Dialogando com a linguagem visual das historias em quadrinhos em sala de aula

Dialogando com a linguagem visual das historias em quadrinhos em sala de aula

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REVISTA DE LETRAS NORTE@MENTOS ISSN 19838018

Revista de Letras Norte@mentos – Revista de Estudos Linguísticos e Literários

Edição 12 – Estudos Linguísticos 2013/02 http://projetos.unemat-net.br/revistas_eletronicas/index.php/norteamentos

Gustavo Cunha de Araújo1

O objetivo deste artigo é apresentar os principais termos específicos da linguagem visual das histórias em quadrinhos. Por meio de pesquisa bibliográfica que sustenta a pesquisa, analisada à luz das teorias que fundamentam este estudo, em consonância com oficinas sobre criação e produção dessas histórias com alunos do ensino médio, o texto discute a sua utilização em sala de aula como auxílio metodológico para o professor em sua prática pedagógica. As histórias em quadrinhos, quando utilizadas de forma adequada, possibilitam aos alunos a capacidade de conseguir selecionar elementos visuais presentes nessa linguagem artística, estimulando a leitura e possibilitando melhores condições para se comunicar com o mundo a sua volta, contribuindo para o seu ensino e aprendizado.

Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos; Linguagem Visual; Sala de Aula; Educação.

1 Introdução

Neste estudo materializamos a intenção de apresentar os termos específicos que caracterizam a arte sequencial como “histórias em quadrinhos”, visando discutir a sua utilização em sala de aula, como auxílio ao professor em sua prática pedagógica.

Para este texto, cuja metodologia adotada foi a pesquisa teórica em consonância com a experiência de oficinas de quadrinhos realizadas com alunos do ensino médio, trabalho este de abordagem qualitativa e caráter interpretativo e reflexivo (BOGDAN e BIKLEN, 1999) buscamos ressaltar brevemente a história dos quadrinhos no Brasil, pontuando brevemente alguns aspectos importantes para o seu desenvolvimento no país, para auxiliar nas reflexões produzidas.

Posteriormente, apresentamos algumas discussões sobre a importância dos quadrinhos quando utilizados na educação, enquanto recurso metodológico e pedagógico na educação, particularmente no ensino médio.

1 Mestrando em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU. E-mail: gustavocaraujo@yahoo.com.br

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Em seguida, de forma mais conceitual, pontuamos alguns dos principais termos específicos utilizados nessa arte sequencial que vão caracterizar essa linguagem visual como “histórias em quadrinhos”, termos estes utilizados durante as oficinas com estudantes do ensino médio, em duas escolas estaduais da cidade de Uberlândia, Minas Gerais.

Consideramos para este trabalho o suporte teórico de autores dos quais encontramos apontamentos para as reflexões construídas neste estudo: ARAÚJO, NARDIN e TINOCO (2011); ARAÚJO, COSTA e COSTA (2008); EISNER (1989); FERRAZ e FUSARI (2010); SOCHA e MARIN (2010); VERGUEIRO e SANTOS (1998, 2004; 2012).

Ao refletirmos sobre a linguagem visual2 das histórias em quadrinhos, visamos contribuir para o debate educacional sobre a temática apresentada neste manuscrito, em que tencionamos produzir e socializar conhecimento resultando o processo interpretativo, reflexivo e construtivo, presentes na pesquisa qualitativa em educação.

2 Algumas considerações sobre a história dos quadrinhos no Brasil

Historicamente, há evidências que os primeiros quadrinhos que surgiram no

Brasil foram as aventuras de “Nho Quin e Zé Caipora”, de Angelo Agostini, datados da época de nosso Império, por volta do final do século 19 (ANSELMO, 1975). Agostini era um italiano radicado no Brasil, mas que ficou bastante popular no início do século 20 entre os que produziam histórias em quadrinhos no país.

Devido a sua importância histórica para o quadrinho nacional, foi reeditada no ano de 2002, pelo Senado Federal e organizado pelo jornalista e pesquisador Athos Eichler Cardoso, uma coletânea de histórias de Angelo Agostini do ano de 1869 a 1883, contribuindo de forma relevante para o resgate da história dos quadrinhos em nosso país e para este presente trabalho.

