Frans de Waal - Eu Primata

Frans de Waal - Eu Primata

(Parte 1 de 5)

Agradecimentos 9
1. Famíliaantropóide 1
2. Poder—SanguedeMaquiavel 57
3. Sexo—DoutoresnoKamaSutra 110
4. Violência—Daguerraàpaz 161
5. Bondade—Corpocomsentimentosmorais 210
6.Oprimatabipolar—Embuscadoequilíbrio 265
Bibliografia 293

Agradecimentos

Este livro deve tanto a tantos primatas, humanos e não humanos, que é impossível agradecer a todos. A idéia central nasceu de uma conversa com Doug Abrams. Na época eu estava pensando em aplicar os conhecimentos sobre os primatas que acumulara ao longo da vida ao estudo do comportamento humano, e Doug achava que os bonobos mereciam muito mais atenção do que tinham recebido até então. As duas idéias combinadas resultaram em um livro que compara diretamente o comportamento de humanos, chimpanzés e bonobos. Muito mais do que meus livros anteriores, Eu, primata examina o lugar da nossa espécie na natureza.

No esforço para escrever em um estilo acessível, contei com a avaliação e os comentários de meu editor na Riverhead, Jake Morrissey, e de Doug Abrams, Wendy Carlton e minha esposa, Catherine Marin. Agradeço à minha agente, Michelle Tessler, por ter posto o livro em tão boas mãos.

Na fase inicial da minha carreira, na Holanda, tive o apoio de meu orientador, Jan van Hooff, e do diretor do Zoológico de

Arnhem, Anton van Hooff, irmão de Jan. Sou grato a Robert Goy por puxar-me para este lado do Atlântico. Nos Estados Unidos, tantos colaboradores, técnicos e estudantes trabalharam comigo que não citarei nomes, mas estou em dívida com todos eles pela ajuda em meus estudos e por abrirem novas linhas de investigação. Finalmente, agradeço a Alexandre Arribas, Marietta Dindo, Michael Hammond, Milton Harris, Ernst Mayr, Toshisada Nishida e Amy Parish por várias formas de assistência, e a Catherine pelo amor e apoio.

Podemos tirar o primata da selva, mas não a selva do primata.

Isso também se aplica a nós, primatas bípedes. Desde o tempo em que nossos ancestrais pulavam de galho em galho, a vida em pequenos grupos tem sido uma obsessão para nós. Não nos fartamos de políticos que batem no peito diante das câmeras de televisão, artistas que trocam de namorada como quem troca de roupa e reality shows para escolher quem fica e quem sai. Deveria ser fácil ridicularizar todo esse comportamento de primata, não fosse pelo fato de que nossos parentes antropóides levam a busca de poder e sexo tão a sério quanto nós.

Mas temos em comum com eles não apenas poder e sexo.

Solidariedade e empatia são igualmente importantes, porém é raro vê-las mencionadas como parte de nossa herança biológica. Somos muito mais propensos a culpar a natureza pelo que não gostamos em nós do que a dar-lhe crédito pelo que apreciamos. Ganhou fama a frase dita por Katharine Hepburn no filme Uma aventura na África: "A natureza, senhor Allnut, é o que fomos postos no mundo para superar".

Essa opinião ainda prevalece entre nós. Dos milhões de páginas escritas sobre a natureza humana ao longo dos séculos, não há outras mais desoladoras que as das três últimas décadas. Nem mais erradas. Dizem que temos genes egoístas, que a bondade humana é dissimulação e que agimos moralmente só para impressionar os outros. Mas, se as pessoas se importam unicamente com seu próprio bem, por que um bebê em seu primeiro dia de vida chora ao ouvir outro bebê chorar? É assim que começa a empatia. Não muito complexa, talvez, mas de uma coisa podemos ter certeza: um recém-nascido não se esforça para impressionar. Nascemos com impulsos que nos levam a sentir interesse pelos outros e mais tarde a nos preocupar com eles.

