00-ÉTICA INSTINTIVA-Final

00-ÉTICA INSTINTIVA-Final

(Parte 1 de 3)

Feliciano E. V. Flores,

Biólogo, Facilitador-Didata em Biodanza

O que é ética? É a filosofia da moral? É uma exigência social de boa conduta? É um princípio de julgamento das práticas de um sujeito? É o respeito aos “direitos humanos”? É reconhecer o outro como legítimo outro? É a sabedoria da ação? Todas estas perguntas advêm de conceitos de ética que encontramos na literatura ou no consenso geral. Estes conceitos, no entanto, caracterizam a ética como algo que vem “de fora para dentro”.

Estou propondo uma discussão sobre a ética assumida de outra perspectiva: “de dentro para fora”. Partindo da conexão com a vida que se manifesta em mim e da percepção da vida que se manifesta no outro e na natureza, proponho buscar um sentido de ética mais no âmbito do “instinto de sobrevivência”, fundamentando esta conceituação na vivência profunda do Princípio Biocêntrico.

Sou pouco familiarizado com as especulações filosóficas. Minha área é a Biologia e, mais particularmente, o estudo das funções dos organismos.

Assim, tenho uma noção muito mais de percepção, de compreensão íntima do que seja ética. É um conceito que não tenho suficientemente elaborado. Mas me pergunto: o que me faz sentir um mal-estar quando sou agressivo, quando causo dano a outrem, seja ser humano, animal ou vegetal, quando desconsidero o sagrado da vida que está presente neles?

Face à minha deficiência filosófica, mas premido por estes questionamentos, fui procurar nas fontes de informação as concepções predominantes sobre este tema para ver se coincidiam com aquilo que eu penso, ou sinto.

A primeira fonte que busquei foi um dicionário escolar que me informa que “ética é a ciência da moral”. Esta definição me pareceu confusa, pois para mim estava bastante claro, na minha concepção, que Ética e Moral são duas coisas diferentes. Sempre entendi, a partir de discussões anteriores e algumas leituras esparsas, que Ética vem de ethos, do grego, e significaria aquelas condutas autênticas assumidas a partir de minhas verdades interiores. E Moral, que vem do latim mos, mores, estaria muito mais relacionada a condutas exigidas pelos usos, costumes, preceitos e regras de grupos ou cultura da sociedade em que se vive. Portanto, para mim, Ética teria uma origem e um caráter muito mais interno, enquanto a Moral teria uma origem e um caráter externo, muito mais de fora para dentro.

Busquei, então, dar uma olhada, mesmo que superficial, em algumas obras de Filosofia, de Psicologia, de Antropologia para verificar as concepções de Ética de alguns autores.

No livro de filosofia de Marilena Chauí (1995) há um capítulo intitulado “Ética ou

Filosofia da Moral”.

No Dicionário de Termos da Psicanálise de Freud (1978) encontrei: “As exigências do superego cultural que dizem respeito às relações dos seres humanos entre si são incluídas sob o nome de ética”.

Alain Badiou (1995), filósofo francês da atualidade, cita Kant: “Ética é o princípio de julgamento das práticas de um sujeito, seja ele individual ou coletivo”. Mais adiante, Badiou afirma que “Ética envolve de modo privilegiado os ‘direitos do homem’. A ética consiste em preocupar-se por esses direitos, fazer com que sejam respeitados”. Depois: “Ética refere-se, em grego, à busca de uma boa ‘maneira de ser’, ou à sabedoria da ação”.

Constato, assim, que predominam nos conceitos uma incongruência entre os dois termos. Dou-me conta, também, que a existência de “comissões de ética”, de “conselhos de ética”, de “éticas profissionais”, de exigências de “comportamentos éticos” reforça a confusão entre os conceitos de ética e moral. Parece, assim, que a noção predominante é a de “conformação de condutas para um bom conviver”. Entendendo que aqui “conformação” tem o significado de “dar forma” e não de “estar de acordo”, a noção predominante seria a de formar e manter um comportamento adequado para ser aceito no grupo a que se pertence. O balizamento do grupo, “de fora para dentro”, orienta a minha conduta que resulta de uma decisão interna, “de dentro para fora”. Isto para mim é Moral.

