A Casa de Vidro de Lina Bo Bardi

A Casa de Vidro de Lina Bo Bardi

FACULDADE IDEAL – FACI

CURSO: ARQUITETURA E URBANISMO

SÉRGIO DE ABREU

Matéria: Estudo de Espaço Arquitetônico e urbano

ANÁLISE DA CASA DE VIDRO DE LINA BO BARDI

Através dos conceitos de Maria Lúcia Malard e Edson Mahfuz.

BELÉM

2013

1. Introdução:

O presente trabalho teve como intuito fazer análises sobre “A Casa de Vidro”, projeto arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, para sua própria residência.

Considerada um marco na arquitetura modernista e que muito contribuiu para a relevância deste movimento em sua versão brasileira.

A partir da pesquisa de fontes primárias dos arquivos do Instituto Lina Bo Bardi, sites na internet este estudo teve coo intenção, levantar e interpretar o percurso de elaboração do referido projeto.

Dois textos: “As aparências em arquitetura” de Maria Lucia Malard e “Nada provém do nada” de Edson Mahfuz, foram fundamentais na elaboração deste trabalho que é examinada em seus vários aspectos, confrontando as limitações de sua realização e concepção.

Por fim, o trabalho buscou explorar o sentido mais profundo da concepção da obra, seus aspectos positivos e o seu papel, como peça de embasamento arquitetônico.

Parte I

Análise da casa de vidro de Lina Bo Bardi Através dos conceitos de Maria Lúcia Malard.

Arquitetura é experiência. É algo a ser sentido e vivido, está na necessidade do funcional, da beleza, da estética e da harmonia e do desejo.

Elementos que permitem uma profunda interação com os meios onde se inserem. Justamente onde a história social acaba de alguma forma impressa nos obras ou edificações que fazem parte da vida das pessoas.

A análise da “Casa de Vidro” permite uma abordagem muito interessante desta experiência, pois explora o processo de humanização que arquitetura carrega e necessita para funcionar, que se aplicam não apenas ao espaço geométrico (Malard, 2006) mas à sensibilidade das pessoas, carregando marcas profundas de quem as utiliza. Edificações e objetos são preciosos depósitos da memória, material impregnado de informações curiosas que esperam por uma interpretação apurada, capaz de resgatar os pedaços de uma história perdida, ou menosprezada. Nesse evento de resgate pode-se compreender os modos como a ideologia e os conceitos vão se infiltrando gradativamente e se metamorfoseando nas mais profundas esferas dos sentimentos pessoais.

Partindo-se do princípio da indissociabilidade do homem e do mundo a Casa de Vidro” se encaixa perfeitamente neste contexto, já que a transparência do material utilizado, permite uma comunicação intensa, original e até orgânica com a natureza.

Os croquis da autora permitem uma análise empírica do projeto. Pois é possível ver que o conceito original estava em introduzir a construção ao terreno de forma mais natural possível, tanto que muito lembra assentamento de casas rurais em alguma regiões do país. (fig.01& 02)

Casas construídas em regiões serranas Fig. 01 & 02

É possível ainda ver nos estudos iniciais a preocupação em instalar as dependências em um único volume, otimizando a funcionalidade ou pela facilidade de construção. Pressupondo a autonomia do volume da construção em relação ao perfil do terreno.

Croquis de Lina Bo Bardi - Fig. 03 & 04

Posteriormente em uma etapa mais desenvolvida, quando foi necessário organizar a disposição de cada uma das dependências e buscar uma melhor acomodação ao terreno, começam aparecer alternativas de organização que mudam o esquema de volumetria única. Destacando-se aquela cuja distribuição contém um volume principal de grandes dimensões, suspenso por pilares e outro de acentuado desenvolvimento linear, apoiado diretamente sobre o solo. Esta associação de dois volumes parece já conter, num estágio ainda preliminar, o esquema adotado na solução final.

