Variedades da experiencia científica - Carl Sagan

Variedades da experiencia científica - Carl Sagan

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Sobre a obra:

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Copyright © 2006 by Democritus Properties, LLC

Título original The varieties of scicntifk experience – A personal view of the search for God

Criação/formatação ePub: Relíquia

Capa Kiko Farkas/ Máquina Estúdio Elisa Cardoso/ Máquina Estúdio

Preparação Valéria Franco Jacintho

Revisão Marise S. Leal Valquíria Delia Pozza

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil)

Sagan. Carl. 1934-1996 Variedades da experiência científica : uma visão pessoal da busca por Deus / Carl Sagan ; tradução Fernanda Ravagnani – São Paulo : Companhia das letras, 2008.

Titulo original: The varieties of scientific experience: a personal view of the search for God. ISBN 978-85-359-1132-9

1. Religião e ciência 2. Sagan, Carl, 1934-1996 - Religião 3. Teologia natural 1. Titulo.

07-9295CQD-ZI3

índice para catálogo sistemático: 1. Ciência e religião 215 1. Religião e ciência 215

[2014] Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ S.A. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 – São Paulo – SP

Sumário

Introdução da editora Introdução do autor 1. Natureza e deslumbramento: um reconhecimento do céu 2. Afastando-nos de Copérnico: um emburrecimento moderno 3. O universo orgânico 4. Inteligência extraterrestre 5. Folclore extraterrestre: implicações na evolução da religião 6. A hipótese da existência de Deus 7. A experiência religiosa 8. Crimes contra a criação 9. A busca Perguntas e respostas escolhidas Agradecimentos Legendas das imagens Créditos das imagens Notas

Introdução da editora

Carl Sagan era um cientista, mas tinha algumas qualidades que associo ao Antigo Testamento. Quando topava com uma muralha — a muralha do jargão que mistifica a ciência e isola seus tesouros do restante de nós, por exemplo, ou a muralha que cerca nossa alma e nos impede de abraçar de verdade as revelações da ciência —, quando topava com uma dessas velhas e infindáveis muralhas, ele usava, como um Josué moderno, todas as suas muitas variedades de força para derrubá-la. Quando criança, no Brooklyn, tinha recitado em hebraico a reza V’Ahavta, do Deuteronômio, em cerimônias no templo: “E amarás o Senhor teu Deus com todo seu coração, toda sua alma, toda sua força”. Ele a sabia de cor, e ela pode ter sido a inspiração quando ele perguntou pela primeira vez: O que é o amor sem a compreensão? E que força possuímos, como seres humanos, maior do que a nossa capacidade de questionar e aprender? Quanto mais Carl aprendia sobre a natureza, sobre a vastidão do universo e as incríveis escalas de tempo da evolução cósmica, mais se enlevava. Outro jeito de ele ser Antigo Testamento: não conseguia viver uma vida compartimentada, operando sob um conjunto de convicções no laboratório e guardando um conjunto conflitante para o sabá. Ele levava a ideia de Deus tão a sério que ela tinha de passar pelos padrões mais rigorosos de escrutínio. Como era possível, ele questionava, que o Criador eterno e onisciente descrito na Bíblia pudesse afirmar com convicção tantos equívocos fundamentais sobre a Criação? Por que o Deus das Escrituras seria tão menos conhecedor da natureza do que nós, recém-chegados, que estamos só começando a estudar o universo? Ele não conseguia passar por cima da formulação bíblica de uma Terra plana, de 6 mil anos, e achava especialmente trágica a ideia de que tivéssemos sido criados de forma independente dos demais seres vivos. A descoberta de nosso parentesco com todas as formas de vida foi confirmada por incontáveis e convincentes linhas de evidências distintas. Para Carl, a sacada de Darwin de que a vida evoluiu ao longo das eras pela seleção natural não só era uma ciência melhor do que a do Gênese como proporcionava uma experiência espiritual mais profunda e satisfatória. Ele acreditava que o pouco que sabemos sobre a natureza sugere que sabemos menos ainda sobre Deus. Tínhamos apenas captado um vislumbre da grandeza do cosmos e de suas leis prodigiosas, que guiam a evolução de trilhões, se não números infinitos, de mundos. Essa nova visão fez o Deus que criara o Mundo parecer terrivelmente local e datado, limitado pelos erros de percepção e de concepção cometidos pela humanidade no passado.

