A expectativa positiva no processo de ensino-aprendizagem de Desenho à mão livre

A expectativa positiva no processo de ensino-aprendizagem de Desenho à mão livre

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1 A expectativa positiva no processo de ensino-aprendizagem de desenho à mão livre

ARAÚJO, K. M. de Lima1 GATI, Hajnalka Halász2

do questionário e entrevista

Resumo O artigo aborda a expectativa positiva do professor como ferramenta importante no processo de ensino-aprendizagem da disciplina de Desenho de Observação, uma vez que se verificaram resultados satisfatórios no aumento da autoestima dos alunos, além de níveis maiores de resiliência no aprendizado de desenho à mão livre. O estudo de caso, cuja metodologia qualitativa analisou o conteúdo das respostas de 125 alunos, de um curso técnico da Região Metropolitana do Recife, identificou a frequência das mesmas para formulação das categorias: “presença do outro” e “tempo de prática”, obtidos através da análise das respostas Palavras-chave: expectativa, ensino-aprendizagem, desenho à mão livre.

Abstract The article covers the positive expectation’s teacher as important tool in the process of teaching-learning of disciplines observation drawing, since there have been satisfactory results in increasing the self-esteem of the students, in addition to higher levels of resilience for learning Freehand. The case study, which analyzed qualitative methodology the content of responses of 125 students, of a technical course in the metropolitan region of Recife, identified the frequency of same for the formulation of categories: "the presence of another" and "practice time", obtained through the analysis of responses from the questionnaire and interview. Keywords: expectation, teaching and learning, freehand.

1 Kátia Maria de Lima Araújo é professora dos Cursos de graduação de Bacharelado em Design e tecnólogo em Design de Interior da Faculdade Boa Viagem, e está atualmente em processo de mestrado pelo MPGE – FBV Devry, na linha de pesquisa DOA – Didática e Orientação Acadêmica. 2 Hajnalka Halász Gati, Professora Doutora em Educação pela UFPE; Mestre em Educação, UFPE; Graduação em Pedagogia, UFRJ; Atualmente é professora da Faculdade Boa Viagem. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Didática e Prática Pedagógica, atuando principalmente nos níveis de graduação e pós-graduação.

Introdução

A quantidade expressiva de alunos que ingressam em escolas técnicas e faculdades de Design apresentando pouca ou nenhuma habilidade para o desenho à mão livre, sua relutância em aprender a desenhar aliada à incredulidade de que seja possível esse aprendizado, chamounos atenção para a metodologia de ensino que melhor se adequasse ao processo de ensinoaprendizagem na disciplina de Desenho de Observação, antes conhecida por Desenho Artístico.

O desenho à mão livre é ainda uma das melhores formas de comunicação entre os Designers que utilizam a imagem gráfico-pictórica para expressar suas ideias, quer seja um produto gráfico, um mobiliário ou uma ambientação, sejam eles profissionais que precisam da prévia aprovação do cliente, ou alunos que precisam desta habilidade para comunicar-se com o seu professor.

A experiência adquirida na docência em Instituições de Ensino Técnico e Superior nos cursos de Design e Comunicação Visual nos mostra que a falta de habilidade manual por parte dos alunos dificulta seu diálogo com o professor, quando tentam esboçar suas ideias nas disciplinas de projeto.

Nesses momentos, percebe-se a diferença de nível nos trabalhos apresentados entre aqueles que dominam o desenho à mão livre e aqueles que não dominam, pois a qualidade e complexidade dos projetos desses alunos dependem da sua capacidade de representação: aqueles que não possuem habilidade para o desenho à mão livre projetam o simples e o básico por não saberem representar o complexo.

Uma pesquisa desenvolvida entre os alunos de uma Escola Técnica da cidade do Recife, nos cursos de Design de Interior e Comunicação Visual investigou as características destes, descobrindo que, em sua maioria, 87% dos entrevistados, mesmo sabendo da necessidade do domínio da representação gráfico-pictórica, apresentam muita dificuldade e relutância no aprendizado do desenho.

