As histórias em quadrinhos na educação-possibilidades de um recurso didático pedagogico

As histórias em quadrinhos na educação-possibilidades de um recurso didático...

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Revista Eletrônica de Ciências Humanas, Letras e Artes

Gustavo Cunha de Araújo (UFU)1

Maurício Alves da Costa (UFU) 2

Evânio Bezerra da Costa (UFU) 3

RESUMO: O presente artigo visa analisar a importância das Histórias em Quadrinhos inseridas na sala de aula como recurso didático-pedagógico e refletir sobre o seu uso em oficinas e minicursos realizados com este tema na Universidade Federal de Uberlândia. Os objetivos propostos inicialmente foram analisar a importância e os benefícios que este meio de comunicação de massa pode trazer para a educação, ao serem inseridos como instrumento pedagógico na escola e na universidade. Este estudo pretende ainda compreender a relação que esta forma de arte tem no processo educativo e de ensino e aprendizagem da criança, auxiliando a aqueles que ainda não sabem ler ou escrever corretamente, ou seja, as histórias em quadrinhos são mecanismos fundamentais e não prejudiciais para o processo de ensino e aprendizagem do aluno.

Palavras-chave: histórias em quadrinhos, comunicação, educação, recurso didático-pedagógico.

ABSTRACT: This article aims to analyse the importance of stories in Comics inserted in the classroom as a resource didactic-pedagogic and reflect on its use in workshops and mini-courses taken with this issue at the Federal University of Uberlândia. The objectives were initially examine the importance and the benefits that this means of mass communication can bring to education, to be inserted as a pedagogical tool in school. This study also seeks to understand the relationship that this form of art has in the educational process and teaching and learning of children, helping it to those who still can not read or write properly, or the stories in comics are fundamental mechanisms and not harmful to the process of literacy and writing of student.

Keywords: stories in comics, communication, education, action didactic-pedagogic. O interesse da educação nas histórias em quadrinhos

1 Acadêmico do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia e bolsista da FAPEMIG de Iniciação Científica. E-mail: gustavocaraujo@yahoo.com.br 2 Acadêmico do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia e ilustrador de histórias em quadrinhos. E-mail: mauricio_ac8@yahoo.com.br 3 Graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Uberlândia e professor de Ensino de Arte da rede municipal e estadual da cidade de Uberlândia/MG e Prata/MG. E-mail: jimmyrus13@yahoo.com.br

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Revista Eletrônica de Ciências Humanas, Letras e Artes esde a antiguidade, a arte ocupa papel relevante na vida das pessoas e na sociedade em geral, como modo de manifestação artística e de comunicação, além de interagirem estes indivíduos com o meio social em que estão inseridos, proporcionando-lhes experiências individuais e coletivas das mais diversas, importantes e necessárias para essa socialização do ser humano com a sociedade. A arte é tão importante para a vida das pessoas, que Barbosa (1991, p. 27) é sucinta em suas palavras ao nos dizer que “[...] se a arte não fosse importante não existiria desde o tempo das cavernas, resistindo a todas as tentativas de menosprezo”.

Sabe-se que esta antiga forma de arte e de expressão já existia desde pinturas ou desenhos realizados pelo homem pré-histórico, que representavam imagens de animais caçados ou abatidos por este e, que ao longo de nossa história, foram sendo veiculadas de diversas formas e disseminando informações das mais diferentes maneiras, resultando em imagens bíblicas, de impressos literários, publicitários e escolares, até chegar à forma de tiras em jornais e revistas de histórias em quadrinhos, que acabaram se tornando grandes veículos de comunicação popular em todo o mundo.

Atuando e desenvolvendo pesquisas desde 2005 com o tema Arte Seqüencial4 –

Histórias em Quadrinhos – e em especial, realizando oficinas de quadrinhos dentro e fora da Universidade Federal de Uberlândia, observamos que o tema em si tem despertado o interesse de diversos alunos e professores, que vêem nessa linguagem, um meio de comunicação e de produção artística sem equivalentes. Diante disso, por meio de estudos5

Acreditamos que, por mais que os quadrinhos tenham passado por algum tipo de obstáculo, no que diz respeito especificamente a sua aceitação como instrumento didático, a sua inserção no meio acadêmico só ocorreu devido à influência de pessoas respeitadas no mundo artístico como o americano Roy Lichtenstein, artista da Pop Art realizados em âmbito acadêmico e, que envolvem esse tema, percebemos também o quanto os quadrinhos vêm sendo estudados na universidade nos dias atuais. Podemos observar que por mais que tenha algum obstáculo a essa temática, com relação a sua linguagem, diversos docentes, discentes e pesquisadores da área de Comunicação e de Educação estão desenvolvendo pesquisas em torno deste tema, contribuindo para a produção de conhecimento.

