dissertação de mestrado Fatima

dissertação de mestrado Fatima

(Parte 1 de 7)

Campo Grande/MS 2000

A Psicopedagogia na Escola: Uma "nova roupagem" para antigas questões

Burlamaqui, Fátima Regina Rodrigues da relação Psicologia e Educação?/ Fátima Regina Rodrigues Burlamaqui. Campo Grande, MS: (s/n) 2000

Orientador: Sônia da Cunha Urt.
Dissertação (Mestrado) _ Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

1. Psicologia. 2. Educação. 3. Psicopedagogia

_ Profa. Dra. Sônia da Cunha Urt

_ Profa. Dra. Alexandra Ayach Anache

_ Profa. Dra Inara Barbosa Leão.

Dissertação apresentada como exigência final para a obtenção do grau de Mestre em Educação à Comissão Julgadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul sob a orientação da Professora Dra. Sônia da Cunha Urt.

Campo Grande 2000

Dedico este trabalho ao meu marido e companheiro Paulo, que, embora não seja da área, se propôs, solidariamente, a transitar pelos caminhos da Psicologia e da Educação na tentativa de compartilhar as minhas reflexões e anseios. E aos meus pais que sempre souberam valorizar a minha educação e nela investir.

À professora Sônia Urt que, objetivamente e com dedicação, me guiou nas leituras e discussões de meu trabalho, apontando com clareza as minhas dificuldades e reforçando meus esforços.

Por conter as minhas irritações, quando das primeiras crises na realização deste trabalho.

À professora Inara Barbosa Leão que, com rigor e paciência, apontou meus erros parágrafo por parágrafo, com exigência ácida mas coerente.

À professora Marília Gouvêa Miranda que, com polidez e simplicidade, detectou as minhas limitações, abordando-as gentilmente.

Ao meu marido Paulo que, além de assessor para assuntos de informática, colaborou com paciência quando da correção ortográfica deste trabalho.

E agradeço ao meu filho Luís Emanuel e peço desculpas pelas horas que lhe roubei para a conclusão desta pesquisa.

Meus agradecimentos

Esta pesquisa buscou analisar os fundamentos teórico-metodológicos da Psicopedagogia com o objetivo de desvelar os seus pressupostos, levantando a questão do retorno ao psicologismo na educação. Os procedimentos metodológicos utilizados foram as análises das publicações da Associação de Psicopedagogia: Revista Boletim e a Revista Brasileira de Psicopedagogia. As referidas análises não se caracterizam do ponto de vista da qualidade das publicações; trata-se de uma avaliação de abordagens e direcionamentos teóricos das produções. Os anos de 1984 a 1994 compreendem o período definido para a análise, considerando que, naquele momento, dava-se a implantação e estruturação da associação da categoria dos psicopedagogos, cujos encontros e seminários refletiam a consolidação da identidade e delimitação profissional da referida área. Os resultados revelados através das análises dos artigos indicam uma “retomada” com maior ênfase, das antigas relações entre a Psicologia e a Educação, revigorando a psicologização dos processos educacionais. A abordagem Psicológica é a que se faz mais presente nessas publicações, e numa vertente quase que determinantemente clínica. Acredita-se que a Psicologia não tenha se ausentado da escola e mesmo do imaginário dos educadores, quando se percebe que eles permanecem solicitando o aval da Psicologia para as explicações das dificuldades educativas. As relações entre a Psicologia e a Educação são possíveis, todavia têm sido baseadas nas vertentes patologizantes que parecem ser as mesmas configurações dadas pela Psicopedagogia, que continua tendo como suporte explicações fragmentadas, individualizantes e abstratas para a compreensão do homem. Esta relação entre a Psicologia e a Educação já se mostrou equivocada. Uma Psicologia calcada numa perspectiva de homem concreto, inserido social e culturalmente, encontrará um espaço importante e efetivo na Educação.

