Design e Cidadania: Análise da Programação Visual de Campanhas Governamentais

Design e Cidadania: Análise da Programação Visual de Campanhas Governamentais

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Design e Cidadania: Análise da Programação Visual da Campanha de Doação de Órgãos/20161

Tito Guillermo Ribeiro2

Moema Mesquita da Silva Braga3 Devry Fanor – Faculdades Nordeste

cartaz

Inserido no tema “Programação Visual”, o artigo aborda as relações entre design e cidadania e tem por objetivo a análise da programação visual disposta na Campanha de Doação de Órgãos do Ministério da Saúde. Investiga os elementos plásticos, estéticos e conceituais da campanha e as relações entre o layout e a proposta governamental. A partir do referencial indicado, a pesquisa volta-se para o estudo dos elementos básicos da comunicação visual envolvendo as características do bom Palavras-chave: design, cidadania, cartaz, layout, programação visual.

1. INTRODUÇÃO

mobilizam as pessoas em torno da causa

O design é uma ferramenta potente na concepção da informação voltada para o exercício da cidadania. Apesar de ser uma disciplina recente, que surgiu no contexto pós-guerra, já possui grande contribuição para os avanços sociais; o tema tem sido tratado por Cardoso (2008), Bonsiepe (2011) e Kopp (2004). Os autores discorrem sobre como é importante instaurar modos de praticar o design fora da práxis usual da profissão e como é possível o uso da comunicação visual para a divulgação de mensagens de cunho político-social a partir de uma abordagem histórica. Nesse contexto, é intuito do trabalho identificar as características do bom design e investigar a programação visual da Campanha de Doação de Órgãos do ano de 2016, além de compreender de que modo as escolhas plásticas interferem e

1 Trabalho Acadêmico apresentado a disciplina de Projeto Interdisciplinar - Programador Visual do curso de Design da Fanor Devry – Faculdades Nordeste – como nota para conclusão da referida disciplina. 2 Aluno do curso de Design Bacharelado da Devry Fanor -Faculdades Nordeste, do quinto semestre. E-mail: titoguillers@gmail.com 3 Professora Orientadora;

Verifica-se no cenário atual da saúde no Brasil a crescente demanda por doação de órgãos. Segundo dados do Ministério da Saúde, as estatísticas apontam uma evolução considerável do número de doadores.

“No primeiro semestre de 2016, o país bateu o recorde com 1.438 doadores, 7,4% a mais que no mesmo período do ano passado. O Brasil é referência mundial em transplantes. Em 2015, foram realizadas 23.6 cirurgias; 1.164 órgãos e 2.409 tecidos foram transportados.” (PORTAL BRASIL, 2016).

A tendência é que os números aumentem, por isso a implementação de ações de incentivo para sensibilizar a população sobre a necessidade de exercer a cidadania e a humanidade em meio ao caos político-econômico que vivemos. Quando deslocamos o nosso olhar para as campanhas de incentivo a doação de órgãos, nota-se a importância vital da tarefa realizada pelo programador visual na efetivação da mobilização social. Para realizar esse estudo utilizou-se princípios do design e aspectos da programação visual na construção do cartaz ideal capaz de cumprir com sua função.

O artigo pretende realizar uma breve explanação dos elementos da comunicação visual e a análise de dois cartazes da Campanha de Doação de Órgãos, para isso a metodologia utilizada foi a análise descritiva com base nos critérios de composição citados por Ambrose e Harris (2012) e nos elementos básicos da comunicação visual expostos por Dondis (2007), além dos fundamentos do design gráfico elucidados por Lupton e Philips (2008). Com o embasamento teórico especificado, o material foi escolhido para análise devido a representatividade e o apelo envolvido nos elementos textuais dos cartazes, além da variedade de formatos, que possibilitam a ampliação da divulgação. A campanha foi escolhida porque é uma prerrogativa relevante para a sociedade, e em suas entrelinhas, conduz a responsabilidade social necessária para o desenvolvimento.

O texto deste trabalho está organizado da seguinte forma: no tópico 2 é apresentada a aplicação do design em função da cidadania. No tópico 3, é apresentada a base conceitual para a compreensão do cartaz e do contexto em qual surge. No tópico 4, são apresentados os critérios e características do bom cartaz. No tópico 5 a metodologia utilizada e no sexto a análise dos cartazes da Campanha de Doação de Órgãos do Ministério da Saúde (2016). Por fim, o tópico 7 traz as considerações finais do trabalho.

2. DESIGN PARA CIDADANIA

O progresso da sociedade requer a articulação de diversos setores e áreas do conhecimento que abordem ferramentas dinâmicas e impulsionem a mobilização social para a consciência coletiva em torno do bem comum. Sabe-se que ser cidadão vai muito mais além da concepção de exercício da cidadania que contempla direitos e deveres, mas, que o indivíduo é agente de mudança quando é capaz de se sensibilizar com a causa do outro.

