As Oito Idades da mulher

As Oito Idades da mulher

(Parte 1 de 3)

As Oito Idades da Mulher

Exercitando seu Bem-estar

As Oito Idades da Mulher

Exercitando seu Bem-estar

Marilene Lima Santos

Se me contemplo, tantas me vejo

que não entendo quem sou. – No tempo do pensamento –

Então...vou desprendendo elos que tenho,

alças, enredos...

E é tudo imenso!...

Múltipla, venço este tormento

Do mundo que em mim carrego.

E uma...contemplo o jogo inquieto em que padeço.

E recupero o meu alento,

e assim vou sendo...

Aquecida no fogo das paixões,

Contraída no frio da existência...

(Porque no meio da Vida faz frio, faz medo.

Faz frio e medo no meio da Vida)”

AUTO RETRATO – Cecília Meireles

Não é segredo. Somos feitos de pó,

vaidade e muito medo”.

Millor Fernandes

  1. INDICE

  2. Introdução

  3. INTRODUÇÃO

  4. Cap. 1 – Autoconhecimento

  5. O autoconhecimento nunca foi um dos pontos fortes do ser humano. A esse respeito, comenta Sanford (1987, p. 16)

  6. “(...) mesmo o conhecimento mais elementar de si mesmo é algo a que a maioria das pessoas resiste com a máxima determinação.

  7. Em geral, somente quando nos achamos num estado de grande sofrimento ou confusão, e somente quando o autoconhecimento nos oferece uma saída, é que nos dispomos a arriscar nossas estimadíssimas idéias a respeito daquilo que sentimos ser quando postos diante da verdade, e, mesmo assim, muitas pessoas preferem viver uma vida sem sentido a ter de passar pelo processo, não raro desagradável, que as leva ao conhecimento de si próprias”.

  8. Cap. 2 - Psiquismo Feminino

  9. Id = Isso

impulsos, paixões, inconsciente

Ego = Eu

a personalidade da pessoa, consciente

Superego = Super Eu

o desejo social da pessoa, pré-consciente

  1. Cap. 3 - Estratégias Psíquicas: Mecanismos de Defesa

  2. Na Mulher Madura Sadia

  3. Projeção

  4. Operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro - pessoa ou coisa (desenho, testes projetivos, leituras etc.) - qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que ele desconhece ou recusa nele. Os comentários pejorativos, “fofocas”, manifestação de ciúme normal são exemplos deste mecanismo e encontra-se em modos de pensar “normais” e na paranóia

  5. Projeção paranóica

  6. Fazendo um mau uso do mecanismo normal de projeção, o sujeito atribui a outros as tendências, os desejos etc. que desconhece em si mesmo. Projeta as suas representações intoleráveis que voltam a ele do exterior sob a forma de recriminações: o racista ou preconceituoso, por exemplo, projeta no grupo desprezado, as suas próprias falhas e as suas inclinações inconfessas. Pode passar a reagir contra este perigo exterior pelas tentativas de fuga próprias aos evitamentos fóbicos: eliminando ou afastando o outro pensa eliminar ou afastar sua pulsão.

  7. Racionalização

  8. Processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma idéia, um sentimento etc., cujos motivos verdadeiros não percebe. Fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma ou de uma compulsão defensiva.

  9. Sublimação

  10. Processo postulado por Freud para explicar atividades humanas sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na força da pulsão sexual. Freud descreveu como atividades de sublimação principalmente a atividade artística e a investigação intelectual. A pulsão é sublimada na medida em que é derivada para um novo objetivo não sexual em que visa objetos socialmente valorizados.

  11. Identificação Projetiva

  12. Processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações: imitações, empatia, simpatia, contágio mental, projeção.

