Capacidade funcional e sua mensuração em idosos: uma revisão integrativa

Capacidade funcional e sua mensuração em idosos: uma revisão integrativa

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Capacidade funcional e sua mensuração em idosos: uma revisão integrativa

Functional capacity and its measurement in the elderly: an integrative review Capacidad funcional y su medición en el anciano: una revisión integradora

Gerson de Souza Santos1 Isabel Cristina Kowal Olm Cunha2

O objetivo deste estudo foi buscar evidências científicas que abordem a capacidade funcional em idosos, bem como instrumentos utilizados para mensurá-la. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, na qual se incluíram artigos indexados nas bases de dados LILACS e SCIELO publicados em língua portuguesa no Brasil de 2008 a 2012. O ano de publicação dos artigos variou entre 2010 e 2012, havendo predominância do estudo do tipo transversal. Os profissionais enfermeiros foram os principais responsáveis pelas publicações. Questionários e escalas foram utilizados para avaliar a capacidade funcional dos idosos, com predominância do Índice de Katz, sendo a grande maioria dos artigos provenientes de grupos de pesquisa de universidades públicas. As publicações demonstraram que, por meio da utilização de escalas e questionários, é possível identificar os fatores que limitam a capacidade funcional dos idosos. Descritores: Enfermagem; Idoso; Saúde coletiva.

The aim of this study was to seek scientific evidence that address the functional capacity in the elderly as well as instruments used to measure it. It is an integrative review of the literature, which included articles indexed in the LILACS and SCIELO databases, published in Portuguese in Brazil from 2008 to 2012. The year of publication of the studies ranged between 2010 and 2012, with predominance of the cross-sectional study. The nurses were primarily responsible for publications. Questionnaires and scales were used to assess the functional capacity of the elderly, with predominance of Katz Index. Most of the articles are from research groups of public universities. Publications have demonstrated that through the use of scales and questionnaires, it is possible to identify the factors that limit the functional capacity of the elderly. Descriptors: Nursing; Aged; Public health.

El objetivo de este estudio fue buscar evidencia científica acerca de la capacidad funcional de ancianos, así como los instrumentos utilizados para medirla. Se trata de una revisión integradora de la literatura, que incluyeron artículos indizados en las bases de datos LILACS y SCIELO publicado en portugués en Brasil de 2008 a 2012. El año de la publicación de los estudios varió entre 2010 y 2012 con predominio de estudios transversales. Las enfermeras eran las principales responsables de las publicaciones. Cuestionarios y escalas se utilizaron para evaluar la capacidad funcional de los ancianos, sobre todo Katz Index. La mayor parte de los artículos son de grupos de investigación de universidades públicas. Las publicaciones demostraron que a través de la utilización de escalas y cuestionarios, es posible identificar los factores que limitan la capacidad funcional de los ancianos. Descriptores: Enfermería; Anciano; Salud colectiva.

1 Enfermeiro. Doutorando Escola Paulista de Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Grupo de

Estudo em Pesquisa e Pesquisa em Administração de Serviços de Saúde e Gerenciamento de Enfermagem – GEPAG. gersonenf@hotmail.com 2 Enfermeira. Professora Livre Docente na UNIFESP. Líder do GEPAG.

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INTRODUÇÃO população mundial está envelhecendo. Estudos mostram que o número de pessoas idosas cresce em ritmo maior do que o de pessoas que nascem, acarretando um conjunto de situações que modificam a estrutura de gastos dos países em diferentes áreas. No Brasil, o ritmo de crescimento da população idosa tem sido sistemático e consistente. No período de 1999 a 2009, o peso relativo dos idosos (60 anos ou mais de idade) no conjunto da população passou de 9,1% para 1,3%. Combinada ainda com outros fatores, tais como os avanços da tecnologia, especialmente na área da saúde, atualmente o grupo de idosos ocupa um espaço significativo na sociedade brasileira1.

Nesse sentido, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vêm alertando, por meio dos indicadores sociais e demográficos divulgados anualmente, que a estrutura etária do país está mudando e que o grupo de idosos é, hoje, um contingente populacional expressivo em termos absolutos e de crescente importância relativa no conjunto da sociedade brasileira, decorrendo daí uma série de novas exigências e demandas em termos de políticas públicas de saúde e inserção ativa dos idosos na vida social, bem como da avaliação de sua capacidade funcional1.

À medida que um maior número de pessoas atinge idades mais avançadas, há uma tendência de alteração no padrão de morbidade e de causas de morte da população. Assim, ao invés das doenças infectocontagiosas as doenças crônicodegenerativas e suas complicações tornaram-se predominantes. A tendência atual é ter um número crescente de indivíduos idosos que, apesar de viverem mais, experimentam maior número de condições crônicas2.

A curto e longo prazos, o aumento no número de doenças crônicas leva a uma maior prevalência de incapacidade funcional. Ademais, com o processo fisiológico do envelhecimento, a capacidade funcional de cada sistema do organismo humano diminui.

Trata-se de um processo lento e imperceptível, mas inexorável e universal2.