As dependências principais da casa estão interligadas por passagens e por corredores que se conectam de forma funcional, destacando a copa/cozinha que liga a parte frontal com a parte traseira da casa onde estão as dependências de serviço. Aqui a autora do projeto foi feliz nesta separação em parte, pois ainda permanece aqui o sentimento de isolação, embora integrada, com esta parte da casa. Tornando-a pouco visitada pelos proprietários.

Como neste caso, a liberdade de movimento (embora fisícamente haja) parece ser o conceito mais importante neste projeto, identifica-se aqui a necessidade de uma correção.

Naturalmente que estas observações em nada diminuem a importância da obra, mas tem o propósito apenas de elencar alguns aspectos que à luz dos dias de hoje, poderiam ser melhorados.

Os jardins que circundam a casa dão um toque original e criativo ao projeto, que integralizados a ambiência, apenas confirmam a noção de “espaço vivido” (Mlard,2006) Este conceito é perceptível, quando determinadas áreas foram deixadas para que a vegetação “penetrasse” no projeto, ao invés de apenas serem elementos isolados no exterior. O que nos deixa com uma sensação poética de algo que ficou parado no tempo (fig 05).

Fig. 05 & 06

No entanto, pressupondo-se que os valores se traduzem no contato, nos hábitos, nos rituais de comportamento e a despeito da geometria da casa, creio que sendo o homem a parte mais “fraca” ou suscetível nesta experiência. E o vidro sendo o material de grande performance na obra, conectam-se de forma exemplar. Pois funcionando como uma redoma invisível de proteção traz ao mesmo tempo a segurança contra as vicissitudes naturais não interferindo no evento ou na conexão com o ambiente onde estão inseridos homem e edificação (fig.06).

RAPOPORT (1986) apud Malard (2006), diz que quando os ambientes são projetados, quatro elementos são organizados: espaço, significado, comunicação e tempo. Já se demonstrou que o homem quando espacializa suas intenções, atribui o significado ao espaço, uma vez que dispõe objetos, marcas e cômodos de acordo com o quer fazer naquele ambiente.

Ora, partindo-se deste argumento fica fácil entender que o processo de criação deverá ser dinâmico e coerente com as necessidades exigidas pela experiência de quem as utilizará.

A conclusão a que se chega é de que ainda neste contexto, a “Casa de Vidro” de Lina Bo Bardi vem sendo uma espécie de tradução da habitação essencial, a realização desta obra parece ter sido também a oportunidade de ensaiar formas ideais da habitação moderna. Tais como hoje muito se vê em habitações de cunho econômicos, sejam eles de ordem financeira ou de detalhes puramente estéticos.

Parte II

Análise da casa de vidro de Lina Bo Bardi Através dos conceitos de Edson Mahfuz.

“Para saber escrever é preciso saber ler” (Borges, Jorge Luis) apud Mahfuz (1984). Serve para no mínimo dar uma ideia que para fazer arquitetura de boa qualidade é necessário também conhecer história, o passado cultural que se perpetualiza nas dobras do tempo e que muita informação oferece para os olhos atentos. E essa busca de relações com o passado cultural, permite uma liberdade que se pudesse ser traduzida em outras palavras, seria “Que a prática da boa arquitetura está intrinsicamente aliada ao conhecimento”.

Embora seja muito defendido os moldes que a Bauhaus estabeleceu, desde sua fundação, em áreas como arquitetura, artes plástica e design. Onde a liberdade de expressão era uma forte vertente em busca da originalidade. Entretanto também é possível conceber (até de maneira lógica) que mesmo estes “moldes” careciam de conhecimento cultural para provocar a ideia romântica da criação de projetos originais. Ou de que maneira se poderia desconstruir o que não existe?.

Sendo a arquitetura uma prática que precisa da teoria para embasar e dar valor aos seus conceitos. Parece difícil defender o ideal de exclusão do conhecimento histórico como fonte de alimentação ou informação para novas ideias.

