Primordios da industria basileira e a formação dos profissionais da prevenção1

Primordios da industria basileira e a formação dos profissionais da prevenção1

(Parte 1 de 3)

Primórdios da indústria brasileira e a formação dos profissionais da prevenção – uma reflexão histórica1 Prof. Jairo Brasil2

Resumo:

segurança e salubridade nos locais de produção e transação de mercadorias

As condições hodiernas de trabalho nas organizações fabris possuem uma origem não muito conhecida por profissionais envolvidos com a saúde e a segurança do trabalhador. O presente artigo propõe um breve panorama histórico acerca da evolução da formação destes profissionais da prevenção, desde as primeiras iniciativas do sistema fabril, presente nas ações que tiveram como gênese a Revolução Industrial, na Inglaterra vitoriana até os dias atuais. O texto apresenta ainda informações acerca de teorias e pensamentos de precursores da tecnologia do processo industrial, como Taylor e Fayol. Destaca-se o quanto estas propostas e premissas redundaram nas primeiras políticas acerca da Palavras-Chave: segurança do trabalho, prevenção, trabalhador.

Abstract:

This article presents a brief historical overview on the evolution of Western economic thought since the first initiatives of the factory system, present in the actions which had the genesis of the Industrial Revolution in Victorian England to the present day. The current working conditions in the manufacturing organizations have an origin not well known by professionals involved with the health and safety of the worker. The text also presents information about theories and thoughts of precursors of industrial process technology, as Taylor and Fayol. Is highlight how these proposals and assumptions resulted in the first politicals of safety and health in the local production and exchange of products, resulting in the first efforts in the training of professionals involved with the physical integrity of the worker.

Keywords: safety work, prevention, worker.

1. Introdução

1 Artigo tendo por base excerto do capítulo 1 do Livro BRASIL, Prof. Jairo. Guia do Técnico em

Segurança do Trabalho. Editora LTR: São Paulo, 2013.

2 Mestre em Educação, Licenciado e pós-graduado em Ciências Sociais Aplicadas e Professor da Escola

Profissional Unipacs de Esteio.

O mundo moderno é feito de desafios e de escolhas. Todos somos provocados, desde a passagem da adolescência para a idade adulta, a buscar uma forma de realização na vida, neste fazer que envolve o ser humano há tantos séculos, o “trabalho”. E a Revolução Industrial pode ser considerada um divisor de águas nesta realidade do trabalho. Foi com ela que aconteceu a especialização no trabalho, onde cada operário, cada trabalhador, ficou responsável por sua tarefa. Também foi a Revolução Industrial que fez surgir aquilo que conhecemos como “as fábricas”, caracterizadas por uma organização clássica do arranjo físico, da sequencia operacional e da linha de produção. Claro está que, até atingir o grau de aperfeiçoamento atual, passaram-se muitas décadas, quem sabe muitos séculos. Nada se estabeleceu tão repentinamente da noite para o dia.

Num primeiro momento muita coisa estava desorganizada. Os proprietários desses empreendimentos contratavam pessoas para realizar o trabalho sem que tivessem estabelecidas quaisquer regras de horário, ganhos, produtividade ou qualidade. Que dirá então requisitos mínimos de saúde e segurança do trabalhador. Os primeiros conglomerados produtivos são pequenas construções onde se amontoam materiais, ferramentas, máquinas, insumos e pessoas. Ali tudo é improviso. E a insalubridade, que sequer era conhecida [precursoramente estudada por Ramazzini em sua obra De Morbis Artificum Diatriba, datada de 1700], predominava em todos os cantos, resultado das atividades e dos resíduos gerados pela manipulação de variados objetos: madeira serrada e aplainada, metais aquecidos e forjados, fios de algodão torcidos e tramados, etc.

Figura 1. A obra de Bernardino Ramazzini, primeiro cientista a estudar as doenças relacionadas ao trabalho.

