Sombras de antepassados esquecidos - Sagan e Druyan

Sombras de antepassados esquecidos - Sagan e Druyan

(Parte 1 de 7)

CARL SAGAN e ANN DRUYAN

SOMBRAS DE ANTEPASSADOS ESQUECIDOS Título original inglês: Shadows of Forgotten Ancestors 1992, by Carl Sagan e Ann Druyan Tradução: Lucinda Maria dos Santos Silva Revisão técnica: Luis Narciso e Jorge Branco Revisão do texto: José Soares de Almeida Fotocomposição: Gradiva Impressão e acabamento: Tipografia Guerrall&Iseu Direitos reservados para Portugal a: Gradiva — Publicações, L.da Rua

Para Lester Grinspoon, cujo exemplo nos assegura que a nossa espécie pode ter as qualidades necessárias.

Índice

Introdução

Prólogo: a ficha do órfão 1. Na Terra como no céu 2. Flocos de neve caídos na lareira 3. "Que fazes"? 4. Um evangelho de imundície 5. A vida é apenas uma palavra de três letras 6. Nós e eles 7. Quando o fogo era novidade 8. Sexo e morte 9. Que finas divisórias 10. O penúltimo recurso 1. Domínio e submissão 12. A violação de Cênis 13. O mar da criação 14. Ganguelândia 15. Reflexões mortificantes 16. Vidas dos macacos 17. Advertir o conquistador 18. Arquimedes dos macacos 19. O que é ser-se humano 20. O animal interior.. 21. Sombras de antepassados esquecidos Epílogo

Escultura do rio Sepik, planalto central de Papua Nova Guiné Escultura do rio Sepik, planalto central de Papua Nova Guiné

Assim falou; e eu ansiei Por abraçar o fantasma de minha mãe. Três vezes tentei agarrar a sua imagem E três vezes ela me fugiu por entre os dedos Como uma sombra, como um sonho.

HOMERO Odisseia

Introdução

Tivemos ambos muita sorte. Fomos criados por pais que assumiram seriamente a responsabilidade de constituírem elos fortes na cadeia de gerações. Podemos dizer que as pesquisas que deram origem a este livro se iniciaram na nossa infância, num tempo em que nos sentíamos defendidos de todas as contrariedades por um amor e uma proteção incondicionais.

É um velho costume dos mamíferos, nem sempre fácil, sobretudo na sociedade moderna, onde abundam os perigos, alguns sem precedentes.

O livro propriamente dito começou na década de 80, quando a rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética estava a gerar uma cisão potencialmente fatídica, com 60 0 armas nucleares acumuladas por razões de dissuasão, coação, orgulho e temor. Cada uma das duas nações autoelogiava-se e desabonava a outra, descrevendo por vezes os seus naturais como seres infrahumanos. Os Estados Unidos gastaram 10 biliões de dólares na guerra fria — o suficiente para comprar tudo o que havia no país, exceto a terra. Entretanto, as infraestruturas entravam em colapso, o ambiente deteriorava-se, o processo democrático subvertia-se, a injustiça proliferava e os Estados Unidos passavam de credor dominante a principal devedor do planeta. Constantemente nos interrogamos sobre a forma como nos metêramos nesse sarilho e como sairíamos dele.

Conseguiríamos sair dele? Assim, lançamo-nos no estudo das raízes políticas e emocionais da corrida aos armamentos nucleares — que nos levou à Segunda Guerra Mundial, cujas origens estavam, claro, na Primeira Guerra Mundial, que fora uma consequência direta da implantação do Estado-nação, que, por sua vez, remonta aos primórdios da civilização, subproduto da invenção da agricultura e da domesticação de animais, após um período muito longo durante o qual nós, seres humanos, fomos caçadores-coletores.

Não houve qualquer corte abrupto neste processo, um ponto do qual pudéssemos dizer: "É aqui que residem as causas dos nossos problemas."

Sem darmos por isso, estávamos a olhar para os primeiros homens e seus antecessores. Concluímos que os acontecimentos de épocas muito remotas, anteriores à existência dos seres humanos, são cruciais para a compreensão da armadilha em que a nossa espécie parece ter-se lançado.

