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Maria Elisângela Fagundes da Silva. 1

Eduardo Fonseca. 2

1UFPE

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Palavras-chave: Qualidade de Vida no Trabalho; Tecnologia; Trabalho; Mudanças.

O presente trabalho tem por objetivo investigar as mudanças tecnológicas e a qualidade de vida no trabalho, pois os indivíduos vivenciam os impactos tecnológicos e sociais, tanto no ambiente de trabalho quanto no ambiente social. Além disso, constituem fatores que influenciam, consideravelmente, os papéis exercidos na sociedade, em virtude do significado do trabalho para a vida das pessoas, sendo inclusive um ambiente propício à construção de uma nova identidade que serve de referência profissional. Diante desse cenário, levantamos como os profissionais poderão repensar a relação do individuo com o trabalho e o desenvolvimento das atividades, identificando com uma maior profundidade os aspectos que afetam a Qualidade de Vida no Trabalho, pois em virtude disso muitas pessoas adoecem, condições de trabalho inadequadas e, aos poucos, a perda da vivência da Qualidade de Vida dentro e fora do trabalho. Aliada a tudo isso, verifica-se a alienação, pelos trabalhadores e empresas, acerca do verdadeiro papel das tecnologias no ambiente de trabalho. Com base nessa reflexão, leva-se em conta que é impossível ter uma política de gestão unicamente destinada a atender aos desejos das organizações, mas é preciso uma conciliação dos desejos e comportamentos que tragam resultados positivos para ambos.

Introdução

A sociedade vive hoje rodeada de aparatos tecnológicos. As ferramentas e os canais de comunicação multiplicam-se na mesma velocidade do mundo globalizado. Essa realidade não é diferente para as organizações. As tecnologias estão presentes em todas as organizações, e suas implicações nos relacionamentos já são notórias.

Já se tem conhecimento sobre os inúmeros questionamentos, os mitos e a realidade sobre a relevância dos avanços tecnológicos no sentido de possibilitar a vivência da qualidade de vida no trabalho. Mas será que as organizações e/ou os indivíduos estão preparados para usar conscientemente os diversos recursos modernos, além das diversas possibilidades de usá-los como parceiros no desenvolvimento de programas de Qualidade de Vida no Trabalho, ou estão visando apenas à produtividade, o lucro e a competitividade empresarial/pessoal?

Para um maior embasamento e clareza que permeiam esta pesquisa bibliográfica, foi indispensável começar buscando orientação em alguns estudiosos nas questões que estão elencadas e subdivididas no decorrer dos capítulos, com o objetivo de investigar e analisar até que ponto os avanços tecnológicos contribuem para a vivência da Qualidade de Vida no Trabalho.

O objetivo foi especificamente investigar a temática de forma a organizar os conhecimentos para verificar quais as mudanças tecnológicas e a qualidade de vida no trabalho. Diante disso, constatamos, em meio a inúmeros estudos, que a inserção de tecnologias no ambiente de trabalho e a interação do indivíduo com essas interfaces transformam consideravelmente a vida profissional e social das pessoas, alteram-se comportamentos, atitudes, expectativas e relacionamentos, influenciando assim na vida familiar, social e profissional. As formas como os indivíduos se ajustam, ou seja, interagem a esse fenômeno, quase sempre se refletem na personalidade e no estilo de vida que vêm mantendo. Se, por um lado, ocorre a perda da rotina, estresse, isolamento, frustração, medo e etc, por outro lado, quando analisadas e entendidas, as tecnologias podem trazer muitos benefícios, como: descobertas na área da medicina, aperfeiçoamento da ergonomia, comunicação, oportunidades de novos aprendizados e interação com o mundo, além da possibilidade de adquirir novos conhecimentos.

