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2a Foto: arquivo Ricardo Antunes

qui estamos novamente com mais uma edição da

Revista Ilustrar pronta, e com mais novidades.

Desta vez a revista traz a participação exclusiva de alguns grandes profissionais do mercado nacional e internacional.

Começamos com o desenho gráfico de Clayton Junior (Portfolio) que trabalha em Londres; os sketches sensacionais de André Toma (Sketchbook); a surpreendente história do ilustrador e pesquisador Miécio Caffé (Memória); o trabalho de concept art de Eduardo Schaal (Step by Step) que trabalha em Bristol; uma entrevista brilhante com o veterano Roberto Negreiros (15 perguntas); e na sessão internacional, o ilustrador mexicano Sergio Martinez.

Mas existe outra novidade: na última página da revista existe a possibilidade de se ganhar uma tablet Wacom Intuos 4, novidade no mercado e que trazemos através de um concurso para a produção da capa da próxima edição nº 1 da revista.

Dia 1 de Julho tem maise também um vencedor do concurso.

Alguém se habilita? :o)

DIREÇÃO, COORDENAÇÃO E ARTE-FINAL: Ricardo Antunes ricardoantunesdesign@gmail.com

Ricardo Antunes - ricardoantunesdesign@gmail.com

DIREÇÃO DE ARTE: Neno Dutra - nenodutra@netcabo.pt REDAÇÃO: Ricardo Antunes - ricardoantunesdesign@gmail.com REVISÃO: Helena Jansen - donaminucia@gmail.com

COLABORARAM NESTA EDIÇÃO: José Alberto Lovetro (Miécio Caffé) - josealbertolovetro@yahoo.com.br

ILUSTRAÇÃO DE CAPA: Sergio Martinez - moimeme16@gmail.com PUBLICIDADE: revista@revistailustrar.com

DIREITOS DE REPRODUÇÃO: Esta revista pode ser copiada, impressa, publicada, postada, distribuída e divulgada livremente, desde que seja na íntegra, gratuitamente, sem qualquer alteração, edição, revisão ou cortes, juntamente com os créditos aos autores e co-autores.

Os direitos de todas as imagens pertencem aos respectivos ilustradores de cada seção.

• EDIT ORIAL2
• PORTFOLIO: Clayton Junior5
• INTERNACIONAL: Sergio Martines1
• SKETCHBOOK: André Toma18
• MEMÓRIA: Miécio Caffé24
• STEP BY STEP: Eduardo Schaal28
• 15 PERGUNTAS PARA: Roberto Negreiros34
• CURTAS42
• LINKS DE IMPORTÂNCIA43

© Revista Ilustrar

aído de Curitiba, no estado do Paraná, o ilustrador e roqueiro Clayton Junior construiu uma trajetória marcada pelo desenho gráfico, estilizado e moderno, atuando na área editorial e para a indústria da música.

Ainda em Curitiba chegou a estudar com o grande

Claudio Seto, e com o desenvolvimento da carreira, em 1999 se transferiu para

São Paulo e depois para a Inglaterra, onde reside desde 2007.

A oportunidade surgiu com a possibilidade de estudar em Londres, e com ela também a oportunidade de morar e trabalhar.

Além do trabalho como ilustrador, tem participado de muitas exposições em vários países e com obras publicadas em diversas revistas no exterior, como os Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Polônia e outros, além da própria Inglaterra.

Foto: arquivo Clayton Junior

© Clayton Junior

Eu cresci rodeado por revistas em quadrinhos do meu pai - Tio Patinhas, Henfil, Ziraldo. Na adolescência frequentei cursos livres de desenho no Solar do Barão, onde tem a Gibiteca de Curitiba.

Meu primeiro professor foi o Cláudio Seto, e fiz vários amigos que são ilustradores até hoje. Falávamos tanta besteira que até doía a barriga.

Depois fiz escola técnica de desenho industrial no Cefet-PR, que era bastante puxado, voltado pra desenho mecânico, técnico, etc. Só levei ferro, mas depois de anos vi que serviu pra alguma coisa tanta geometria.

