Marion Zimmer Bradley - A filha da noite

Marion Zimmer Bradley - A filha da noite

(Parte 1 de 10)

A Filha da Noite Marion Zimmer Bradley

PRÓLOGO Sobre os Halflings de Atlas-Alamésios

No princípio era serpente, e mais tarde foi dito entre os homens que o clã da serpente surgiu primeiro e ajudou as mãos dos Criadores a dar forma aos homens. Seja como for, naqueles dias os que traziam o sangue da Serpente não eram conhecidos como Halflings, mas como Homens ou, também, Filhos do Macaco.

Naqueles primeiros dias, assim foi dito, no centro do Ano, quando o Sol inicia seu retorno, na Noite da Grande Escuridão, o Senhor da Serpente copulou no Grande Ritual com a Sacerdotisa da Noite. Assim foi que o sangue da Serpente (todos o diziam naqueles dias) penetrou no clã da Casa da Noite e no sangue da sacerdotisa. A primeira entre as sacerdotisas, que naqueles dias eram chamadas de Filhas da Lua e das Estrelas, passou a ser conhecida como Rainha da Noite; ou, mais tarde, como Rainha Estrela.

E desde que o clã da Serpente elevou-se às alturas do pensamento e da inteligência consciente dos homens, em sua vaidade de criação, os reis-sacerdotes da Casa do Sol produziram outros Halflings. Eles criaram a raça das focas e dos golfinhos, para descerem às profundezas dos oceanos e trazerem ostras para as mesas, pérolas para adornar a guirlanda da Rainha Estrela e a coroa dos Sacerdotes-Sol; eles também reuniam peixes para as redes dos pescadores.

Mais tarde criaram a raça dos Pássaros na esperança de que teriam servos que voariam, levando mensagens entre suas cidades; mas nisto falharam, pois a raça dos Pássaros foi tão elaborada e estruturada que suas asas não podiam suportá-los. (Os Criadores tinham decidido que, antes de mais nada, todos os Halflings deveriam ser a imagem e semelhança dos homens.) Além disso, o clã dos Pássaros era apenas parcialmente inteligente; alguns deles tinham talento suficiente para se tornarem cantores e músicos nas cortes da Rainha Estrela e dos Sacerdotes-Sol. Entretanto, a experiência não foi um sucesso, e, à época de nosso conto, poucos eram os membros da raça dos Pássaros que permaneciam em Atlas-Alamésios.

Também criaram Halflings da raça dos Cães, na esperança de terem servos da maior confiança; e nisto foram extremamente bem-sucedidos, pois os membros da raça dos Cães eram inteligentes, porém não muito, já que sua maior felicidade consistia em servir àqueles que amavam. Também criaram o clã dos Gatos; mas estes eram demasiadamente rebeldes, e fugiram para o interior, onde estavam os remanescentes do Povo-Que-Fora-Antes (dizia-se que eles foram os primeiros Criadores) e lá viveram de pilhagens. E criaram a raça dos Bois, que podiam suportar grandes fardos, e pelo seu trabalho foram construídos colossais pirâmides e templos, cujas ruínas, em meio à selva castigada por chuvas intensas, resistem até os dias de hoje.

Não se sabe por quanto tempo os homens e os Criadores viveram em paz com os Halflings. Todas as civilizações guardam lembranças e lendas que se referem a uma Idade de Ouro, quando as pessoas viviam em paz. Talvez tenha sido assim um dia, talvez não.

Mas, não se sabe como ou por que (embora haja rumores de que tudo começou com o clã da Serpente), tornou-se patente mesmo para os Criadores que nem tudo estava bem entre eles e os Halflings. Não apenas os homens escarneciam dos Halflings, mas os Halflings, que tinham bem pouco do verdadeiro sangue humano, começaram a se sentir imperfeitos, inferiores e desprovidos do que era essencial a um ser humano. E de algum modo isto era verdade, pois possuindo tão pouco da inteligência, alguns membros da raça dos Halflings eram não apenas broncos como servos, mas também absolutamente inábeis para conduzir suas próprias vidas. Em parte por isto, quando um Halflings cruzava com outro Halflings, para além dos limites de sua própria espécie - por inocência ou porque os sacerdotes, maliciosamente ou por simples curiosidade, assim ordenavam -, tal amálgama de materiais genéticos resultava num ser que causava repulsa aos homens. Para eles, a visão de um Pássaro-Serpente ou um Cão-Boi, ou ainda um Gato-Foca, era terrível. Tão inofensivos quanto inúteis, não estavam preparados para sobreviver; freqüentemente suas vidas tornavam-se um fardo para eles mesmos e seus mestres.