Verificou-se também que a autoestima desses alunos, com relação ao seu desenho e sua habilidade para desenhar, é baixíssima ou inexistente; que na infância foram desestimulados a continuarem desenhando após a alfabetização, quer seja por seus professores, quer seja por seus familiares; que em sua convivência há sempre um parente próximo ou um amigo que desenha melhor do que ele; e que não se lembram de nenhum elogio recebido pelos seus desenhos.

Em contrapartida, aqueles que apresentam habilidade para o desenho, em torno de 13% do total de entrevistados, tinham essa habilidade elogiada tanto pelos familiares quanto pelos professores e colegas da classe; foram estimulados a procurarem profissões que utilizam esta ferramenta como forma de comunicação, como design, comunicação visual e arquitetura; e finalmente, não pararam de desenhar após a alfabetização, ou seja, esses alunos possuem um tempo de prática muito maior do que os que acreditam não saber desenhar.

Uma pergunta faz-se necessária: como ensinar a desenhar pessoas que relutam em aprender, por se sentirem incapazes e sem habilidade?

Uma metodologia de ensino que atinja a maioria com esta dificuldade não pode se basear apenas nos métodos antigos de observação e desconstrução da forma, pois o mesmo beneficia apenas alunos com predisposição para aprender a desenhar.

Neste artigo apresentaremos uma metodologia que consegue melhorar a qualidade de seus desenhos, e mais importante, aumenta a autoestima da maioria dos alunos que, vislumbrando a possibilidade de fazer desenhos esteticamente agradáveis, continuam a praticá-lo após a conclusão da disciplina.

aprendizagem

Além do método tradicional de desconstrução, através do qual se aprende a perceber a forma e da habilidade manual desenvolvida através da quantidade significante de exercícios práticos, encontramos na Teoria da Expectativa e na Psicologia Positiva proposta por Martin Seligman duas ferramentas importantes, pois mostram que o incentivo do professor é uma contribuição necessária para se alcançar o resultado satisfatório do processo de ensino-

Para o desenvolvimento deste artigo, com abordagem qualitativa, foi realizado um estudo fenomenológico, utilizando-se a entrevista e o questionário como coleta de dados. O universo da pesquisa é representado por 125 alunos dos cursos de Comunicação Visual e Design de Interior de uma Escola Técnica, todos respondentes, e que se submeteram à didática aplicada na disciplina de Desenho de Observação.

A seguir, apresentaremos uma síntese teórica da importância do desenho enquanto instrumento de comunicação entre Designers, os dois modelos em análise: Teoria da Expectativa e Psicologia Positiva, os procedimentos utilizados nestes modelos, cujos resultados serão mostrados no final desse artigo.

Desenho: dom ou estímulo?

Fazendo alguns recortes na história do desenho, como forma de comunicação, vemos que ele existe desde que o homem do paleolítico, aproximadamente 40.0 a.C., imprimiu em rochas os aspectos e as características de sua vida, comunicando ao homem contemporâneo que, naquele instante, conseguia formar uma imagem mental e materializá-la em algo palpável como a rocha.

Dessa época aos dias de hoje, o desenho evolui em sua técnica de representação, passando pela lei da frontalidade dos egípcios, pelo naturalismo dos gregos, a espinha-de-peixe do período medieval, encontrando em Brunelleschi (1377-1446) e em seus sucessores o divisor de águas quando nos é apresentada a tridimensionalidade da técnica do desenho em perspectiva (BENEVOLO, 2001).

Nessa época surge, entre os arquitetos, a necessidade de representar sua obra através de imagens gráficas e apresentá-la ao cliente antes de sua confecção:

Na Florença do séc. XV surge uma nova forma de pensar arquitetura. Para ser mais exato, até então, esta profissão não existia, ou melhor, estava embutida entre os afazeres do operário que também executava a obra. É Fellipo Brunelleschi (1377-1446) quem revoluciona a representação arquitetônica, como documento que informa e comunica. O arquiteto agora é o líder, apesar das decisões serem tomadas em conjunto antes do início da obra. É ele quem define através de imagens gráficas a forma exata da edificação. (ARAÚJO, 2011, p. 23).

