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Benício, Carlos Chagas, Daniel Adel, Marchi, Nilton Ramalho e Rui de Oliveira

2a Foto: Eduardo Schaal / arquivo Ricardo Antunes

Com o começo de um novo ano a Revista Ilustrar vem

Ano novo, revista nova... também com uma roupagem nova, com algumas pequenas mudanças para deixar a revista mais atraente e gostosa de ler, mas mantendo a sua estrutura e, principalmente, a sua qualidade, sempre com convidados especiais.

Por isso, nesta edição nº 8, encontrarão a revista com uma roupagem mais leve e clean.

Além disso, passa a ser em página dupla, o que permite uma visualização mais próxima ainda de uma revista real, com utilização mais ampla dos espaços.

E para começar bem o ano, preparamos a edição especial "Grandes Mestres".

Não será a única edição com este tema, já que é simplesmente impossível colocar todos os grandes mestres da ilustração em uma única edição; portanto virão outras edições com esse mesmo tema.

Excepcionalmente, nesta edição, não teremos as seções tradicionais, para dar lugar à apresentação do portfólio de outros grandes profissionais.

Espero que gostem, e dia 1 de março tem mais...

DIREÇÃO, COORDENAÇÃO E ARTE-FINAL: Ricardo Antunes ricardoantunesdesign@gmail.com

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DIREÇÃO DE ARTE: Neno Dutra - nenodutra@netcabo.pt REDAÇÃO: Ricardo Antunes - ricardoantunesdesign@gmail.com REVISÃO:

ILUSTRAÇÃO DE CAPA: Carlos Chagas - crchagas@terra.com.br PUBLICIDADE: revista@revistailustrar.com

DIREITOS DE REPRODUÇÃO: Esta revista pode ser copiada, impressa, publicada, postada, distribuída e divulgada livremente, desde que seja na íntegra, gratuitamente, sem qualquer alteração, edição, revisão ou cortes, juntamente com os créditos aos autores e co-autores. Os direitos de todas as imagens pertencem aos respectivos ilustradores de cada seção.

• EDIT ORIAL2
• INTRODUÇÃO3
• ESPECIAL: Benício4
• ESPECIAL: Carlos Chagas9
• INTERNACIONAL: Daniel Adel15
• ESPECIAL: Gilberto Marchi21
• ESPECIAL: Nilton Ramalho26
• ESPECIAL: Rui de Oliveira31
• CURTAS37
• LINKS DE IMPORTÂNCIA39

© Revista Ilustrar

Angelo Shuman (divulgação) - shuman@uol.com.br

Neno Dutra - nenodutra@netcabo.pt Montalvo Machado - montalvo@terra.com.br Helena Jansen - donaminucia@gmail.com

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odos eles são veteranos,

EDIÇÃO ESPECIAL experientes, talentosíssimos e renomados; exemplos de grandes profissionais e grandes artistas.

Juntar todos esses nomes em um mesmo espaço é um privilégio enorme.

Desta forma a Revista Ilustrar tenta, na medida do possível, homenagear esses grandes nomes, apresentando seus trabalhos e, acima de tudo, a forma de pensar e a visão que eles têm sobre alguns temas importantes relacionados ao mercado de trabalho.

Por isso, fazendo quase uma mesa redonda, foram feitas oito perguntas a todos eles, tocando diversos assuntos.

Assim será possível ter uma visão global do mercado, e ao mesmo tempo uma opinião pessoal de cada um dos artistas.

Benício, Carlos Chagas, Gilberto Marchi, Nilton Ramalho, Rui de Oliveira e o americano Daniel Adel mostram a sua forma de ver o mundo e o seu talento através das seguintes perguntas:

INFLUÊNCIAS - Que principais influências foram decisivas na sua formação?

MERCADO - O mercado de ilustração tem variações, com épocas onde a influência da ilustração pode ser maior ou menor. Como vê o mercado atual?

O FUTURO - Como enxerga o futuro da profissão?

DIREITOS AUTORAIS - Em relação à questão dos direitos autorais, o que ainda é preciso melhorar?