Decidimos olhar para dentro de nós, reconstituir o maior número possível de voltas e reviravoltas da evolução da nossa espécie. Fizemos ambos um pato, o de não desistirmos fosse qual fosse o ponto a que as pesquisas nos levassem. Ao longo dos anos aprendêramos muito um com o outro, mas as nossas opiniões nem sempre coincidiam. Por outro lado, havia a possibilidade de um de nós (ou os dois) ter de abdicar de algumas das suas mais profundas convicções. Contudo, se tivéssemos êxito, ainda que parcialmente, talvez fôssemos capazes de compreender muito mais do que os nacionalismos, a corrida aos armamentos nucleares e a guerra fria.

Quando terminamos o livro, já não havia guerra fria, mas, de certa forma, continuamos a viver em insegurança. Perigos novos acercam-se lenta mente da ribalta, enquanto outros, nossos velhos conhecidos, despertam do seu sono temporário. Confrontamo-nos com um recrudescimento terrível da violência étnica, com o reaparecimento dos nacionalismos, com dirigentes ineptos, educação deficiente, famílias desequilibradas, degradação ambiental, extinção de espécies, população em crescimento explosivo, cada vez mais milhões sem nada a perder. A necessidade de entendermos como chegamos a esta situação embaraçosa e como podemos sair dela parece-nos agora mais urgente do que nunca.

Este livro refere-se ao passado remoto, aos passos mais importantes na formação das nossas origens. Posteriormente teceremos as linhas aqui traçadas. As nossas pesquisas conduziram-nos aos escritos dos que nos precederam, a eras longínquas e a outros mundos, através de uma grande diversidade de disciplinas. Tentamos não esquecer o aforismo do físico Niels Bohr: "A clareza sobre a vastidão." No entanto, a vastidão requerida pode ser ligeiramente desencorajadora. Os homens ergueram muros muito altos entre os ramos do conhecimento essenciais ao nosso trabalho — as várias ciências, a política, as religiões, a ética. Para vencermos os obstáculos procuramos fendas nos muros, tentamos saltá-los ou cavar e passar por baixo deles. Sentimo-nos na obrigação de pedir desculpa pelas nossas limitações, pelas insuficiências do nosso saber e discernimento, mesmo cientes de que as nossas pesquisas não têm qualquer possibilidade de êxito quando não existem brechas nos muros. E esperamos que aquilo em que fracassamos possa servir de inspiração (ou de provocação) a outros que venham um dia a fazer melhor.