Cabe aqui salientar as palavras de Itani (1997, p.15) quando refere que “a análise da

No decorrer deste trabalho, demonstraremos que é preciso considerar o potencial transformador das tecnologias nas áreas econômica, social e cultural e, principalmente, nas relações interpessoais que envolvem o âmbito organizacional, influenciando a qualidade de vida do trabalhador. E diante dessa constatação, pretendemos contribuir para a reflexão a respeito das implicações do uso das tecnologias no ambiente de trabalho, pois não se busca evidenciar simplesmente as tecnologias como objeto de estudo, e sim a relação que elas mantêm com seus usuários no processo de interação. relação do trabalhador com o trabalho não pode ser examinada senão sobre sua experiência concreta dentro das condições em que ela se envolve.”

Diante dessas observações, surgiu o interesse em entender as causas e as consequências que ocorrem com as pessoas quando passam a utilizar os recursos tecnológicos e como produzem sentidos e diferentes formas de subjetivação. Também procura compreender a relação sujeito e trabalho/organização, considerando que esse processo envolve desejos, necessidades ou expectativas pessoal, social e econômica, que são, muitas vezes, antagônicas, entendendo-se tal relação como diferentes formas de percepção. Além disso, visamos analisar as transformações nas relações que as pessoas estabelecem a partir do uso de uma nova ferramenta de trabalho. Assim sendo, percebe-se que os efeitos das tecnologias nas organizações são potencialmente interessantes não só para os pesquisadores da área técnica, mas, e principalmente, para aqueles que mantêm contato diretamente com as pessoas envolvidas.

Novas Tecnologias e os Impactos no Mundo do Trabalho

A palavra que define o momento no mundo contemporâneo do trabalho é “mudança”. Em boa medida, essa palavra vem das diversas transformações decorrentes do rápido desenvolvimento econômico, cultural e social. Um cenário como esse não pode deixar de apresentar impactos – diretos e indiretos – nos níveis individual, coletivo, social e organizacional, além de novas formas e estruturas de trabalho que envolvem a classe trabalhadora moderna. Para

heterogênea e complexa, havendo também um aumento significativo no setor de serviços: “as
serviços” (ANTUNES, 2003, p. 56).

Antunes (2003), diante desse cenário a classe trabalhadora se tornou mais fragmentada, mutações organizacionais, tecnológicas e de gestão também afetaram o mundo do trabalho nos

devemos também considerar que “há um processo heterogêneo e complexo quando se analisa
compõem essa classe, onde podemos investigar e entender por meio de uma “concepção

Mesmo havendo uma conexão entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, é fato que a forma de ser da classe trabalhadora atualmente”(ANTUNES, 2003, p. 54). Podemos também analisar a classe trabalhadora em duas vertentes: individual e global, pois há diversas facetas que ampliada de trabalho” (ANTUNES, 2003, p. 59)

No sentido de se compreender tais fenômenos, este capítulo assinala as diversas abordagens de especialistas e profissionais diante dessas transformações, o papel das novas tecnologias no ambiente organizacional, a construção de uma nova identidade e a análise do comportamento do trabalhador. O objetivo é fornecer subsídios que possam dirimir esses efeitos no local de trabalho.

O papel das novas tecnologias no ambiente organizacional

para Ferreira (2006, p. 20), o trabalhador: “não percebe o condicionamento ao qual está sendo

Vivenciamos uma era de mudanças tecnológicas, onde os indivíduos se sentem pressionados a mudar de paradigmas e de comportamento, ou seja, são obrigados a adequar-se ao ambiente moderno. Todavia, para incentivar a inserção desses indivíduos no ambiente tecnológico é preciso, antes de tudo, conscientizá-los no sentido de utilizar os novos recursos da melhor forma possível, a fim de proporcionar uma qualidade de vida satisfatória. Até porque, submetido, assumindo as consequências da tecnologia, no instante em que ele toma para si a necessidade de estar sempre atualizado para não ser descartado da estrutura, e para ser competitivo tem-se de conhecer cada vez mais, e desta maneira maioria das vezes não discute a velocidade com que avança a tecnologia, e sim apenas procurando adequar-se a essa realidade.”