E aqueles Criadores, que não se restringiam às experiências de cruzamento com pares impróprios, mas combinavam genes em seus viveiros escondidos, criavam coisas ainda mais terríveis: a medonha Serpente-Alada e os Dragões das Terras Mutáveis, que compartilhavam da natureza da Águia e da Serpente, e as Águias- Leões, devastadoras dos desertos. Estes seres, escapando de suas moradas secretas, também cruzavam uns com os outros, criando finalmente uma tal confusão de formas que, dizem, os próprios deuses rebelaram-se contra o que haviam criado.

Levaria muito tempo a narrativa das guerras e desordens que se seguiram: da busca do povo por um Rei saído da pura estirpe dos homens; das guerras entre os Filhos do Macaco e o clã da Serpente; da fundação da Casa Real de Atlas e dos reis-Sol que eram seus sacerdotes. Finalmente, a Casa de Atlas estabeleceu que a criação de Halflings deveria cessar; que a nenhum Halflings seria permitido cruzar, mesmo dentro de sua própria espécie, a menos que, submetendo-se a certos Ordálios, provasse o valor de seu sangue para a reprodução de sua própria espécie (e havia poucos com inteligência suficiente para se submeterem aos Ordálios); e que os viveiros deveriam ser destruídos. Declarou-se, também, que o acasalamento entre homem e Halflings deveria cessar para sempre.

Para esta última resolução havia algumas razões. Pois com a criação de Halflings eles asseguravam (a fim de que o número de servos aumentasse rapidamente) a ininterrupta reprodução do tipo animal. Apesar de os Halflings se parecerem muito com os homens, eles procriavam com a rapidez própria das bestas, tanto que um membro do clã dos Cães poderia reproduzir pela Terra quarenta ou cinqüenta filhos e filhas, ao passo que em uma geração de filhos de homens três ou quatro chegavam à maturidade.

E os sacerdotes perceberam que logo estariam cercados de bestas desprovidas da capacidade para aprender ou governar; uma enorme multidão sem inteligência suficiente para ser algo mais que escrava. Contudo, apesar de muitos sacerdotes e membros da Casa de Atlas serem esclarecidos, havia aqueles que achavam justo que os homens governassem as bestas e os Halflings, e não se sentiam obrigados a tratá-los de acordo com a Lei ou mesmo com humanidade.

Por esta época vivia no Templo da Noite uma grande sacerdotisa que se autointitulava, como suas mães e antepassadas o fizeram, Rainha da Noite; como acontecia a todas essas Rainhas, seu nome estava há muito esquecido. Ela tomou, como muitas das Rainhas Estrelas o fizeram, um amante da raça da Serpente, e dele teve três filhas reais. Quando a Grande Casa de Atlas estabeleceu que as uniões com Halflings deveriam cessar, ela ficou furiosa; mesmo assim, curvou-se à determinação com aparente docilidade; e até concordou, quando o Grande Atlas estava velho e morrendo, em casar-se com o herdeiro presuntivo, um jovem de tipo sóbrio e sacerdotal conhecido como Sarastro, e dele ter um herdeiro que reuniria o sangue das casas reais de Atlas-Alamésios, a do Grande Templo da Mãe da Noite e a da Casa Real do Sol.

Embora a Rainha Estrela já estivesse passando da idade de conceber, concordou com isso; os dois casaram-se no Templo da Luz, e um ano mais tarde a Rainha Estrela deu à luz uma criança, uma menina que eles chamaram de Pamina. Quando esta menina, herdeira da Rainha Estrela e da Casa da Luz, viesse a sentar no trono de Atlas-Alamésios, então (pensou a Rainha Estrela) sua filha Pamina anularia o que a Rainha Estrela considerava como fraqueza e loucura da Casa da Luz.