A avaliação da capacidade funcional torna-se essencial para o estabelecimento de um diagnóstico, um prognóstico e um julgamento clínico adequados, que servirão de base para as decisões sobre os cuidados necessários às pessoas idosas. É um parâmetro que, associado a outros indicadores de saúde, pode ser utilizado para determinar a efetividade e a eficiência das intervenções propostas. A avaliação funcional busca verificar, de forma sistematizada, em que nível as doenças ou agravos impedem o desempenho, de forma autônoma e independente, das atividades cotidianas ou atividades de vida diária (AVD) das pessoas idosas, permitindo o desenvolvimento de um planejamento assistencial mais adequado2,3.

Muitos modelos de avaliação funcional foram desenvolvidos e aplicados nas últimas décadas em várias categorias populacionais. Os modelos são criados e selecionados para categorias que apresentam a mesma especificidade: indivíduos mais ou menos dependentes, institucionalizados, hospitalizados ou da comunidade, portadores de patologias específicas (tais como artrite, osteoartrite, doença de Parkinson, acidente vascular cerebral e outras). A maioria desses testes é pouco sensível às pequenas perdas funcionais e não é projetada para indivíduos idosos hígidos que apresentam pequenos déficits do declínio fisiológico3,4.

O presente artigo teve por objetivo buscar evidências científicas que abordem a capacidade funcional em idosos, bem como instrumentos utilizados para mensurá-la, através de artigos científicos.

MÉTODO Esta é uma revisão integrativa, que inclui a análise de pesquisas relevantes que dão suporte para a tomada de decisão, permitindo a incorporação desses achados na prática clínica. Esse tipo de estudo é uma estratégia para a identificação e análise das evidências existentes de práticas de saúde,

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Santos GS, Cunha ICKO Saúde do Idoso quando a produção de conhecimento científico não está suficientemente fundamentada. Para a elaboração de uma revisão integrativa, faz-se necessária a adoção de fases que apresentem um rigor metodológico em busca de evidências sobre determinado assunto. Para a operacionalização dessa revisão integrativa, utilizou-se os seguintes passos metodológicos: definição dos critérios de inclusão e exclusão; definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; categorização dos estudos; análise e interpretação dos dados; avaliação dos resultados incluídos na revisão integrativa e apresentação da revisão/síntese do conhecimento5.

A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados de Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SCIELO). Foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “capacidade funcional”, “idosos”, “funcionalidade”. Os artigos foram selecionados de acordo com os seguintes critérios de inclusão: presença dos descritores escolhidos no título do trabalho ou inseridos no resumo, artigos na íntegra, produções com idioma em português, originárias no Brasil e publicadas entre janeiro de 2008 e dezembro de 2012. A busca foi realizada no mês de janeiro de 2013. Foram encontrados 225 artigos indexados na base de dados LILACS e 373 artigos na base de dados SCIELO. Destes, apenas 20 atenderam aos critérios de inclusão para responder ao objetivo deste estudo.

Foram excluídos desta pesquisa os artigos em forma de apostilas, cartas e editoriais, pois não contemplavam os critérios necessários para uma pesquisa científica, visto que o foco deste estudo era buscar evidências científicas sobre o assunto.

Para catalogar os artigos e realizar uma posterior avaliação, foi elaborado um instrumento de coleta de dados. O instrumento foi composto por: nome do periódico, ano de publicação, área de conhecimento, vínculo institucional do autor, origem do artigo, título do artigo, objetivos, tipo de estudo, características dos idosos, instrumentos e variáveis estudadas.

As análises foram realizadas por meio de leitura e agrupamento dos artigos5 e alicerçadas no instrumento elaborado e na seleção por meio dos critérios de inclusão e exclusão. Os resultados foram apresentados na forma de quadros e na linguagem descritiva. Para melhor visualização, optouse por separar duas áreas de discussão, descritas a seguir: capacidade funcional e envelhecimento e instrumentos utilizados para mensuração da capacidade funcional em idosos.

RESULTADOS Dos 20 artigos publicados sobre o tema em questão, percebeu-se nesta revisão integrativa que estes foram publicados nos seguintes periódicos: três (15%) na Revista Acta Paulista de Enfermagem; dois (10%) na Revista Latino-Americana de Enfermagem; dois (10%) na Revista Brasileira de Ciências da Saúde; dois (10%) na Revista Ciência e Saúde Coletiva; dois (10%) na Revista Baiana de Saúde Pública; um (5%) na Revista Cogitare Enfermagem; um (5%) na Revista Brasileira de Enfermagem; um (5%) na Revista Gaúcha de Enfermagem; um (5%) na Revista de Rede de Enfermagem do Nordeste; e um (5%) na Revista Texto e Contexto Enfermagem; um (5%) nos Cadernos de Saúde Pública; um (5%) no Caderno de Terapia Ocupacional; um (5%) na Revista Brasileira de Fisioterapia; um (5%) na Revista de Saúde Pública; apresentados no Quadro 1.

Em relação ao ano de publicação dos artigos, constatou-se que sete (35%) são do ano 2010; cinco (25%) do ano 2011; quatro (20%) de 2012; dois (10%) do ano 2009 e dois (10%) do ano 2008.