2 É necessário ressaltar que não é objetivo deste trabalho se aprofundar nas características específicas da linguagem visual, como pontos, linhas, cores, composição dentre outros, mas sim, pontuar alguns termos específicos presentes nos quadrinhos e que também fazem parte da linguagem visual, que podem auxiliar na prática pedagógica do professor e formação educacional do aluno. Diante disso, sobre um estudo aprofundado sobre a linguagem visual ver: DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

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Foi nos primeiros anos do século 20 que podemos constatar a “americanização” que o Brasil recebeu dos quadrinhos originados nos Estados Unidos, no final do século 19. Revistas como o “Tico-Tico” publicavam histórias de personagens de Walt Disney no país, como Mickey e Pato Donald (MOYA, 1977).

Durante os anos de 1930 as editoras brasileiras publicaram jornais e revistas com histórias em quadrinhos nacionais e estrangeiros em seus conteúdos, com destaques para “A Gazetinha” e, no início da década de 40, da “Gazeta Juvenil”, ambos os suplementos do jornal “A Gazeta de São Paulo” (ANSELMO, 1975; MOYA, 1977). Também, nesse mesmo período é lançado o “suplemento Juvenil”, que além de acompanhar o jornal “A Nação”, publicando histórias tupiniquins e dos Estados Unidos, tinha uma tiragem de aproximadamente 360 mil exemplares semanais (ibid, ibidem).

Alguns anos depois é publicado o “Globo Juvenil” e, mais tarde, o “Gibi

Mensal” e o “Globo Juvenil Mensal”. Foi nesse exato momento que passou a ser usado de forma popular no Brasil o termo “Gibi”, para designar as revistas de histórias em quadrinhos produzidas e publicadas no país (ANSELMO, 1975).

Desde meados do século 20, precisamente por volta das décadas de 50 e 60, o

Brasil passou a produzir tiragens imensas de quadrinhos e a distribuí-las em todo o mercado nacional, com o objetivo de buscar uma linha mais autêntica de quadrinhos, mesmo sendo a importação, ainda, a responsável pela introdução de novos e antigos personagens no cenário nacional nessa época (ANSELMO, 1975), também com republicações de histórias que fazem sucesso até os dias atuais entre jovens e adultos, como O Super-Homem, Homem Aranha e os personagens de Walt Disney.

Nesse período histórico destacaram-se no mercado editorial brasileiro editoras como a “Brasil América LTDA”, conhecida também como EBAL, a “Rio Gráfica Editora LTDA” e a renomada “Editora Abril” (ANSELMO, 1975; MOYA, 1977), todas fundamentais para que a produção e publicação de histórias em quadrinhos no país se concretizassem e que fossem esboçando o cenário de desenvolvimento dessa linguagem no país desde essa época aos dias atuais: um país de referência internacional na disseminação e criação de histórias em quadrinhos autenticamente brasileiras.

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Nos dias atuais, os quadrinhos estão se concretizando em outras fronteiras de socialização da informação, como a internet, na qual são conhecidas como webcomics, apresentando e divulgando histórias feitas de forma digitalizadas por artistas ou profissionais dessa área, utilizando recursos computacionais, ou mesmo, por meio de papel e lápis, forma esta tradicional, sendo arte-finalizadas para a computação digital, além de estar cada vez mais inseridos nas escolas por meio de livros didáticos (SANTOS; CORRÊA e TOMÉ, 2012).

É oportuno enfatizar neste texto que as histórias em quadrinhos são ressaltadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997; 1998) no segmento de Arte. Por sua vez, a Lei n.º 9.394/96 conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional vai instituir o ensino da arte como componente curricular obrigatório na educação básica, o que vai implicar na obrigatoriedade também do ensino das quatro principais linguagens artísticas - Artes Visuais, Teatro, Dança e Música - por meio dessa disciplina, o que possibilitou a inserção das histórias em quadrinhos na educação escolar na educação básica, pois essa arte sequencial está inserida no campo das Artes Visuais.

3 As histórias em quadrinhos na educação

Segundo Socha e Marin (2010), desde os tempos mais remotos de nossa sociedade, houve sempre a necessidade de se comunicar e se interagir socialmente. Em nosso meio natural, nos deparamos constantemente com diversas formas de linguagens, como a verbal, a imagética entre outras, das quais os quadrinhos estão inseridos, importantes para a comunicação humana, e importantes meios de socialização de ideias, conceitos e informações uns aos outros.

Dessa forma, ao ressaltarmos as histórias em quadrinhos na educação, entendemos que a linguagem está diretamente ligada ao ato de comunicar-se com o outro, transmitindo ou assimilando informações e experiências que podem ser individuais ou coletivas.