Palavras-chaves: Psicologia Educação Psicopedagogia

important space in Education

This research tried to analyze the theoretic methodology basis of Psychopedagogy in order to uncover its purposes, raising the question about the come back of psychologism in education. The methodological procedures applied were the analysis of publications of the Associação de Psicopedagogia (Psychopedagogy Association): the Boletim (Bulletin) and Revista Brasileira de Psicopedagogia (Brazilian Magazine of Psychopedagogy). The present analysis was not concerned with the quality of the referred publications, but with their approach and theoretical tendencies. The years running from 1984 up to 1994, were the ones defined for analysis considering that at that time the association of psychopedagogues was being structured and defined and their encounters and seminars reflected the consolidation of the identity and professional delimitation of the area. .+The results from these analysis indicate the recovering of the former relationship between Psychology and Education, gathering a new strength to the use of psychology in educational procedures. The psychological approach is the emphasis of these publications. One believes that Psychology has not been excluded from school and from the imaginary of educators when you notice that they remain demanding for Psychological evaluation when explaining educational difficulties. The relationship between Psychology and Education is possible, but not based on the pathological versants that seem to be the configurations assumed by Psychopedagogy who keeps on relating itself to fragmented, individually centered and abstract explanations for human comprehension. This relationship between Psychology and Education is equivocal. Psychology based on a concrete human being perspective, socially and culturally inserted, will have more chances in finding an

Keywords: Psychology Education Psychopedagogy

INTRODUÇÃO1
CAPÍTULO I9
A PSICOPEDAGOGIA EM QUESTÃO9
1. AS RELAÇÕES ENTRE A PSICOLOGIA E A EDUCAÇÃO9
2. ASPECTOS DA HISTÓRIA DA PSICOPEDAGOGIA E O SEU OBJETO25
3. O OBJETO DA PSICOPEDAGOGIA30
4. JORGE VISCA _ REFERÊNCIA PARA A PSICOPEDAGOGIA NO BRASIL32
5. O DESVELAR DA PSICOPEDAGOGIA35
CAPÍTULO I40
A PRESENÇA DA PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL NA PSICOPEDAGOGIA40
1. AS TESES MARXISTAS E A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO MODELO DE HOMEM40
CRÍTICAS46
CONSIDERAÇÕES FINAIS60
ANEXOS64
ANEXO 165
O CÓDIGO ESTÁ LOCALIZADO LOGO APÓS A PALAVRA "TÍTULO")65
ANEXO 26
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOPEDAGOGIA (1984 E 1994)6

SUMÁRIO 2. A PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL: SUAS ORIGENS, INFLUÊNCIAS E IMPLICAÇÕES CADASTRO DOS ARTIGOS PUBLICADOS NA REVISTA "BOLETIM" E NA REVISTA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOPEDAGOGIA (1984 E 1994) ( ESSES ARTIGOS RECEBERAM UM CÓDIGO DE IDENTIFICAÇÃO QUE FOI REGISTRADO NAS ANÁLISES DO CORPO DO TRABALHO. NESTE CADASTRO, TABULAÇÃO DOS ARTIGOS PUBLICADOS NA REVISTA "BOLETIM" E NA REVISTA DA BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................... ......................... 67

Acredita-se que, para situar o contexto deste trabalho seja importante registrar um pouco de minha história de formação e profissão. Venho de uma escola psicológica de influência clínica que não possibilitou aprofundamentos teóricos nem mesmo práticos na área educacional. A realização do estágio em Psicologia Educacional, este se restringiu-se ao levantamento diagnóstico das relações interpessoais na escola e posterior intervenção, com dinâmicas de grupo em relações humanas.

Atuei, após a formação, na área educacional, mais especificamente na Educação

Especial, realizando o acompanhamento psicológico, que se resumia na prática diagnóstica, sendo posteriormente ampliado, incluindo a intervenção junto aos professores.

Essa experiência foi decisiva na opção desta área de investigação para o meu trabalho. As relações da Psicologia com a escola, nos moldes em que se apresentavam, angustiavam-me, já que percebia que os pressupostos que eram introduzidos na esfera educacional pelo psicólogo muitas vezes terminavam por apontar para uma compreensão clínica de suas problemáticas as quais, nem sempre, contribuíam para a prática do professor em sala de aula.