  13. Na Mulher Madura Doente

  14. Fixação

  15. O fato de a libido se ligar fortemente a pessoas, imagosi, experiências ou fantasias e de reproduzir determinado modo de satisfação e permanecer organizada segundo a estrutura característica de uma das suas fases evolutivas. A fixação pode ser manifesta e real ou constituir uma virtualidade prevalecente que abre ao sujeito o caminho de uma regressão.

  16. Fases evolutivas

  17. Fase Oral (aprox. de 0-2 anos) - o prazer está relacionado à cavidade bucal = sucção e mordedura

Fase Anal (aprox. 2-4 anos)- o prazer está relacionado à zona erógena anal = defecação

(expulsão-retenção) e ao domínio da musculatura

Fase Genital - constituída por dois momentos, separados pelo período de latência organização genital infantil (ou fase fálica - aprox. 4-6 anos)- o prazer está relacionado ao órgão genital

Período de latência - Período que vai do declínio da sexualidade infantil (aos 5-6 anos que corresponde ao Complexo de Édipo) até o início da puberdade (aprox. entre 7 e 12 anos, e que marca uma pausa na evolução da sexualidade. Organização genital (ou fase genital propriamente dita - após a puberdade) – em que o prazer está relacionado a um objeto externo ao sujeito - o outro e seu órgão genital. Caracterizado pelo aparecimento de sentimentos como o pudor e a repugnância conjugados com aspirações morais e estéticas com tendência ao desenvolvimento de sublimações.

Regressão

Processo psíquico cujo percurso é o retorno, em sentido inverso, desde um ponto já atingido até um ponto situado antes desse, ou seja, o sujeito retorna a etapas ultrapassadas do seu desenvolvimento. Pode, ainda, designar a passagem a modos de expressão e de comportamento de nível inferior do ponto de vista da complexidade, da estruturação e da diferenciação.

Repressão

Operação psíquica que tende a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno: idéia, fato, afeto, fantasia. O recalque seria uma modalidade especial de repressão.

Negação

Processo psíquico pelo qual o sujeito, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou sentimentos até então recalcado, continua a defender-se negando que lhe pertença. É, também, a recusa da percepção de um fato que se impõe no mundo exterior.

  1. Cap. 4 - A iniciação na “floresta subterrânea” do ser

  2. Em ambos os casos, existem duas formas de que a mulher dispõe para elaborar seus dilemas, as armadilhas a que está exposta, suas tarefas e conquistas, são elas:

  • Psicoterapia individual: Visa atender a paciente quanto às suas angústias e sintomas, fazendo com que sua elaboração seja mais confortável (do ponto de vista psíquico) e o alcance de uma harmonia interna se efetive de modo que a mesma possa lidar melhor com seus dilemas, escolhas, tarefas e conquistas. Atenção focada na verbalização da paciente e sua história individual de vida.

  • Discussões vivenciais em grupo: Visa atender as participantes quanto às suas inquietações, fazendo com que sua compreensão acerca do universo feminino seja vivencial e o alcance de uma harmonia interna seja buscada de modo que as mesmas possam lidar melhor com suas colegas, familiares, clientes, pacientes, subalternas e alunas. Atenção focada na participação ativa da participante nas reflexões formuladas através de relatos autobiográficos ou heterobiográficos.

  • ASSIMILAÇÃO DE HISTÓRIAS: Nestas sessões ou encontros, uma das técnicas utilizadas é a ASSIMILAÇÃO DE HISTÓRIA, como se a participante fosse a heroína da história trabalhada.

As duas correntes psicológicas que utilizam esta técnica são a junguiana e a freudiana. A corrente cultural que a utiliza é a dos Contadores de Histórias.

  • Junguianos: chamam-na de Mística da Participaçãoii

  • Freudianos: chamam-na de Identificação Projetiva

  • Contadores de Histórias: chamam-na de Magia Solidária

Todos querendo dizer da capacidade da mente feminina de se afastar do seu Ego por um tempo e se fundir com uma outra realidade, ali vivenciando e aprendendo idéias que ela não pode aprender em nenhuma outra forma de consciência, para depois trazê-las de volta à realidade consensual.

