Mídia, Misoginia e Golpe

Mídia, Misoginia e Golpe

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Mídia,

Misoginia e Golpe

Organizadores

Elen Cristina Geraldes ● Tânia Regina Oliveira Ramos Juliano Domingues da Silva ● Liliane Maria Macedo Machado ● Vanessa Negrini

Mídia, Misoginia e Golpe Mídia, Misoginia e Golpe

Mídia, Misoginia e Golpe

ORGANIZADORAS Elen Cristina Geraldes, Tânia Regina Oliveira Ramos, Juliano Domingues da Silva, Liliane Maria Macedo Machado e Vanessa Negrini.

ENTREVISTADORAS E ENTREVISTADORES Adriano Warken Floriani, Alice Lima, Alice Mitika Koshiyama, Aline da Silva Souza, Álvaro Benevenuto Jr., André Bonsanto Dias, Bárbara de Oliveira, Caio Cardoso de Queiroz, Carine Felkl Prevedello, Carla Montuori Fernandes, Carlos Golembiewski, Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho, Carolina Vicentin, Christianne Alcântara, Cláudia Regina Lahni, Criselli Montipó, Denise Teresinha da Silva, Dione Moura, Dorivândia Ribeiro Torres, Érica Daiane da Costa Silva, Fabíola Orlando Calazans Machado, Fernanda Eda Paz Leite, Fernanda Martinelli, Gabriela Santos Alves, Genira Chagas, Gerson Luiz Scheidweiler Ferreira, Gislene Moreira, Heloisa Bayerl, Ismália Afonso da Silva, Janara Kalline Leal Lopes de Sousa, Juliana Magalhães, Kátia Maria Belisário, Laís Ferreira Oliveira, Lauana Sento Sé Vieira Santos, Lizely Borges, Liziane Guazina, Luana Rosário, Luciana de Oliveira, Luciana de Souza Ramos, Luciana Salazar Salgado, Luiz Cláudio Ferreira, Luiza Montenegro, Marcela Prado Mendonça, Marcelle Cristine de Souza, Mariana Martins de Carvalho, Mariana Prandini Assis, Michelly Santos de Carvalho, Muriel E. P. Amaral, Natália Oliveira Teles, Noêmia Félix da Silva, Pâmela Rocha Vieira, Patrícia Bandeira de Melo, Patrícia Cunegundes Guimarães, Paula Lopes, Rosamaria Carneiro, Rose May Carneiro, Ruth de Cassia dos Reis, Samária Araújo de Andrade, Sheila Borges, Taís Coutinho Arruda, Ursula Betina Diesel, Viviane dos Santos Brochardt e William de Araújo Correia.

Copyright © 2016 by FAC-UnB

Fotografias Capa e contracapa, Lula Marques; no mosaico, fotos da

Agência Brasil, pelos fotógrafos Antonio Cruz, Daniel Isaia, José Cruz, Rovena Rosa, Tânia Rêgo, Valter Campanato e Wilson Dias.

Apoio Luísa Montenegro, Natália Oliveira Teles, Rosa Helena Santos.

FACULDADE DE COMUNICAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – FAC-UNB Endereço: Campus Universitário Darcy Ribeiro - Via L3 Norte, s/n - Asa Norte, Brasília - DF, CEP: 70910-900, Telefone: (61) 3107-6627 E-mail: fac.livros@gmail.com

DIRETOR Fernando Oliveira Paulino

VICE-DIRETORA Liziane Guazina

CONSELHO EDITORIAL EXECUTIVO Dácia Ibiapina, Elen Geraldes, Fernando Oliveira Paulino, Gustavo de Castro e Silva, Janara Sousa, Liziane Guazina, Luiz Martins da Silva.

CONSELHO EDITORIAL CONSULTIVO (NACIONAL) César Bolaño (UFS), Cicilia Peruzzo (UMES), Danilo Rothberg (Unesp), Edgard Rebouças (UFES), Iluska Coutinho (UFJF), Raquel Paiva (UFRJ), Rogério Christofoletti (UFSC).

CONSELHO EDITORIAL CONSULTIVO (INTERNACIONAL) Delia Crovi (México), Deqiang Ji (China), Gabriel Kaplún (Uruguai), Gustavo Cimadevilla (Argentina), Herman Wasserman (África do Sul), Kaarle Nordestreng (Finlândia) e Madalena Oliveira (Portugal).

Catalogação na Publicação (CIP) Ficha catalográfica

Mídia, Misoginia e Golpe / Janara Kalline Leal Lopes de Sousa[et al.];
organização Elen Cristina Geraldes[et al.]. – 1. ed. – Brasília: FAC-UnB, 2016.