Nesse período, busquei um curso de especialização, intitulado Psicopedagogia em

Educação, na qual me deparei com conteúdos marcados pela orientação clínica, repetindo a tendência psicologizante verificada no curso de Psicologia, reforçados com a apresentação de casos de dificuldades de aprendizagem, na maioria das vezes tratados no âmbito dos consultórios.

Assim, considerando essa trajetória e a insatisfação com o dimensionamento das relações entre a Psicologia e a Educação que vêm se configurando nas últimas décadas, apresento, como objetivo de investigação deste trabalho, a realização de uma análise crítica referente ao movimento de "retomada" da Psicopedagogia na Educação.

Esse movimento, de influência crescente da Psicopedagogia no âmbito escolar, que ocorreu no bojo da introdução da Psicologia, de forma “inadequada”, na escola e que vem se caracterizando, mais uma vez, pelo "ressurgimento" de encaminhamentos psicologizantes na esfera educacional, constitui-se no objeto desta pesquisa.

O que se tem observado desde o início da década de 80 é a "re-entrada" das orientações "psicologizantes" no contexto da educação, tendência que vem sendo reassumida formalmente pela Psicopedagogia a partir, mais especificamente, da fundação da Associação Estadual de Psicopedagogos de São Paulo. Para a compreensão dessa tendência, deve-se considerar o contexto sócio-político da década de 80, já que neste momento da vida brasileira muitas mudanças ocorriam e o quadro de crise era grave em decorrência da crescente onda oposicionista.

Segundo Germano (1993) a busca de legitimação conduz a uma mudança no discurso e na forma do relacionamento do Estado com as classes subalternas. Tal mudança possibilita a emergência de novos problemas, temas e metas potenciais na agenda do sistema político...(223)

Novos temas e novos problemas se apresentam para a sociedade brasileira, remetendo à necessidade de novas saídas sociais, econômicas, políticas e educacionais. Assim, pode se dizer que teses como a da Psicopedagogia, entre outras, tem mais chance de se desenvolverem como propostas inovadoras.

No bojo de tais mudanças, novos encaminhamentos eram apresentados inclusive para a Educação e novamente, como aponta Duarte (1999), a prece escolanovista do "aprender a aprender" se reveste de nova e sensibiliza os corações das escolas animadas com novas saídas mágicas para os seus problemas. É neste cenário que surgem vários cursos na área da Psicopedagogia, ensaiando cantilenas que foram reprovadas na trajetória das relações entre a Psicologia e a Educação.

Vale registrar a discussão relativa ao processo de regulamentação da

Psicopedagogia como profissão. O Projeto de Lei de nº 3124/97 do deputado Barbosa Neto, do PMDB/GO, dispõe sobre a regulamentação da profissão do psicopedagogo e já foi aprovado em 03/09/97 pela Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara Federal. Atualmente o referido projeto encontra-se na Comissão de Educação, Cultura e Desporto.

Para o Conselho Federal de Psicologia a regulamentação dessa lei implica em um equívoco, pois propõe a criação de uma profissão cujos profissionais deverão ser formados em outras áreas, passando a ter duplo vínculo, ou como pedagogo ou psicólogo de formação graduada e psicopedagogo em especialização.

No âmbito do Conselho Regional de Psicologia 14º Região, este projeto de Lei também é considerado equivocado, pois pretende incentivar a "psicopatologização" do processo educacional. ( Jornal do CRP -Conselho Regional de Psicologia 14º Região, Campo Grande-MS, n. 5, Ano I, 1997,. P.7).

Ao se propor discutir a fundamentação teórica que embasa a Psicopedagogia, se faz necessário trilhar o percurso de duas de suas referências que se caracterizam como sendo seus sustentáculos: a Psicologia e a Pedagogia.