Oriundos do artesanato, que na sua essência tinha o mestre artesão como detentor do processo e cujo conhecimento dominava segredos tecnológicos, desde a matéria prima mais conveniente até as especificidades das tarefas, os produtos aos

fornecendo espaço ao predomínio do mercador, que agora é seu superior hierárquico

poucos começam a ser elaborados em escala de produção. Se é que assim se poderia chamar esta etapa em seus primeiros momentos. Ou seja, há formação de estoques para posterior comercialização e atendimento aos clientes, que aos poucos o Mercantilismo descobriu em terras distantes. O artesão perde sua ascendência em relação ao processo,

A melhoria dos processos fabris vai ocorrer posteriormente com a Teoria da

parte da realidade das fábricas mundo a fora

Administração Científica, trazida pelos estudos de Frederick Taylor. Nascido na Filadélfia, nos Estados Unidos, em 1856, Taylor formou-se em engenharia aos 21 anos e foi trabalhar posteriormente numa siderúrgica, onde postulou sua teoria. É dele a ideia de estudar a maneira correta de execução das tarefas e a análise crítica das operações. Também é de Taylor a substituição de métodos empíricos utilizados na produção e da valorização do treinamento, acompanhados de um espírito de equipe e da departamentalização do chão de fábrica. A novidade então foi uma determinada “padronização” do processo, trazendo qualidade e também organização. Embora outras inúmeras teorias tenham complementado os estudos de Taylor, suas ideias ainda fazem

Figura 2 – O proletariado teve sua origem na classe operária inglesa.

Outro cientista, de origem francesa, também vai contribuir de forma significativa para o futuro das empresas, ao trazer a Teoria Clássica da Administração. Seu nome, Henri Fayol. Fundou o Centro de Estudos Administrativos na França, onde se reuniam periodicamente pessoas preocupadas com as questões administrativas em vários ramos de negócios: comércio, indústria e até mesmo administração pública. Em 1888, assumiu a direção geral de uma grande mineradora francesa em processo de falência e, utilizando sua teoria, conseguiu reverter a saúde econômica e financeira da empresa. Alguns princípios destacados por Fayol em sua obra são responsáveis pelas questões de autoridade e responsabilidade, subordinação, disciplina, centralização, remuneração, hierarquia, estabilidade entre outras. Fayol também será responsável pela criação dos cinco elementos das funções administrativas: o Planejamento, a Organização, o Comando, a Coordenação e o Controle. Daí vai surgir enfim aquilo que até hoje sintetiza a estrutura hierárquica de uma empresa, o organograma. O organograma é aquele desenho que representa os níveis da hierarquia da organização, onde as posições superiores se ramificam demonstrando a ordem de poder.

Dentro desta construção histórica do trabalho, pós Revolução Industrial, aos poucos vai surgindo a necessidade premente de disseminar o conhecimento técnico destes processos e formar mão de obra especializada, tanto na parte operacional quanto administrativa. É nessa perspectiva que surgem as formações técnicas. São elas que fazem parte de uma estrutura periférica necessária para dar suporte às organizações.

2 A realidade brasileira

A constituição da nossa indústria, assim como das profissões que com ela se desenvolveram ao longo do tempo, tem contorno histórico bem recente. Nossa colonização lusitana original trouxe vários empecilhos para a construção do parque industrial brasileiro. No início houve uma repressão muito acentuada por parte da metrópole para que algo aqui se desenvolvesse em termos de iniciativas empresariais. É sabido que a colonização do Brasil se deu de modo bem antagônico àquela ocorrida na porção norte do continente americano, na criação dos Estados Unidos da América. Enquanto lá, as treze colônias prosperaram num modelo colonial de fixação, com a vinda de inúmeras famílias expulsas das terras inglesas [modelo que teve em seu cerne o luteranismo e o protestantismo, além da teoria weberiana do espírito capitalista], por aqui, os portugueses tinham como único objetivo acumular a maior quantidade possível de riquezas para retornar imediatamente à terra natal. Ou seja, uma colonização de exploração, onde o Estado era visto como um grande fornecedor de privilégios a todos aqueles que se aproximassem dele ou que dele se tornassem partidários. Não é de se estranhar a quantidade de títulos de nobreza distribuídos no Brasil, principalmente quando se analisa a quantidade de ruas, avenidas, praças e monumentos que homenageiam duques, condes, viscondes, marqueses e outras nobrezas. Isto nos coloca a refletir porque durante tanto tempo fomos impingidos como um povo indolente na construção de nossa indústria e da ausência de um determinado tino empreendedor. Talvez pela herança deixada por esses antepassados.