316 p.

CDD: 305.4CDU: 305-055.2

ISBN 978-85-93078-04-0 1. Comunicação. 2. Misoginia. I. Título. I. Direito.

DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO PARA A FAC-UNB. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem a expressa autorização da Editora e dos autores.

À memória da Democracia. À memória da Democracia.

O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência.

DILMA ROUSSEFF, em seu primeiro pronunciamento após a aprovação do impeachment pelo Senado Federal

|APRESENTAÇÃO9
|AS ENTREVISTAS10
Amélia Tereza Santa Rosa Maraux1
Amelinha Teles17
Ana Cláudia Farranha21
Bianca Santana24
Camila Valadão36
Carla Preciosa Braga Cerqueira39
Carlos Roberto Winckler45
César Ricardo Siqueira Bolaño52
Christian Dunker56
Cíntia Schwantes6
Claudia Mayorga69
Cynara Moreira Menezes76
Daniela Auad79
Delaídes Rodrigues Paixão83
Emerson Urizzi Cervi90
Eneida Desiree Salgado94
Erika Kokay97
Flávia Biroli101
Gabriella Barbosa Santos108
Heloisa Buarque De Almeida116
Heloisa Dias Bezerra123
Iriny Lopes131
Ivana Bentes142
Jacira Vieira De Melo146
Jandira Feghali150
Jessé Souza152

|SUMÁRIO João Pedro Stédile ................................................................................................................. 162

Line Bareiro172
Liv Sovik176
Lola Aronovich179
Lúcia Murat182
Luciana Panke187
Maíra Carvalho193
Márcia Cristina Bernardes Barbosa199
Márcia Tiburi201
Maria Helena Weber204
Maria Do Socorro De Souza210
Marina Rocha214
Marlise Matos220
Micheline Ramos De Oliveira233
Nilma Lino Gomes237
Rachel Moreno242
Rita Freire246
Rosângela Piovezani Cordeiro251
Samantha Viz Quadrat255
Silke Weber259
Sírio Possenti269
Tânia Maria Bessone291
Vanessa Grazziotin294
Vera Lucia Michalany Chaia296
Viviane Vergueiro301
|AS ORGANIZADORAS304
|AS ENTREVISTADORAS E OS ENTREVISTADORES306

José Geraldo De Sousa Jr ....................................................................................................... 166 |A CAPA, por Lula Marques .............................................................................................. 316 tenderam à chamada do Laboratório de Políticas de Comunicação – LaPCom, do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília – FAC/UnB, e do Grupo de Trabalho Políticas e Estratégias de

Comunicação da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 94 propostas de entrevistas para o livro “Mídia, Misoginia e Golpe”.

Ao final, efetivamente 53 trabalhos foram selecionados e concretizados, por pesquisadores de todo o País. Foram ouvidas personalidades acadêmicas e políticas com importantes contribuições neste debate, seja na mídia ou em outros palanques, convidadas a responder: Foi golpe? A mídia apoiou? A misoginia impactou?

De maneira geral, os entrevistados e entrevistadas foram contundentes ao afirmar que, sim, o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff foi um golpe, embora com características bastante distintas do que houve anteriormente na história política do País.

Também foi consenso entre a maioria dos entrevistados e entrevistadas que a mídia teve um papel fundamental e ativo na arquitetura do golpe, atuando de forma articulada com os grupos beneficiários do processo.

As questões de gênero, a misoginia, o sexismo, a herança de uma cultura que se forjou no patriarcado, foram ingredientes apontados como de grande relevância para influenciar a opinião pública durante a cobertura do processo de impeachment.

Por fim, os entrevistados e entrevistadas observaram que a derrubada de Dilma representa um duro golpe na participação feminina na política brasileira, que já era considerada uma das mais baixas no mundo, com reflexos e ameaças ao processo de conquistas sociais e culturais em construção nos últimos anos.

Pela gravidade dos desdobramentos, a Academia não poderia se furtar a este debate, mesmo correndo o risco de não haver o distanciamento histórico buscado na ciência. Neste caso, se calar equivaleria anuir com o processo. Que este livro seja fonte de reflexão sobre o papel e o poder da mídia, sobre a necessidade renovada de se resistir ao machismo, ao sexismo e à misoginia, com vistas à construção de uma sociedade plural, justa e democrática.

A Organização

Mídia, Misoginia e Golpe

“Nós, feministas, fizemos essa leitura de como esse processo de impeachment de Dilma teve um componente de gênero imenso, de sexismo imenso, de machismo imenso.”

