Fatores Associados ao consumo de medicamentos artigo refacs

Fatores Associados ao consumo de medicamentos artigo refacs

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1 Enfermeiro. Especialista em Saúde da Família. Mestre em Enfermagem. Doutor em Ciências da Saúde. Enfermeiro da Sociedade para o Desenvolvimento da Medicina, SP, Brasil. ORCID: 0-0002-6084-7313 E-mail: enf.gerson@hotmail.com 2 Enfermeira. Professora Livre Docente Associada do Departamento de Administração e Saúde Coletiva da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo, SP, Brasil. ORCID: 0-0001-6374-5665 E-mail: isabelcunha@unifesp.br

Fatores associados ao consumo de medicamentos entre idosos de uma unidade básica de saúde

Factors associated with the consumption of drugs among the elderly of a basic unit

Factores asociados al consumo de medicamentos entre ancianos de una unidad básica de salud

Gerson Souza Santos1 Isabel Cristina Kowal Olm Cunha2

O objetivo do estudo foi analisar o padrão de consumo de medicamentos entre idosos e fatores associados. Estudo transversal com 340 indivíduos com idade igual ou superior a 60, realizado em 2013. Os idosos que participaram deste estudo eram em sua maioria mulheres na faixa etária de 60 a 69 anos. A prevalência do uso de medicação foi de 9,7%. A polifarmácia (>5 medicamentos) ocorreu em 35,3% dos casos. As variáveis que apresentaram relação estatisticamente significativa com a quantidade de medicamentos foram o sexo, cor da pele, a situação conjugal, busca por serviços de saúde em caso de doença, prática de religião e participação em atividades de lazer. Os medicamentos utilizados pelos idosos pertenciam à classe dos anti-hipertensivos, seguidos pelos medicamentos diuréticos e antidiabéticos. A proporção de uso de medicamentos é elevada entre idosos, inclusive daqueles considerados inapropriados para idosos. Descritores: Idoso; Polimedicação; Fatores socioeconômicos.

The aim of the study was to analyze the pattern of drug consumption among the elderly and its associated factors. This was a cross-sectional study with 340 individuals older than 60 year of age, held in 2013. The elderly in this study were mostly women aged, 60-69 years. The prevalence of medication use was 9.7%. Combined drug use (>5 drugs) occurred in 35.3% of cases. The variables that showed statistically significant correlations with the amount of drugs were gender, skin color, marital status, the search for health services in case of illness, the practice of religion and the participation in leisure activities. The drugs used by the elderly belong to the anti-hypertensive category, followed by diuretic and anti-diabetic medicines. The proportion of drug use is high among the elderly, including drugs which are deemed inappropriate for this age group. Descriptors: Aged; Polypharmacy; Socioeconomic factors.

Descriptores: Anciano; Polifarmacia; Factores socioeconómicos

El objetivo del estudio fue analizar el estándar de consumo de medicamentos entre los ancianos y los factores asociados. Estudio transversal con 340 individuos con edad igual o superior a 60 años, realizado en 2013. Los ancianos que participaron de este estudio eran en su mayoría mujeres en el grupo etario de 60 a 69 años. La prevalencia del consumo de medicamentos fue del 9,7%. La polifarmacia (> 5 medicamentos) se produjo en el 35,3% de los casos. Las variables que mostraron una relación estadísticamente significativa con la cantidad de drogas fueron el sexo, color de piel, estado civil, frecuencia a los servicios de salud en caso de enfermedad, la práctica de religión y la participación en actividades de ocio. Los fármacos utilizados por los ancianos pertenecen a la clase de los anti-hipertensivos, seguidos por los medicamentos diuréticos y los antidiabéticos. La proporción del consumo de drogas es alta entre los ancianos, incluidos los considerados no aptos para personas mayores.