O conto apontado aqui para esse trabalho de reflexão é “A Donzela sem mãos”, recolhida

pelos Irmãos Grimm. À luz do que apreendemos de Estès (1997) trata-se de uma analogia sobre a iniciação da mulher para sua entrada na floresta subterrânea através do RITO DA RESISTÊNCIA, em que RESISTIR é:

  • continuar sem interrupção,

  • endurecer

  • tornar firme, robusto

  • fortalecer

A resistência denota que a mulher está criando algo em sua SELVA SUBTERRÂNEA, o mundo oculto do conhecimento feminino, um mundo selvagem que fica subjacente à nossa realidade concreta. Em cada estágio de sua jornada a Donzela sem mãos e, por assimilação, a mulher realiza uma descida rumo à floresta subterrânea. É o que veremos no decorrer de nossa leitura.

  1. Segundo Estés (1997), estes estágios de transformação se completam com fases chamadas:

  • Nigredo = perda

  • Rubedo = sacrifício

  • Albedo = chegada da luz

cada uma acompanhando a outra ...

São fases que acompanham as descidas, perdas, descobertas e fortalecimentos que ilustram a iniciação perpétua da mulher na renovação de seu aspecto selvagem: de seu Rito da Resistência.

  1. Cap. 5 – As Oito Idades da Mulher

  2. Cada idade representa uma mudança de atitude, na atribuição de tarefas e nos valores.

  3. 0 -07 Idade do corpo e do sonho/socialização, mantendo, porém, a imaginação.

  4. 7 - 14 Idade da separação bem como do entretecimento da razão e do imaginário.

  5. 14 - 21 Idade do novo corpo/início da mocidade/desdobramento da sensualidade, apesar de protegida.

  6. 21- 28 Idade do novo mundo/nova vida/exploração dos mundos.

  7. 28- 35 Idade da mãe/aprendizado de ser mãe para os outros e para si mesma.

  8. 35 - 42 Idade da procura/aprendizado de ser mãe do self/procura do self.

  9. 42- 49 Idade da velha precoce/descoberta do acampamento distante/transmissão de coragem aos outros.

  10. 49- 56 Idade do outro mundo/aprendizado dos termos e dos ritos.

  11. 56- 63 Idade da escolha/escolha do próprio mundo e do trabalho ainda a ser feito.

  12. 63- 70 Idade da transformação em sentinela/reformulação de tudo o que se aprendeu.

Conto: A Donzela sem mãos (O Pomar)

Versão de Grimm nº 31, Das Mädchen ohne Hände(apud Franz, Marie Louise – O Feminino nos Contos de Fadas, pp. 111-6)

Um moleiro que havia pouco a pouco caído na miséria não possuía nada mais senão seu moinho e uma grande macieira que ficava atrás da construção. Um dia em que o moleiro foi à floresta pegar lenha, encontrou um velho que nunca tinha visto, e que lhe disse: "Para que se extenuar cortando lenha? Eu posso torná-lo rico se me prometer o que está atrás do seu moinho." O moleiro, que pensou que só poderia ser a macieira, respondeu: "Está combinado", e assinou um compromisso que o estrangeiro recebeu com um sorriso sarcástico, dizendo: "Daqui a 3 anos, voltarei para levar o que me pertence". E foi embora.

Quando o moleiro estava voltando para casa, a mulher veio ao seu encontro e disse: "Quero que você me explique, moleiro, de onde veio essa súbita riqueza em casa. De repente baús e armários ficaram repletos, sem que ninguém tivesse vindo trazer o que quer que seja; não consigo compreender como isso aconteceu". Ele respondeu: "Essas coisas vieram de um desconhecido que encontrei na floresta e que me prometeu grandes riquezas; em troca, eu me comprometi por escrito a ceder-lhe o que está atrás do moinho. Podemos muito bem dar a grande macieira em troca de tudo isso". "Ai, meu homem, - exclamou a mulher apavorada - era o Diabo, e não se tratava da macieira, mas de nossa filha que estava atrás do moinho varrendo o quintal".