Por meio da comunicação cria-se a sociedade. O homem comunica-se com o outro, seja pessoalmente, seja a distância, conhece suas ideias,

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Edição 12 – Estudos Linguísticos 2013/02 http://projetos.unemat-net.br/revistas_eletronicas/index.php/norteamentos e a partir delas reelabora seus próprios conhecimentos, pois está avaliando o outro e se reavaliando o tempo todo. E, diante da sociedade constituída pelo homem e sua linguagem, o homem se descobre humano (SOCHA e MARIN, 2010, p. 276).

Nesse sentido, as autoras Socha e Marin (2010) fazem uma importante reflexão: os conceitos construídos em sala de aula pelos alunos e os assuntos trabalhados pelos mesmos só ocorrem se o aprendizado for constante e os saberes produzidos entre docente e discente forem articulados a novas práticas educativas, neste caso, as histórias em quadrinhos se encaixam perfeitamente. Desse modo, podemos afirmar que quando há interação social entre professor e educando, a construção do conhecimento nesse meio se torna mais significativo.

Quando interagem entre si e com o professor, sob sua mediação, eles têm a possibilidade de reconstruir seus conhecimentos. O docente apresenta melhores condições de intervir no processo de aprendizagem dos alunos quando oferece oportunidades para que os alunos manifestem suas ideias (SOCHA e MARIN, 2010, p. 275).

Nos últimos anos, atuando enquanto professor da rede estadual e municipal de ensino da cidade de Uberlândia, Minas Gerais e enquanto discente do Programa de Pós- Graduação, Mestrado em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, é possível perceber que as histórias em quadrinhos vêm sendo bastante referenciadas por professores da educação básica, que veem nessa linguagem diversas possibilidades criativas e imaginativas que podem auxiliar o docente em sua prática pedagógica e contribuir para a formação educacional do aluno.

Dentre essas possibilidades, destacamos as que se relacionam ao conteúdo da disciplina durante a aula, como por exemplo, nas aulas de história e português dentre tantas outras, nas quais as histórias em quadrinhos tem a função de apresentar, por meio de desenhos e textos, histórias que possam estar relacionados às esses conteúdos, como contar ou representar determinados momentos históricos de nossa sociedade por meio das imagens.

Entendemos que trabalhar com texto e imagem, e isso os quadrinhos fazem muito bem, pode contribuir para uma formação mais rica na construção de conhecimento pelo educando, além de ser uma linguagem bastante próxima do universo de crianças, jovens e adultos (ARAÚJO, NARDIN e TINOCO, 2011).

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Embora o aparecimento das histórias em quadrinhos no contexto escolar tenha sido, em seu início, de forma lenta, tímida, com a função de ilustrar algum texto em livro didático (VERGUEIRO; SANTOS, 2012) é possível constatarmos nos últimos anos por meio da produção científica referenciada neste estudo, uma maior utilização dessa linguagem artística em sala de aula, na produção artística visual feita pelos discentes em sala de aula, o que de fato, afirma a tese de que utilizar os quadrinhos em sala de aula é benéfico, desde que o professor a utilize de forma adequada, atendendo as necessidades de aprendizagem dos alunos.

4 A linguagem visual dos quadrinhos: termos específicos

Os quadrinhos, em seu bojo, possuem determinados termos que os caracterizam e os constituem como sendo, além de uma linguagem artística, uma história em quadrinho. Abaixo, seguem alguns desses termos, nos quais entendemos serem de relevância mencionar neste trabalho e socializá-los à comunidade acadêmica, para melhor compreensão dessa arte sequencial, para que se possa trabalhar de forma adequada com os quadrinhos em sala de aula:

Tabela 1. Síntese dos termos específicos da linguagem visual das histórias em quadrinhos

Termos Específicos Conceito

Balão É uma das formas de apresentação gráfica do texto ou imagem nos quadrinhos. Normalmente apresenta a “fala” dos personagens.

Onomatopeia Reproduz os sons nas histórias, isto é, os efeitos sonoros por meio de imagens, transformando esses “ruídos” em efeitos visuais.

Requadros

São os quadros existentes dentro de cada página das revistas de histórias em quadrinhos. Geralmente são separados pela “calha”, termo usado na linguagem dos quadrinhos para separar um quadro do outro.

Abreviação da palavra “história em quadrinho”, bastante utilizada por quadrinhistas – termo comumente designado aos desenhistas e profissionais que produzem histórias em quadrinhos. Não confundir com High Quality.

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