A antigüidade desses impulsos evidencia-se no comportamento de nossos parentes primatas. Destes, destaca-se admiravelmente o bonobo, um grande primata ainda mal conhecido e geneticamente tão semelhante a nós quanto o chimpanzé. Quando uma bonobo chamada Kuni viu um estorninho trombar com a vidraça de sua jaula no Zoológico de Twycross, na Grã-Bretanha, foi ajudá-lo. Pegou o atordoado passarinho e com delicadeza o pôs em pé. Ao ver que ele não se mexia, deu-lhe um empurrãozinho, mas ele só agitou as asas. Kuni então subiu ao topo da árvore mais alta com o estorninho, usando apenas as pernas a fim de ter as mãos livres para segurá-lo. Cuidadosamente, desdobrou-lhe as asas até abri-las bem, segurando-as entre seus dedos, após o que lançou o passarinho pelos ares, como um avião de papel, na direção dos limites de sua jaula. Mas ele não ultrapassou a barreira e aterrissou na beira do fosso. Kuni desceu da árvore e montou guarda ao lado do estorninho por muito tempo, protegendo-o de um jovem bonobo curioso. No fim do dia, a ave, recuperada, voara em segurança para a liberdade.

O modo como Kuni lidou com a ave foi diferente de qualquer coisa que ela teria feito para ajudar outro primata. Em vez de seguir algum tipo de comportamento automático, ela adaptou seu auxílio à situação específica daquele animal totalmente diferente dela própria. Provavelmente os pássaros que passavam perto de sua jaula deram-lhe uma idéia do tipo de ajuda que seria necessário. Esse tipo de empatia quase nunca é observado em animais, pois depende da capacidade de imaginar as circunstâncias do outro. Adam Smith, o pai da economia, deve ter tido em mente ações como a de Kuni, embora não executadas por um primata não humano, quando, há mais de dois séculos, nos legou a mais duradoura definição de empatia: "imaginar-se no lugar do sofredor".

Devíamos ficar felizes com a possibilidade de a empatia ser parte da nossa herança primata, mas não temos o hábito de aceitar de bom grado nossa natureza. Quando pessoas cometem genocídio, nós as chamamos de "animais". Mas, quando fazem caridade, nós as elogiamos por serem "humanas". Gostamos de considerar nosso esse segundo comportamento. Só quando uma gorila salvou um membro de nossa espécie as pessoas despertaram em massa para a possibilidade de haver humanidade em não humanos. Isso aconteceu em 16 de agosto de 1996, quando Binti Jua, uma gorila de oito anos, ajudou um menino de três que caíra de uma altura de quase seis metros dentro da jaula dos primatas no Zoológico Brookfield, em Chicago. Binti reagiu imediatamente: pegou o menino nos braços e o carregou para um lugar seguro. Sentou-se em um tronco à beira d'água com o menino no colo, afagou-o delicadamente com as costas da mão e o levou para os funcionários do zoológico que estavam à espera. Esse ato simples de solidariedade, gravado em vídeo e exibido no mundo inteiro, sensibilizou muitos corações, e Binti foi aclamada como heroína. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um grande primata não humano figurou em discursos de políticos importantes, que citaram a gorila como modelo de compaixão.

O fato de o comportamento de Binti ter causado tamanha surpresa aos humanos diz muito sobre o modo como os animais são retratados na mídia. Na verdade, Binti não fez nada inusitado, ou pelo menos nada que um grande primata não humano não fizesse por qualquer ser jovem de sua espécie. Em contraste com os atuais documentários sobre vida selvagem, que mostram principalmente animais ferozes (ou machões que lutam desarmados com eles), acho essencial indicar a real intensidade e abrangência de nossa ligação com a natureza. Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio.