A trajetória da Psicologia como ciência, revestida do caráter filosófico e naturalista que lhe deu origem, traduziu-se em manifestações ora vinculadas às bases da experimentação, ora às bases fisiológicas e ora às bases intrínsecas da mente.

Este percurso não pode ser abordado sem que se considere seus referenciais históricos, pois tais movimentos não foram produtos abstratos desvinculados da realidade material, mas oriundos de necessidades reais de se compreender o indivíduo sob a ótica e a influência das ciências mais avançadas de cada momento da história.

Pode-se dizer que a Psicologia como ciência é originária do movimento burguês e, desse modo, traz em seu interior as preocupações que caracterizam esse período, em que o homem e seus fenômenos psíquicos (objeto da Psicologia) necessitam ser objetivados através do domínio de suas peculiaridades observáveis _ seu comportamento, que é, um fato empírico _ até mesmo para que a referida ciência pudesse ser considerada como tal.

Assim, é fundamental que o homem seja dissecado em seus aspectos fisiológicos e de conduta, no intuito de melhor compreendê-los e controlá-los. As relações de controle exercidas pela Psicologia, em suas origens, vinculam-se às necessidades de adaptação social do trabalhador e dos alunos nas escolas.

É nesse desabrochar de novos métodos, que buscam auxiliar o desenvolvimento científico, que começam a despontar, já no início do século XVI, em respostas às emergências da nova classe em ascensão, as obras de pensadores como Descartes, Bacon,

Hobbes, entre outros, que tiveram papel decisivo na trajetória inicial da Psicologia, marcando-a até os dias de hoje.

Amparando-se nos estudos de Freitas, pode-se dizer que as Ciências, ao se utilizarem dos métodos da Ciência Natural, não dão conta de responder aos fenômenos morais e humanos a partir da perspectiva física e biológica, pois a ação humana não se pode vincular ao modelo mecanicista ou naturalista do conhecimento, já que apresenta finalidades que transcendem a ordem das coisas.(1995:46)

Ferreira nomeia esse momento empirista de Psicologia Objetivista, enquanto apresenta seu contraponto através da Psicologia Subjetivista de cunho filosófico, representado por Brentano que traz uma vertente espiritualista sob influência de Bergson que se recusava a aceitar os encaminhamentos da Psicologia no nível da experiência marcadamente positivista e materialista.(1987:38,39)

Continuando nessa linha de abordagem histórica, há que se ressaltar a influência do subjetivismo na Psicologia, presente também nos dias de hoje, quando ainda se mantém, como objeto dessa ciência, o homem como ser abstrato e imutável, fruto do idealismo kantiano.

As tendências objetivistas e subjetivistas, por si só, não respondem às necessidades impostas à Psicologia hoje. Há que se considerar a presença e análise do homem em seus aspectos concretos, reais e históricos, embora se saiba que o discurso acadêmico, assim como a prática do psicólogo, na maioria dos casos, encontra-se filiada aos referenciais idealistas, distanciados da realidade concreta do indivíduo.

Assim, essa preocupação em analisar o indivíduo, sob o enfoque de sua totalidade, tem sido considerada por Ferreira (1987:41), evidente na proposta teórica de alguns autores que tentam apresentar uma perspectiva de constituição da Psicologia a partir de uma vertente fundada no materialismo histórico, que, por sua vez, procura compreender este indivíduo no interior de sua inserção social e histórica, bem como revelando a indissolubilidade da relação sujeito-objeto e suas bases biológicas materiais vinculadas ao funcionamento cerebral.

Essa Psicologia, considerada por Freitas de objetivista, aborda o indivíduo como produto do meio, onde as condições históricas não interferem. Já na Psicologia subjetivista o indivíduo é dotado de uma essência universal, anterior às condições ambientais e históricas.

Ainda fazendo referências a Freitas, vale ressaltar que os testes psicológicos serviram como fundamento na análise individual das explicações dadas pela escola ao classificar os bons e os maus alunos, reforçando a crença no mito da igualdade de oportunidades. (57)

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