Algumas pequenas iniciativas empresariais irão tomar vulto somente depois da chegada da família real portuguesa em 1808, principalmente com o advento da abertura dos portos às nações amigas. Eram muito tímidas, se sabe, mas já demonstrando possibilidades de libertação das amarras portuguesas. A partir do Grito de Independência em 1822, houve um pouco mais de afrouxamento e incentivo a essas iniciativas, embora a Inglaterra predominasse no fornecimento de produtos mais sofisticados neste mercado. E é essa potência mundial que também irá contribuir para a deflagração, em 1864, do maior conflito armado já ocorrido na América do Sul, a Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança. A grande preocupação dos ingleses naquele momento era o notório desenvolvimento do parque industrial paraguaio, país comandado por Solano Lopes e já com alguma predominância na fabricação e comercialização de ferramentas agrícolas e outros metais. Brasil, Argentina e Uruguai tiveram incentivos e financiamento inglês, objetivando eliminar a concorrência e depor o ditador paraguaio, personagem que não demonstrou qualquer preocupação com a população de seu país, massacrada até o último reduto de crianças e mulheres. O conflito ficou conhecido como um dos maiores genocídios da história americana. Essa é uma das razões para a extrema pobreza e miséria econômica que assolou / assola aquela nação desde então.

Figura 3 – Fábrica no Brasil – 1880.

Posteriormente, na segunda metade do século dezessete, ampliaram-se as possibilidades de iniciativas empresariais brasileiras, com a chegada cada vez mais frequente de imigrantes da Europa em crise. Antes mesmo da Proclamação da República, em 1889, alemães e italianos já demarcavam seus lotes e picadas no Sul e Sudeste trazendo, além de famílias para povoar a terra nua, tecnologia e conhecimento no fabrico de móveis, calçados, roupas e alimentos. Também não deve ser esquecida a grande habilidade com o cultivo da terra. Foi desta forma que surgiram iniciativas que se tornariam depois polos industriais de destaque, nos segmentos calçadista, moveleiro, têxtil e metalúrgico.

além de uma série de greves nos serviços públicos

A Primeira Guerra Mundial, em 1914, foi também um momento de crescimento populacional tímido e de incentivo ao desenvolvimento das terras brasileiras, já que o conflito demandava bens que podiam ser extraídos do solo brasileiro para abastecer as tropas em combate, e a fuga do palco da escaramuça era evidente para os habitantes europeus. Nesse momento, o governo brasileiro também se debatia em revoltas messiânicas internas, como a Guerra do Contestado no sul e a de Canudos no nordeste,