A filha do moleiro, uma menina bela e piedosa, viveu esses 3 anos no temor de Deus, sem cometer pecado. Esgotado o prazo e chegado o dia em que o Diabo deveria levá-la, banhou-se e, inteiramente purificada, traçou um círculo de giz ao seu redor. O Diabo apareceu bem cedo mas não pôde aproximar-se. Furioso, ordenou ao moleiro: "Prive-a de água para que ela não possa se lavar; senão não tenho nenhum poder sobre ela". Temeroso, o moleiro obedeceu. Na manhã seguinte o Diabo voltou, mas a jovem havia chorado tanto sobre as mãos, que elas estavam puras. Ainda sem poder aproximar-se, disse, cheio de raiva, ao moleiro: "Corte-lhes as mãos, senão não posso nada contra ela". O moleiro, aterrorizado, respondeu: "Como posso cortar as mãos de minha própria filha?" O Maldoso o ameaçou, dizendo: "Se não o fizer, me pertencerá e o levarei". O pai teve medo e prometeu obedecer. Aproximou-se da filha e disse: "Minha filha, se eu não cortar as suas mãos, o Diabo me levará; como tinha medo, prometi-lhe que o faria. Auxilia-me na minha infelicidade, e perdoe-me o mal que lhe faço!" "Caro pai, - ela respondeu - faça o que quiser comigo; sou sua filha." Estendeu as duas mãos e deixou que ele as cortasse. Quando o Diabo voltou pela terceira vez, ela havia chorado tanto e por tanto tempo sobre os punhos cortados que eles estavam perfeitamente puros. O Diabo teve de renunciar, perdendo todo direito sobre ela.

O moleiro disse então à filha: "Graças a você ganhei tantos bens, que poderei mantê-la no maior luxo por toda a vida." Ela respondeu-lhe: "Eu não poderia ficar aqui. Quero ir embora; pessoas caridosas me darão o necessário." Fez com que amarrassem seus braços mutilados às costas e partiu ao amanhecer; caminhou o dia inteiro sem para até a noite. Chegou então perto de um jardim real onde viu, à claridade do luar, árvores cobertas de belos frutos. Mas não podia entrar, porque estava cercado de água. Como havia caminhado o dia inteiro sem comer nada e estava faminta, pensou: "Ah, se eu pudesse entrar nesse jardim e comer dessas frutas! Caso contrário, morrerei de inanição." Ajoelhou-se , invocou o Senhor Deus e rezou. De repente apareceu um Anjo que manobrou uma comporta, de maneira que a água se escoou e o fosso secou, permitindo a sua passagem. Entrou então no jardim, acompanhada pelo Anjo, chegou a uma árvore coberta de magníficas pêras, todas contadas. Com a boca, pegou uma pêra e a comeu para amenizar a fome, mas não mais do que uma. Foi vista pelo jardineiro que, ao perceber o Anjo ao seu lado, teve medo; pensando que a jovem fosse um Espírito, calou-se, não ousando chamá-la ou dirigir-lhe a palavra. Depois de comer a pêra, aplacada a fome, foi esconder-se sob as folhagens. O rei, a quem o jardim pertencia, foi lá na manhã seguinte; ao contar as frutas, percebeu que estava faltando uma pêra. Perguntou ao jardineiro o que tinha acontecido, pois não a encontrava nem na árvore nem caída no chão. O jardineiro respondeu-lhe: "Na noite passada, um Espírito esteve aqui; porque não tinha mãos, tirou a pêra da árvore com a boca." "Como o Espírito pôde passar pela água - perguntou o rei - e para onde foi depois de ter comido a pêra?" O jardineiro respondeu: "Alguém que veio do Céu, numa veste branca como a neve, fechou a comporta e deteve a água para que o Espírito pudesse atravessar o fosso. E como só poderia seu um Anjo, tive medo e não disse nada. Quando o Espírito acabou de comer a pêra, foi embora." O rei disse então: "Se as coisas aconteceram como está dizendo, passarei a próxima noite velando com você."