Ele não dizia isso da boca para fora. Estudou avidamente as religiões do mundo, tanto as viventes como as defuntas, com o mesmo apetite pelo aprendizado que o levava a seus objetos científicos de estudo. Ficou encantado com sua poesia e sua história. Quando debatia com líderes religiosos, frequentemente os surpreendia com sua capacidade de citar, mais do que eles, os textos sagrados. Alguns desses debates levaram a amizades de vida inteira e a alianças pela proteção da vida. Ele nunca entendeu, no entanto, por que alguém desejaria separar a ciência, que é só um jeito de buscar a verdade, daquilo que consideramos sagrado, as verdades que inspiram o amor e o temor. Sua discussão não era com Deus, mas com quem acreditava que nossa compreensão do sagrado estava completa. A convicção permanentemente revolucionária da ciência, de que a busca pela verdade não tem fim, era para ele a única abordagem humilde o suficiente para fazer jus ao universo que revelava. A metodologia da ciência, com seu mecanismo de correção de erros para nos manter honestos, apesar da tendência crônica para projetar, para nos equivocar, para iludir a nós e aos outros, era para ele o auge da disciplina espiritual. Quem busca um conhecimento sagrado, e não apenas um paliativo para seus medos, treina para ser um bom cético. A ideia de que o método científico deva ser aplicado às dúvidas mais profundas é frequentemente desqualificada como “cientismo”. Essa acusação é feita por quem acha que as crenças religiosas deveriam estar isentas do escrutínio científico — que crenças (convicções sem evidências que possam ser postas à prova) são um meio de conhecimento que basta por si só. Carl entendia esse sentimento, mas insistia, junto com Bertrand Russell, que “o que se quer não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir, que é exatamente o contrário”. E, em todas as coisas, até quando enfrentou seu próprio e cruel destino — sucumbiu à pneumonia em 20 de dezembro de 1996, depois de passar por três transplantes de medula óssea —, Carl não queria só acreditar. Queria saber. Até cerca de quinhentos anos atrás, não existia essa muralha separando ciência e religião. Naquela época, as duas eram a mesma coisa. Foi só quando um grupo de religiosos que queriam “ler a mente de Deus” percebeu que a ciência seria o meio mais poderoso de fazer isso é que a muralha se tornou necessária. Esses homens – dentre eles Galileu, Kepler, Newton e, bem mais tarde, Darwin — começaram a articular e a internalizar o método científico. A ciência decolou rumo às estrelas, e a religião institucional, preferindo negar as novas revelações, não podia fazer outra coisa senão erguer uma muralha de proteção em torno de si. A ciência nos levou aos portais do universo. E mesmo assim nossa concepção do que nos cerca ainda é a visão desproporcional de uma criança pequena. Estamos espiritual e culturalmente paralisados, incapazes de encarar a vastidão, de assumir nossa acentralidade e encontrar nosso lugar verdadeiro na essência da natureza. Castigamos este planeta como se tivéssemos algum outro lugar para onde ir. Não é suficiente, porém, apenas aceitar intelectualmente esses insights se nos agarramos a uma ideologia espiritual que não apenas não tem raízes na natureza como, de muitas maneiras, desdenha do que é natural. Carl acreditava que nossa maior esperança de preservar a essência prodigiosa da vida em nosso mundo era abraçar de verdade as revelações da ciência. Foi o que ele fez. “Cada um de nós é, na perspectiva cósmica, precioso”, escreveu ele em seu livro Cosmos. “Se um ser humano discordar de você, não se importe. Em 100 bilhões de galáxias você não encontrará outro.” Ele fez anos de lobby na Nasa para que o Voyager 2 olhasse para a Terra e, de Netuno, tirasse uma foto dela. Depois nos pediu que pensássemos naquela imagem e enxergássemos nosso lar como ele é — apenas um “pálido ponto azul” flutuando na imensidão do universo. Ele sonhou que derivaríamos a compreensão espiritual das nossas verdadeiras circunstâncias. Como um profeta do passado, queria nos tirar do nosso estupor para que tomássemos providências para proteger nosso lar. Carl queria que nos víssemos não como o barro fracassado de um Criador frustrado, mas como material estelar, feito de átomos forjados nos corações em chamas de estrelas distantes. Para ele, éramos “material estelar refletindo sobre as estrelas; montagens organizadas de 10 bilhões de bilhões de bilhões de átomos pensando na evolução dos átomos; rastreando a longa jornada pela qual, pelo menos aqui, a consciência surgiu”. Para ele a ciência era, em parte, uma espécie decoração informada”. Nenhum passo na busca pelo esclarecimento deveria ser considerado sagrado, só a procura. Esse imperativo foi uma das razões de ele se dispor a criar tantos problemas com seus colegas ao derrubar as muralhas que haviam excluído a maioria de nós dos insights e dos valores da ciência. Outra foi o seu medo de que fôssemos incapazes de manter o nível limitado de democracia que tínhamos conquistado. Nossa sociedade