Gramática especulativa do português

Gramática especulativa do português

(Parte 1 de 2)

Revista Eletrônica Print by FUNREI <http://w.funrei.br.publicações/Metavnoia > Metavnoia. São João del-Rei, n. 3. p.19-28, jul. 2001

Marilúze Ferreira de Andrade e Silva Departamento das Filosofias e Métodos - FUNREI/MG

Introdução omás de Erfurt1 é um filósofo pouco conhecido, mas os Códices lhe atribuem a Gramática Especulativa. Tomás viveu em Erfurt antes de 1350. Era reitor e maestro em artes e dirigia uma escola de gramática e lógica. Havia dúvidas sobre a verdadeira autoria da Gramática Especulativa mas o filósofo e historiador Martin Grabmann, segundo Luiz Farré, esclareceu esse fato. A prova mais forte da sua autoria está no Códice Q.281 da Biblioteca de Munich que contém dois tratados de modis significandi. O primeiro atribui-se a Pedro de Dacia e o segundo a Tomás de Erfurt. Esse Códice foi escrito no ano de 1350. Na mesma Biblioteca encontram-se outros dois Códices da mesma Gramática com o nome de Tomás de Erfurt.

A Gramática Especulativa foi escrita na época em que a escolástica se posicionava contra a tendência da metafísica negligenciar o sensível e o real. Essa reação provinha dos nominalistas. Eles, discutindo o problema dos universais, defendiam a tese de não se negligenciar as observações diretas dos sentidos o que

1 Sirvo-me, para este comentário, da edição de 1947, Buenos Aires: Editorial Losada. Tradução para o espanhol e “Estudo preliminar” de Luis Farré.

acarretaria conseqüências desfavoráveis para o conhecimento intelectual. Os nominalistas não negavam a fé mas, para eles, a filosofia não era a serva da teologia. Vê a filosofia como um conhecimento não subordinado ao conhecimento teológico foi uma das conquistas do nominalismo para a filosofia. A Gramática especulativa, portanto, responde às tendências filosóficas do auge do nominalismo.

Para Erfurt, segundo Luiz Farré (p.13), “a gramática é a arte que expressa uma aspiração dos objetos, racionalmente”. Segundo essa Gramática, “o substantivo, adjetivo, verbo, advérbio não são palavras mais ou menos adequadas para compreendermos: elas indicam uma determinada aparência dos objetos, enquanto a linguagem é uma estrutura perfeita que organiza as categorias gramaticais para a compreensão entre os seres humanos” (p.13). Por isso se entende porque, segundo Erfurt, toda Gramática se reduz a “modos de significar”. É, portanto, sobre os modos de significar dos nomes e do verbo que a Gramática Especulativa” trata, Neste trabalho, apesar de Erfurt tratar de todas as categorias gramaticais, trataremos tão-somente dos modos de significar dos nomes-substantivos e nomesadjetivos.

SILVA, Marilúze Ferreira de Andrade e. A “gramática especulativa”: Tomás de Erfurt

Revista Eletrônica Print by FUNREI <http://w.funrei.br.publicações/Metavnoia > Metavnoia. São João del-Rei, n. 3. p.19-28, jul. 2001

O método usado para a investigação dessa Gramática é o especulativo uma vez que Erfurt está preocupado com a Ciência gramatical e não com o modo de operar as regras gramaticais. Ele busca os primeiros princípios dos “modos de significar” (p.38) através de definições e divisões das categorias gramaticais, de forma didática para fins acadêmicos.

1. A divisão e a descrição do modo de significar

O modo de significar recebe um tratamento morfológico e semântico, mas não deixa também de receber um tratamento sintático à medida que Erfurt está preocupado com a estrutura da sentença para justificar a matéria e a forma dos nomes nas duas partes da oração.

Erfurt divide os modos de significar em ativo e passivo. Essa divisão diz respeito à propriedade da voz e ao modo de entender o objeto. Para Erfurt, o modo ativo é uma propriedade da voz à medida que a voz significa uma propriedade do objeto e o modo passivo é o significado do objeto como é significado pela voz.