Quando escureceu, o rei desceu ao jardim acompanhado de um Padre, que deveria dirigir-se ao Espírito. Os três se instalaram debaixo da árvore e ficaram à espreita. Por volta da meia noite, a jovem saiu de seu esconderijo, foi até a árvore, tomou outra pêra com a boca a comeu; ao seu lado estava o Anjo, com sua veste branca. O Padre aproximou-se e disse: "Você é de Deus ou desse mundo? Um Espírito ou um ser humano?" Ele respondeu: "Não sou um Espírito, mas um pobre ser humano abandonado por todos, menos por Deus." O rei disse então: "Se você foi abandonada pelo mundo inteiro, eu não a abandonarei." Levou-a para o castelo real e, como era bela e piedosa, a amou de todo o seu coração. Mandou que lhe fizessem mãos de prata e a tomou por esposa.

No final de um ano, o rei partiu para a guerra; recomendou a jovem esposa à sua mãe, dizendo: "Na hora do parto fique ao seu lado e cuide bem dela; escreva-me logo em seguida." A jovem rainha pôs no mundo um belo menino e a mãe escreveu imediatamente ao rei, comunicando-lhe a boa notícia. Mas o mensageiro parou no caminho à beira de um riacho e, fatigado pela longa etapa, adormeceu. Veio então o Diabo, que não desistira de prejudicar a piedosa rainha; substituiu a mensagem por outra carta, que dizia que a rainha dera à luz um gnomo. Quando o rei recebeu a carta ficou muito assustado e sentiu uma grande dor, mas escreveu em resposta que cuidassem bem da rainha e a velassem até a sua volta. O mensageiro partiu com a missiva do rei, parou para descansar no mesmo lugar e, mais uma vez, adormeceu. O Diabo voltou e colocou em seu bolso uma outra carta, que dizia que a rainha e a criança deveriam ser mortas. A velha mãe ficou aterrorizada ao ler essa mensagem; acreditando nela, escreveu outra carta ao rei. Mas teve a mesma resposta porque o Diabo sempre substituía a carta verdadeira por outra; a última acrescentava mesmo que a língua e os olhos da jovem rainha deveriam ser conservados como prova.

A velha mãe, chorando sobre o sangue inocente que devia derramar, ordenou que trouxessem uma corça na calada da noite, fez com que lhe cortassem a língua e arrancassem os olhos, guardando-os em seguida. Depois, disse à jovem rainha: "Não posso mandar matá-la, como ordenou o rei, mas não pode continuar aqui por mais tempo: vá embora com seu filho por este vasto mundo e não volte mais." Prendeu a criança nas costas da infeliz mulher, que partiu chorando. Quando chegou numa grande floresta, pôs-se de joelhos para orar a Deus; apareceu então um Anjo do Senhor que a conduziu até uma pequena casa, onde estava escrito: "Aqui, todos podem alojar-se livremente." Da casa surgiu uma jovem virgem, branca como a neve, que lhe disse: "Seja bem vinda, Senhora Rainha", e a fez entrar. Desamarrando a criança das costas da rainha, deixou que mamasse no seio da mãe, e a colocou em seguida numa bela caminha, anteriormente preparada. A infeliz mulher perguntou-lhe então: "Como sabia que eu era rainha?" A virgem branca respondeu: "Sou um Anjo enviado por Deus para cuidar de você e de seu filhinho." Por 7 anos a rainha ficou naquela casa, onde foi muito bem tratada. Pela graça de Deus, e em virtude de sua grande piedade, suas mãos cortadas se restauraram.

