AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA DE MULHERES IDOSAS NA COMUNIDADE

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA DE MULHERES IDOSAS NA COMUNIDADE

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R. Enferm. Cent. O. Min. 2014 maio/ago; 4(2):1135-11451135

Santos GS, Cunha ICKO. Evaluation of Quality of...

Gerson Souza Santos,1 Isabel Cristina Kowal Olm Cunha2

RESUMO: Qualidade de vida na velhice e feminização da velhice são fenômenos que chamam a atenção de demógrafos, geriatras e gerontólogos sociais. O objetivo deste estudo foi avaliar a qualidade de vida de mulheres idosas cadastradas em uma Unidade Básica de Saúde do município de São Paulo. Trata-se de um estudo de abordagem quantitativa, no qual participaram 211 mulheres idosas. Foram coletados dados sociodemográficos e aplicação do instrumento Whoqol-Old para avaliação da qualidade de vida. As idosas que participaram deste estudo eram em sua maioria, idosas jovens na faixa etária de 60 a 69 anos (p valor <0,001), afrodescendentes (p valor <0,001), sem cônjuge (p valor <0,001), vivendo em lares multigeracionais, analfabetas, aposentadas, com renda mensal de 1 a 3 salários mínimos, pouco acesso ao lazer, inatividade física, dependentes do Sistema Único de Saúde para tratamento de doenças crônicas: hipertensão arterial e Diabetes. Observou-se que na avaliação da qualidade de vida, as facetas intimidade (média 1,6) e (DP 4,6) e atividades presente, passadas e futuras (média 1,7) e (DP 1,5) obtiveram os piores escores de qualidade de vida. Concluiu-se que a avaliar a qualidade de vida das mulheres idosas é fundamental para o cuidado a este seguimento crescente no Brasil. Descritores: Qualidade de vida; Enfermagem; Idosos.

RESUMEN: La calidad de vida en el envejecimiento y la feminización de la vejez son fenómenos que atraen la atención de los demógrafos , geriatras y gerontólogos sociales. El objetivo de este estudio fue evaluar la calidad de vida de las mujeres de edad inscrito en una Unidad Básica de Salud de São Paulo. Se trata de un estudio de enfoque cuantitativo , en el que participaron 211 mujeres de edad avanzada. Se recogieron datos sociodemográficos y la aplicación del instrumento WHOQOL -Old para evaluar la calidad de vida. Mayores que participaron en este estudio eran jóvenes en su mayoría mayores de edad 60 a 69 años (valor de p < 0,001 ) , afrodescendiente (valor de p < 0,001 ) , sin cónyuge (valor de p < 0,001 ) , que viven en hogares multigeneracionales , analfabeto, se retiró con una renta mensual de 1 a 3 salarios mínimos , el escaso acceso al ocio , la inactividad física , según el sistema de Salud para el tratamiento de las enfermedades crónicas: hipertensión y diabetes. Se observó que en la evaluación de la calidad de vida , las facetas de la intimidad (media 1.6 ) y ( SD 4,6 ) y las actividades presentes , pasados y futuros (media 1.7 ) y ( SD 1,5 ) presentaron los más bajos las puntuaciones de calidad de vida . Se concluyó que para evaluar la calidad de vida de las mujeres mayores es fundamental para la atención a este cultivo siguiente en Brasil. Descriptores: Calidad de vida; Enfermería; anciana.