O que nós entendemos, dessa colocação de Erfurt, é que o modo ativo seria o significante do nome e o modo passivo significado, isto é, o próprio objeto nomeado. Erfurt não desenvolve essa teoria mas deixa explícito, em sua Gramática, que o significante e o significado são modos diferentes de se referir ao mesmo objeto: um modo pela voz que pronuncia o nome do objeto (o significante ou camada sonora do nome do objeto) e outro pelo entendimento do objeto (o significado do nome ou o próprio objeto).

A qualidade de significar, que se denomina significação e se converte em significante, é a qualidade de consignificar ativo que se denomina “modo de significar ativo” que é a relação da voz com o objeto. O modo de significar ativo procede de alguma propriedade do objeto ou de um modo de ser do objeto. Como o modo de significar é ativo e passivo, o modo de entender também é ativo e passivo. O modo de entender ativo, segundo Erfurt “é a qualidade de conceber pela qual o entendimento significa, concebe ou apreende as propriedades dos objetos. O modo passivo de entender é a propriedade do objeto, enquanto é apreendida pelo entendimento” (p.43). Notamos, nessa afirmação de Erfurt, que o nome não é o objeto mas ele nomeia o objeto a partir do entendimento, da apreensão e da concepção que se tem das propriedades do objeto. São desses elementos que decorrem os modos de significar do objeto

O modo de significar ativo é tomado do modo passivo de entender. Esses modos, por sua vez, são tomados dos modos de ser quando os modos de ser são apreendidos pelo entendimento. Essa relação, segundo Erfurt, é a que existe entre a Metafísica, que estuda os modos de ser; a Lógica que estuda os modos de conceber e a Gramática que estuda os modos de significar.

2. Modo de ser, modo passivo de entender, modo ativo de significar

SILVA, Marilúze Ferreira de Andrade e. A “gramática especulativa”: Tomás de Erfurt

Revista Eletrônica Print by FUNREI <http://w.funrei.br.publicações/Metavnoia > Metavnoia. São João del-Rei, n. 3. p.19-28, jul. 2001

Esses modos se distinguem formalmente porque o modo de ser é uma propriedade do objeto. Na expressão, por exemplo, “leite branco”, “branco” é uma propriedade do objeto leite e, em sendo uma propriedade, o modo de ser do leite é “ser branco”. O modo passivo de entender assim o é enquanto o objeto é apreendido pelo entendimento e o modo ativo de significar é a propriedade do objeto enquanto essa propriedade é expressa pela voz. Assim entendemos que o nome, segundo Erfurt, enquanto ser e enquanto ente, é uma apreensão determinada, isto é, quando se apreende o objeto homem, apreende-se o ente (o corpo físico que ocupa lugar no espaço) e apreende-se também o ser que são as suas características: o homem como ser político, social, econômico, religioso. Assim, o nome “homem” que designa o objeto homem, no ato da simples apreensão já está implícito o modo de significar o objeto. Isto nos leva a compreender porque, em uma oração, comparando o nome-sujeito com as outras partes da oração, o nome-sujeito, enquanto ente, tem matéria (substância) e uma forma (um ser) que o distingue das outras partes da oração. Nesse caso, para que um nome exerça a função de sujeito gramatical terá necessariamente que se revestir de uma substância que lhe dê consistência de um ente ainda que esse nome seja um ente de razão. Por exemplo: a palavra “que” é uma conjunção. Dizemos que ela é um ente de razão porque não há nada no mundo dos objetos empíricos nomeados pela palavra “que”, entretanto, não poderia ser apreendida, a não ser como um ente de razão. Quando, entre- tanto, dizemos, na sentença “o que é uma conjunção” ele ganha um substrato para poder ocupar o lugar do sujeito gramatical. Assim, do ponto de vista da forma, ele não é mais uma conjunção mas um substantivo e do ponto de vista da matéria ele é um ente que tem um modo de ser e de significar determinado para a sua função de lugar