Concernente ao vínculo do autor responsável destaca-se que todos pertencem a instituições públicas de ensino, sendo nove (45%) da Região Sudeste; cinco (25%) da Região Sul; cinco (25%) da Região Nordeste e um (5%) da Região Centro-Oeste. Dos artigos encontrados 15 (83%) são de grupos de pesquisas e cinco (17%) produzidos com

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Santos GS, Cunha ICKO Saúde do Idoso base em dissertação de mestrado. Todos os estudos foram pesquisas quantitativas com abordagens variadas, como: 15 (75%) do tipo transversal; dois (10%) do tipo seccional; um (5%) do tipo prospectivo; um

(5%) do tipo multicêntrico; e um (5%) do tipo exploratório, sendo que os profissionais enfermeiros foram responsáveis por 70% das publicações da temática em questão.

Quadro 1 – Artigos segundo periódicos, ano de publicação, área do conhecimento, vínculo institucional e origem do artigo. São Paulo, SP, 2013.

Dos idosos que compuseram a amostra dos artigos, encontram-se 18 artigos (90%) na população urbana e dois (10%) na população rural. Quanto ao cenário escolhido pelos pesquisadores, 1 (5%) optaram pela Estratégia Saúde da Família; quatro (20%) por Hospital Escola; três (15%) por Instituições de Longa Permanência e dois (10%) no domicílio dos idosos.

Os objetivos encontrados nas pesquisas revelaram a intenção dos

Nome do periódico

Ano Área de conhecimento Vínculo institucional Origem do artigo

Ciência e Saúde Coletiva 2008 Enfermagem Universidade Federal de

Goiás Grupo de Pesquisa

Acta Paulista de Enfermagem 2008 Enfermagem Universidade de São Paulo Grupo de Pesquisa

Ciência e Saúde Coletiva 2009 Fisioterapia Universidade Federal do

Triângulo Mineiro Grupo de Pesquisa

Rev. Bras Fisioter. 2009 Fisioterapia Universidade Federal de

Viçosa-MG Grupo de Pesquisa

Rev. Gaúcha de Enferm. 2010 Enfermagem Universidade Federal do Rio

Grande do Sul

Trabalho de Conclusão de Curso

Rev. Latino-Am. de Enfermagem 2010 Enfermagem Universidade Federal do Rio

Grande do Sul Grupo de pesquisa

Cogitare Enfermagem 2010 Enfermagem Universidade de São Paulo Grupo de Pesquisa

Revista Baiana de Saúde Pública 2010 Enfermagem Universidade de São Paulo Grupo de Pesquisa

Acta Paulista de Enfermagem 2010 Enfermagem Universidade de São Paulo Grupo de Pesquisa

Ciência e Saúde Coletiva 2010 Enfermagem Universidade Estadual de

Santa Catarina Grupo de Pesquisa

Revista Baiana de Saúde Pública 2010 Fisioterapia Universidade Estadual do

Sudoeste da Bahia Grupo de Pesquisa

Acta Paulista de Enfermagem 2011 Enfermagem Universidade Federal de São

Carlos Dissertação de Mestrado

Rev. Rene 2011 Enfermagem Universidade Estadual de

Londrina PIBIC

Rev. Brasileira de Ciências da Saúde 2011 Enfermagem Universidade Federal da

Paraíba Grupo de Pesquisa

Rev. Brasileira de Ciências da Saúde 2011 Fisioterapia Universidade Federal da

Paraíba Grupo de Pesquisa

Revista de Saúde Pública 2011 Educação

Física

Universidade Federal de Santa Catarina Grupo de Pesquisa

Rev. Bras. de Enferm. 2012 Enfermagem Universidade Federal de

Minas Gerais Grupo de Pesquisa

Rev. Latino-Am. de Enfermagem 2012 Enfermagem Universidade Federal de São

Carlos Dissertação de Mestrado

Texto Contexto Enfermagem 2012 Enfermagem Universidade Federal da

Paraíba Dissertação de Mestrado

Cad. Ter. Ocup. UFSCar 2012 Fisioterapia Universidade Estadual de

Ciências de Alagoas Grupo de Pesquisa

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Santos GS, Cunha ICKO Saúde do Idoso pesquisadores de conhecer o idoso na sua totalidade e relacionarem como as características socioeconômicas e demográficas influenciariam na capacidade funcional e nas condições de saúde dos idosos. Quanto aos instrumentos utilizados para a coleta de dados, o questionário foi o mais utilizado para dados referentes às características socioeconômicas e demográficas.

Em relação aos instrumentos utilizados para mensuração da capacidade funcional, 10 (50%) utilizaram o Índice de Katz; quatro (20%) o Índice de Barthel; três (15%) o instrumento Older Americans Resourses and Services (OARS); dois (10%) a Medida de Independência Funcional (MIF); e um (5%) a Escala de Lawton, conforme o Quadro 2.

Quadro 02 – Artigos segundo título, tipo de estudo, objetivo e instrumento utilizado para a avaliação da capacidade funcional. São Paulo, SP, 2013.

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