baseia-se na ciência e na alta tecnologia, mas só uma pequena minoria entre nós entende, e mesmo assim superficialmente, como elas funcionam. Como podemos esperar ser cidadãos responsáveis de uma sociedade democrática, tomadores de decisão informados quanto aos inevitáveis desafios representados por esses poderes recém-adquiridos? Essa visão de um público crítico e pensante, despertado para a ciência como modo de pensar, impelia-o a falar em muitos lugares onde não se costumam encontrar cientistas: jardins-de-infância, cerimônias de naturalização, uma faculdade só de negros no Sul segregado de 1962, manifestações de desobediência civil sem violência, o programa Tonight. E ele fazia isso mantendo ao mesmo tempo uma carreira científica pioneira, incrivelmente produtiva e de uma interdisciplinaridade destemida. Carl ficou especialmente animado ao ser convidado para dar as Palestras Gifford de Teologia Natural, em 1985, na Universidade de Glasgow. Estaria seguindo os passos de alguns dos maiores cientistas e filósofos dos últimos cem anos — incluindo James Frazer, Arthur Eddington, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Alfred North Whitehead, Albert Schweitzer e Hannah Arendt. Carl via nessas palestras uma chance de explicar em detalhes o que entendia da relação entre religião e ciência e um pouco de sua própria busca para compreender a natureza do sagrado. Nelas, trata de vários temas sobre os quais havia escrito em outras oportunidades; no entanto, o que segue aqui é a declaração definitiva daquilo que, como ele fez questão de ressaltar, eram apenas suas opiniões pessoais sobre esse assunto de fascínio sem fim. No começo de cada Palestra Gifford, um membro destacado da comunidade universitária apresentava Carl e assombrava-se com a necessidade de mais salas ainda para acomodar o enorme público. Tive o cuidado de não mudar o sentido de nada do que Carl disse, mas tomei a liberdade de editar essas polidas declarações introdutórias, assim como as centenas ou mais de anotações nas transcrições de áudio que simplesmente diziam “[ Risos] ”. Peço ao leitor que tenha sempre em mente que qualquer deficiência deste livro é de minha responsabilidade, e não de Carl. Apesar do fato de as transcrições não editadas revelarem um homem que falava de improviso em parágrafos quase perfeitos, uma coletânea de palestras não é exatamente o mesmo que um livro. Especialmente quando o autor e prêmio Pulitzer em questão nunca publicou nada sem revisar a pente fino no mínimo vinte ou vinte e cinco versões de cada manuscrito em busca de erros ou infelicidades de estilo. Houve muita risada durante essas palestras, mas também aquele tipo de silêncio mortal que surge quando público e orador estão unidos na mesma ideia. Os longos diálogos em alguns dos períodos de perguntas e respostas captam um pouco do que era explorar uma pergunta com Carl. Assisti a cada palestra, e mais de vinte anos depois o que ficou em mim foi a extraordinária combinação entre a defesa claríssima, baseada em princípios, e o respeito e a ternura para com quem não tinha a mesma opinião que ele. O psicólogo e filósofo americano William James proferiu as Palestras Gifford nos primeiros anos do século X. Mais tarde ele as transformou num livro de extraordinária influência chamado As variedades da experiência religiosa, que continua sendo editado até hoje. Carl admirava a definição de religião de James, um “sentimento de estar em casa no universo”, e a citou na conclusão de Pálido ponto azul, sua visão do futuro humano no espaço. O título do livro que você tem em suas mãos é um reconhecimento à tradição ilustre das Palestras Gifford. A variação que fiz do título de lames pretende mostrar que a ciência abre caminho para níveis de consciência que de outra forma nos são inacessíveis e que, contrariando nossa tendência cultural, a única gratificação que a ciência nos nega é a ilusão. Espero que esse título também homenageie a amplitude da pesquisa e a riqueza de ideias que marcaram a vida e o trabalho, inseparáveis, de Carl

Sagan. As variedades de sua experiência cientifica foram exemplificadas pela singularidade, pela humildade, pela comunhão, pelo deslumbramento, pelo amor, pela coragem, pela memória, pela sinceridade e pela compaixão. Na mesma gaveta onde as transcrições dessas palestras foram descobertas, havia um conjunto de anotações para um livro que ele não teve a chance de escrever. Seu título provisório era Ethos, e teria sido nossa tentativa de sintetizar as perspectivas espirituais que retiramos das revelações da ciência. Coletamos fichários inteiros de anotações e referências sobre o assunto. Entre elas estava uma citação que Carl havia tirado de Gottfried Wilhelm Leibniz (16461716), o gênio matemático e filosófico que inventou o cálculo diferencial e integral independentemente de Isaac Newton. Leibniz argumentava que Deus deveria ser a muralha que barra o questionamento, como escreveu em seu famoso trecho de Princípios da natureza e da graça:

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