Me realizei quando entrei no curso superior de gravura, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, onde conheci arte moderna, arte contemporânea.

E a gravura na prática: xilogravura, monotipia, gravura em metal. Mas não cheguei a me formar.

Em 9 ganhei o Concurso Folha de Ilustração, e decidi então fazer as malas pra São Paulo. Fiz uma animação pra MTV e fui chamado pra trabalhar lá.

Fiz vestibular de novo e comecei a estudar Artes Plásticas na USP. Tive que largar o trabalho por causa da faculdade, mas continuei fazendo trabalhos pro canal, pro jornal e para várias revistas.

Começou então, em 2000, minha vida de ilustrador freelance. E de lá pra cá, a coisa foi assim, bem corrida, felizmente. Me formei em 2003, e em todo esse tempo mantive a Suite Minimal, banda de rock instrumental que operava no eixo Curitiba-SP.

Acho que quanto mais coisa se faz, mais tempo você acha pra fazer as coisas.

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Vim para Londres em 2007, por conta de uma bolsa de estudos do Programa Alban, que é destinada ao aprimoramento profissional de latino-americanos.

Numa cidade como Londres, só a bolsa não era suficiente pra cobrir os custos, mas sem ela seria impossível.

Existem outras bolsas por aí, esperando quem tiver vontade e muita paciência no processo.

Pesquisei durante anos por uma que se adequasse à minha área, e levei mais de um ano no processo de atribuição. Mas valeu a pena.

Escolhi a Inglaterra por ser um país com uma longa tradição de ilustração no meio acadêmico. O mestrado em ilustração na Camberwell College of Arts existe há décadas.

E Camberwell me interessou desde o início por ser parte da Universidade de Artes de Londres, com várias escolas diferentes na cidade e, consequentemente, várias bibliotecas maravilhosas, onde passei bastante tempo do meu curso.

E a cidade em si é muito inspiradora, com artistas em todo canto, gente fazendo e pensando todo tipo de arte.

A comida inglesa e o clima londrino deixam a desejar, mesmo pra quem veio de Curitiba.

Mas por conta de todo tipo de imigrante, come-se muito bem, e tudo que a cidade oferece faz você esquecer que existe verão em algum lugar do planeta. Eu tento não pensar a respeito.

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Por conta da revolução industrial, a cultura gráfica inglesa se desenvolveu bastante e é hoje em dia é um universo imenso.

Desde aquela época se construiu uma tradição muito forte de artistas comerciais, de ensino de ofícios, e eles têm uma classe profissional de ilustradores muito bem constituída.

Existe a coisa de se passar o conhecimento de uma geração para a outra. A estética Vitoriana, surgida em meados do século 19, tinha o ilustrador e o designer gráfico na linha de frente; deixou resquícios até hoje, na obra de Edward Bawden, David

Gentleman, e é um estilo reconhecido como inglês.

O movimento Artes e Ofícios (Arts and Crafts) foi ainda mais fundo, quando o designer/ilustrador/escritor William Morris e seus comparsas propuseram uma verdadeira revolução estética e industrial através do design, inspirando outros movimentos, como por exemplo a Bauhaus.

Eles criaram peças maravilhosas de design impresso, além de móveis, edifícios e objetos - e tinham como princípio a valorização do artista/artesão na sociedade moderna.

Tiveram uma grande relevância no caminho que as coisas tomaram por lá.

Não seria verdade dizer que a cultura gráfica no Brasil é mais fraca, mas com certeza a ilustração como ofício é algo bem mais recente e ainda não tão organizado.

Enquanto na Inglaterra você encontra alguém cujo avô era ilustrador, com carteira assinada e tudo, no Brasil você fala duas vezes o nome da profissão porque um monte de gente não sabe do que se trata.

E no Brasil se dá muita atenção à novidade, e às vezes se esquece o que se fez há algum tempo. Eu acho uma pena, por exemplo, que pouca gente conheça o trabalho do Nássara, só para citar um nome.

