Economia da Informação, do Conhecimento e do Aprendizado

Economia da Informação, do Conhecimento e do Aprendizado

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Capítulo 1

Economia da Informação, do Conhecimento e do Aprendizado

Helena Maria Martins Lastres e João Carlos Ferraz

1 Economistas em tempos incertos

A virada do milênio está se revelando um período de intensas mudanças. Inovações de todos os tipos estão sendo geradas e difundidas, cada vez mais velozmente, por todas as atividades econômicas, em grande parte dos países do planeta. Novos produtos, processos e insumos: as tecnologias de informação aí estão. Novos mercados: segmentos que surgem respondendo ao lançamento de novos produtos ou espaços regionais que se abrem ao exterior. Novas formas de organização: produção just-in-time, empresas organizadas em redes, comércio eletrônico etc. São igualmente importantes as mudanças que redefinem os sistemas existentes de incentivo e regulação públicos nacionais. Intensa taxa de mudança técnica, mercados internacionalizados e desregulados constituem oportunidades e ameaças para países, empresas, trabalhadores, consumidores e cidadãos.

Mudanças refletem a introdução de novos procedimentos e o afastamento daqueles até então dominantes. Thomas Khun nos ensinou que a ciência avança pela vitória de novos paradigmas — novas explicações e/ ou procedimentos para entender o mundo — sobre verdades estabelecidas. Podemos extrapolar essa proposição também para outras áreas. Marx explicitou, de forma muito clara, como o capitalismo e a burguesia se alimentam do novo, destruindo o velho antes que este se torne obsoleto.

Mudanças implicam resistência: os agentes econômicos estabelecidos e suas verdades tentarão sempre postergar a introdução do “novo”, ameaça talvez à sua própria existência. Mudanças induzem insegurança: o “novo”

28 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO e seus códigos de funcionamento ainda são desconhecidos, implicam aprendizado, erros, acertos. Mas mudanças também implicam expansão dos limites de conhecimento existentes: para que o “novo” ocupe seus espaços é necessário dominar uma heurística diferente, um método distinto de resolver e controlar problemas.

Para economistas, formados e em formação, esses desafios constituem uma agenda de trabalho das mais interessantes. Mas, se os objetos de observação, análise e intervenção estão atravessando processos de mudança, como ocorre no Brasil e no mundo, serão os nossos instrumentos de trabalho adequados? Tigre (1998), por exemplo, ao discutir a evolução das teorias da firma e sua capacidade de dar conta das transformações vivenciadas em diferentes períodos históricos, defende a hipótese da “existência de um hiato temporal entre a realidade econômica vivida pelas empresas e as teorias que procuram decifrá-las” (p. 67).

Partindo de uma apreciação das principais mudanças em curso, neste capítulo é feita uma tentativa de apresentar e discutir os principais conceitos que estão auxiliando uma determinada escola a construir seu edifício teórico visando explicar o mundo econômico contemporâneo. Informação, conhecimento e aprendizado são conceitos fundamentais. A discussão deste capítulo parte de dois pressupostos que, por sua vez, baseiam o argumento central deste capítulo. O primeiro pressuposto, apesar de ser dificilmente negado, muitas vezes não se encontra explícito em análises disponíveis sobre as atuais transformações: inteligência e competência humana sempre estiveram no cerne do desenvolvimento econômico em qualquer sociedade. Assim, informação e conhecimento sempre constituíram importantes pilares dos diferentes modos de produção.

O segundo pressuposto é que produção e distribuição de conhecimentos possuem especificidades não-compatíveis com os enfoques e modelos que predominam na denominada teoria econômica tradicional, de base neoclássica. Já em 1959, a economista Edith Penrose, por exemplo, notava que apesar de os economistas reconhecerem o papel dominante do conhecimento sobre os processos econômicos, denotavam também uma dificuldade imensa de tratar com tema tão escorregadio. Aliás e conforme lembrado por Foray e Lundvall (1996), as principais contribuições para o entendimento da economia da informação e do conhecimento foram produzidas por economistas heterodoxos, tais como Machlup, Simon e Richardson. No entanto, não se pode deixar de lembrar que um dos principais analistas da economia neoclássica moderna, o prêmio Nobel K. Arrow, fez uma contribuição marcante ao demonstrar os limites da teo-

ECONOMIA DA INFORMAÇÃO, DO CONHECIMENTO E DO APRENDIZADO — 29 ria econômica tradicional em tratar da produção de conhecimentos e sua distribuição no sistema econômico. Destaca-se ainda a contribuição de um outro importante economista neoclássico, Stiglitz (1985), enfatizando que o crescente papel da informação na economia representa um desafio fundamental à teoria neoclássica, exigindo-se uma nova teoria.