Recebido: 01/06/2016 Aprovado: 10/09/2016 Publicado: 01/05/2017

192ISSN 2318-8413 http:w.seer.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/refacs REFACS(online)2017; 5(2):191-199

Santos GS, Cunha ICKO Saúde do Idoso envelhecimento da população é considerado um fenômeno mundial e se configura um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. O Brasil encontra-se nesse cenário1. Estimativas indicam que a população idosa brasileira poderá exceder 30 milhões de pessoas até 2020, chegando a representar quase 13% da população2.

A morbidade apresentada pela população idosa caracteriza-se pela preponderância de doenças crônicas e múltiplas de longa duração, exigindo acompanhamento, cuidados permanentes e exames periódicos. O idoso utiliza mais serviços de saúde, as internações hospitalares são mais frequentes do que entre adultos e o tempo de ocupação do leito é maior quando comparado a outras faixas etárias3,4.

Em razão da prevalência de múltiplas doenças em idosos, eles constituem o grupo etário mais medicado e exposto à polifarmacoterapia. A maioria dos idosos consome pelo menos um medicamento e, cerca de um terço deles, são multiusuários, consumindo cinco ou mais simultaneamente5.

A prática da polifarmácia associada às condições fisiológicas e clínicas peculiares à pessoa idosa torna o uso de medicamentos alvo de preocupação para o setor da saúde. É importante compreender os padrões de utilização de medicamentos por essa população para estabelecer caminhos para seu uso racional, visando a melhoria da qualidade de vida e da capacidade funcional dos idosos5,6.

O objetivo do presente estudo foi analisar o padrão de consumo de medicamentos entre idosos e fatores associados.

MÉTODO Estudo de corte transversal com 340 idosos de 60 anos ou mais, não institucionalizados, de ambos os sexos, capazes de se comunicarem, responsáveis pela sua medicação e residentes em áreas adscritas à Estratégia Saúde da Família (ESF) em São

Paulo, SP, de janeiro a março de 2013. A pesquisa foi realizada na Coordenadoria Sudeste – região da Vila Mariana/Jabaquara, que possuía 4930 idosos cadastrados na USF. Foi utilizada amostra por conveniência, isto é, foram incluídos, consecutivamente, todos os idosos que atenderam aos critérios de inclusão.

O estudo foi realizado na Unidade

Básica de Saúde Santa Catarina, localizada na zona sul do município de São Paulo, pertencente à Coordenadoria de Saúde Vila Mariana/Jabaquara. Esta unidade de saúde possui quatro equipes da Estratégia Saúde da Família integrada com o Núcleo de Apoio à Equipe de Saúde da Família (NASF), além das especialidades médicas: clínica geral, ginecologia, pediatra, psiquiatra, cobrindo território de aproximadamente vinte e cinco mil pessoas. Os dados foram coletados por meio de questionários estruturados com questões pré-codificadas, após a realização de um estudo-piloto

Para responder ao objetivo da análise, foi proposto um modelo de Regressão Linear Múltipla, em que a variável resposta foi a quantidade de medicamentos utilizados pelos idosos, e as informações socioeconômicas, demográficas e de estilo de vida foram as variáveis preditoras. O nível de significância considerado no modelo foi de 10%, ou seja, uma variável terá um efeito considerado significativo na quantidade de medicamentos quando p-valor for menor ou igual a 0,10.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de

Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Parecer 2012/1) e da Secretaria Municipal de Saúde do município de São Paulo (Parecer 378/1).

RESULTADOS A maioria dos idosos, 211 (62,0%), era do sexo feminino. A idade variou de 60 a 85 anos, média de 69 anos, com desvio padrão de 7,25. Houve predominância da cor de pele parda, 143 (42,0%) idosos. 115 (38,8%), menos da metade, eram viúvos. A baixa escolaridade foi frequente e a amostra foi constituída predominantemente por ensino fundamental incompleto. Uma maior

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Santos GS, Cunha ICKO Saúde do Idoso proporção dos idosos, 264 (7,6%), possuía renda familiar de um a três salários mínimos. A maioria, 280 (82,0%), não possuía plano de saúde. Em caso de doença, 154 (4,4%) indivíduos procuravam os hospitais de referência. A maior parte dos idosos, 325

(96,0%), eram praticantes de religião. A maioria dos idosos tinha acesso ao lazer – 234 (69,0%). Quanto à pratica de atividade física, 273 (80,0%) idosos eram sedentários. Menos da metade deles, 152 (45,0%), eram ex-fumantes (Tabela 1).