Mas a trégua entre o Sacerdote da Luz e a Sacerdotisa da Velha Deusa da Noite não poderia durar. No segundo ano, antes que Pamina deixasse de mamar, Sarastro e a Rainha Estrela já brigavam por causa do tratamento cruel que ela dispensava aos seus servos halflings, e que ela não abrandava nem alterava. Assim a Rainha Estrela abandonou o palácio dos reis-Sol e levou Pamina consigo para o Templo da Noite. Lá, jurou ódio eterno a Sarastro e à Casa da Luz. Sarastro ficou magoado, pois, apesar de todo o orgulho e arrogância da Rainha Estrela, ele a amara com toda a força de seu coração, e ainda a amava. Mas seu pai, que detestava a mulher com quem casara seu filho, disse: “Deixe-a partir; ela é uma criatura má, como são todos os de seu clã. Um dia você se casará com uma outra mulher que lhe dará um filho sem a mácula da Serpente.”

Logo após isto, o grande sacerdote e rei de Atlas-Alamésios morreu, e Sarastro ascendeu ao trono de seus antepassados. Não se casou, preferindo esperar que Pamina se tornasse adulta para governar ao lado de seu esposo como sua sucessora.

E aqui começa nossa história.

CAPÍTULO UM Havia sangue na lua. Da varanda, a Princesa Pamina, frágil e delicada, olhava temerosa a névoa sombria e rubra que, sorrateira, avançava sobre a face do disco lunar, rastejando sobre a face da Lua. Jamais vira algo assim. Lá embaixo, a cidade era apenas manchas muito escuras contra a noite, e ela ouvia um som abafado como um lamento; lamento distante, de terror pelo lodo vermelho que corrompia a pureza prateada da face da noite. Sentiu que também deveria lamentar-se, ajoelhar-se e chorar de terror e arrependimento.

Mas Pamina tinha nove anos, e era a filha mais nova da Rainha Estrela; fora ensinada a manter-se com dignidade mesmo na solidão de seus aposentos, e um dia governaria todas aquelas pessoas. Não poderia correr e se esconder em seu quarto para chorar de medo, embora o terror estivesse dentro dela. O que havia de errado com a noite, e por que sua mãe, que era a Senhora da Noite, não a corrigia logo?

Ela percebeu movimentos em seus aposentos; então, viu atrás de si a forma sombreada de sua meia-irmã Disa, filha mais velha da Rainha Estrela.

- Vem logo, Pamina. - Não seria justo dizer que a voz de Disa fosse desagradável, era excessivamente apática para tanto. - Você não é mais uma criança; nossa mãe não lhe disse que você deveria se reunir a nós quando de nossa próxima procissão?

- Não sabia que a época é de procissões - retrucou Pamina, sentindo o coração bater acelerado em seu peito. Procissões? Eram coisas para dia de sol e alegria, não para uma noite escura, de medo e lamento nas ruas.

Ainda assim as palavras de Disa eram estranhamente reconfortantes. Sua mãe sabia que havia algo de errado no céu; não era ela a Rainha Estrela? Alguma coisa seria feita, então, para dar fim a esta cor horrível na Lua, esta terrível escuridão cobrindo a noite. Obedientemente, entrou em seu quarto, onde sua serva halfling, da raça dos Cães, uma femeazinha roliça de orelhas macias e caídas, esperava por ela com três trajes de procissão suspensos por suas mãos estendidas que lembravam patas.

- Qual dos trajes minha pequena senhora escolherá?

Sua voz não era nem latido nem grunhido, embora tivesse as qualidades de ambos, e era agradável e familiar a Pamina. Tinha certeza de que para Rawa ela era o centro do mundo; e suas primeiras lembranças evocavam aqueles braços peludos que a embalaram e aquele peito macio que a aconchegara. Mas desde que começara a tomar conhecimento das coisas, fora-lhe incutido que Rawa, sendo um cão halfling, não poderia decidir e escolher coisa alguma por si mesma; como todos os membros da raça do Cão, recebia ordens de seu senhor ou senhora.

