Rumos para a formação de ecólogos no Brasil

Rumos para a formação de ecólogos no Brasil

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e s t u d o s 25 R B P G, Brasília, v. 4, n. 7, p. 25-41, julho de 2007.

Rumos para a formação de ecólogos no Brasil*

Rogério Parentoni Martins1 Thomas Michael Lewinsohn2 José Alexandre Felizola Diniz-Filho3 Francisco Ângelo Coutinho4 Gustavo Alberto Bouchardet da Fonseca5 Maria Auxiliadora Drumond6

Resumo

O país avançou consideravelmente na formação de novos ecólogos, na produção científica de relevância internacional, na formulação de políticas ambientais e de uma legislação favorável ao desenvolvimento sustentável. Apesar disso, em locais onde há alta diversidade em espécies, tais como as regiões amazônicas, cerrado e semi-árido brasileiros, empreendimentos agropastoris e outras atividades econômicas e industriais de ampla escala têm resultado na redução considerável de ecossistemas e habitats naturais para muitas espécies, das quais a vasta maioria ainda não foi satisfatoriamente estudada, quando não é taxonomicamente desconhecida.

É muito importante publicar artigos de relevância e alcançar o conseqüente reconhecimento internacional, porém é de importância semelhante discutir as conseqüências do aumento da magnitude de nossos problemas ambientais e propor a adoção de procedimentos efetivos para transformar essa realidade indesejável.

As formas pelas quais isso poderia se realizar incluem o fomento em nossas pós-graduações de fóruns permanentes de discussão sobre esses problemas, a busca de alternativas realistas para sua solução em curto, médio e longo prazos, e a luta para que essas alternativas sejam explicitamente incorporadas ao rol de políticas públicas ambientais que efetivamente se concretizam.

Palavras-chave: Desenvolvimento da ecologia brasileira. Formação de ecólogos. Políticas públicas ambientais.

Abstract

The first graduate programs in Ecology started in Brazil 30 years ago, and this science in Brazil is fastly growing up since then. Many young Brazilian ecologists have graduated both in Brazil and abroad and there was a significant increase in the number of indexed paper Doutor em Ecologia pela

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Coordenador do curso de pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Presidente do Fórum Nacional de pós-graduação em Ecologia – UFMG. Avenida Antônio Carlos, 6.627 – UFMG-ICB – Departamento de Biologia Geral, Pampulha – CEP: 30123-970 – Belo Horizonte-MG – Caixa-postal: 486.

wasp@icb.ufmg.br Doutor em Ecologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Coordenador de curso de pós-graduação. Prof. Livre Docente da Unicamp. Instituto de Biologia, Departamento de Zoologia.

thomasl@unicamp.br Doutor em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Professor Titular da Universidade Federal de Goiás (UFG), Instituto de Ciências Biológicas, Departamento de Biologia

Geral. diniz@icb.ufg.br Doutor em Educação pela UFMG. Professor Adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Programa de Pós-graduação lato e stricto sensu (Prepes), Mestrado Profissional em Ensino. Livre Docente da UFMG.

mestradoprepes@pucminas.br Doutor em Wildlife and Range Sciences pela Universidade da Flórida, Estados Unidos. Professor Titular da UFMG, Instituto de Ciências Biológicas, Departamento de Zoologia.

g.fonseca@conservation.org Doutoranda em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela UFMG. Consultora em Gestão Ambiental e Políticas Públicas Ambientais. dodoradrumond@uol

com.br Agradecimentos: Ao Professor Fábio Scarano pela leitura criteriosa e pelas contribuições que ajudaram a melhorar a compreensão de certas partes do texto. Agradecemos também ao revisor anônimo que igualmente contribuiu para aperfeiçoar a compreensão do texto.

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published by Brazilian ecologist. Despite this progress, biodiversity-rich regions such as the Amazon forest, the cerrados and the semi-arid are threatened by large scale activities that cause a dramatic reduction of natural habitats and provoke ecosystem disturbances.

The importance of publishing relevant scientific papers is obvious for the advancement of Ecology in Brazil and elsewhere. Nevertheless it is also very relevant that ecologists engage in discussions about our environmental problems in order to proposal effective ways to transform this undesirable reality. A productive way to reach this goal is to stimulate ecologists to engage in national meetings to discuss the integration between scientific ecological competence and its application in real situations. The next important step should be an effective ecologist’s participation in public policies formulation and application.