ABSTRACT: Elderly quality of life and feminization are drawing attention of demographers, geriatrics and social gerontologists. The aim of this study was to evaluate the quality of life of elderly women registered at a Primary Health Care Unit in the city of Sao Paulo. Two hundred and eleven women participated in this quantitative study. Collected data consisted of demographics and quality of life evaluation through Whoqol-Old instrument. Most participants were 'young elderly' with ages between 60 and 69 years old (p-value <0,001), afrodescendents (p-value <0,001), single (p-value <0,001), living in multigenerational households, illiterates, retired, with 1 to 3 minimum wage monthly income, low leisure access, physical inactivity, dependents on the 'Sistema Único de Saúde' to treat chronic diseases like hypertension and diabetes. It was observed that on quality of life evaluation intimacy (mean=1,6 and SD=4,6) and present, past and future activity (mean=1,7 and SD=1,5) had the worst scores. We concluded that evaluating quality of life of elderly women is fundamental to promote care to this growing segment in Brazil. Descriptors: Quality of life; Nursing; Elderly.

Mestre em Enfermagem Doutorando e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração de Serviços de Saúde e Gerenciamento de Enfermagem (GEPAG) Universidade Federal de São Paulo. Enfermeira. Doutora em Saúde Pública – Universidade de São Paulo. Professora livre docente associada da Escola Paulista de Enfermagem (UNIFESP).

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milhões até 2010(1)Fato preocupante é que,

As atuais mudanças do perfil de morbimortalidade tem se configurado como uma tendência universal que engloba países desenvolvidos e em desenvolvimento, onde o Brasil encontra-se inserido. Neste, os idosos representam cerca de 10% da população geral onde dos 169,5 milhões de brasileiros, 15,5 milhões estão com 60 anos ou mais com projeções bastante otimistas apontando para um crescimento deste grupo etário para 18 enquanto nos países desenvolvidos este crescimento se deu de forma sutil e gradual, atrelada a resiliência socioeconômica e cultural, no Brasil o fenômeno ocorreu bruscamente confrontando-se com um cenário de desigualdades sociais, fragilidade econômica, sem modificações estruturais que correspondam às demandas do novo grupo etário emergente(2).

Diante da realidade inquestionável das transformações demográficas iniciadas no último século e que nos fazem observar uma população cada vez mais envelhecida, evidencia-se a importância de garantir aos idosos não só uma sobrevida maior, mas também uma boa qualidade de vida(3).

Neste sentido, qualidade de vida na velhice é um conceito importante, hoje, no Brasil, na medida em que existe uma nova sensibilidade social para a velhice, quer considerada como um problema, quer como um desafio para os indivíduos e a sociedade. Vários elementos vêm contribuindo para essa nova sensibilidade. Em primeiro lugar, nas ultimas décadas aumentou a consciência de que está em curso um processo de envelhecimento populacional. Isso se deu em parte por causa do aumento da visibilidade dos idosos, em parte por causa do investimento de algumas instituições sociais na divulgação de informações sobre o envelhecimento e na criação de oportunidades sociais para os idosos, vistos como um novo mercado. Em segundo lugar, as mudanças sociais provocaram mudanças nas formas de as pessoas viverem a velhice: os novos idosos brasileiro são mais saudáveis, vivem mais e são mais produtivos do que os do passado ou do que os refletidos pelos estereótipos(4).

Assim, qualidade de vida na velhice e feminização da velhice são fenômenos que chamam a atenção de demógrafos, geriatras e gerontólogos sociais. No domínio da pesquisa está crescendo o interesse pela caracterização das variáveis que determinam uma boa qualidade de vida na velhice nos domínios físico, social e psicológico, bem como pela identificação das noções vigentes sobre qual o significado desse conceito entre a população. No âmbito da intervenção aumenta a consciência de que é importante identificar e promover condições que permitam a ocorrência de uma velhice longa e saudável, com uma relação custo-benefício favorável aos indivíduos e às instituições sociais, num contexto de igualdade quanto à distribuição de bens e oportunidade sociais(4).

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A investigação sobre as condições que permitem uma boa qualidade de vida na velhice, bem como as variações que a idade comporta, reveste-se de grande importância científica e social. Tentar responder à aparente contradição que existe entre velhice e bem-estar, ou mesmo a associação entre velhice e doença, poderá contribuir para a compreensão do envelhecimento e dos limites e alcances do desenvolvimento humano. Além disso, possibilitará a criação de alternativas de intervenção visando o bem-estar de pessoas idosas. Assim, o desenvolvimento de estratégias para conhecer como o idoso percebe seu próprio envelhecimento é de fundamental importância para que se possam desenvolver instrumentos capazes de quantificar este processo de forma válida.