Museus de Artes Gráficas, centros de debate no assunto, bibliotecas especializadas são ainda raras no Brasil e contribuiriam para uma cultura gráfica mais presente e mais pensante, mais ativa na sociedade.

Mas vejo que a coisa está melhorando.

Grafismo, desenho gráfico, ilustração, pra mim é tudo expressão, é sensibilidade humana (ou falta de) colocada ao alcance dos olhos dos outros.

É como alguém que vai passar uma mensagem visual pro mundo, mesmo que às vezes bem restrito.

O trabalho do grafista vai da poluição visual até verdadeiras obras de arte.

A crítica fica a cargo de cada um, e acho necessário que se discuta a respeito.

Todo mundo - a sociedade e os artistas - só têm a ganhar.

Nunca foi tão fácil criar imagens como hoje em dia, com computadores, internet, toda essa informação e tudo mais.

Mas isso não quer dizer que o mercado vai absorver tudo que se produz.

Acho que não tem fórmula pro sucesso, mas se dedicar ao que se gosta, desafiar as próprias limitações, estar atento às oportunidades é um jeito de evitar qualquer tempo ruim do mercado.

Também é importante evitar o óbvio. As oportunidades estão escondidas por aí, nem sempre dá pra achar algo perquisando no Google.

Mas a verdade indigesta é que nada disso serve se você não trabalhar duro também, desenhar até dar calo na mão!

Se fala muito em tendências, mas pra mim isso tem a ver mais com marketing do que com ilustração em si.

Seguir tendências é coisa pra anunciante, pra investidor, que têm medo de confiar no próprio taco e acabar perdendo dinheiro.

O artista tem que ser o outro lado da moeda: não seguir tendência, e, sim, confiar no próprio gosto. Arte tem que ser causa, não consequência.

É claro que todo artista tem um olho no que se anda fazendo por aí, nos seus artistas prediletos, e vai incorporar uma ou outra coisa no seu trabalho.

Mas o trabalho bom vai ser o que ele busca dentro de si, não fora, na superfície.

E se for seguir o que tem recebido atenção hoje, vai notar que amanhã vai ser outra coisa que estará ali. A coisa boa é que a ilustração é e sempre foi um universo complexo e heterogêneo.

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9b9a PORTFOLIO: CLAYTON JUNIORPORTFOLIO: CLAYTON JUNIOR

Apesar de eu ter começado cedo como ilustrador, sempre coloquei meu bedelho em outras mídias.

Desenvolvo um trabalho de fotomontagem, que começou com colagem, depois passou para alterações digitais em fotos antigas, que me rendeu muita coisa boa.

Fiz exposições em Curitiba, participei do X Salão da Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia, fui premiado no

Prêmio Porto Seguro da Bahia de 2003, expus no MAM do Rio, e em vários lugares.

Fiz uma exposição com minha amiga Kadija de Paulo no Canadá, na XPace Gallery, durante a Contact (semana de fotografia de Toronto) e fiz uns trabalhos semelhantes na Wilson Road Gallery, galeria da Universidade de Artes de

Londres. Antes de zarpar para a Inglaterra fiz uma instalação para um festival no Museu da Imagem e do Som em São Paulo.

Em quadrinhos publicava no Almanaque Entropya, de Curitiba, capitaneado pelo RHS, e em São Paulo participei da antologia Gunned Down, que foi publicada no Brasil e nos EUA.

Mês que vem vou participar de uma exposição de fanzines em Ediburgo, com uma publicaçãozinha de 30 exemplares que fiz pra ocasião.

Enfim, tudo isso se faz mais por necessidade interna e amor à arte do que por dinheiro. E acho importante manter esse tipo de coisa sempre em atividade.

Nessas eu conheci muita gente legal, pude colaborar com grandes e bons amigos, e sempre me dá pano pra manga pra fazer mais coisa depois. Exposição, fanzine, publicações alternativas - isso dificilmente vai te deixar rico. Mas vai te deixar muito feliz.