Quando orei voltou enfim da guerra e chegou em casa, sua primeira preocupação foi a de ver a mulher e o filho. A velha mãe se pôs a chorar e disse: "Homem mau, como pôde me escrever para que tirasse a vida dessas duas almas inocentes?" Mostrou-lhe as cartas que o Diabo havia falsificado, e acrescentou: "Fiz o que mandou", mostrando-lhe, como prova, a língua e os olhos. O rei pôs-se então a chorar tão amargamente sua pobre mulher e seu jovem filho, que a mãe se compadeceu e disse: "Console-se, ela ainda está viva. Ordenei que matassem uma corça em segredo, para dela tirar as provas exigidas; quanto à sua mulher, amarrei a criança em suas costas e a enviei por este vasto mundo, fazendo com que prometesse que nunca mais voltaria aqui, por causa de sua cólera contra ela." O rei disse então: "Quero partir e ir até onde se estende o azul do Céu, sem comer ou beber, até que tenha encontrado minha querida mulher e meu filho, se ainda não morreram num acidente ou foram vítimas da fome."

O rei percorreu o mundo durante 7 anos, procurando-os em todas as fendas de rochedos e cavernas; não os encontrando, pensou que haviam morrido de esgotamento. Durante todo esse tempo não comeu nem bebeu, mas Deus o susteve. Enfim, entrou numa grande floresta onde encontrou a pequena casa com a placa que dizia: "Aqui, todos podem alojar-se livremente." A virgem branca saiu, tomou-o pela mão, fez com que entrasse, e disse: "Seja benvindo, Senhor Rei." Depois, perguntou-lhe de onde vinha. Ele respondeu: "Vai fazer 7 anos que erro em busca de minha mulher e de seu filho, mas não os encontro em parte alguma." O Anjo ofereceu-lhe o que beber e comer, mas ele recusou, desejando apenas descansar um pouco. Deitou-se para dormir, cobrindo o rosto com um lenço.

O Anjo entrou então no quarto onde estava a rainha com o filho, que ela se habituara a chamar de Rico-em-Dores, e lhe disse: "Venha com seu filho, seu marido está aqui." Ela foi até onde ele estava deitado, e o lenço caiu no chão. Disse ao filho: "Rico-em-Dores, pegue o lenço de seu pai e cubra o seu rosto." A criança recolheu o lenço e o recolocou sobre o rosto do rei. Este havia ouvido tudo em seu sono e fez com que o lenço caísse novamente. Impaciente, o menino disse à mãe: "Minha mãe querida, como posso cobrir o rosto de meu pai, se não tenho pai neste mundo? Quando aprendi a oração "Pai nosso que estás nos Céus", você me disse que meu pai estava no Céu e que era o bom Deus - como eu poderia conhecer um homem tão selvagem? Este não é meu pai." Ouvindo isso, o rei levantou-se e perguntou à jovem mulher quem era ela. Ela respondeu: "Sou sua mulher, e este é seu filho Rico-em-Dores." Vendo suas mãos vivas, ele disse: "Minha esposa tinha mãos de prata", ao que ela respondeu: "Minhas mãos naturais foram recompostas novamente pela graça de Deus", o Anjo foi então ao quarto vizinho, de onde voltou com duas mãos de prata para mostrar ao rei. Este viu então que se tratava na verdade de sua querida mulher e de seu filho amado; abraçou-os com alegria e lhes disse: "Uma pesada pedra foi retirada de meu coração." O Anjo de Deus lhes serviu uma última refeição juntos, e eles voltaram para casa, para perto da velha mãe. Houve por toda a parte uma grande alegria: o rei e a rainha celebraram suas núpcias pela segunda vez e viveram felizes até o fim de seus dias abençoados.

Textos de apoio

1ª Idade:

CONTRANARCISO – Paulo Leminsky

... em mim

(Parte 1 de 3)

Comentários