Pamina voltou-se para Disa, sem saber o que escolher para esta procissão tão imprevista. Carrancuda, Disa examinou os trajes estendidos.

- Nenhum destes serve - disse finalmente, franzindo tanto o cenho que a luz revelou um nariz quase inexistente, e a insipidez própria de seu rosto. -Não foi providenciado nenhum traje ritual para procissões noturnas, Rawa?

- Nada me foi ordenado - Rawa respondeu com humildade. A resposta não agradou Disa, que esbravejou:

- Halfling estúpida! - e esbofeteou Rawa. - Bem, já que não há nada que se possa fazer, emprestarei uma de minhas vestes; ficará grande em você, mas um cinto resolverá o problema e, talvez, como está escuro e ela tem muito no que pensar, nossa mãe - se você tiver sorte - não notará - acrescentou Disa, com um gesto que fez Pamina tremer tanto quanto a mulher halfling. Disa não deu atenção, saiu apressada, voltando a cabeça para lançar uma ameaça.

- Quanto a você, Rawa, é provável que já esteja muito tempo com sua senhora, e começa a se fiar demais na sua condição de ama real! Talvez um período nas estrebarias, como caçadora de ratos, restitua seu senso de humildade.

Pamina agarrou-se a Rawa quando Disa deixou o quarto. O corpo macio da mulhercão estava tremendo.

- Não chore, Rawa, vou falar com minha mãe; ela sabe o quanto eu preciso de você. Mamãe não permitirá que ela lhe mande embora - disse. Mas não estava certa disso. Sua mãe tinha tantas preocupações e responsabilidades que deixou, de uma lua para outra, o controle da casa, onde viviam as quatro princesas, nas mãos de Disa. Ela poderia, inclusive, concretizar a ameaça antes que Pamina conseguisse uma audiência com a Senhora.

Rawa não era suficiente inteligente para pensar nisso tudo, mas sentiu a dúvida na voz de Pamina e choramingou, agarrando-se à criança. Em seguida, saiu correndo, fungando alto. Pamina, que conhecia as reações de Rawa tão bem quanto as suas, reagiu imediatamente.

- O que é isso, Rawa? O que é isso, há alguém aqui?

Rawa gania e continuava a farejar os cantos do quarto. De repente investiu várias vezes contra o balcão, rosnando e saltando. Ouviu-se um guincho, e Pamina falou:

- O que você tem aí, Rawa? Mostre logo para mim. Menina levada! A mulher-cão resmungou:

- Má! Má! O lugar dela não é aqui, não é - e trazia, arrastando, alguma coisa do balcão. Pamina correu para examinar a forma de constituição frágil que Rawa mantinha imobilizada sob suas patas.

Não era mais alta que Pamina, vestia uma combinação verde que mal lhe cobria os longos e delicados membros, à primeira vista tão frágeis que um aperto mais forte de Rawa poderia parti-la em duas. Seu cabelo era uma plumagem delicada de brilhantes tons escarlate e amarelo, caindo em iridescentes camadas sedosas ao longo do pescoço e ombros. O terror distorcia suas feições, mas Pamina reconheceu-a. O pássaro halfling foi trazido da cidade para fazer números de malabarismo, cantar e diverti-la durante a celebração de seu último aniversário.

- Deixe-a ir, Rawa. Pare, não estou brincando - acrescentou, severa, quando a mulher-cão deu um pequeno grunhido. Relutante, Rawa libertou a mulher halfling, que tremia dos pés à cabeça, batendo os dentes de terror.

- Papaguena - disse Pamina, caminhando em direção à menina-pássaro. - O que está fazendo aqui? Não, Rawa, já disse, deixe-a, ela não poderia me machucar mesmo se quisesse, principalmente estando você aqui. Você não me machucaria, não é, Papaguena?

A mulher-pássaro estava quase afônica de terror, mas quando Rawa a libertou e se afastou, ela se pôs de pé.

sacrifício, pensei na senhora e vim para cáNão deixe que eles me levem embora e
me matem, não

- Princesa, a senhora foi boa para mim, e, quando eles vieram me buscar para o Rawa ganiu, afastando-se ainda mais.

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