Keywords: Development of Brazilian Ecology. Ecologist Training. Environmental Public Policies

Introdução

A Ecologia no Brasil desenvolveu-se significativamente em termos de formação de novos pesquisadores e de publicação de artigos em revistas internacionais de alto impacto, em apenas trinta anos após o início simultâneo, em 1976, dos quatro primeiros cursos de pós-graduação no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Esse desenvolvimento deu-se em parte devido ao grande interesse que essa ciência relativamente nova no país despertou em jovens biólogos brasileiros. Além disso, é um resultado muito positivo da implantação pela Coordenação de Aperfeiçoamente de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de políticas de desenvolvimento científico, dentre elas os estímulos à formação de jovens doutores em boas universidades dos Estados Unidos e Europa. A julgar pelo quarto lugar que a Ecologia ocupa no ranking das ciências brasileiras, que nos últimos dez anos publicaram trabalhos científicos em revistas de alto impacto (SCARANO; OLIVEIRA, 2005), esses estímulos lograram sucesso, tendo em vista até mesmo o relativamente curto período no qual esse crescimento ocorreu. Entretanto, é importante notar que, embora a produção científica esteja em periódicos considerados de boa qualidade, há ainda muito espaço para melhoria no que diz respeito à qualidade dos veículos que os ecólogos preferencialmente escolhem para divulgar os produtos de seus trabalhos. Isso pode ter diferentes causas; por exemplo, a timidez dos pesquisadores em submeter manuscritos a

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periódicos de primeira linha. Outra explicação possível é a de que os ecólogos brasileiros têm conseguido reproduzir experimentos realizados em outros países, testar previsões de hipóteses interessantes e gerar dados de alta qualidade, mas ainda vêm realizando pouca pesquisa “de ponta” no país. De toda forma, enfatizamos a importância de se produzir cada vez mais conhecimento de alto nível na Ecologia brasileira, o que deveria se refletir em um aumento gradativo do impacto das publicações brasileiras no exterior. Além disso, não obstante o incontestável sucesso na melhoria da pesquisa básica em Ecologia do Brasil, o país enfrenta ainda problemas ambientais sérios. Tais problemas ameaçam o funcionamento de seus sistemas ecológicos e a integridade da biodiversidade brasileira (SCARANO; OLIVEIRA 2005), especialmente em certos biomas, tais como o cerrado e a mata atlântica, onde ela se expressa de formas mais significativas e complexas. O país avançou consideravelmente na formação de novos ecólogos e em sua produção científica, na formulação de políticas ambientais e de uma legislação favorável ao desenvolvimento sustentável. Apesar disso, em locais de alta diversidade em espécies, tais como as regiões amazônicas, caatinga e os cerrados brasileiros, empreendimentos agropastoris e outras atividades industriais de ampla escala têm resultado na redução considerável de ecossistemas e hábitats naturais para muitas espécies, das quais a vasta maioria ainda não foi satisfatoriamente estudada, quando não é taxonomicamente desconhecida. Desse modo, continua a prevalecer um gigantesco descompasso entre as políticas de desenvolvimento econômico e as políticas públicas ambientais que deveriam privilegiar o desenvolvimento sustentável em termos da conservação de recursos naturais. Por falta de um planejamento que priorize a combinação otimizada de crescimento econômico com a conservação ambiental, ou simplesmente por não entenderem o valor que os ecossistemas naturais representam, alguns tomadores de decisão governamentais e empresariais fazem vista grossa sobre o imperativo de sustentabilidade efetiva para o desenvolvimento nacional.

Nessa perspectiva, se por um lado há motivos para comemorar o bom desenvolvimento da ciência ecológica, por outro, aumenta a responsabilidade dos Programas de Pós-graduação em Ecologia continuarem formando jovens pesquisadores cada vez mais competentes profissionalmente e competitivos em nível internacional. Porém, tendo em vista o quadro crítico referido acima, nossa responsabilidade é também a de formar cientistas conscientes de que, a par de procurar conhecer cada vez mais a natureza dos mecanismos ecológicos e evolutivos geradores de uma biodiversidade expressiva, é necessário um outro tipo de perspectiva. É muito importante publicar artigos de relevância e o conseqüente reconhecimento internacional, porém é de importância semelhante discutir as conseqüências do aumento da magnitude de nossos problemas ambientais e propor a adoção de procedimentos efetivos para transformar essa realidade indesejável.

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As formas pelas quais isso poderia se realizar incluem o fomento em nossas pós-graduações de fóruns permanentes de discussão sobre esses problemas, a busca de alternativas realistas para sua solução em curto, médio e longo prazos, e a luta para que essas alternativas sejam explicitamente incorporadas ao rol de políticas públicas ambientais que efetivamente se concretizem. No entanto, essas não são tarefas isoladas para uma ou outra pós-graduação, mas sim demandam a cooperação entre as pós-graduações brasileiras. Mais do que competir entre si os programas devem, ao contrário, fortalecer-se mutuamente; as pós-graduações mais consolidadas e bem estruturadas, auxiliando aquelas ainda incipientes, a fim de que estas superem as dificuldades para se estruturar.