O que nos propomos dizer baseia-se nos conhecimentos que adquirimos em muitos domínios da ciência e que o leitor deve desde já ficar a saber serem imperfeitos e limitados. A ciência nunca está concluída, está cada vez mais próxima da compreensão total e rigorosa da Natureza, mas nunca chega a alcançá-la. O fato de tantas descobertas importantes terem sido feitas nos últimos cem anos, até mesmo na última década, mostra-nos que ainda há muito a fazer. No panorama da ciência são constantes os debates, as correções, os aperfeiçoamentos, os retrocessos penosos e as descobertas revolucionárias. Apesar de tudo, aparentemente, sabe-se hoje o suficiente para reconstituir os passos principais do processo evolutivo de que somos o produto final. Na nossa jornada encontramos muitos que, com toda a generosidade, nos encorajaram, nos deram o seu tempo e nos facultaram a sua sabedoria e os seus conhecimentos e muitos outros que, cuidadosa e criticamente, leram o manuscrito total ou parcialmente. Dessa preciosa ajuda resultou a eliminação de muitas deficiências e a correção de erros de detalhe ou interpretação. Agradecemos especialmente a Diane Ackerman; Christopher Chyba, do Ames Researeh Center, da NASA; Jonathan Cott; James F. Crow, do Departamento de Genética da Universidade do Wisconsin; Richard Dawkins, do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford; Irven de Vore, do Departamento de Antropologia da Universidade de Harvard; Frans B. M. de Waal, do Departamento de Psicologia da Universidade de Emory e do Centro de Pesquisa de Primatas de Yerkes; James M. Dabbs Jr., do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual da Georgia; Stephen Emlen, do Departamento de Neurobiologia e Ciências do Comportamento da Universidade de Cornell; Morris Goodman, do Departamento de Anatomia e biologia Celular da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Wayne; Stephen Jay Gould, do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard; James L. Gould e Carol Grant Gould, do Departamento de Biologia da Universidade de Princeton; Lester Grinspoon, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Harvard; Howard E. Gruber, do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Columbia; Jon Lomberg; Nancy Palmer, do Shorenstein Barone Center on the Press and Politics da Kennedy Sehool of Government da Universidade de Harvard; Lynda Obst; William Provine, dos Departamentos de Genética e História da Ciência da Universidade de Cornell; Duane M. Rumbaugh e E. Sue Savage-Rumbaugh, do Centro de Estudos Linguísticos da Universidade Estadual da Georgia; Dorion, Jeremy e Nicholas Sagan; J. William Schopf, do Centro de Estudos da Evolução e da Origem da Vida da Universidade da Califórnia, Los Angeles; Morty Sills; Steven Soter, da Smithsonian Institution; Jeremy Stone, da Federação de Cientistas Americanos; Paul West. Muitos cientistas enviaram-nos amavelmente exemplares das suas obras no prelo. Carl Sagan agradece ainda aos seus primeiros professores de ciência, H. J. Muller, Sewall Wright e Joshua Lederberg. Nenhuma destas pessoas é responsável por quaisquer erros ou imperfeições que tenham subsistido neste livro.

Estamos também profundamente gratos àqueles que nos auxiliaram na realização deste trabalho ao longo dos seus sucessivos rascunhos. Pela perfeição na pesquisa bibliográfica, transcrições, registro de documentos e muitas coisas mais, estamos muito especialmente gratos a Karenn Gobrecht, assistente de Ann Druyan, e a Eleanor York, assistente de longa data de Carl Sagan na Universidade de Cornell. Agradecemos também a Nancy Birn Struckman, Dolores Higareda, Michelle Lane, Loren Nooney, Graham Parks, Deborah Pearlstein e John P. Wolff. O excelente sistema da biblioteca da Universidade de Cornell constituiu um recurso decisivo para a redação deste livro, que não poderia ter sido escrito sem a ajuda de Maria Farge, Julia Ford Diamons, Lisbeth Collacchi, Mamie Jones e Leona Cummings.

Estamos em dívida com Scott Meredith e Jack Scovil, da agência literária

Scott Meredith, pelo encorajamento e pelo apoio ilimitados.

Muito nos apraz que este livro se tenha tornado uma realidade sob a ação de

Ann Godoff, nossa revisora; também agradecemos a Harry Evans, Joni Evans, Nancy Inglis, Jim Lambert, Carol Schneider e Sam Vaughtan, da Random House.

Walter Andersen, diretor da revista Pnrade, possibilitou-nos apresentar as nossas ideias a um público o mais vasto possível. Foi, sem dúvida, um grande prazer trabalhar com ele, bem como com o chefe de redação David Currier.

Este livro dirige-se a um grande e variado leque de leitores. Para tornarmos as coisas mais claras para todos realçamos determinadas questões mais do que uma vez ou em diferentes contextos, ainda que nos tenhamos esforçado por referir sempre particularidades e excepções. Por vezes, o pronome nós designa os autores do livro, mas, por norma, refere-se à espécie humana; o contexto darlhe-á a acepção correta. Para aqueles que desejem aprofundar algumas questões, inserimos no final do livro uma lista de referências bibliográficas, obras técnicas ou de divulgação, assinaladas no texto com expoentes numéricos. Também no final o leitor poderá encontrar um conjunto de comentários adicionais, notas e esclarecimentos.

Embora as duas obras pouco tenham em comum, o título do livro foi-nos sugerido por um filme perturbador de Seguei Parajanov, realizado em 1964.