Alguns eventos realizados ao longo dos anos envolvendo os quadrinhos como o

, em meados do século passado, ter explorado a estrutura gráfica dos quadrinhos em suas obras e, de pesquisadores de renome nacional (CIRNE, 1970; LUYTEN, 2005; MOYA, 1977; SANTOS, 2001; VERGUEIRO, 1998, 2004) utilizarem os quadrinhos como objeto de estudo em suas pesquisas cientificas, contribuindo de forma relevante para estudos sobre comunicações visuais inseridos na educação.

4 Este termo foi criado pelo estudioso e “quadrinhista” norte americano Will Eisner, falecido no inicio deste século, e considerado por muitos das áreas de comunicação e artes, o “pai” das histórias em quadrinhos, por ter contribuindo de forma relevante para a linguagem e produção deste meio de comunicação e artístico para a sociedade. 5 O interesse em pesquisar este tema foi movido pelos constantes estudos realizados por um grupo de estudantes da Universidade Federal de Uberlândia e por um professor da rede municipal e estadual de ensino desta cidade, que focam o tema “história me quadrinho” em pesquisas de caráter cientifico, e por meio do interesse de alunos que participaram de oficinas e minicursos promovidos por essas mesmas pessoas, que abordaram este tema e que foram realizados ao longo dos últimos três anos nesta mesma instituição e em escolas estaduais e municipais da cidade de Uberlândia. 6 Movimento artístico surgindo nos Estados Unidos em meados do século passado e que tinha como principal característica a utilização de elementos da cultura de massa (como os quadrinhos, a televisão, jornais, etc.) em obras de artistas daquela época e que influenciaram bastante os artistas contemporâneos.

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Congresso Internacional de Lucca, na Itália e, a exposição de histórias em quadrinhos no MASP7, ocorrida na década de 70, aliados a I Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, ocorrida nesta mesma cidade, foi o boom para que várias pessoas passassem a se interessarem por este produto de comunicação de massa. A própria Universidade Federal de Uberlândia se mostra presente em eventos que envolvem tal tema, ao oferecer oficinas e mini-cursos de histórias em quadrinhos como o que aconteceu no Festival de Arte8, ocorrido em 2005, 2006, 2007 e, também na Calourada9

Seguindo este pressuposto, concordamos com Vergueiro (2004) quando ele nos fala que o Brasil é o pioneiro em pesquisas de histórias em quadrinhos na universidade. Pois, segundo ele, foi na instituição de ensino superior de Brasília (UNB) que foi criada a primeira disciplina de história em quadrinhos em um curso de graduação e, que foi logo seguida por pesquisa de professores de outras instituições superiores de ensino, como as Universidades Federais de Fluminense e a Federal de Uberlândia, destacando esta última pela presença da disciplina de Histórias em Quadrinhos como optativa dos cursos de Artes Visuais (licenciatura e bacharelado) e de Letras (licenciatura).

Essas iniciativas voltadas a estudos de histórias em quadrinhos serviram de incentivo para que outras pessoas passassem a se interessarem por estudos mais aprofundados que dizem respeito a este meio de comunicação e, que também pode ser didático, ou seja, aqueles que já as estudavam, continuaram cada vez mais a investigar os quadrinhos só, que agora, com um aporte teórico de consulta mais completo, que pode ser mais bem encontrado em monografias, dissertações, teses e em diversos artigos científicos, como nos de Caputo (2003), Vergueiro (2004) e Luyten (2005).

Entretanto, é importante ressaltarmos que por mais que haja pesquisas sobre quadrinhos na universidade e, que estas estão crescendo cada vez mais neste meio, como o que acontece no grupo de pesquisa em história em quadrinhos da Universidade Federal de Uberlândia, nem sempre as atividades de pesquisa que envolvem esta temática recebem incentivo ou apoio da própria instituição de ensino superior, o que não acontece na Universidade Federal de Uberlândia.

Acreditamos que o possível “desinteresse” por parte de algumas pessoas, sobre os quadrinhos, durante anos a fio, necessita de uma explanação, pois, como explicar segundo Haag (2005, p. 86) “uma mídia que na década de 1960, chegava a vender espantosos 240 milhões de exemplares anuais em um país cuja população não passava dos 5 milhões?” De fato, esta afirmação nos remete a dizer que, o faturamento das editoras pela produção e disseminação das revistas de histórias em quadrinhos no país, se deve muito a iniciativas de alguns editores que acreditavam nesse sucesso. Essa nova empreitada, porém, não se iniciou de imediato, pois alguns empresários (como o próprio jornalista e empresário já falecido e, de conhecimento nosso, Roberto Marinho) não acreditavam em um imediato sucesso destas “revistinhas”. Neste sentido, Haag (2005, p. 86-87) nos diz que:

7 Museu de Arte de São Paulo. 8 Evento que é promovido e organizado pela Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais e pelo Departamento de Artes Visuais, da Universidade Federal de Uberlândia para discussões sobre temas e pesquisas relevantes para a área das artes, apresentações de trabalho e artísticos e que ocorre anualmente. 9 Evento que ocorre semestralmente na Universidade Federal de Uberlândia que tem como objetivo, além de promover apresentações musicais e artísticas/culturais, receber de forma “calorosa” os novos ingressantes (alunos) à instituição.