O surgimento do desenho auxiliado por computador não eliminou a necessidade do desenho à mão livre por parte dos profissionais que precisam dessa forma de comunicação como os Designers, Arquitetos, Comunicadores Visuais, etc.

Essa forma de linguagem atende a estes profissionais em todas as etapas de sua obra:

O Esboço, desenho à mão livre, materializa e comunica a ele mesmo as imagens que estão em sua mente; o Anteprojeto, desenho mais elaborado e atualmente feito com auxílio de computador, comunica ao cliente a intensão do designer, se o projeto corresponderá a sua expectativa, e o Projeto Executivo, geralmente desenhado em duas dimensões, que comunica aos profissionais envolvidos no projeto – marceneiros, vidraceiros, costureiras, etc., como o mesmo deverá ser confeccionado (ARAÚJO, 2012).

Dos tipos de desenho apresentados acima, encontramos no esboço, se não a mais importante, pois participa do processo de criação do produto, a forma de comunicação em que a habilidade manual se faz extremamente necessária para dirimir dúvidas emergentes entre profissionais, entre profissional e cliente, ou até mesmo entre professor e aluno.

Nesse quesito, os alunos que apresentam dificuldade em desenho à mão livre também apresentam dificuldades em disciplinas de Projeto. Geralmente, não conseguem se comunicar com o professor para esboçar as suas ideias, pois não conseguem visualizar tridimensionalmente seus produtos, nem representá-los no papel. Também não demonstram muita criatividade, projetando apenas produtos básicos de baixa complexidade (ARAÚJO, 2012).

Apesar da necessidade do saber desenhar para comunicar-se, os alunos que se candidatam à profissão de Design em Instituições de Ensino Superior e Técnico chegam a estas Instituições em sua maioria com pouca habilidade para o desenho.

Na presente pesquisa, encontramos essa constância no perfil dos 125 estudantes entrevistados. Para a realização da mesma, no primeiro dia de aula, antes de ser ministrado qualquer assunto, foi solicitado a esses alunos que desenhassem uma figura humana e uma cadeira, para que tivéssemos noção do nível em que eles se encontravam; o questionário e as entrevistas foram feitos alguns meses após a confecção destes desenhos.

As características pessoais obtidas com o questionário e as entrevistas foram associadas ao nível dos desenhos e serão apresentadas a seguir:

87% dos alunos entrevistados apresentam as seguintes características: Imagem 1: características encontradas nos desenhos de 87% dos alunos entrevistados.

Fonte: arquivo da autora

Que são pontudas na tabela 1: Características dos desenhos da figura 1 Perfil dos alunos

Dificuldades em representar: - proporção

- perspectiva

- anatomia

- escala humana

- alguém da família desenha melhor do que ele; - alguém na escola desenha melhor do que ele;

- na escola os colegas não elogiavam seus desenhos; - os professores não incentivavam a continuarem desenhando; - pararam de desenhar na infância;

- acham seus desenhos feios;

- acreditam que nunca aprenderão a desenhar; Tabela 1: Características dos desenhos e perfil de 87% dos alunos entrevistados.

Entre os 13% dos alunos entrevistados encontramos as seguintes características: Imagem 2: características encontradas nos desenhos de 13% dos alunos entrevistados.

Fonte: arquivo da autora

Pontuadas na tabela 2:

Características dos desenhos da figura 2 Perfil dos alunos

Melhor representação de: - proporção

- luz e sombra

- volume

- perspectiva

- anatomia

- escala humana

- tecido e costura

- adoram mostrar seus desenhos para todos, principalmente os pais; - na escola seus desenhos eram elogiados por todos; - os professores incentivavam a procurarem profissões que utilizasse o desenho; - desenham desde a infância e nunca pararam de desenhar. Tabela 2: Características dos desenhos e perfil de 13% dos alunos entrevistados.