Frente a isso, decido assumir o conceito de ética que sempre trouxe comigo e que, no entanto, nunca me tinha detido em examinar.

Assim sendo, peço permissão para fazer com vocês uma reflexão sobre ética como “conduta assumida a partir de minhas verdades interiores”.

Discutir aqui o que seriam “verdades interiores” levaria, muito provavelmente, a um desvio do tema em pauta. Aceitem, portanto e por favor, que as minhas verdades interiores incluem as minhas crenças e valores.

Dentre as minhas verdades interiores destaco, para seguirmos na reflexão, que “a vida é o valor supremo”.

O que eu quero dizer com vida? A palavra vida é empregada por nós com variadas significações: é a experiência do cotidiano no sentido da “vida que a gente leva”, é a duração da existência, é o comportamento do viver (vida organizada, vida desregrada, etc.), ou é a identificação das propriedades biológicas dos chamados seres vivos.

A vida, enquanto processo vital, enquanto manifestação através das “propriedades biológicas dos chamados seres vivos”, é um mistério. Já foram propostas muitas explicações, muitas teorias sobre a origem e o funcionamento da vida, mas predominam os mistérios.

Como surgiu a vida? Surgiu em um determinado momento ou é eterna, sem início e sem fim, atemporal? Ela surgiu ou se manifestou como expressão de uma Vida Cósmica? Por que surgiu aqui na Terra? As ditas condições para sua manifestação eram imprescindíveis?

A concepção de vida, sua definição ou explicação, tem ocupado as reflexões de muitos pensadores desde as origens do pensamento humano. Vários filósofos e pesquisadores buscaram entender e dar uma explicação para o que é a vida.

Desde a Grécia antiga, onde existiam duas palavras para significar “vida” (biós e zoé), passando pelos primórdios do nascimento das ciências (séculos 16~17), quando apareciam conceitos como “vis vitis” (força vital) e “propriedades vitais”, muitas foram as hipóteses para explicar o que move o ser vivo, o que o “anima”.

Na visão dos gregos, zoé representava a essência da vida, enquanto biós dizia respeito a uma vida específica com contornos e limites estabelecidos.

Destas ideias concluo que biós se referia à vida orgânica individual, do ser que nasce, cresce, se desenvolve, matura, degenera e morre; do ser que, como todos os seres vivos sobre a Terra, apresenta um ciclo vital. Zoé, por seu lado, significaria a vida contínua que surgiu ou se “manifestou” no planeta Terra assumindo uma estrutura baseada no átomo de Carbono e mais alguns elementos (H, O, N, P, S, etc.), e que não morre, perpassando todos os ciclos de vida (biós) dos organismos mortais.

Mais recentemente, na passagem dos séculos 19~20, aparece a obra de Henri Bergson (1859~1941), filósofo francês considerado como espiritualista evolucionista, intitulada “A Evolução Criadora” (BERGSON, 1907).

Nesta trabalho, Bergson questiona a explicação finalista e a explicação mecanicista da evolução, defendidas respectivamente pela metafísica tradicional (herdada de Leibniz e, antes dele, de Aristóteles, que coloca ênfase nas causas finais ou objetivos) e pela ciência moderna (herdada de Descartes, que coloca ênfase nas causas eficientes, a “causalidade” científica).

Bergson opõe a estas duas posições o seu próprio conceito de élan vital (impulso vital), que define como uma “força que cria de modo imprevisível formas sempre mais complexas”, um impulso criativo de onde surgem as realidades vivas.