ILUSTRAÇÃO HOJE - Artisticamente falando, como vê a atual produção de ilustração?

CULTURA - A formação cultural de um artista é fundamental. Qual a sua opinião sobre a forma como a cultura em geral tem sido tratada atualmente?

REFERÊNCIAS - Cite um filme que considere obrigatório, um livro que é uma referência, uma cidade inesquecível, um artista influente e um museu imperdível.

DICA - Com a sua experiência, qual a melhor dica que poderia dar a todos os profissionais?

Benício Carlos Chagas

Gilberto MarchiDaniel Adel Nilton RamalhoRui de Oliveira

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Foto: arquivo Benício © Benício

A ilustração americana das décadas de 1950/60, basicamente Norman Rockwell e depois Bob Peak.

m dos ilustradores mais conhecidos e celebrados do Brasil, Benício

tem uma longa e sólida carreira, atuando em quase todas as áreas.

Sua técnica e estilo são marcantes e fáceis de reconhecer, trabalhando sempre com seu fiel guache sobre papel Schoeller.

Além de um profundo conhecimento de anatomia humana e de dominar muito bem a técnica do guache, Benício é também extremamente rápido.

Sua velocidade de trabalho possibilitou um volume de produção impressionante, que chegou ao auge nos anos 80, onde produziu, em um ano, 32 cartazes de cinema (uma média de 2 cartazes e meio por mês); uma média de 16 capas de livros de bolso por mês (com um pico de 20 capas em um mês), além de inúmeros anúncios, matérias para revistas, discos, livros, etc.

Entre seus trabalhos, as capas de livros de bolso viraram objeto de coleção de muitos fãs, e são essas capas que

Benício apresenta aqui – apenas uma pequena parte das centenas que produziu.

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Vejo o mercado atual como que fascinado pela imagem virtual, com seus resultados imediatos e baratos.

Creio que ainda precisa um tempo para que os artistas de computação gráfica se imponham no mercado pela qualidade dos seus trabalhos e não pela ilusória rapidez dos resultados obtidos.

Sempre haverá uma idéia a ser transformada em imagem que a realidade não consiga transmitir.

Aí a necessidade de os artistas gráficos existirem.

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No momento em que a profissão de ilustrador seja plenamente reconhecida e respeitada, os direitos autorais, que fazem parte deste conceito, também serão respeitados.

Estão construindo este caminho grupos como a SIB, Ilustragrupo, etc.

A ilustração atual anda meio embaralhada, se confundindo às vezes com design, mas procurando uma nova identidade visual para sua expressão.

Vejo com um pouco de preocupação a juventude atual muito alienada da cultura, valorizando somente os resultados imediatos, sem conhecer as próprias bases do que estão fazendo.

Acho meio uma casa sem alicerces, o panorama cultural da juventude.

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Filme: não saberia indicar nenhum filme obrigatório, uma vez que não sou muito cinéfilo.

Livro: para os que querem desenhar figura, os livros de Andrew Loomis.

Cidade: para mim, talvez por razões pessoais, a cidade de Barcelona é inesquecível.

Artista: um artista influente para quem quer desenhar figura humana: Velazques deve ser estudado com atenção.

Museu imperdível, o dos impressionistas, em Paris, o Musée D'Orsay.

A minha dica para quem quer desenhar, é a mesma de sempre: trabalhar, trabalhar, trabalhar. Só assim conseguimos bons resultados.

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* Para saber mais, compre o livro: "Benício - Um Perfil do Mestre das Pin-Ups e dos Cartazes de Cinema" - de Gonçalo Junior - Editora Cluq.

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Foto: arquivo Carlos Chagas © Carlos Chagas

Foram o meu gosto para desenhar, desde criança, os desenhos que eu via meu avô materno fazer e também

Quem cresceu lendo a revista Mad e

Pancada e montou modelos de aviões e navios da

Revell então, sem saber, teve a companhia constante de Carlos Chagas.