A atuação das organizações nesse ambiente não fica restrita apenas à inserção, no uso e valor produtivo, das novas tecnologias. Pelo contrário, ela se legitima por meio desses recursos em diversas esferas, desde as necessidades fisiológicas até o fornecimento de capacitação para o conhecimento intelectual, valores éticos e morais dos trabalhadores.

Ao contrário do que se possa afirmar sobre as causas das mudanças organizacionais na vida dos indivíduos e sobre o uso das tecnologias, para Sennett (2000) não é apenas a inserção de novas tecnologias, mas também a importância exagerada no sentido de usar, no maior tempo possível, a força intelectual e física dos indivíduos para a produtividade no novo capitalismo, conforme podemos visualizar na afirmação do autor: “É a dimensão do tempo do novo capitalismo, e não a transmissão de dados high-tech, os mercados de ação globais ou o livre comércio, que mais diretamente afeta a vida emocional das pessoas fora do local de trabalho” (SENNETT, 2000, p. 25).

E quando se tem a evolução da tecnologia como único culpado pelas transformações no mundo, esquece-se da importância desses avanços que alicerçam todo esse ambiente (cultural, econômico e social), que é o mundo do trabalho (FERREIRA, 2006).

Abordando ainda como as tecnologias podem ser visualizadas em outro prisma, Mattoso (2000) destaca, inclusive, que mesmo gerando consequências desastrosas para a vida do trabalhador, como o desemprego, tais tecnologias são excelentes para proporcionar oportunidades, tanto profissionais quanto pessoais, para o indivíduo. E completa, afirmando: “Esse resultado não precisa necessariamente ser mais desemprego. Pode ser mais emprego, consumo, tempo livre...” (MATTOSO, 2000, p. 117) Nessa mesma perspectiva, Schumpeter (1968) apud Mattoso (2000) observa: “A inovação tecnológica assumiria uma dupla dimensão: por um lado, poderia favorecer o emprego em períodos de expansão do ciclo econômico e, por outro, poderia ser um fator de agravamento durante as depressões, quando emergiria o desemprego tecnológico, como parte do desemprego cíclico” (MATTOSO, 2000, p. 116).

Ainda é verdade que os avanços tecnológicos podem trazer, mediante sua exploração, resultados positivos, como a utilização de interfaces que auxiliam no desenvolvimento das funções rotineiras, repetitivas e degradantes. Além disso, pode desenvolver profissionais multidisciplinares e uma melhor qualidade e rapidez do serviço, trazendo como possível consequência uma redução do período de trabalho necessário para suprir as necessidades do individuo (LARANJEIRA, 2000). Também podemos verificar em Augusto et al (2008, p. 57) o aspecto positivo das tecnologias no ambiente de trabalho, no seguinte trecho: “No que diz respeito às relações de trabalho, pôde-se concluir que as inovações tecnológicas otimizam o funcionamento dos processos e da infraestrutura da organização, bem como criam novas oportunidades de emprego”. Mas o mesmo autor também admite que: “Por outro lado, eliminam postos de trabalho e distanciam o trabalhador do entendimento do processo como um todo” (AUGUSTO et al, 2008, p.57).

Para Pereira Júnior & Caetano (2009), é preciso cautela na forma como as organizações e os trabalhadores utilizam os recursos tecnológicos, pois é imprescindível estar atento aos mitos, promessas e excessos que acompanham esses recursos. Podemos perceber que, na maioria das vezes, os indivíduos não usam eficientemente os recursos tecnológicos dos quais dispõem, em decorrência dos mitos que são alimentados sobre o papel e possibilidades de utilização das interfaces modernas no ambiente organizacional e social (VILELA JUNIOR, 2007). Essa afirmação é observada no seguinte trecho do ensaio: “Novas tecnologias e velhos problemas; afinal, muitas vezes não conseguimos usar da melhor maneira a tecnologia que dispomos.” (VILELA JÚNIOR, 2007, p. 130-131). O autor ainda adverte que é preciso não somente usufruir as novas tecnologias, mas também fazer uma reflexão sobre os impactos dessa utilização, tanto para a vida do indivíduo como para os impactos sociais. Essa reflexão engloba as políticas públicas para a inclusão digital, proporcionando um desenvolvimento da cidadania e da qualidade de vida. Todavia, ao falarmos em inclusão digital é necessário promover também a inclusão social, pois, para o autor, as duas ações devem estar em constante sintonia.

