista custo é necessário que haja um consumo ou aplicação a um determinado processo produtivo. Formarão parte do custo do produto os consumos ou aplicações de recursos relacionados ao processo de produção, não se incluindo os recursos utilizados que não sejam necessários à realização da atividade fabril.

b) Medição e avaliação: Para efetuar essa medição e avaliação do custo, é preciso analisar duas dimensões do custo: uma magnitude técnica, que implica estabelecer as unidades físicas que tenham sido utilizadas no processo produtivo dos fatores (recursos) e, uma magnitude econômica, na qual se estabeleçam os critérios para a avaliação em unidades monetárias dos consumos desses fatores. Portanto, o custo é uma magnitude relativa, já que em sua determinação intervêm os critérios fixados para a avaliação e medição desse consumo.

c) De bens e serviços: existem, portanto, dois tipos de consumos:

- de elementos não inventariáveis adquiridos no exterior (gastos com pessoal, energia elétrica, impostos, etc); sua aquisição dá lugar a um consumo ou aplicação imediata;

- de elementos inventariáveis que se consomem gradualmente (matérias-primas, maquinário, edifícios, embalagens, etc...);

O problema da avaliação se estabelece, sobretudo, no segundo tipo de consumos em virtude do tempo transcorrido entre a aquisição e a aplicação, e, em alguns casos, em virtude da incerteza ligada à magnitude técnica do consumo.

d) Necessários à produção: deve-se entender o termo produção em sentido amplo, como processo gerador de valores agregados. Definitivamente, um produto (bem material) ou serviço (bem imaterial) se definiria como saída (output) de um processo econômico. Representando, em suma, o objetivo da função de transformação. A avaliação ou medição desse conceito não se está isenta de dificuldades, dada a complexidade em se transferir os conceitos técnicos a seu conteúdo econômico.

O cálculo do custo é aplicável a organizações comerciais, de serviços e industriais. Ainda que seja no caso das empresas industriais que seu cálculo adquira maior desenvolvimento e aplicação, consequência da necessidade de estabelecer o custo dos produtos para poder efetuar a avaliação de estoques, e a maior complexidade do processo de circulação física de recursos, isso não significa que a medição e a avaliação do custo dos bens e serviços das empresas comerciais e de serviços seja menos importante.

O custo é uma magnitude demasiadamente ampla para ser considerada como um todo, ou seja, em função do processo de cálculo, a informação que a empresa queira obter, as etapas de obtenção, de sua vinculação com o produto, dos inputs que o causam, dos lugares de acumulação, etc., encontraremos diferentes classificações de custo.

Para poder efetuar uma adequada imputação dos custos ao produto, é necessário efetuar um estudo exaustivo de suas particularidades, sendo classificado em função dessas particularidades.

A partir do conhecimento de suas características, obtém-se um custo do produto e alguns resultados internos coerentes e lógicos. Em consequência, os custos podem ser assim classificados:

ÂMBITO DE PROCEDÊNCIA

Custos externos

Os custos externos são aqueles que têm sua origem em um gasto ocasionado no âmbito externo da organização e, em consequência, registrado pela contabilidade externa.

Custos internos

Os custos internos são aqueles que nascem no âmbito interno da organização e que são calculados pela Contabilidade de Custos, não tendo correspondência com os gastos externos da empresa.

VARIABILIDADE DO CUSTO

Custos variáveis

São custos variáveis aqueles que variam proporcionalmente em função do nível de atividade da organização, entendendo-se como atividade o nível de produção, horas trabalhadas pelo maquinário, horas empregadas pela mão-de-obra, unidades vendidas, etc. Indicar que a referência temporal para considerar um custo como variável ou, em caso contrário fixo, será o curto prazo que determina o período anual.

Custos fixos

Pelo contrário, são custos fixos aqueles que permanecem inalteráveis ante variações no volume de atividade.

Custos mixtos

A existência de custos que, por suas características intrínsecas, tenham um componente fixo e outro variável, implicará efetuar a análise desses custos diferenciando e considerando separadamente seu duplo comportamento em atenção às variações experimentadas pelo volume de atividade.