A explicação para a baixa resiliência dos alunos da tabela 1, assim como o não gostar de desenhar, mesmo sabendo de sua importância para a profissão escolhida, talvez esteja na infância (EDWARDS, 2005).

A criança é naturalmente incentivada a desenhar até a alfabetização, entre 2 e 6 anos de idade. Nesta fase ela desenha o que vê da forma como acha que deve ser, ou seja, desenha símbolos gráficos dos objetos reais.

Outras limitações estão em sua coordenação motora que ainda não permite a precisão do seu traço, e na sua percepção da terceira dimensão ainda em desenvolvimento.

Imagem 3: A evolução do desenho infantil

Fonte: arquivo da autora

A imagem 3 mostra a evolução do desenho de uma criança dos 3 aos 9 anos, cujas características, quer seja no formato, na proporção ou no traço, estão presentes na maioria dos desenhos infantis.

Nesta fase, porém, algo acontece e desestimula a maioria a continuar praticando o desenho, da mesma forma que deve acontecer algo para estimular apenas uma pequena parcela destas crianças.

Críticas sarcásticas muitas vezes proferidas por colegas de classe, parentes e inclusive professores, podem funcionar como desestímulo. Como diz Arnheim (1998): “cada intervenção desfavorável por parte do professor pode desorientar o próprio julgamento visual do estudante ou impedi-lo de uma descoberta que ele próprio teria feito”.

O incentivo para desenhar, por parte da escola, também é um fator que precisa ser analisado, pois existe uma tendência em diminuir-se a prática do desenho após a alfabetização, como lembra Betty Edwards:

infância da maioria das pessoasé porque a aptidão para o desenho não é

No mundo Ocidental, a maioria dos adultos não progride em aptidão artística muito além do nível de desenvolvimento atingido aos nove ou dez anos de idade. Na maioria das atividades físicas e mentais, as aptidões de uma pessoa mudam e se desenvolvem à medida que a pessoa atinge a idade adulta: é o caso da fala e da escrita, por exemplo. O desenvolvimento da aptidão para o desenho, porém parece deter-se inexplicavelmente na crucial para a sobrevivência em nossa cultura, como o são a fala e a leitura. (EDWARDS, 2005, p. 8).

Outra hipótese, encontramos em Vygotsky (2009), em seus estudos sobre o desenho infantil. Segundo o autor, o desenho é como um estágio preliminar do desenvolvimento da escrita, quando a criança passa a dominar melhor a escrita, sua vontade e necessidade de desenhar para expressar suas ideias e imaginação diminuem.

O fato é que algo precisa acontecer na sala de aula para incentivar a maioria dos alunos que precisam do desenho à mão livre para comunicar-se, encontram-se com a autoestima baixa, relutantes em aprender, a não apenas desenhar com qualidade, mas, querer aprender a desenhar com qualidade. Neste sentido, encontramos na expectativa positiva do professor em sala de aula, um aliado importante no processo de ensino-aprendizagem.

Teoria da Expectativa

A Teoria da Expectativa, também conhecida por Efeito Pigmaleão, foi desenvolvida por Rosenthal e Jacobson (1968) quando testaram a hipótese de que os professores obtêm o que realmente esperam de seus alunos, ou seja, se acreditam que fracassarão ou obterão êxito, e que este comportamento pode afetar não apenas suas realizações escolares, mas também seu desenvolvimento intelectual. Vários autores como Good (1981), Rasche (1986), Reynolds (2007) e Morales (2009) indicam que geralmente os professores tendem a ter expectativas e atitudes diferentes para diferentes alunos: os alunos que se mostram mais interessados e perguntam mais, são mais bem recepcionados e recebem mais atenção, enquanto que os que participam menos das aulas ou costumam chegar atrasados, tendem a receber mais pressão e mais críticas, ou seja, a postura do professor e seu modo de ensinar subentenderiam mensagens implícitas, cujos efeitos podem ser positivos ou negativos, reforçando o interesse ou desinteresse do aluno por aquilo que está aprendendo (MORALES 2009).

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