Nos objetos encontramos algumas propriedades comuns ou modos de ser comum, isto é, o que é comum a todo ente e a todo existir. O modo do ente é inerente ao objeto que tem ser. O modo de existir é o modo inerente ao objeto, por se realizar. Isso significa dizer que todo objeto é um ente que tem um ser que lhe dá uma forma. Através dessa forma o objeto existe atualmente

Segundo Erfurt, os gramáticos antigos diziam que o nome significa uma substância com qualidade. O modo da substância é o modo do ente tomado pela propriedade do objeto ou tomado da propriedade habitual e permanente que se encontra na substância. Erfurt admite que o nome seja apreendido com uma qualidade determinada, sendo, pois, uma parte da oração que significa enquanto ente ou enquanto apreensão determinada. Com isso compreendemos que qualquer palavra poderá ocupar o lugar do sujeito gramatical, desde que ela preencha a exigência de ter as características de um substantivo.

3. Modos de significar gerais dos nomes

Erfurt apresenta dois modos de significar dos nomes: 1. o modo que

SILVA, Marilúze Ferreira de Andrade e. A “gramática especulativa”: Tomás de Erfurt

Revista Eletrônica Print by FUNREI <http://w.funrei.br.publicações/Metavnoia > Metavnoia. São João del-Rei, n. 3. p.19-28, jul. 2001 se toma da propriedade comum do objeto. Esse modo constitui o nome comum e apelativo que é um modo comunicável a vários objetos como: cidade, rio etc. A essa propriedade os lógicos chamam de “intenção universal” e 2. o modo de significar que se toma do objeto enquanto objeto indivisivel que os lógicos chamam de “intenção da individuação”, e constituem o nome próprio. Existem, entretanto, outros modos subalternos menos gerais que são os modos que permanecem por si mesmo. Esses modos são tomados da propriedade do objeto enquanto essência determinada. O modo de significar geral do nome é tomado da essência absoluta e o modo de significar permanente é tomado da propriedade da mesma essência determinada. Esse modo constitui o nome substantivo que tanto pode ser um substantivo comum como um substantivo próprio. Portanto, o nome tem um ente que é o substantivo e um ser que é a sua propriedade. Segundo Erfurt, “o nome substantivo significa um modo determinado segundo a essência, como brancura, pedra etc.” (p. 5).

Erfurt cita também o modo adjacente ao nome o qual é tomado da propriedade do mesmo ser inerente a outro. Esse modo constitui o nome adjetivo. O nome adjetivo significa pois, um modo adjacente a outro nome, segundo o ser como “branco” é um modo adjacente a homem quando dizemos “homem branco”.

Erfurt apresenta vinte e quatro modos especiais do adjacente. São eles:

1. Adjetivo denominativo. “O nome adjetivo denominativo significa o que está no outro ou o denomina simples a absolutamente” (p.58) como branco, negro, azul.

2. Adjetivo genérico. Significa denominando outro nome sob a qualidade do que se comunica a muitos objetos diferentes em espécie.(p.58).

3. Adjetivo específico. Significa que ele denomina outros objetos com uma qualidade comunicável a muitos objetos diferentes somente em número como “humano” que é uma qualidade atribuível a todo ser da espécie humana. A palavra “branco” não é um adjetivo específico porque pode ser adjetivo atribuível a qualquer espécie, enquanto a palavra “humano” é específica porque só pode ser atribuível a uma única espécie.

4. Adjetivo possessivo. É o que significa denominando outro sob o aspecto da posse, como “áureo”: tudo aquilo que possui a qualidade do ouro.

5. Adjetivo diminutivo. Tem significado denominando o aspecto de diminuição como “párvulo”.

6. Adjetivo coletivo. Significa denominando sob o aspecto da reunião de muitos segundo o lugar como “urbano”, “familiar”, “popular”.

SILVA, Marilúze Ferreira de Andrade e. A “gramática especulativa”: Tomás de Erfurt

Revista Eletrônica Print by FUNREI <http://w.funrei.br.publicações/Metavnoia > Metavnoia. São João del-Rei, n. 3. p.19-28, jul. 2001

7. Adjetivo divisivo. Significa denominando sob o aspecto da divisão em parte como “o todo” e “a parte”.

8. Adjetivo racial. Significa denominando sob o aspecto da raça ou nação: “grego”, “italiano”, “bárbaro”.

9. Adjetivo pátrio. Deriva-se de nomes próprios das cidades ou dos povos como “parisiense”, “paduano”.

Significa por denominar outro objeto por razão de pergunta a cerca de. Quem, qual, quanto.