O advento de outra guerra mundial em 1945 foi marcante no estabelecimento do parque industrial brasileiro. Inicialmente se posicionando de forma neutra, Getúlio Vargas agiu de forma sagaz e estratégica. Só no último momento se declarou favorável à posição das forças aliadas: Estados Unidos, Inglaterra e França. Disponibilizou tropas militares que foram enviadas para Monte Castelo na Itália, sob o comando do marechal Mascarenhas de Moraes. Mas essa ajuda tinha uma intenção e um preço. Foi a moeda que possibilitou a implantação de nossa primeira indústria de base em 1946, financiada junto aos Estados Unidos, a Companhia Siderúrgica Nacional. Num primeiro momento, a CSN tinha como finalidade principal abastecer a indústria de guerra aliada, fornecendo o metal para o fabrico das armas e veículos usados nos campos de batalha. Foi, digamos assim, o pontapé inicial para alavancar as ações em prol da nossa indústria, e que seriam incrementadas na sequencia por outros governos. A produção do aço, matéria prima essencial para a fabricação de metais laminados, possibilitou a aquisição de equipamentos de corte e dobra que lançaram as bases da indústria automobilística nacional. Com o governo Dutra, na sequencia, o empresariado nacional obteve algumas facilidades para importar equipamentos usados, principalmente algumas sucatas do parque industrial inglês. Foi esse o início de nosso parque industrial.

atendendo grande número de trabalhadores e empresas

Outro destaque do período getulista foi a instituição de nossa indústria petrolífera, que teve um início tímido e tumultuado nas decisões políticas que a envolveram, mas que, ao longo das décadas que se seguiram, demonstrou o quanto o governo brasileiro agira corretamente em sua defesa. É da era getulista também o incremento das primeiras ações para formação dos profissionais técnicos do país, com a criação de serviços de aprendizagem industrial e serviços sociais da indústria, ligados diretamente às confederações. O sistema “S”, como é conhecido, é composto de instituições ligadas às federações da indústria e do comércio em todo o país: o Senai na aprendizagem industrial e o Senac na aprendizagem comercial. Além disso, foram criadas instituições como o Sesi e o Sesc, ambos voltados ao lazer e ao atendimento social de seus associados. Essa fórmula deu tão certo que evoluiu para outros segmentos da atividade econômica, e hoje possui ramificações também na agricultura e no transporte, formando profissionais especializados em todos os estados da federação e

Saindo do cenário político de forma violenta pela via suicida em 1954, Getúlio

Vargas deu vez ao governo empreendedor do mineiro Juscelino Kubitscheck, eleito em 1956, e cujo mote de campanha era “Cinquenta anos em cinco”. Em seu Plano de Metas estavam algumas ações deveras ousadas, como a construção da nova capital Brasília, uma obra cujo maior objetivo era deslocar o eixo do desenvolvimento econômico brasileiro, afastando-o da costa litorânea onde permanecia desde a chegada dos portugueses. Mas essa não foi sua principal obra. JK foi um dos maiores responsáveis pela evolução do parque industrial brasileiro, isentando de tarifas as importações de máquinas e equipamentos, liberando a entrada de capitais externos para investimentos e instalando nossa primeira indústria automobilística. Também investiu na indústria siderúrgica e aumentou a produção da Petrobrás.

O governo militar do período 1964 a 1985 também contribuiu de alguma forma para a consolidação do parque industrial brasileiro, mesmo que se conteste a maneira como isso se deu e o abuso dos direitos humanos decorrentes do período de exceção. Aliás, inúmeros historiadores defendem a teoria de que os militares buscavam o desenvolvimento para amenizar e justificar a existência do regime no país, evitando assim reações internacionais. A implementação de uma matriz energética que sustentasse o crescimento industrial era imprescindível. E essa realidade foi possível com a instalação da Usina Hidrelétrica de Itaipu, no segundo semestre de 1974, considerada ainda hoje a maior do mundo em geração de energia elétrica proveniente de recursos hídricos. Entre 1975 e 1978, mais de 9.0 moradias foram construídas nas duas margens do Rio Iguaçu, e um hospital para atender trabalhadores e familiares. A inauguração da obra e o seu funcionamento efetivo só vão ocorrer em novembro de 1982, durante o governo Figueiredo. Para se ter ideia da capacidade deste monumento da engenharia energética, somente em maio de 2007 foram instaladas as duas últimas unidades geradoras das 20 previstas no início da obra.

(Parte 1 de 3)

Comentários