Assim, o design, na sua interdisciplinaridade, representa um mecanismo potente na tarefa da conscientização social, pois possibilita a partir da manipulação dos elementos básicos da comunicação visual, a construção do apelo a ações humanitárias, influenciando, portanto, a forma como nos motivamos, agimos e percebemos as coisas.

Cardoso (2008), aponta que o estado tem participação relevante na transformação da realidade social através da colaboração mútua entre design e poder público. Esta visão ganha mais força em tempos de instabilidade quando é necessário recorrer a estratégias alternativas de inovação capazes de gerar efeitos de repercussão ativos.

Dessa forma, podemos entrever que a participação do cidadão é influenciada por campanhas governamentais e consequentemente pela construção visual disposta em cartazes e peças publicitárias, como elucida Ferrari (2010, p.103), as campanhas criam redes de vínculo que “garantem ao homem um mínimo de estabilidade em relação ao pluralismo da experiência vivida, pois fazem com que um ser isolado seja inserido em um contexto coletivo, diminuindo a solidão urbana”.

Trazer para o campo do design a discussão sobre cidadania, acentua a importância do papel do designer em relação ao contexto social a qual pertence, pois, o design ressignifica a informação através de uma linguagem que “tece a trama dos hábitos, educa o olhar e informa a paisagem”; a mesma perspectiva que fomenta o dever cívico. (AUGÉ, 194, p.9).

De acordo com o dicionário Houaiss (2004), cidadania é a qualidade ou condição de cidadão, ou seja, a condição do indivíduo que pratica e exercita a cidadania, já que a vida em sociedade requer o cumprimento com os direitos e deveres. Para isso, Kruken (2009), destaca a necessidade de mudança de estilo de vida, dos hábitos e modos de viver em função da cidadania e das relações na esfera social.

Na perspectiva urbana, a cidadania é de suma importância para avanço da democratização dos direitos sociais, sendo fundamental na construção de cidades mais humanas e consequentemente, interferindo na melhoria e no desenvolvimento do ser humano enquanto ser social, de acordo com a visão de Canclini. A cidadania, portanto, agrega valores como a dignidade, a igualdade e a moralidade, fatores esses indispensáveis para uma sociedade mais justa e equilibrada.

É responsabilidade do governo realizar campanhas que abordem temáticas que tenham por objetivo o exercício da cidadania, esse estímulo ao ser cidadão se dá pelo conhecimento de que a cidadania é um meio capaz de estabelecer ordem e harmonia entre a população. A necessidade de programas que promovam a qualidade de vida é uma constante recorrente, pois requer ações de incentivo a cidadania que assegurem os direitos básicos. Nessa perspectiva, o governo trabalha campanhas com o propósito de informar, comunicar e estimular a participação social através da criação de espaços de diálogo. A instrumentalização do design em campanhas governamentais voltadas para a cidadania, de acordo com Kopp (2004), são possíveis em virtude de uma ferramenta expressiva de grande êxito criada para o desenvolvimento social:

“...o design é da mesma forma criado, definido, colocado sob controle, inserido em algum tipo de ordem, separado da atividade cotidiana, amparado por disciplinas científicas, compreendido como função importante no setor industrial e, mais adiante, elevado, principalmente em nível discursivo, à condição de ferramenta para alcançar uma sociedade mais igualitária e humana...” (KOPP, 2004, p. 40).

Aprendemos com Dougherty (2011), a potência que reside no poder de criação do designer, pois, em sua essência, o design consiste em promover mudança. Logo, se no seu poder de intervenção, o designer induz a transformação do pensamento na mudança de paradigmas, quanto mais a realidade do mundo em que vivemos. Assim como Cardoso (2008, p.253) observou: “o design tem muito para contribuir para a construção de um país e mundo melhores”. Schwartz (2009), sugere que proporcionar condições de acesso ao conhecimento é fundamental na ampliação da cidadania, daí a importância do design na mediação do processo de interação entre governo e sociedade, conforme explica Bonsiepe.

“Cabe ao designer intervir na realidade com atos projetuais, superando as dificuldades e não se contentando apenas com uma postura crítica frente à realidade e persistindo nessa posição. Afinal, projetar, introduzindo as mudanças necessárias, significar ter a predisposição de mudar a realidade sem se distanciar dela.” (BONSIEPE, 2011, p. 37)

Mudar a realidade parece ser uma tarefa complexa diante da imensidão de problemas que vemos no mundo. Sem dúvidas, são agregadas responsabilidades atípicas das funções usuais da profissão do designer, justo pelo fato de se tratar de uma área interdisciplinar. Diante de tamanha abrangência é preciso ter uma visão ampla do campo de atuação: o designer precisa desenvolver habilidades específicas em virtude da complexidade de sua profissão, sendo a principal, as habilidades conceituais. Segundo Katz (1955), as habilidades conceituais referem-se a um conjunto de competências humanas no que toca a habilidade da concepção de ideias e alternativas viáveis. Essa categoria de habilidade inclui a reflexão criativa, a capacidade de abstração, o estudo de situações marcadas pela complexidade e a resolução de problemas de diversas naturezas.