Tabela 1. Fatores associados ao consumo de medicamentos por idosos segundo as variáveis sociodemográficas, econômicas e estilo de vida. São Paulo. 2013.

Variável N % Valor de p

Sexo Feminino Masculino 211 129 62,0 38,0 0,0

Idade (anos) 60-69 70-79 80 ou mais

Cor da pele Parda Branca Negra

Situação conjugal Viúvo Casado Solteiro Divorciado

Escolaridade Ensino fundamental incompleto Analfabeto 177 163 52,0

Renda familiar 1 a 3 salários 4 a 6 salários 264 76 7,6

Plano de saúde NÃO SIM 280 60 82,0 18,0 0,478

Polifarmácia NÃO SIM 220 120 64,7 35,3 0,075

Em caso de doença procura Hospital Farmácia Unidade Básica de Saúde

Prática religiosa SIM NÃO 325 15 96,0 04,0 <0,001

Participação em atividades de lazer NÃO SIM 234 106 69,0 31,0 0,01

Prática de atividade física NÃO SIM 273 67 80,0 20,0 0,906

Tabagismo Fumante atual Ex-fumante Nunca fumou

Uso de bebidas alcóolicas SIM NÃO 89 251 26,0 74,0 0,375

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Os idosos participantes deste estudo utilizavam em média 4,29 medicamentos, sendo no mínimo zero e no máximo 9, com um desvio padrão de 1,47. Metade dos idosos, 170 (50,0%), utilizavam entre 4 e 5 medicamentos, e a maioria deles, 293 (86,0%), utilizavam entre 3 e 6 medicamentos.

Após a seleção de variáveis, obteve-se um modelo significativo (p-valor<0,0001) e de R2 igual a 89%. Todas as suposições de normalidade, homocedasticidade e independência dos resíduos foram satisfeitas, validando assim o modelo ajustado.

As variáveis que apresentaram relação estatisticamente significativa (10% de significância) com a quantidade de medicamentos foram sexo, cor da pele, situação conjugal, busca por serviços de saúde em caso de doença, prática de religião e participação em atividades de lazer.

O sexo feminino apresentou uma relação estatisticamente significativa com a quantidade de medicamentos (p-valor=0,0), tendo um parâmetro estimado positivo, indicando que as mulheres tendem a tomar mais remédios que os homens, assim como idosos de raça negra (p-valor=0,02), que também tiveram parâmetro estimado positivo.

Em caso de doença, observou-se uma relação estatisticamente significativa daqueles que procuravam hospital (pvalor=0,0) ou uma Unidade Básica de Saúde (p-valor=0,01). Ambos os parâmetros estimados são positivos, ou seja, idosos que procuram um hospital ou uma Unidade Básica de Saúde tendem a tomar mais remédios que os que procuram a farmácia do bairro. Procurar um hospital em caso de doença é a segunda variável mais forte do modelo, sendo esta a segunda variável com relação estatisticamente significativa mais forte, perdendo somente para a religião.

Tabela 2. Analise bivariada das variáveis que apresentaram relação estatisticamente significativa com a quantidade de medicamentos. São Paulo, 2013.

Variáveis N Média (IC 95%) (IC 95%)

Sexo Feminino Masculino 211 129 4.39 4.13 4.19 3.87 4.58 4.40

Cor da pele Parda Branca Negra

Situação conjugal Viúvo Casado Solteiro Divorciado

Em caso de doença procura Hospital Farmácia Unidade Básica de Saúde

Prática religiosa SIM NÃO 325 15 4.3 3.4 2.6 4.2 4.2 4.5

Participação em atividades de lazer NÃO SIM 234 106 4.36 4.26 4.1 4.06 4.61 4.46

Praticar religião foi a variável estatisticamente significativa mais forte do modelo, com parâmetro estimado de 3,13 e p-valor menor que 0,0001. Ao analisar a quantidade média de medicamentos entre os que praticavam ou não a religião (Tabela 3), observou-se que a diferença está entre as maiores dentre todas as variáveis, sendo que

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Santos GS, Cunha ICKO Saúde do Idoso os que não possuem religião utilizavam em média 3,4 medicamentos e os que possuem utilizavam em média 4,3 medicamentos (27% a mais).