Somos abençoados com dois parentes primatas que diferem entre si como o dia da noite. Um é do tipo brutamontes, ambicioso e de pavio curto. O outro é igualitarista, adepto de um estilo de vida livre, leve e solto. Todos já ouviram falar do chimpanzé, conhecido da ciência desde o século XVII. Seu comportamento hierárquico e violento inspirou a imagem dos humanos como "primatas assassinos". É nosso destino biológico, dizem certos cientistas, arrebatar o poder derrotando outros e guerreando perpetuamente. Testemunhei muito derramamento de sangue entre chimpanzés, e só posso concordar que eles têm um lado violento. Mas não devemos ignorar nosso outro parente próximo, o bonobo, descoberto só no século passado. Os bonobos são boas-praças e têm um alentado apetite sexual. De natureza pacífica, desmentem a idéia de que nossa linhagem é puramente sanguinária.

É a empatia que permite aos bonobos compreender as necessidades e desejos uns dos outros e ajudar a satisfazê-los. Quando a filha de dois anos de uma bonobo chamada Linda choramingava para a mãe fazendo beicinho, estava indicando que queria mamar.

Mas essa pequena bonobo tinha sido mantida no berçário do Zoológico de San Diego, e fora devolvida ao grupo muito tempo depois de o leite de Linda já ter secado. No entanto, a mãe entendia. Ia até o bebedouro, enchia a boca de água, sentava-se em frente à filha e franzia os lábios para que ela pudesse beber dali. Linda repetia o trajeto até o bebedouro três vezes até saciar a pequena.

Adoramos esse tipo de comportamento — o que também é um exemplo de empatia. Mas a mesma capacidade de compreender os outros possibilita feri-los deliberadamente. Tanto a simpatia como a crueldade dependem da capacidade de imaginar como nosso comportamento afeta os outros. Animais de cérebro pequeno, como os tubarões, certamente podem ferir outros, mas o fazem sem ter a menor idéia do que os outros irão sentir. Nos grandes primatas não humanos, porém, o cérebro chega a ter um terço do tamanho do nosso, ou seja, é suficientemente complexo para possibilitar a crueldade. Como meninos que atiram pedras nos patos da lagoa, os grandes primatas às vezes infligem dor para divertir-se. Em uma brincadeira, chimpanzés jovens de laboratório atraíam galinhas com migalhas para perto de uma cerca. Toda vez que as crédulas galinhas se aproximavam, os chimpanzés batiam nelas com um pau ou as espetavam com um arame afiado. Esse "jogo de Tântalo", do qual as galinhas eram estúpidas o bastante para participar (embora possamos estar certos de que para elas não se tratava de um jogo), foi inventado pelos chimpanzés para espantar o tédio. Refinaram-no a ponto de um deles só jogar a isca e o outro só bater.

Esses grandes primatas se parecem tanto conosco que receberam a designação de antropóides, palavra de origem latina que significa "com o formato do homem". Ter parentesco próximo com duas sociedades acentuadamente diferentes é muito instrutivo. O chimpanzé, brutal e sedento de poder, contrasta com o pacato e erótico bonobo; são como dr. Jekyll e mr. Hyde. Nossa natureza é um casamento incômodo dos dois. Nosso lado sombrio é dolorosamente óbvio: estimativas indicam que 160 milhões de pessoas perderam a vida em razão de guerra, genocídio e opressão política só no século x — tudo decorrente da capacidade humana para a brutalidade. Mais arrepiantes do que esses números incompreensíveis são as expressões pessoais de crueldade humana, como o medonho incidente ocorrido em 1998 em uma cidadezinha do Texas: três homens brancos ofereceram carona a um negro de 49 anos, mas, em vez de levá-lo para casa, foram para um lugar deserto, espancaram o homem, amarraram-no ao caminhão e o arrastaram por vários quilômetros pela estrada asfaltada, arrancando-lhe a cabeça e o braço direito.

Somos capazes de tamanha selvageria apesar de nossa faculdade de imaginar o que os outros sentem, ou talvez precisamente porque a possuímos. Por outro lado, quando essa mesma faculdade combina-se com uma atitude positiva, impele-nos a mandar alimentos para os famintos, fazer corajosos esforços para salvar estranhos, como nos terremotos e incêndios, chorar quando ouvimos uma história triste ou participar de um grupo de busca se desaparece o filho de um vizinho. Com um lado cruel e um lado compassivo, é como se olhássemos o mundo com a cabeça de Jano: duas faces voltadas para sentidos opostos. Isso pode nos confundir a ponto de, às vezes, simplificarmos demais nossa identidade. Ora nos consideramos a "jóia da criação", ora os únicos vilões de verdade no mundo.