Partindo de tais pressupostos este capítulo possui dois argumentos centrais inter-relacionados. O primeiro relaciona-se ao reconhecimento de que as transformações vividas nas duas décadas finais do século X provocaram mudanças significativas nas formas de produção e distribuição de informações e conhecimentos, expondo ainda mais a dificuldade de enfoques teórico-conceituais (assim como os correlatos sistemas estatísticos e de indicadores tradicionais) darem conta dessa questão. Assim é que o economista italiano Giovanni Dosi (1996) inicia sua discussão sobre o que a teoria econômica tem a oferecer ao entendimento da Economia Baseada no Conhecimento, confidenciando que, quando foi convidado a apresentar tal trabalho, duas questões opostas lhe vieram à mente. Por um lado, considerou que, em certo sentido, a teoria econômica sempre tratou ou visou tratar (mesmo que implicitamente) das interdependências em sistemas intensivos em conhecimento. Por outro lado, concluiu que a grande maioria das atuais linhas teóricas ainda têm muito pouco a oferecer em termos do entendimento da forma particular de economia deste final de milênio, assim como da transformação de suas bases de conhecimento.

O segundo argumento é que dentre as contribuições teórico-conceituais oferecidas para auxiliar no entendimento da importância da informação e do conhecimento na economia, assim como de seu papel na nova era, consideramos as dos “economistas da inovação e do conhecimento” como as que apresentam maior riqueza e potencial. Portanto, na discussão realizada neste capítulo, será dada ênfase a tais contribuições.

A seguir são apresentados alguns dos conceitos que julgamos contribuir mais amplamente para o entendimento das características das mudanças em curso, a partir da visão dos economistas não-ortodoxos. A apreciação do que se denomina “paradigma tecno-econômico das tecnologias de informação” permitirá não só estabelecer a radicalidade dessas transformações como, e principalmente, será possível destacar seus elementos constituintes básicos, que serão objeto de discussão na terceira seção: informação, conhecimento e aprendizado, como fenômenos relevantes e conceitos fundamentais para o entendimento adequado desta realidade econômica em transformação.

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2 Informação e conhecimento na economia

2.1 O que argumentam os economistas não-ortodoxos?

Informação e conhecimento sempre tiveram sua importância reconhecida nas análises econômicas mais cuidadosas. Além das referências feitas, até já tradicionalmente, aos pioneiros trabalhos dos economistas citados anteriormente (Machlup, Simon e Richardson) e ainda Porat, Boulding e Lamberton, aponta-se para o resgate das contribuições de autores como Adam Smith, Friedrick List, Joseph Schumpeter, dentre vários outros, os quais implícita ou explicitamente abordaram tais temas em suas análises.1

Conforme antecipado, um dos argumentos centrais deste capítulo é que, dentre as propostas oferecidas para compreensão do papel da informação e do conhecimento na economia, destacam-se, em particular, os modelos e análises desenvolvidos na área da “economia da inovação”, em geral associada à escola neo-schumpeteriana. Passemos então a recapitular os conceitos básicos que sustentam algumas das principais contribuições dadas por essa área quanto à discussão aqui proposta.

Em primeiro lugar, aponta-se a distinção entre informação e conhecimento, assim como a necessidade de melhor entendimento sobre características e especificidades das diferentes formas de conhecimento (tácitos e codificados), sua aquisição e transferibilidade. Destaca-se inclusive que a economia da inovação surgiu exatamente defendendo teses opostas ao mainstream da teoria econômica (a teoria neoclássica), que (a) considerava a tecnologia como fator externo e tendia a tomá-la como mercadoria, a qual podia ser vendida, transferida etc.; e que (b) geralmente tomava como sinônimo informação e conhecimento. Informação e conhecimento estão correlacionados mas não são sinônimos. Também é necessário distinguir dois tipos de conhecimentos: os conhecimentos codificáveis — que, transformados em informações, podem ser reproduzidos, estocados, transferidos, adquiridos, comercializados etc. — e os conhecimentos tácitos. Para estes a transformação em sinais ou códigos é extremamente difícil já que sua natureza está associada a processos de aprendizado, totalmente dependentes de contextos e formas de interação sociais específicas.

1. O resgate de contribuições sobre o papel da informação e conhecimento na economia mostra-se extremamente valioso e oportuno. No entanto, não há espaço aqui para reproduzi-lo. Os interessados poderão encontrar referências em Monk (1989); Foray e Lundvall (1996); Dosi (1996); Petit (1998) e Albuquerque (1998).