Os medicamentos utilizados pelos idosos pertenciam à classe dos antihipertensivos, seguidos pelos medicamentos diuréticos e antidiabéticos (Tabela 4).

Tabela 3. Modelo de regressão linear múltipla associada ao consumo de medicamentos em idosos. São Paulo, 2013.

Variável Parâmetro estimado Erro padrão

Estatística t p-valor

Cor da pele

Situação conjugal

Em casado de doença

Prática religiosa

Participação em atividades de lazer

Tabela 4. Medicamentos utilizados por idosos segundo classe terapêutica. São Paulo, 2013. Classe n %

DISCUSSÃO A elevada prevalência do uso de medicamentos entre os idosos (9,7%) é concordante com a literatura e encontra-se dentro da média esperada, com valores superiores aos obtidos em Campinas, SP (80,4%)4 e Belo Horizonte, MG (86,2%)7.

Sexo, idade e acesso a serviços de saúde são apontados como fatores preditores para o uso de medicamentos entre idosos8,9. Nesta pesquisa, mulheres tenderam a usar mais medicamentos com diferenças estatisticamente significante entre os sexos. Geralmente as mulheres procuram mais os serviços de saúde e relatam melhor suas doenças4; dessa forma são mais propensas à utilização de medicamentos.

Neste estudo, os idosos de cor da pele parda tendiam a usar mais medicamentos. Embora sejam escassos estudos que associem cor da pele com o uso de medicamentos, outras pesquisas10,1 apontam a tendência de hipertensão em afrodescendentes (negros e pardos), com tendência maior ao consumo de medicamentos.

A situação conjugal dos idosos investigados aponta um alto percentual de idosos sem cônjuge, considerando os solteiros, viúvos e divorciados, com destaque para o sexo feminino. Esse alto índice coincide com os dados da população idosa da

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Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)12 realizada em 2011, a qual revelou que aproximadamente 9,1 milhões de idosos viviam sem cônjuge.

A escolaridade dos idosos deste estudo foi baixa, constituindo uma condição social desfavorável para eles, já que tem influência no acesso aos serviços de saúde, em oportunidades de participação social e na compreensão de seu tratamento e do seu autocuidado, entre outros. Embora tenha-se avançado nos níveis de escolaridade no período de 2000 a 2010, nessa faixa etária no Brasil, a região nordeste ainda apresenta maior taxa de analfabetismo em idosos13.

Aliadas à baixa escolaridade observaram-se desvantagens socioeconômicas. Apesar das limitações deste estudo no que se refere à generalização dos resultados, outros estudos apontam idosos em condições semelhantes. Em um estudo realizado em Belém (PA), 74,1% dos idosos da amostra tinham condições financeiras semelhantes às realidades deste estudo14. Em Goiânia, GO, 71,2% dos idosos tinham como renda mensal dois salários mínimos15.

Neste estudo foram observadas desvantagens socioeconômicas dos idosos com renda familiar de 1 a 3 salários mínimos 264 (7,6%). A renda familiar representa um fator determinante na situação de saúde do idoso. Possivelmente, nesta fase da vida, existe uma necessidade maior de medicamentos, alimentação diferenciada e outros custos que o processo de limitação física acarreta.

Além disso, devido às diversas mudanças ocorridas nos arranjos familiares nos últimos tempos, o idoso pode se deparar com uma realidade na qual se vê obrigado a amparar familiares desempregados ou doentes. Nesse contexto, cresce o número de estudos que mostram a relevância da figura do idoso aposentado e que o apontam como provedor da família16,17.

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