Para ele não há nenhum plano “prévio”, como no caso do finalismo, nem mesmo apenas previsível, como no caso do mecanicismo. A sua ideia é que a evolução é imprevisível, que o mundo vivo se “inventa constantemente”, sem que o caminho que ele traça atrás de si preexista de qualquer forma.

Observa-se que Bergson defendia o caráter evolutivo da vida enquanto, provavelmente, ainda se discutia o livro de Darwin, “A Origem das Espécies”, publicado no mesmo ano (1859) do nascimento do filósofo francês.

Apesar das fortes críticas à visão vitalista de Bergson (Monod, B-H. Levy e outros), houve, na mesma época, uma tentativa mais “científica” para explicar uma dita “força vital” que parecia estar presente na capacidade de certos embriões se regenerarem após terem sido parcialmente danificados.

Hans Driesch (1867~1941), preocupado que suas observações no campo da Embriologia viessem a comprometer as teorias mecanicistas da ontogenia então vigentes, propôs que a “autonomia” de vida no desenvolvimento embriológico eram devidas ao que ele chamou de enteléquia, um termo emprestado da filosofia de Aristóteles para indicar uma força vital. Driesch sugeriu, porém, que “a enteléquia operaria agindo sobre a regulação do tempo das interações moleculares de um modo que introduz um padrão holístico e cooperativo” (DAVIES, 2000).

Naquela época, como ainda hoje, estabelecia-se uma forte discussão entre os mecanicistas e finalistas contra os pejorativamente chamados vitalistas. Enquanto os primeiros buscavam sustentação na química e na física, explicando a vida como resultado de uma dinâmica molecular especial, os vitalistas defendiam uma teleonomia para a vida e para a evolução. Haveria uma espécie de “plano” ou “caminho” conduzindo o desenvolvimento, seja nos organismos, seja no processo filogenético.

A partir destas primeiras ideias, muitos outros conhecimentos vieram sendo acrescentados por cientistas e filósofos para moldar uma concepção sobre o que é vida. Vou citar resumidamente as principais propostas:

pela Embriologia e se estendeu por todo o sistema vivo

Auto-organização: a partir de ideias desenvolvidas dentro da Cibernética, a noção passou

“Se não concebermos o problema do ser vivo como um problema de auto-organização, estaremos condenados a compartimentá-lo em biologia molecular, genética, anatomia, fisiologia e etologia”.

“(...) A ideia de auto-organização, lançada no final dos anos 50 e que deu lugar a três grandes colóquios na época, foi quase esquecida em nome de explicações tiradas do funcionamento das máquinas artificiais que obedecem a um programa. O programatismo genético-molecular continua a reinar, a despeito das antinomias que ele comporta, mas a ideia de auto-organização reaparece na superfície, e são seus desenvolvimentos futuros que deverão permitir articular as ciências biológicas umas às outras e são elas que também reabilitarão a noção de vida, conjunto das propriedades e qualidades próprias às auto-organizações vivas.” (MORIN, 2001).

A auto-organização em um sistema vivo se distingue de um sistema artificial porque apresenta fraca confiabilidade nos constituintes, mas grande confiabilidade nas funções de conjunto (MORIN, 2006).

Neguentropia: o termo surgiu a partir da expressão “Ela (a vida) se alimenta de entropia negativa”, que aparece no livro “O que é vida?”, escrito por Erwin Schroedinger (1887~1961), Prêmio Nobel de Física em 1933, no qual tentou aproximar os processos fundamentais da Biologia às ciências da Física e da Química (SCHROEDINGER, 1944).

A Termodinâmica clássica considerava que o universo, de acordo com sua Segunda Lei, tendia para degradação térmica, isto é, em direção à morte inevitável da desordem aleatória. Schroedinger notou que os sistemas vivos, no entanto, são a antítese de tal desordem e exibem expressivos níveis de ordem criada a partir da desordem. Os sistemas vivos seguem um caminho que se afasta da desordem e do equilíbrio em direção a estruturas altamente organizadas, as quais existem a uma certa distância do equilíbrio.