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Dos quatro maiores empresários da imprensa brasileira no século 20, três começaram no segmento de revistas como editores de quadrinhos: Roberto Marinho, Adolfo Aizen e Victor Civita (a Editora Abril nasceu em 1950 com um gibi, “o raio vermelho” e, depois, arrebatou o mercado com Pato Donald).

É importante ressaltarmos que as histórias em quadrinhos, bem como as charges10, as caricaturas11 e os cartuns12 são produtos da cultura de massa, veiculados constantemente dentro e fora da imprensa escrita, tal como jornais, revistas, boletins, e até mesmo na Internet. Por ser um produto dessa mesma cultura, vem dia após dia despertando o interesse e a curiosidade de historiadores, sociólogos, arte-educadores, comunicadores sociais e uma série de outras profissões, que vêem nela uma forma de comunicação bastante relevante para diversas áreas do conhecimento.

As histórias em quadrinhos como recurso didático-pedagógico no âmbito educacional: um instrumento para a prática educativa

No entanto, por meio do contato com alunos interessados nesta temática durante as oficinas e mini-cursos realizados na Universidade Federal de Uberlândia, percebemos que a história em quadrinho agrega elementos essenciais que podem favorecer o aluno no desenvolvimento educacional e, porque não, na inclusão escolar também, devido ao fato deste instrumento pedagógico ser de grande interesse para a maioria das crianças. O uso de pontos, linhas, cores e a composição em geral, facilitam a interpretação texto-imagem do aluno. Este processo pode induzir o aluno a chegar à escrita, auxiliando-o no processo alfabetização, mesmo que não saiba ler ou escrever direito.

Em vista disso, os quadrinhos podem ser utilizados na educação como instrumento para a prática educativa, porque neles podemos encontrar elementos composicionais que poderiam ser bastante úteis como meio de alfabetização e leitura saudável, sem falar na presença de técnicas artísticas como enquadramento, relação entre figura e fundo entre outras, que são importantes nas Artes Visuais e que poderiam se relacionar perfeitamente com a educação, induzindo os alunos que não sabem ler e escrever a aprenderem a ler e escrever a partir de imagens, ou seja, estariam se alfabetizando visualmente. Diante disso, durante algumas destas oficinas e minicursos, foram apresentadas algumas imagens de quadrinhos aos participantes (alunos) que poderiam ser utilizadas como “facilitadoras” no processo de ensino e aprendizagem do conteúdo da disciplina, ou seja, percebemos que as histórias em quadrinhos podem trabalhar concomitante a várias disciplinas, como história, português, biologia, geografia entre outras, como uma facilitadora no processo de ensino e aprendizagem e de uma maior compreensão do conteúdo de uma determinada área do conhecimento, assim como nos falava Vergueiro (2004).

10 É um cartum cujo objetivo é a crítica humorística imediata de um fato ou acontecimento específico, em geral de natureza política. 1 Desenhos que visam representar algum personagem (ou pessoa da mídia, de conhecimento popular) com traços humorísticos. 12 É uma narrativa humorística, expressa através da caricatura e normalmente destinada à publicação em impressos de grande veiculação popular como jornais ou revistas.

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Neste sentido, o que estamos tentando dizer é, que para disciplinas como História, podemos utilizar imagens que dizem respeito a uma determinada época histórica, que pode ser mais bem explanada através das vestimentas dos personagens, arquitetura dos edifícios, casas, enfim, na cultura presente em uma dada região e época, mas “mostrada” por meio de uma imagem gráfica e, que serviria, para apresentar aos alunos, de forma mais objetiva e enriquecedora e representativa, de um importante acontecimento histórico ocorrido na história da humanidade que, só através de imagens, poderiam ser compreendidos. Em outras disciplinas como Geografia, por exemplo, poderíamos explorar imagens de quadrinhos que apresentassem relevos, paisagens, a cidade e o campo, por meio do cenário construído no fundo do quadrinho e, tentar relacioná-los com o conteúdo desta disciplina nas aulas.

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