AMÉLIA TEREZA SANTA ROSA MARAUX Cláudia Regina Lahni

Amélia é formada em Ciências Sociais pela UFBA, com mestrado em História pela PUC-SP. Professora do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), foi vice-reitora da UNEB (2006-2011), e diretora do Campus XIV/Conceição do Coité (2002- 2005). Entre 2011-2014, foi superintendente de Desenvolvimento da Educação Básica, da Secretaria da Educação do Estado da Bahia. É coordenadora do Centro de Estudos em Gênero, Raça/Etnia e Sexualidade – Diadorim/UNEB, membro da Linha de Pesquisa Educação, Gênero e Interseccionalidade de Gênero, Raça e Classe e doutoranda do Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento - DMMDC/Ufba, Uneb, Uefs, IFBA, Senai- Cematec, LNNCC. Negra, lésbica, feminista, é vice-presidenta do Conselho Estadual de Direitos LGBT, na Bahia. Atua no movimento feminista e de lésbicas, articulando projetos institucionais em parceria com movimentos sociais de mulheres e LGBTT.

|Você define o impeachment de Dilma Rousseff como um golpe? Por quê?1

Olha, eu defino como um golpe sim. Não restam dúvidas a todas nós, que elegemos Dilma e que elegemos um projeto e uma proposta de governo voltada para demandas de inclusão das populações historicamente excluídas. Embora ela não tenha feito o papel, cumprido aquilo que foi acordado e pactuado no período da eleição por todas nós que apoiamos a reeleição dela. Mas foi um golpe principalmente por não ter havido nenhum crime dela. Isto foi notório, foi vastamente colocado, inclusive pelo Ministério Público, por auditorias internacionais, que foram feitas, reuniões de juristas que viram. Então, este é um ponto importante, a afirmação de que não houve um crime de responsabilidade, não houve nenhum crime. Portanto, a forma como o processo de impeachment dela se deu demonstrou claramente a intenção de um golpe de forças reacionárias, conservadoras e fascistas que, através de um complô midiático e

1 Esta entrevista foi feita por telefone, no dia 2 de outubro de 2016, quando foi gravada. Agradeço à

Rafaela Dornellas pela transcrição.

Mídia, Misoginia e Golpe do Judiciário, articularam a saída dela. Então eu acho que, para a primeira pergunta que você me fez, foi golpe sim e, para nós, foi uma perda para a democracia; para nós, que lutamos por direitos, foi um golpe que atingiu a todas.

|Qual a participação da mídia nesse processo? Dê exemplos

A mídia teve um papel fundamental. Ela alicerçou a base para a revolta, para a construção de um imaginário nacional sobre a presidenta Dilma Rousseff e sobre o Partido dos Trabalhadores. E a Rede Globo foi uma das expoentes da arquitetura do golpe, junto com as outras mídias, como a Folha de São Paulo, o Estadão, o jornal A Tarde, aqui na Bahia, a revista Veja, Isto É, Época, enfim, todas estas empresas midiáticas comandadas pelas grandes famílias no Brasil e nos estados. Elas tiveram um papel importante de criar a dimensão de uma crise nacional sem resolução. [A mídia] construiu a imagem de fraqueza diante da articulação política que poderia dar sustentação ao governo. Fortaleceu – com certeza – uma imagem, um discurso e uma prática misógina com relação à Dilma Rousseff. Ou seja, eles estamparam, corroboraram com toda uma construção sexista e machista desse processo do golpe. Basta ver como foram televisionadas todas as manifestações construídas [contra o governo de Dilma Rousseff], porque não foram manifestações espontâneas simplesmente, foram manifestações induzidas a partir de ideias construídas de uma derrocada do País, de uma crise econômica e da incompetência de Dilma de tomar as rédeas do processo. E a imagem do PT foi relacionada a todo o processo de corrupção vivenciado pela Petrobrás neste período. Portanto, eu tributo à mídia parte muito significativa desse processo de derrubada da democracia no Brasil.

|Você considera a cobertura sobre os casos de corrupção na Petrobrás e a cobertura dos protestos contra o governo Dilma como exemplos da influência da mídia nesse processo de impeachment?