Por que não aceitar que somos tanto uma coisa como outra?

Esses dois aspectos da nossa espécie correspondem aos dos nossos parentes vivos mais próximos. O chimpanzé demonstra tão bem o lado violento da natureza humana que poucos cientistas escrevem sobre qualquer outro lado. Mas também somos criaturas acentuadamente sociais, que dependem umas das outras e realmente necessitam de outros para levar uma vida sadia e feliz. Com exce- ção da morte, o confinamento em solitária é nosso castigo mais extremo. Nosso corpo e nossa mente não são estruturados para viver no isolamento. Caímos em profunda depressão na ausência de companhia humana, e nossa saúde deteriora-se. Um estudo médico recente constatou que voluntários sadios expostos a vírus de resfriado e gripe adoeciam mais facilmente se tivessem menos amigos e parentes por perto.

Essa necessidade de contato é percebida naturalmente pelas mulheres. Nos mamíferos, a criação da prole não pode ser separada da amamentação. Durante os 180 milhões de anos de evolução dos mamíferos, as fêmeas que foram sensíveis às necessidades de sua cria superaram reprodutivamente as que foram frias e distantes. Sendo descendentes de uma longa linhagem de mães que acalentaram, alimentaram, limparam, carregaram, consolaram e defenderam seus filhos, não nos deveríamos surpreender com as diferenças de gênero no campo da empatia humana. Elas se manifestam muito antes da socialização. Os primeiros sinais de empatia — chorar quando outro bebê chora — já são mais característicos nas meninas do que nos meninos quando bebês. E ao longo da vida a empatia continua a ser mais desenvolvida no sexo feminino. Isso não quer dizer que os homens não têm empatia ou que não precisam do contato com outros, mas eles procuram esse contato mais com mulheres do que com outros homens. Um relacionamento de longo prazo com uma mulher, como no casamento, é o modo mais eficaz de um homem acrescentar anos à sua vida. O outro lado dessa moeda é o autismo, um distúrbio da empatia que nos tolhe o contato com os outros e que acomete quatro vezes mais homens do que mulheres.

Os empáticos bonobos põem-se no lugar de outros com freqüência. No Centro de Pesquisa da Linguagem da Universidade do Estado da Geórgia, em Atlanta, o bonobo Kanzi foi treinado para comunicar-se com pessoas. Ele se tornou uma celebridade, conhe- ciclo por sua fabulosa compreensão do inglês falado. Percebendo que alguns de seus companheiros primatas não têm o mesmo treinamento, Kanzi às vezes assume o papel de professor. Uma ocasião, sentou-se ao lado de sua irmã mais nova, Tamuli, que teve pouquíssimo contato com a fala humana. Um pesquisador tentava fazer Tamuli atender pedidos verbais simples, mas ela, que não era treinada, não respondia. Enquanto o pesquisador se dirigia a Tamuli, Kanzi começou a representar o que estava sendo pedido. Quando foi dito a Tamuli para fazer grooming (prática social de limpar e arrumar os pêlos do corpo) em Kanzi, este pegou a mão de Tamuli e a pôs debaixo de seu queixo, um pouco acima do peito. Nessa posição, apertando-lhe a mão, Kanzi fitou Tamuli nos olhos com uma expressão que os humanos interpretaram como indagadora. Quando Kanzi repetiu a ação, a jovem fêmea levou os dedos ao peito do irmão como se quisesse atinar com o que deveria fazer.

Kanzi sabe discernir perfeitamente se os comandos se destinam a ele ou a outros. Ele não estava executando um comando dado a Tamuli, e sim tentava realmente fazê-la compreender. A sensibilidade de Kanzi ao desconhecimento da irmã e sua bondade em instruí-la sugerem um nível de empatia encontrado, pelo que sabemos, apenas em humanos e outros grandes primatas.

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