De acordo com Samara (2010), o design é uma disciplina interdisciplinar que envolve diversas habilidades e áreas do conhecimento. Em face dessa complexidade e pluralidade que envolve o design, surgem diversas abordagens teóricas-metodológicas que envolvem teoria e prática, essenciais na concepção de projetos adaptados ao modelo sustentável. Estamos diante de uma ferramenta de alta voltagem política, econômica e social, onde através dela poderíamos alcançar resultados e alçar voos bem maiores capazes de transformar a realidade.

Para Pignatari (2002), os designers são “forjadores das novas linguagens”. A intervenção dinâmica do design em função da cidadania é construir uma linguagem de apelo capaz de despertar a consciência social, e isso inclui propostas cuja as consequências sejam as ações humanitárias, onde os efeitos de repercussão modifiquem a moral na formação do bom convívio e dos bons hábitos, ambos em prol da coletividade, dentre outras práticas conectadas ao princípio da cidadania.

3. O CARTAZ

Conforme a definição do dicionário Houaiss (2004), cartaz é um “anúncio ou aviso, afixado em lugares públicos.” Esse conceito nos leva a uma compreensão de que o cartaz é um veículo de informação concebido para anunciar, noticiar, informar e divulgar. A propagação do discurso e a transmissão de uma ideia são portanto a principal função de um cartaz.

Cartaz é um suporte gráfico resultante de uma composição visual. O arranjo ou agrupamento de textos e imagens, com um destinatário específico dispostos em um layout são as características essenciais do cartaz, que por sua vez, tem a função de comunicar algo para alguém. Essa organização ou configuração dos diversos elementos em torno de um propósito definem o design de informação.

Segundo Fonseca (1995), o cartaz é um impresso composto por imagens, cores e tipografias, desse modo, o cartaz é um pôster informativo com a intenção de difundir ideias e informações sobre algo, caracterizando-se como um impresso gráfico portador de fatores culturais, políticos e sociais. Por ser uma peça gráfica, cartaz é um projeto de design como qualquer outro, e constitui importante papel na comunicação, pois detém registros sociais de ampla notoriedade e relevância tanto para a história quanto a sociedade para qual foi concebido.

Hollis (2000), elenca três utilidades para o design gráfico que se aplicam ao cartaz: identificar, informar e instruir, apresentar e promover. Onde as duas últimas funções se destacam por representar predominantemente as atribuições e funcionalidades da peça gráfica.

Os cartazes refletem a imagem da sociedade e compõem uma diversa gama de textos que dizem respeito ao cotidiano da população. São utilizados de acordo com várias situações distintas, desde informar sobre um evento, alertar a população sobre algo e ao mesmo tempo instruí-la, além de aplicar-se ao convencimento do indivíduo a adquirir um produto ou crer em uma ideia.

Com tamanha capacidade de promover produtos, serviços, filmes e outros segmentos do entretenimento, mais tarde o cartaz tornou-se um importante suporte informativo em várias áreas como por exemplo campanhas para a saúde e ações políticas governamentais. No entanto, essa condição se dá graças a um processo de comunicação intermediado, pois como afirma Rüdiger (2011, p. 8) “comunicação é um processo que estabelece uma compreensão praticamente mediada entre os homens”.

Em diferentes formatos e suportes, os cartazes têm finalidade pautada pela transmissão da informação, e em outras circunstâncias, como por exemplo na conscientização acerca dos problemas sociais que circundam a realidade. Bem mais do que sensibilizar a população, o cartaz, se aproxima da função de educar e instruir para o bem-estar coletivo, e por isso, é um excelente meio de comunicação no progresso da cidadania.

3.1 HISTÓRIA DO CARTAZ

O pôster ou cartaz surge no século XIX apoiado nas técnicas de litografia4 do húngaro Aloys Senefelder (1771-1834), servindo de base para a produção de impressos, permitindo a reprodução de imagens e informações em larga escala, consolida-se como importante mídia social existente na época. Para Hollis (2000), Jules Chéret teve papel fundamental na integração da produção artística e industrial, quando desenvolveu técnicas de impressão que aferiram ao cartaz o cunho publicitário, representando um avanço expressivo na publicidade que carecia de canais de divulgação massivos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, de acordo com Kopp (2004), os cartazes eram de baixíssima qualidade, a maioria com a temática bélica resultante das agitações políticas da 1ª Guerra, com conteúdo e imagens que exaltavam o nacionalismo e estimulavam o patriotismo, afirmando seu caráter persuasivo. Aliado aos movimentos artísticos emergentes no início do século X. Surge o cartaz moderno, primeiramente, na função de pôster com valor meramente estético e decorativo. Contudo, segundo Bergströn (2009), a partir da Segunda Guerra mundial e a ascensão do consumismo, o anúncio ou cartaz assume a finalidade de pôster comercial, tanto para fins mercadológicos, quanto para difusão da informação.

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