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Em segundo lugar, é necessário destacar o sentido econômico dos conceitos “informação” e “conhecimento”. Ao contrário dos economistas ortodoxos, a escola neo-schumpeteriana aponta a importância de esforços explícitos para a geração de novos conhecimentos como também para sua introdução e difusão no sistema produtivo. Este é o processo que conduz ao surgimento de inovações, considerado fator-chave para o processo de desenvolvimento. Esses conceitos e visão deram corpo e poder explanatório a argumentos sobre a existência de uma complexa e dinâmica interação entre diferentes fontes de inovação, assim como lançaram nova luz sobre a dinâmica da geração, aquisição e difusão de inovações (tanto tecnológicas, quanto organizacionais).2

Definidas de maneira simples e direta, inovações tecnológicas referem-se à utilização do conhecimento sobre novas formas de produzir e comercializar bens e serviços. Inovações organizacionais referem-se à introdução de novos meios de organizar empresas, fornecedores, produção e comercialização de bens e serviços. Tais inovações são vistas como complementares. Além de atribuir ao processo de geração e difusão de conhecimentos a função de motor do desenvolvimento econômico, grande parte dos economistas que estudam a temática associam transformações econômicas àquelas políticas e sociais. Isto se justifica pelo fato de que, dentro desta linha do pensamento, considera-se o processo de desenvolvimento como produto das orientações e interações do ambiente histórico, político, social e econômico.

Ancorados nesses conceitos, os analistas identificados com a corrente neo-schumpeteriana vêm oferecendo contribuições importantes, desde o início dos anos 1980, para o entendimento do papel central que ocupam as inovações e suas bases de conhecimento na nova ordem mundial em conformação. Tal argumento é reforçado pela extensa contribuição de autores dessa linha de pensamento para a discussão e entendimento das características deste novo padrão mundial tanto em trabalhos independentes ou ligados a instituições de ensino e pesquisa, quanto em fóruns e instituições governamentais nacionais e internacionais.3 É importante também salientar o uso de algumas das contribuições teórico-conceituais de economistas da inovação por autores de outras áreas, tais como sociologia, ciência política, história, geografia e engenharia.

2. Para um resumo das principais conclusões de tais contribuições, ver, dentre vários outros, Lastres (1994). 3. Vários exemplos podem ser encontrados na lista de referências bibliográficas deste capítulo, ver principalmente Perez, Freeman, Lundvall, Soete, Dosi, Cassiolato, Tigre e Lastres.

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Deve ser chamada a atenção para um conceito em particular, que se tornou elucidativo para o entendimento das transformações estruturais enfrentadas periodicamente pelas sociedades. Como resultado dos esforços objetivando explicar as diferentes dinâmicas e padrões de geração, uso e difusão de tecnologias e outras inovações associadas, foi desenvolvido o conceito de Paradigma Tecno-Econômico — PTE (Dosi, 1982; Freeman, 1982; Perez, 1983). Este é o arcabouço conceitual que caracteriza o que se convencionou chamar de paradigma tecno-econômico das tecnologias da informação, seguido, na década seguinte, pelo desenvolvimento de teorias associadas à economia da informação, conhecimento e aprendizado. Cabe destacar que, em tais concepções, o termo Tecnologias da Informação — TIs (do inglês: information technology) engloba várias áreas como informática, telecomunicações, comunicações, ciência da computação, engenharia de sistemas e de software. Interessante é notar que a esperada convergência dessas áreas já se encontra expressa neste termo.

O conceito de PTE indica o resultado do processo de seleção de uma série de combinações viáveis de inovações (técnicas, organizacionais e institucionais), provocando transformações que permeiam toda a economia e exercendo importante influência no comportamento da mesma. Três características definem um conjunto de inovações ou fatores-chave que se encontram no cerne de cada paradigma: amplas possibilidades de aplicação, demanda crescente e queda persistente do seu custo unitário. Cada novo paradigma tecno-econômico traz novas combinações de vantagens políticas, sociais, econômicas e técnicas, tornando-se o estilo dominante durante uma longa fase de crescimento e desenvolvimento econômico.

A mudança de paradigma inaugura uma nova era tecno-econômica, envolvendo a criação de setores e atividades; novas formas de gerar e transmitir conhecimentos e inovações; produzir e comercializar bens e serviços; definir e implementar estratégias e políticas; organizar e operar empresas e outras instituições públicas e privadas (de ensino e pesquisa, financiamento, promoção etc.). Dentre outras exigências associadas, destacam-se ainda novas capacitações institucionais e profissionais, assim como mecanismos para mensurar, regular e promover as atividades econômicas.

O impulso para o desenvolvimento de um novo PTE é considerado resultante de avanços da ciência e pressões competitivas e sociais persistentes objetivando (a) superar os limites ao crescimento dados ao padrão

ECONOMIA DA INFORMAÇÃO, DO CONHECIMENTO E DO APRENDIZADO — 3 estabelecido; e (b) inaugurar novas frentes de expansão e sustentar a lucratividade e a produtividade. A combinação de inovações associadas à máquina a vapor, à energia elétrica e às tecnologias de informação são considerados exemplos de tais profundas transformações. O Quadro 1.1 resume as principais características dos sucessivos paradigmas tecno-econômicos identificados na literatura.

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