E é justamente neste contexto que entra a “Casa de Vidro” de Lina Bo Bardi.

Uma das expressões da arquitetura modernista brasileira e que em uma análise mais acurada poderemos facilmente identificar os métodos utilizados. Métodos estes que de uma forma ou outra tornaram-se condições estabelecidas e embasadas pelo valor histórico da arquitetura.

Segundo Mahfuz (Mahfuz, 1984) formas arquitetônicas são gerada de quatro maneiras através dos métodos: Inovativos, normativo, tipológico e mimético.

São estes métodos maneiras concebidas e estudadas que tentam “encaixar” por assim dizer, a produção arquitetônica desenvolvida e que pode apresentar todos ou alguns destes métodos em combinações diferentes. (Embora nem sempre ao mesmo tempo), e assim tentar entendê-los na sua concepção original. O que permite através da análise e à luz destes métodos a “Casa de Vidro” de Lina Bo Bardi, “aparecer” e tomar forma.

Método inovativo. Neste método entre as várias características inerentes, o fator como o próprio nome já diz, inovação é um deles. E é justamente neste que percebemos que a “Casa de Vidro” teve sua performance principal.

Foi inovadora se não no sentido de configuração arquitetônica, foi inovadora no exato momento em que trouxe a novidade ao meio doméstico (talvez, ou pelo menos no Brasil), ou quando quebrando a homogeneidade do contexto onde foi inserida. Divergindo do que até então havia se estabelecido para este tipo de construção. Desde da utilização do vidro como material empregado em grande parte da estrutura, trouxe-lhe a autenticidade necessária permitindo ser o ponto de partida para futuras experiências. A Inovação pode estar implícita também na experiência da vivência de “estar nu” rodeado pela floresta. Quando até então, em construções similares as paredes desempenhavam o papel de proteção física e visual.

Já o método normativo neste caso, é caracterizado pelas formas arquitetônicas que buscam auxílio nas formas geométricas para obter sua estética. Isso é notável, quando percebemos o uso de cubos na composição dos espaços e aparência, criando assim uma ordem natural ao movimento e aos espaços. E ao mesmo tempo sugerindo e determinando locais.

O uso do método normativo, é possível ser identificado também quando analisamos a malha tridimensional aplicada. Percebe-se que o retângulo frontal tem uma harmonia provavelmente orientada na razão áurea, o que lhe confere a agradabilidade visual, já muito conhecida pelos antigos gregos. Tornando-a uma expressão de simetria, de harmonia e rara estética.

O método tipológico se apresenta na utilização e disponibilização da área principal da casa no primeiro andar, similar aos conhecidos piano nobile (Mahfuz, 1984). Também na utilização dos sistema de pilotis como colunas de sustentação do plano principal da residência e que ainda em um plano iconográfico associa-se à lembrança de palafitas, cujas estruturas tem o mesmo perfil embora com atuações diferentes.

E por fim o método mimético pode ser aqui ser identificado por várias situações que já estão inclusas em outros métodos. Mas valendo destacar-se o conceito mimético aristotélico, pela livre associação dos elementos geométricos (cubos, retângulos e cilindros) que geraram uma analogia estilística, permitindo a combinação necessária para resolver o problema da arquitetura.

Lina Bo Bardi se utiliza do método mimético na própria concepção do projeto, pois fica evidente que foi construído à maneira de casas nas encostas de morros ou colinas em regiões serranas, fazendo uso dos mesmos elementos (a projeção apoiada em sistemas de pilotis) como muito se vê na zona rural de certas regiões do Brasil e em morros do Rio de Janeiro (fig.07&08).

Fig.07 & 08

A despeito da diversas opiniões positivas ou negativas sobre a “Casa de Vidro” de Lina Bo Bardi. O importante é que trata-se sem dúvida de um grande marco na arquitetura brasileira. Sendo essa talvez uma forma de retribuição criativa e generosa para o país que esta européia adotou como pátria.