A construção de uma nova identidade

Diante disso, Natividade (2009, p. 413) complementa essa construção com o seguinte trecho: “

Temos como definição de “identidade” o conceito de Natividade (2009, p.413): “A identidade se constrói e reconstrói no decorrer da vida do sujeito, no decorrer das mudanças em suas relações interpessoais. Isso porque as relações e os meios sociais também vão se alterando. Dessa forma, esse processo de construção e reconstrução ocorre sempre de forma diferenciada...”. por isso, Ciampa (1997) chama esse processo de “metamorfose””. Com base nesse conceito, podemos verificar que a identidade é uma temática dinâmica, adotada frequentemente para compreender a inserção do sujeito no mundo e sua relação com o outro, como ainda menciona Natividade & Brasil (2006) apud Natividade (2009, p. 413): “Compreendendo que o sujeito se constitui nas relações que estabelece com seu meio e que “as organizações onde se fundamentam e se desenvolvem as atividades profissionais constituem um espaço privilegiado na formação dessas identidades”.

É fato que a sociedade organizacional, ao longo dos anos, vem sofrendo profundas modificações, como a evolução tecnológica, a globalização e a era da informação, fazendo com que surgissem diversos problemas relacionados à identidade profissional e social do indivíduo. A constante busca desses avanços pelas organizações faz a cada momento originar novas regras, métodos e exigências, ocasionando com isso a necessidade de o indivíduo se adequar a esse novo cenário, como menciona Sennett (2002, p. 09): “Pede-se aos trabalhadores que sejam ágeis, estejam abertos a mudanças em curto prazo, assumam riscos continuamente, dependam cada vez menos de leis e procedimentos formais.” Itani (1997) concorda com essa constatação quando diz: “O trabalhador é submetido a novas exigências de qualificação e vê o conteúdo de seu trabalho modificando-se. Nesse movimento de mudança, de novas exigências para ocupar um posto com novos conteúdos, como o trabalhador se vê diante da questão profissional e como elabora as novas atividades de trabalho? (ITANI, 1997, p. 16). Essas mudanças mundiais não ocorrem apenas como um acontecimento externo; ao contrário, vem influenciar os aspectos subjetivos dos indivíduos. Em virtude disso, há uma dificuldade para se definir uma identidade profissional de uma pessoa.

virtude disso, segundo ele, o individuo: “vive num mundo caracterizado, ao contrário, pela

Nesse contexto social vigente, especificamente no cenário do mundo do trabalho, reforçase a fragmentação da identidade profissional dos sujeitos e, em virtude disso, vem ressaltar a fragilidade da identidade, tanto profissional quanto social, contribuindo para um sentimento de “Deriva”, como bem menciona Sennett (2000, p. 9): “O capitalismo flexível bloqueou a estrada reta da carreira, desviando de repente os empregados de um tipo de trabalho para outro”. Em flexibilidade e o fluxo a curto prazo; esse mundo não oferece muita coisa, econômica ou socialmente, para a narrativa” (SENNETT, 2000, p. 32). O sociólogo Sennett (2000) ainda constata que, diante das transformações ocorridas no espaço do trabalho, há um aumento da quantidade de tarefas, porém sem a compatibilidade com as diversas necessidades dos indivíduos, como: salário, qualidade de vida no trabalho, motivação e possibilidade de crescimento profissional, entre outros. Enfim, há uma perda da identidade profissional e social. Nesse cenário, o trabalhador fica desprovido de uma identidade sólida e sustentável, com bem constata Ferreira (2006, p. 16): “Este sistema traduz toda a alienação do trabalhador, onde o mesmo não reconhece seu trabalho no produto, instituindo-se uma relação de mais-valia.”

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