Afinal, é dele a criação de mais de 100 capas da revista Mad (além de muitas das sátiras de novelas e filmes), outras tantas para revista

Pancada, e várias das tampas das caixas da Revell, sem contar inúmeros anúncios, capas de livros, revistas e farto material sobre exércitos, produzido para vários países do mundo.

Além disso, Carlos Chagas se dedica também ao modelismo, criando, de raiz, todo tipo de objetos, em especial veículos do exército, em um trabalho minucioso que às vezes pode levar mais de um ano, e que veremos aqui na Ilustrar, numa edição futura.

A versatilidade de Carlos é bastante clara, indo desde o hiper-realismo com guache até o cartoon com nanquim, mas sempre com precisão nos pormenores.

as belíssimas ilustrações dos livros do “Príncipe Valente”. Depois disso, tudo foi mera conseqüência.

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Não lembro de quando as ilustrações deixaram de influenciar algo.

Para mim elas sempre existiram, pintadas dentro de cavernas ou feitas no computador.

O mercado atual permanece receptivo a esta forma de comunicação, a não ser que um grande asteróide se esborrache na Terra e mude o nosso modo de vida para sempre.

Acho que não vou gostar de estar aqui, depois do tal asteróide.

Modelo de tanque alemão em escala 1/35, com fundo e efeitos aplicados posteriormente em Photoshop MERCADO

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ESPECIAL: CARLOS CHAGASESPECIAL: CARLOS CHAGASAté agora não tive problemas graves com isso, mas sei que nenhum ilustrador está a salvo deles, principalmente com o advento da Internet.

Tomara que um dia alguém encontre uma solução viável.

Boa pergunta. Sou fã do estilo usado pelos ilustradores americanos dos anos 60. Sabiam desenhar e pintar muito bem, além de serem mestres do movimento e da composição.

A geração seguinte à deles, com umas poucas exceções, é esteticamente inferior – e com técnica ou estilo “lavado” demais para o meu gosto.

Antes as pessoas pareciam feitas de carne, agora parecem de plástico.

Tenho me esforçado para obter aquele visual de então, mas sei que não é fácil.

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Filme: não acredito em citar um filme obrigatório para as pessoas; gosto é gosto.

Tem dias que eu curto um longa bem tranqüilo e romântico do tipo “Encontros e Desencontros” (Lost in Translation).

Noutros, eu prefiro ver tanques, explosões e tripas voando longe, como em “O Resgate do Soldado Ryan”. Não há regra fixa.

Livro: Puxa, também são tantosJá li

de tudo, de Conan Doyle a Thomas Mann, passando por Guy de Maupassant no intervalo, só para filosofar.

É a pior possível. O mundo está se tornando cada vez mais medíocre, isto é um fato.

Por isso eu respeito em dobro todos aqueles que estão fora deste quadro geral das coisas.

Mas para ficar só no âmbito da ilustração recomendo “Rockwell on Rockwell” e todos os do Andrew Loomis.

Cidade: Rio de Janeiro, bonita e bagunçada; Tiradentes, histórica e rural; Chicago, rica e ordeira.

Artista: Norman Rockwell é influente no mundo todo, eu acho. Outro ícone é o Benício, amigo e mestre de longa data.

Museu: o Museum of Science & Industry e The Art Institute of Chicago, ambos na mesma cidade, são de fazer cair o queixo. Nunca vi nada igual.

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Conhecer de tudo e manter-se atualizado, sempre.

14b14a ESPECIAL: CARLOS CHAGASESPECIAL: CARLOS CHAGAS

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Foto: arquivo Daniel Adel © Daniel Adel

uma era em que a maioria dos

INTERNACIONAL: DANIEL ADEL ilustradores estão quase totalmente voltados para o computador, o ilustrador americano Daniel Adel optou pelo caminho contrário.

Grande apreciador da pintura clássica, em especial o barroco holandês, Daniel Adel estudou a técnica da pintura clássica a óleo e a aplica em brilhantes caricaturas que impressionam pela fluidez das pinceladas e pelo desenho gracioso.