O objetivo do presente estudo foi avaliar qualidade de vida de mulheres idosas cadastradas em uma Unidade básica de Saúde do município de São Paulo-SP.

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, exploratória e descritiva, parte integrante da Tese de Doutorado que está sendo desenvolvida no Departamento de Enfermagem - Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração de Serviços de Saúde e Gerenciamento de Enfermagem (GEPAG) da Universidade Federal de São Paulo, intitulado: “Atendimento ao idoso na Atenção Básica e as competências do Enfermeiro”. O estudo foi realizado com pessoas idosas cadastradas em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) localizada na Zona Sul do município de São Paulo –

Coordenadoria Sudeste - Vila Mariana/Jabaquara. Nesta UBS está implantada a Estratégia Saúde da Família e atualmente estão cadastrados aproximadamente quatro mil pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.

A amostra foi composta por 211 mulheres com idade igual ou superior a 60 anos, das quais. Foram observados os seguintes critérios de inclusão: ter idade igual ou superior a 60 anos, estar cadastrado na Unidade Básica de Saúde, concordar em participar do estudo através da assinatura do (TCLE) Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A coleta de dados teve inicio após a apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo UNIFESP (Parecer nº 1012/1) e do Comitê de ética em Pesquisa da Secretária de Saúde do município de São Paulo, Parecer Nº 378/2011.

Para coleta de dados utilizou-se um instrumento elaborado pelos autores e que contemplou informações socioeconômicas e demográficas. Para a avaliação da qualidade de vida dos idosos, aplicou-se o questionário Whoqol-Old, instrumento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde e validada no Brasil por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Esse questionário consta de 24 itens, com resposta por escala tipo Likert de 1 a 5, divididos em seis facetas. Cada uma delas é composta por quatro itens, gerando, então, escores que variam de 4 a 20 pontos. Os escores das seis facetas, combinados com as respostas aos 24 itens, geram, também, um escore overral

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(total). As facetas são: funcionamento dos sentidos; atividades passadas, presentes e futuras; participação social; morte e morrer; e intimidade. Como cada faceta é composta por quatro itens, os escores podem variar de 4 a 20 para cada faceta. A obtenção do escore total deriva da soma dos 24 itens e não depende do agrupamento por facetas.

A análise dos dados foi realizada utilizando-se o pacote estatístico SPSS®, versão 13.0, os resultados da análise estatística descritiva são apresentados com média, desvio padrão, mínima e máxima e a análise estatística inferencial foi desempenhada pelo teste t de Student, objetivando verificar a existência de diferenças significativas entre os testes de ambos os grupos. Para todos os procedimentos, adotou-se um nível de confiança de 5% (p < 0,05).

As mulheres idosas que participaram deste estudo eram em sua maioria 133 (63,0%) na faixa etária de 60 a 69 anos, caracterizadas como idosas jovens; afrodescendentes (pardas e negras) 130 (67,7%); a maioria sem cônjuge (viúvas, solteiras e divorciadas) 164 (78,0%); baixa escolaridade 109 (51%) era analfabeta e 102 (49,0%) com o ensino fundamental incompleto; quanto à situação ocupacional, 128 (60,6%) eram aposentadas, 54 (25,5%) eram donas de casa e 29 (13,9%) trabalhavam como diaristas; tinham renda familiar de 1 a 3 salários mínimos 172 (81,4%); maior parte tinha casa própria 144 (68,2%); sem acesso a atividades de lazer 148 (70,1%); somente 42 (19,9%) das idosas praticavam atividade física; em relação ao tabagismo, 110 (52,1%) eram fumantes e ex-fumantes; principais doenças referidas: hipertensão arterial 147 (6937%) e Diabetes Mellitus 8 (41,7%).