Felizmente, nos últimos dez anos, conseguimos estabelecer um diálogo frutífero, embora ainda insuficiente, entre as pósgraduações em Ecologia no Brasil, por meio do Fórum Nacional de Coordenadores de Pós-Graduação em Ecologia. Hoje devidamente consolidado, o Fórum é a representação legítima do conjunto desses programas e por isso detém força política suficiente para ser ouvido e respeitado nas diversas instâncias responsáveis pelas políticas científicas e públicas relacionadas ao meio ambiente. Torna-se necessária agora uma reflexão sobre os rumos que devemos seguir e ações que devemos implementar para sermos eficientes e efetivos no alcance de nossos objetivos.

Desse modo, há uma série de ações a serem tomadas, tanto do ponto de vista acadêmico quanto do ponto de vista de práticas que levem à conservação e o manejo de nossos ecossistemas, em especial aqueles onde os impactos dos empreendimentos forem mais intensos e, portanto, necessitarem de medidas práticas mais emergenciais. Para tanto gostaríamos de discutir vários pontos relevantes ao desenvolvimento e inserção social da ecologia no Brasil. Dois tópicos, desenvolvimento científico da ecologia e ecologia na prática, são suficientemente abrangentes para conter e estimular um conjunto de reflexões importantes.

Ecologia Teórica e História Natural

A respeito do desenvolvimento científico da Ecologia, cabe refletir sobre o papel que a história natural deve ter como base para o desenvolvimento de modelos ecológicos mais realistas ou as situações que merecem investigação como estudos de caso. É fundamental reconhecer de forma clara a identidade da ecologia científica, a fim de que reconheçamos também da mesma forma quais são nossas possibilidades e os limites de nossas ações. È importante discutir

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entre nós e com nossos alunos os métodos de pesquisa em Ecologia, pois a utilização preferencial de um método qualquer pode ser inadequada em certas situações (e.g. SHRADER-FRECHETTE; McCOY, E.D. 1993). Além das questões metodológicas, fazer ciência de alto nível implica um conhecimento histórico e filosófico suficiente para que entendamos a natureza do conhecimento que estamos produzindo. Finalmente, faz-se necessário discutir se é possível e desejável a unidade da Ecologia e em quais bases seria possível esta ocorrer. Note-se que a unidade da Ecologia fará sentido na medida em que ela resultar em um aumento substancial na qualidade do conhecimento ecológico que estamos produzindo nas diversas vertentes reconhecidas como ecológicas.

Um aspecto extremamente importante para continuar o desenvolvimento científico da ecologia no Brasil diz respeito a uma formação mais sólida em teoria ecológica e em análise de dados ecológicos. Há alguns anos, o comitê de Ecologia e Meio Ambiente da Capes propôs que todos os Programas de Pós-graduação em Ecologia do Brasil possuíssem uma disciplina de estatística ecológica, ou análise de dados, obrigatória em suas matrizes curriculares. Além disso, a partir de 2005, o comitê passou a exigir de cursos novos e antigos que garantissem ao estudante acesso a conteúdos de História da Ecologia e Metodologia da Pesquisa e/ou Filosofia da Ciência. É difícil avaliar, em curto prazo de tempo, o impacto dessas iniciativas, mas é preciso que haja consciência por parte da comunidade acadêmica em questão da sua importância para a melhor formação científica dos ecólogos brasileiros.

É indiscutível que o Brasil, por possuir uma biodiversidade extremamente elevada, torna-se um dos países mais estratégicos para a pesquisa ecológica, principalmente porque uma boa parte dessa biodiversidade ainda é desconhecida em seus detalhes. Esses aspectos podem ser sintetizados nos chamados “limitantes Wallaceanos e Linneanos”, que designam a falta de conhecimento sobre padrões de distribuição das espécies, e mesmo de sua sistemática básica. Obviamente, além desses problemas, notam-se lacunas no conhecimento de aspectos fisiológicos, comportamentais, morfológicos e ecológicos das espécies. Esses problemas, embora existam na maior parte dos países do mundo, tomam proporções assustadoras nas regiões tropicais, dada sua elevadíssima biodiversidade. Assim, esta diversidade elevada e tão pouco conhecida deve ser um estímulo e desafio permanentes à pesquisa em Ecologia no Brasil.

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