Finalmente, convém referir que o fato de nos termos tornado pais de

Alexandra Rachel e Samuel Democritus — adorados homônimos de antepassados inesquecíveis — durante a escrita deste livro contribuiu para que nos sentíssemos especialmente inspirados e desejosos de publicá-lo.

CARL SAGAN ANN DRUYAN Janeiro de 1992

Prólogo A ficha do órfão

A escuridão imensa e arrebatadora é quebrada aqui e ali por um débil ponto luminoso que, observado de mais perto, se revela um poderoso sol incandescente num incêndio termonuclear e aquece um pequeno volume do espaço à sua volta. O universo resume-se quase só a um vazio negro e, contudo, o número de sóis existentes é espantoso. As regiões na vizinhança imediata desses sóis representam uma fração mínima da vastidão do cosmos, mas muitas — talvez a maioria dessas alegres, brilhantes e clementes regiões circum-estelares — são, provavelmente, ocupadas por mundos. Só na galáxia da Via Láctea deve haver 100 mil milhões de mundos, nem demasiado próximos, nem demasiado distantes do sol local, à volta do qual orbitam em silenciosa homenagem gravitacional.

Esta é a história de um desses mundos, talvez não muito diferente dos outros; é sobretudo a história dos seres que nele evoluíram e, de entre esses, de uma espécie em particular.

Para estar vivo milhões de anos após a origem da vida, um ser tem de ser resistente, engenhoso e afortunado, a fim de escapar aos muitos perigos que surgem pelo caminho. As formas de vida podem, por exemplo, vingar por serem pacientes ou vorazes, solitárias e camufladas ou pródigas em descendentes, predadoras temíveis ou capazes de fugir para um lugar seguro, nadadoras ou escavadoras de tocas ágeis, desembaraçadas na libertação de líquidos nocivos e desorientadores ou mestras na arte de se infiltrarem no próprio material genético de outros seres, ou então por se encontrarem, casualmente, num local distante quando os predadores atacam, o rio fica envenenado ou os recursos alimentares escasseiam. Os seres em que estamos especialmente interessados eram, até há não muito tempo, extremamente gregários, barulhentos, belicosos, arborícolas, autoritários, sensuais e espertos, utilizavam ferramentas, tinham uma infância prolongada e mostravam afeto pelos filhos. Uma coisa levou à outra e, num abrir e fechar de olhos, os seus descendentes multiplicaram-se por todo o planeta, dizimaram os rivais, inventaram tecnologias que transformariam o mundo e representariam um perigo mortal para si próprios e para muitos dos seres com quem partilhavam a sua pequena casa. Simultaneamente, começaram a visitar os planetas e as estrelas.

Quem somos? Donde viemos? Por que somos assim, e não de outra maneira?

Que significa ser humano? Seremos capazes, em caso de necessidade, de operar mudanças fundamentais, ou as mãos sem vida dos nossos antepassados desconhecidos empurram-nos indiscriminadamente numa direção qualquer fora do nosso controle, para nossa sorte ou nossa desgraça? Poderemos alterar a nossa maneira de ser, melhorar as nossas sociedades? Poderemos deixar aos nossos filhos um mundo melhor do que aquele que nos foi legado? Poderemos libertá-los dos demônios que nos atormentam e perseguem a nossa civilização? Seremos, afinal, suficientemente sensatos para sabermos quais as mudanças a fazer? Seremos fiáveis na condução do nosso próprio futuro?

Muitos pensadores temem que os nossos problemas se tenham tornado demasiado grandes para nós e que, por razões inerentes à própria natureza humana, sejamos incapazes de resolvê-los; creem que perdemos o rumo, que as ideologias políticas e religiosas dominantes não conseguem deter uma sinistra e prolongada estagnação na resolução dos problemas da humanidade — estagnação que as mesmas ideologias, aliás, ajudaram a formar, através da rigidez, da incompetência e da inevitável corrupção do poder. Será assim e, se for, poderemos fazer alguma coisa para remediar a situação?

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