Mas o que aqui se discute na verdade, são as noções apresentadas no ensaio de Mahfuz, que certamente irão gerar um desenvolvimento extremamente positivo na busca pela arte de fazer arquitetura com conhecimento.

Conhecimento este que muito poderá produzir profissionais que saibam como “reinventar” as necessidades da arquitetura de forma criativa. Adaptando-se aos novos tempos e novos materiais.

Parte III

Análise físico-visual da casa de vidro.

Outros aspectos são de grande interesse para melhor compreender onde se aplicam o partido arquitetônico. Entre eles podemos elencar:

3.1- Iluminação

A análise visual da fonte de iluminação direta e indireta do edifício. Permite perceber que quase em sua totalidade o prédio é iluminado pela luz natural.

3.2- Espaço - uso.

A análise visual do espaço de uso, permite entender a sua utilização em uma porcentagem aproximada de 41% para área social, 34% para a íntima, 20% para a de serviço e 5% para o acesso.

3.3- Circulação.

Uma análise empírica da circulação interna no edifício, permitiria um fluxo mais ou menos neste esquema.

3.4- Estrutura.

A análise visual da malha estrutural mostra um sistema de apoio em pilotis e as paredes do andar térreo onde estão as colunas de sustentação da edificação. Gerando uma organização do edifício em dois níveis. Neste esquema aparece claramente definida a malha estrutural distribuída em vãos regulares com dimensões em torno de 5 metros.

3.5- Massa.

A análise visual da massa da edificação no terreno.

3.6- Simetria.

A análise visual externa da casa de vidro, possibilita entender que existe uma simetria nas linhas, em sua parte frontal, sendo assimétrica quanto a parte lateral. Em todo caso, a utilização de cubos foram essenciais no balanço visual e responsáveis pelas linhas elegantes.

3. Conclusão.

O presente estudo trouxe uma carga de informação que certamente se fosse de outra maneira, não atingiria o objetivo com a mesma proporção conseguida.

As diversa possibilidades, a clareza através da luz teórica, a dissecação das formas, formataram um processo precioso de aprendizado.

A dificuldade de conceituar o que é um princípio, nos força muita vezes a fazê-lo a partir de uma definição inicialmente negativa. Entretanto através da comparação com as regras e confrontos com com estudos mais elaborados a sensação se torna gradativamente contrária. E aquilo que era obscuro, vai se tornando, claro, belo e eloquente.

Sendo um adepto das linhas e materiais modernos, torno-me suspeito em defender “ A Casa de Vidro” sobre tais aspectos, mas procuro aqui oferecer apenas uma visão empírica (onírica talvez), a discutir fatos ou detalhes (ou defeitos) construtivos que porventura possam haver na obra. Uma vez que isto demandaria uma análise mais acurada e visual da casa.

O textos pesquisados formaram a luz neste caminho que permitiu ver, a certeza de que a arquiteta Lina Bo Bardi, nos seus 35 anos de produção, de 1947, quando chega ao Brasil, a 1992 quando falece, apresenta uma trajetória de competência em suas obras.

É possível ainda identificar neste processo um raro não conformismo em seus projetos. A busca ou orientação de um tipo de raciocínio que nunca permitiu se levar pelo pré-conceito, muita vezes nódoa da cultura ou costume. O que aqui se viu, nunca prevaleceu.

Bibliografia

MAHFUZ, E. C. – Nada provém do nada: A produção arquitetônica vista como transformação do conhecimento

MALARD, Maria Lúcia – As aparências em Arquitetura.

CARRILHO, Marcos José - A Casa de Vidro Professor Universidade Mackenzie, Arquiteto IPHAN

Imagens

http://www.colegiodearquitetos.com.br/dicionario/07/02/2009/o-que-e-urbanismo/

http://casasbrasileiras.wordpress.com/2010/09/23/a-casa-de-vidro-lina-bo-bardi/

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