10b10a PORTFOLIO: CLAYTON JUNIORPORTFOLIO: CLAYTON JUNIOR

11b11a Foto: arquivo Sergio Martinez© Sergio Martinez

om sua origem na cidade

INTERNACIONAL: SERGIO MARTINEZ de Orizaba, no México, seus estudos em Paris e seus trabalhos para o mundo, o veterano ilustrador Sergio Martinez tem se notabilizado por uma obra com um desenho cuidadoso e uma técnica de pintura muito particular desenvolvida por ele próprio, e explicada em pormenor nessa entrevista.

Já há mais de 3 décadas tem trabalhado para agências de publicidade e editoras da França,

Estados Unidos, Suíça, Inglaterra, Espanha,

Brasil e países da América Central e do

Sul, além de uma concentração de trabalhos para a BBC de Londres.

Também tem tido várias exposições pela Europa e México, além de diversas exibições no Society of Illustrators of NY.

Na Europa, com uma forte ligação com os Estados Unidos, como é fácil de perceber no meu trabalho.

eu sempre tive uma forte simpatia pelos "forasteiros".

Eu fui e sou como esses cachorrinhos que, em vez de latir aos estranhos, movem o rabo.

Simpatia por todas essas pessoas "diferentes" de quem eu tenho aprendido e recebido admiração e respeito, como vocês no Brasil que se interessam pelo que eu faço, como é o caso desta entrevista com a Revista Ilustrar. Um forte abraço!Sim, acho que sou. Desde muito pequeno

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Pelo amor, pela admiração e pela imersão total em suas culturas.

Quando eu cheguei, aos 2 anos, em Paris, eu fiquei extasiado com a cidade.

Depois, fui acompanhar o ritmo da sua história e dos costumes durante os 15 anos seguintes.

Mais tarde me aconteceu quase o mesmo em Nova York, onde o feitiço continua...

A literatura clássica européia. Também desde a mitologia grega à Mil e Uma Noites, assim como a História Universal, com especial ênfase na cultura do Ocidente.

Devo esclarecer a minha posição diante do fato de ilustrar: ilustração é descrição.

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Eu trabalhava como ilustrador em Paris (1975) e um dia eu recebi de Genebra (Suíça) um folheto de alta qualidade para ser ilustrado com minha técnica a lápis.

O designer gráfico (Rene Bittel) tentava conseguir um ar ou aspecto das antigas litografias do século 19.

O conceito gráfico era "Tradição e Discrição"; se tratava de um banco privado.

Comecei trabalhando sobre antigas provas de impressão (tinham um efeito "granulado") que eu tratei de colorir à mão com ceras coloridas dissolvidas em aguarrás.

Nunca fiquei satisfeito. Até que me ocorreu desenhar sobre papel vegetal ou "Vellum" ou "Papier Calque", cuja textura era similar ao da textura da pedra das litografias do século 19, e sua transparência me permitia trabalhar por trás do papel, dando cor à minha imagem por trás da folha do papel Vellum.

Em outras palavras, minha ilustração ficava como um desenho colorido do século 19.

Eu gostei muito do resultado porque a minha linha ficava limpa e exibia perfeitamente minha característica básica como artista gráfico: o meu estilo de desenhar.

Pouco a pouco, este trabalho marcou para sempre o meu estilo como ilustrador.

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Enorme, estou sempre experimentando. Por ser autodidata, eu tive que aprender sozinho muitas coisas; entre outras, tentar ser o melhor, caso contrário, ninguém me daria trabalho.

Muito importante. Por ser um estilo mais clássico, o nome do meu jogo é: realismo, composição atmosférica, e, muito importante, o claro escuro / autocontraste.

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É desenhar muito. Eu sou autodidata e desenho muito bem, apesar de não ter tido um professor que me aconselhasse "Tem de ler muito..."

Ser um grande equilibrista não é produto de ler sem praticar, exercitar-se e cair muitas vezes. O mesmo se aplica a quem quer fazer escultura.

O pensar como construir uma ilustração vem depois de aprender a ser um bom desenhista e pintor.

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