Tabela 1 – Características socioeconômicas e demográficas de mulheres idosas cadastradas em

Unidade Básica de Saúde. São Paulo, 2014.

Variáveis n % p valor

Faixa etária 60-69 70-79 80 a mais Total

Raça/cor da pele Parda Branca Negra Total

Estado civil Viúva Solteira Casada Separada/divorciada Total

Escolaridade Analfabeta Ensino fundamental incompleto Total

Situação ocupacional

Aposentada 128 60,6

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Dona de casa Diarista Total

Renda familiar Até 1 salário mínimo 1 a 3 salários mínimos 4 a 6 salários mínimos Total

Número de pessoas no domicilio 1 a 3 pessoas 4 a 6 pessoas Vive sozinha Total

Possui convênio médico NÃO SIM Total

Em caso de doença procura Hospital Farmácia do bairro Unidade Básica de Saúde Total

Tabagismo Fumante Ex-fumante Nunca fumou Total

Morbidades referidas Hipertensão arterial SIM NÃO Total

Diabetes SIM NÃO Total

Tabela 2 – Avaliação da qualidade de vida de mulheres idosas segundo as facetas do Whoqol-Old. São Paulo, 2014.

Facetas n Média Mediana Desvio padrão Mínimo Máximo

Na tabela 2 são apresentados os resultados da avaliação da qualidade de vida das mulheres idosas, segundo as facetas do Whoqol-Old. A faceta funcionamento dos sentidos: média

(1,5), mediana (1,0) e desvio padrão (3,7); faceta autonomia: média (1,2), mediana (1,0) e desvio padrão (3,8); faceta atividades passadas presentes e futuras: média (1,7),

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mediana (12,0) e desvio padrão (3,5); faceta participação social: média (1,2), mediana (1,0) e desvio padrão (4,3); faceta morte e morrer: média (12,6), mediana (12,0) e desvio padrão (12,0); faceta intimidade: média (1,6), mediana (12,0) e desvio padrão (4,6).

Os resultados deste estudo apontam para a feminização da velhice e com alto percentual de idosas jovens na faixa etária de 60 a 69 anos. Como resultado de uma desigualdade de gênero na expectativa de vida, existe essa proporção maior de mulheres do que de homens nesse grupo populacional. Esse fenômeno é explicado pelo fato de que no Brasil as mulheres vivem em média oito anos a mais do que os homens, o que pode ser atribuído a fatores biológicos, em especial pela proteção hormonal de estrógeno, e à diferença de exposição aos fatores de risco de mortalidade; a inserção diferenciada no mercado de trabalho, o uso/abuso de tabaco e álcool, e também a diferença de atitude em relação à saúde/doença, considerando que a mulher busca mais os serviços de saúde, o que mostra maior preocupação com autocuidado(5- 6).

Neste estudo observaram-se alto percentual de idosas sem cônjuge, considerando-se as viúvas, solteiras e separadas. Resultados semelhantes foram encontrados em estudos que abordaram a qualidade de vida de mulheres idosas(7-8).

A escolaridade das idosas deste estudo foi baixa, constituindo-se uma condição social desfavorável para elas, já que tem influencia no acesso aos serviços de saúde, em oportunidades de participação social e na compreensão do seu tratamento e do seu autocuidado entre outros. Proporcionalmente os homens idosos continuam mais alfabetizados do que as mulheres. No Brasil, em 2000, o percentual de analfabetos entre idosos era de 35,2%, sendo 32,2% entre os homens e 37,4% entre as mulheres(9). Há que ser considerado o fato de que essas idosas nasceram e cresceram num período em que a dificuldade de acesso à educação era muito grande, principalmente para as mulheres, pois a prioridade era para os homens.

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