1. Adjetivos responsivos. Assim significam por razão de responder acerca de. Tantos, tal, tanto.

12. Adjetivos indefinidos. É o que significa por denominar outro objeto por razão da indefinição ou indeterminação. Exemplo: qualquer.

13. Adjetivo negativo. Denomina negando.

15. Adjetivo relativo. Denomina outro que ocupa o primeiro lugar no conhecimento, mas referindo-se a um segundo lugar. Quem, qual, quanto.

Exemplo: mais branco que, mais preto que.

17. Adjetivo superlativo. Branquíssimo.

18. Adjetivo de relação. Referese aos termos: pai, filho, igual, semelhante.

19. Adjetivo verbal. Deriva-se de um verbo. Amável, amando.

20. Adjetivo temporal. Diurno, noturno

21. Adjetivo local. Denomina em relação ao lugar. Próximo

2. Adjetivo numeral. Um, dois.

23. Adjetivo ordinal. primeiro, segundo.

24. Adjetivo positivo. Significa agregando-se a outro ou denominando simplesmente como branco, negro. Assim nós temos a classificação dos nomes substantivo-comum e substantivo-próprio e dos nomes-adjetivos. Vejamos, a seguir, os modos dos nomes próprios.

4. Modos dos nomes próprios

Quanto aos nomes próprios Erfurt apresenta quatro modos:

A denominação própria que se toma da forma absoluta da individuação. Sócrates e Platão, por exemplo, têm uma individuação própria absoluta porque não há nenhum outro nome aderente a eles. Os

Prenomes como Marco e Túlio, os

SILVA, Marilúze Ferreira de Andrade e. A “gramática especulativa”: Tomás de Erfurt

Revista Eletrônica Print by FUNREI <http://w.funrei.br.publicações/Metavnoia > Metavnoia. São João del-Rei, n. 3. p.19-28, jul. 2001

Cognomes tomados de parentescos, como Rômulos denominados da família de Rômulo indicando consanguineidade. E o

Sobrenome que se impõe a alguém como a causa de um acontecimento. Africano porque triunfou na África.

Quanto ao gênero, os nomes possuem três: masculino, feminino e comum. O masculino é um modo de dar significado ao objeto como agente, por exemplo: varão, lápis; enquanto o feminino é um modo de dar significado ao objeto como paciente: mulher, roca. A roca é paciente porque é feita de muitas pedras, nesse caso, a pedra é agente e a roca é paciente. O gênero comum é o modo de dar significado ao objeto sob os dois aspectos determinadamente, como virgem que tanto pode ser adjacente ao termo “homem como ao termo “mulher”. Vemos com essa classificação de nomes que Erfurt leva em conta o gênero do objeto que o nome apreende, isto é, o que é do gênero masculino ou feminino é o objeto ou o nome enquanto modo de significar o objeto, não o nome em si mesmo. Assim o objeto é o significado do nome e o nome pronbunciado é o significante do objeto. Justifica-se, assim,-a expressão repetida de Erfurt “modo de significar do objeto enquanto termo ...”

5. O caso Gramatical do nome

O caso gramatical do nome, Erfurt o divide em

Nominativo (sujeito da oração) é o modo de significar juntando-se a propriedade ao objeto. Por exemplo: Sócrates ama. O nominativo Sócrates se refere ao ato de amar enquanto amar é uma propriedade de Sócrates: o nominativo, para Erfurt, é uma propriedade que é algo em si como princípio ativo de um verbo. Mas quando se diz Sócrates é amado, Sócrates é nominativo enquanto nome-sujeito gramatical, mas significa uma propriedade passiva porque junta-se à propriedade “quem é amado”.

(Parte 1 de 2)

Comentários