Sim, sem dúvida. Eu acho que isso pode ser visto nas reportagens com relação à

Petrobrás realizadas pelos jornalões e revistas, pela veiculação ao mesmo tempo na televisão, em todos os jornais, em todos os canais, sejam abertos ou fechados, e a forma como isso foi conduzido, para que o Partido dos Trabalhadores estivesse como o grande mentor e articulador desse processo de corrupção na Petrobrás. Como se antes não houvesse corrupção. Uma parte inclusive desses agentes, que agiam dentro da Petrobrás, já estava lá na Petrobrás no período de Fernando Henrique Cardoso, porque o PMDB nunca deixou de estar, infelizmente, na base de sustentação de governos. Ele é o braço dos esquemas, dos grandes esquemas de corrupção e ele [PMDB] nunca esteve no poder, efetivamente, através do voto do povo, das eleições diretas. E agora é a prova disso, com esse golpe, com Michel Temer assumindo o governo do Brasil. Isso já existia antes, a Petrobrás já estava lá, já vinha servindo aos interesses dos barões, dos corruptos, dos grandes caras que articulam com o capital.

|Quando começou a mencionar o papel da mídia em relação ao golpe, você citou vários jornais e TVs que têm abrangência nacional e um de abrangência localizada no estado da Bahia. Você considera que a forma como a Comunicação está organizada no Brasil também influenciou nessa situação?

Mídia, Misoginia e Golpe

Eu não tenho dúvidas que elas [as empresas de comunicação] se articulam em rede, se articularam e continuam se articulando em rede para dar sustentação a esse governo golpista. E naquele momento elas se articularam em rede, porque eram todos os jornais [de abrangência nacional] e jornais locais. Eu tive a oportunidade de viajar pelo interior da Bahia e ouvir as rádios locais e ouvir os discursos, porque me pareceu um discurso organizado, um discurso padronizado que todos repetiam com a mesma linearidade. Foi uma construção interessantíssima do ponto de vista do imaginário simbólico e pensar como a mídia faz a cabeça. Eu me lembro de que já na época da universidade a gente discutia muito sobre isso, mas sempre levando em conta que o sujeito tem autonomia para pensar e escolher o que deseja e como deseja conduzir. Mas sem sombra de dúvidas, o papel de repetição articulado, ou seja, o conjunto e a forma como se articulou o discurso, como esse discurso foi montado e reproduzido foi algo inacreditável. Era uma coisa tão organizada que se você entrasse nos prédios tinha aquelas televisõezinhas passando Uol, Terra, nos elevadores. Ou seja, você assistia o jornal de manhã e era aquele discurso; você saia de casa, entrava no carro e ligava o rádio e o discurso repetido; você chegava ao seu destino e a televisão estava lá no site Uol, Terra, com a mensagem repetida; você chega em um restaurante ao meio-dia e está lá, todos eles ligados na TV Globo, no Jornal Hoje e a mensagem exaustivamente repetida. Portanto, foi algo muito bem articulado. A única alternativa que a gente tinha era basicamente pela internet, onde a gente discutia e tinha acesso a outros sites da imprensa livre, onde a gente tinha uma opinião diversa, um contraponto a essa ideia construída, hegemônica que a imprensa veiculava.

|Amélia, mas isso tem a ver também com o oligopólio e a falta de democratização da mídia no Brasil, não é?

Sem dúvida nenhuma. Eu acho que isso é algo bastante grave e eu acredito que essa foi, digamos, a resposta que o Partido dos Trabalhadores teve e os partidos de esquerda, que mantiveram a base de sustentação do governo de Lula e Dilma, tiveram por não enfrentar o oligopólio da mídia, por não fazer aquilo que todos nós esperávamos, que era uma discussão sobre o papel da mídia, sobre as concessões, sobre a democratização da mídia no Brasil. Eu fico pensando, porque a gente teve agora o exemplo da Argentina [Ley de Medios, de 2009], em que a Cristina Kirchner [presidenta da Argentina entre 2007-2015] enfrentou esse processo e desestabilizou a oligarquia midiática, desfavorecendo, ou seja, não a alimentando com dinheiro. E agora, com a eleição [em 2 de novembro de 2015] do [Mauricio] Macri, isso tudo parece que caiu por terra. Então, em que medida esse processo de democratização pode não ser perene, que é isso que a gente tem que pensar agora, já que isso não foi feito antes como deveria ter sido feito. Como a gente assegura que esse processo de democratização [da mídia] de fato possa acontecer. Agora, é uma situação meio complicada, porque nós perdemos a possibilidade de fazer isso. Os donos estão no poder, os barões estão no poder, a mídia está no poder novamente e não sei se nunca tiveram na verdade, porque recebiam recursos absurdos em publicidade e agora continuam recebendo muito mais. Eu vi recentemente, divulgado nas redes, o valor que a Globo, a Veja e a Folha de São Paulo receberam pelo golpe.

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