Mas também pinta com a mesma maestria retratos, aquarelas, quadros a óleo, além de fotografias, onde se nota a influência da pintura na preocupação das sombras.

Com isso ele tem constantemente colaborado com revistas de prestígio como New-Yorker,

Vanity Fair, The New York

Times, Der Spiegel, Forbes, Time e Esquire, entre outras.

Divide sua vida e seu estúdio entre New York/EUA e

Lacoste/França, onde tem um estúdio e uma galeria.

Estudei História da Arte como uma Pós-Graduação, principalmente pintura barroca, arte clássica e arquitetura.

Além disso, cresci em New Rochelle, NY, que é onde dezenas de ilustradores famosos costumavam viver.

Não havia mais ninguém quando cheguei lá, mas a influência estava no ar.

Norman Rockwell, e JC Leyendecker em particular, dispenderam muito de suas vidas em New Rochelle - Rockwell foi para a mesma escola secundária que eu, embora ele tenha saído para ser o Diretor de Arte da Boy's Life (N.T.: revista dos escoteiros americanos).

Em termos de formação técnica, a maior parte do que eu aprendi veio de livros sobre a técnica de pintura do pré-século 20, bem como o que aprendi na National Academy of Design e na Art Student's League.

Também aprendi muito com o grande Burt Silverman, com quem também estudei.

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Tudo depende de como as revistas e jornais irão fazer a transição para a web, onde todos eles irão estar, inevitavelmente.

Se continuarem a reduzir todas as imagens para o tamanho de um selo, estaremos em tempos difíceis.

Se descobrirem uma maneira de fazer o design de páginas web da forma como fazem o design de revistas, então temos uma chance.

Mas a maior parte da cultura visual parece estar caminhando para a animação. Quando os jovens vêem uma pintura, eles procuram o botão para ver aquilo se mexer.

Então eu acho que a maioria das oportunidades do futuro serão em animação, mais do que em arte estática.

E é por isso que eu estou feliz por ser um pintor...

É um pouco difícil de aferir a partir daqui, da França, mas eu sinto que em todos os mercados, nesses dias, há grandes receios e oposições. Não estou esperando que 2009 seja o meu melhor ano.

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Eu não sigo essa questão muito de perto, porque não tenho muita necessidade de revender aquilo que faço.

O meu trabalho tende a ser associado a momentos específicos e, portanto, tem uma vida curta.

Eu gosto do fato de que há muito desenho acontecendo e gosto da influência da arte do cartoon, que também teve um impacto sobre o meu trabalho ao longo dos anos.

Eu gostaria de ver mais pintura, mas também entendo porque as pessoas querem ficar longe daquilo que poderia ser semelhante a um outro estilo Photoshop.

Pintura também é um trabalho lento e a ilustração precisa ser cada vez mais rápida para ser útil.

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A minha orientação tem sido no sentido da arte e ilustração do passado.

Eu sinto que entre estudantes de ilustração não há muito disso; porém, há um esforço para criar novos estilos no qual, no seu melhor é inovador e no seu pior é um truque.

Penso que, para um estilo durar, ele tem que ser firmado em algumas bases sólidas que a nossa cultura tem construído e onde ele esteve no passado.

Caso contrário arrisca-se a ser rapidamente implementado e rapidamente abandonado.

Mas História e Tempo estão acelerando, e talvez isso seja inevitável.

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Filme: Num cara ou coroa entre "Ben Hur" e "The Incredibles". Embora "300" possa ser o filme mais visualmente cativante que eu já vi.

Livro: "Meu Primo, meu Gastroenterologista" (My Cousin, my Gastroenterologist) por Mark Leyner. Continua sendo para mim o trabalho mais marcante em literatura.

Cidade: Estou tentado a dizer Praga, embora eu a tenha visto antes da Revolução de Veludo, de forma que ela ainda estava congelada no tempo quando eu estive lá e tenho certeza que já não é. Mas é muito difícil de bater Veneza.

Artista: Ainda estou esperando para ficar enjoado de Velasquez e Vermeer, mas isto não está acontecendo.

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