O termo “Neguentropia” foi proposto por Léon Brillouin (1889~1969), físico francês, para expressar de uma forma mais “positiva” a dinâmica dos sistemas vivos.

Estruturas Dissipativas: esta teoria foi desenvolvida pelo cientista russo Ilya Prigogine,

Prêmio Nobel de Química de 1977, a partir de seus estudos sobre sistemas físicos e químicos.

Determinadas “estruturas”, como os tornados ou os vórtices (sorvedouros) que se observam em uma banheira que escoa a água, têm uma existência, por assim dizer, “dinâmica”. Existem enquanto há uma fonte que as “alimente”. Uma entrada constante permite a formação de uma “estrutura” enquanto a substância escoa. Há uma auto-organização dinâmica, fora do equilíbrio; uma “ordem” enquanto há constante mudança.

Prigogine considerou que as estruturas vivas, como sistemas abertos, se comportam da mesma maneira: existem, de uma forma dinâmica, enquanto são “alimentadas”, e “afastam” ou “dissipam” a tendência à desordem (entropia).

Autopoiese: este termo foi empregado por H. Maturana e F. Varela (1990, 1995) para caracterizar a capacidade que os seres vivos têm de produzir-se a si mesmos, de autocriar-se. Para estes autores, os seres vivos são unidades autônomas por serem capazes de especificar sua própria autenticidade, o que é próprio deles e de nenhum outro. E o que os define como unidades autônomas é sua organização autopoiética, ou seja, sua auto-organização. Como sistemas autopoiéticos, os seres vivos são capazes de auto-conservação (manter-se vivo), auto-reprodução (refazer-se, propagar-se) e auto-regulação (gerir-se a si mesmo), além de manterem com seu entorno (nicho) um acoplamento estrutural.

Paralelamente, como complementação ou até sustentação destas ideias, devo citar outras teorias importantes: a própria Teoria da Evolução, de Charles Darwin; a Hipótese de Gaia, de James Lovelock; a Ecologia Profunda, de Arne Naess; a Teoria da Endossimbiose Sequencial, de Lynn Margulis.

Além destas, também contribuíram para um maior entendimento do que é a vida a Teoria dos Sistemas, de Ludwig von Bertalanffy; a Teoria do Caos, a partir das ideias de Edward Lorenz; a teoria da Complexidade, bem desenvolvida e aprofundada por Edgar Morin; as ideias de David Bohn sobre Ordem Implicada; a teoria do Hólon, de Arthur Koestler, e o Paradigma Holográfico, de Karl Pribram. Também os extensos estudos sobre Cognição e sobre Consciência feitos por Maturana, Varela, Damásio, Pinker e Morin, entre outros.

No livro “Educação Biocêntrica: aprendizagem visceral e integração afetiva” resumi os estudos e teorias acima citados no seguinte texto:

“A Física, através das Leis da Termodinâmica, afirma que a tendência do universo é para a desagregação, para o aumento irreversível da entropia, no caminho da ordem para o caos, em direção ao inexorável “entropic doom”, quando alcançaria o equilíbrio térmico.

A vida, no entanto, é um processo organizador, que tende a aumentar sua complexidade “desviando” a entropia, caracterizando-se como uma “estrutura dissipativa”, e mantendo-se num estado de não-equilíbrio (Prigogine & Stengers, 1991). Para alguns autores a vida é um processo neguentrópico, termo decorrente da expressão “entropia negativa” usada por Erwin Schroedinger (1887~1961) para significar que a evolução vai no sentido contrário ao do aumento da desorganização que ocorre no seu entorno (Freire-Maia, 1988).

A partir de moléculas em desordem, o processo evolutivo da vida deu origem a organismos simples que culminaram em um ser capaz de ter consciência de si mesmo, o ser humano.

E, uma vez desencadeado este processo vital, não houve, até agora, nenhuma interrupção.

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