RELAÇÃO COM AS FUNÇÕES REALIZADAS NA ORGANIZAÇÃO

Custos de Abastecimento

Na função de abastecimento são englobados os custos ocasionados pelos recursos utilizados pela função de abastecimento. Contempla as atividades desenvolvidas desde o pedido de materiais aos fornecedores, até a incorporação desses materiais pela fabricação.

Custos de transformação

Compreende o processo de transformação dos recursos empregados no sistema produtivo até a obtenção final do produto terminado.

Custos comerciais

Relacionados à distribuição, à venda e à comercialização dos produtos. Essa função abrange todas as tarefas desde que o produto sai do depósito de produtos terminados até se encontrar nas mãos do cliente.

Custos Administrativos

Esses custos estão vinculados à gestão, à coordenação, ao planejamento e ao controle no âmbito geral da organização.

RELAÇÃO COM O OBJETO DO CUSTO

Custos diretos

São custos diretos aqueles que tenham uma relação de causalidade inequívoca e identificável com relação ao objeto ou destino desses custos. Em consequência, sua atribuição se realizará diretamente sem necessidade de aplicar nenhum método de distribuição.

Custos indiretos

Ao contrário, os custos indiretos, por não possuírem uma relação de causalidade inequívoca e identificável com relação ao objeto ou destino desses custos, mas que se encontram vinculados à generalidade desses custos, exigem a introdução de avaliações subjetivas, não isentas de incerteza, para definir critérios que permitam sua atribuição por meio da aplicação de algum método de distribuição.

VINCULAÇÃO TEMPORAL DA INFORMAÇÃO

Custos históricos

No pressuposto de que a informação utilizada pela contabilidade de custos se refira a um exercício econômico passado, tratando-se de informação real ou histórica, se estaria calculando o custo histórico ou real do produto.

Custos preestabelecidos

Pelo contrário, se a informação apresentada pela contabilidade de custos se refere ao exercício econômico seguinte, estaríamos falando de custos preestabelecidos. A base informativa seria conformada pelas previsões realizadas para o futuro com base na realização do processo produtivo, e se calcularia o custo-padrão do produto.

VINCULAÇÃO AO PROCESSO DE PRODUÇÃO

Recursos e processos vinculados ao processo de transformação das matérias-primas adquiridas pela função de abastecimento, cuya finalidade é obter o produto terminado. Da posterior venda do produto se obterão as receitas da atividade empresarial.

Materiais diretos

Fatores correntes tangíveis, adquiridos pela empresa a fim de serem consumidos, gradualmente, na fabricação ou distribuição dos produtos. Por ser um custo direto é facilmente identificável e observável sua participação física no produto.

Mão-de-obra direta

Pessoal que trabalha no processo produtivo cujo custo é diretamente atribuível ao ele por dispor a empresa de informação que a permita associar univocamente o trabalho realizado pela mão-de-obra com um determinado produto.

Gastos gerais de fabricação

Contempla os custos não incluídos nas anteriores classificações, mas que são necessários à realização da produção, relacionados fundamentalmente com os serviços exteriores e as amortizações. Ainda que usualmente se trate de recursos consumíveis para a realização da produção em seu conjunto, sendo, em consequência um custo indireto, em certos casos podem ser diretamente imputáveis ao produto. Dessa forma, os custos indiretos de fabricação exigirão, tal como visto na classificação dos custos indiretos, a aplicação de algum método de distribuição que sua atribuição ao produto.

Custos do período

Englobam-se nessa classificação aqueles custos que não são necessários à fabricação do produto, vinculados às funções comercial e administrativa e os gastos financeiros.

Exercício Prático 2

Uma empresa, ao finalizar o exercício econômico, tem os seguintes gastos:

- Consumo de matéria-prima

- Consumo de material de escritório

- Devoluções de compras de matérias-primas

- Assessoria fiscal e profisional

- Eletricidade

- Prestação de serviços por outras empresas nas fases de produção

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